Modern Love
O frango está no forno, o meu marido saiu pela porta
THEO PAULINE NESTOR
A LGUNS CASAMENTOS VÃO SE DESGASTANDO LENTAMENTE até acabar. Outros, como o meu, explodem em pleno voo, um ônibus espacial se desfazendo em pedaços no céu azul, enquanto a multidão estupefata assiste sem acreditar. E os destroços da catástrofe continuam caindo.
Era final de setembro, ainda estava quente, mas havia passado a última onda de calor fora de hora. Eu tinha esperado por um dia fresco o bastante para assar um frango para o meu marido e minhas duas filhas, ainda pequenas. Quando coloquei o frango de mais de dois quilos no forno, com um maço de ervas frescas preso ao peito, nosso casamento ainda estava intacto. Quando tirei o frango do forno, o meu marido tinha deixado a nossa casa para não mais voltar, o carro cheio de roupas escapando pelas frestas das portas.
Foi a minha ligação para o banco, para checar o nosso extrato, que causou a explosão final. Embora as compulsões destrutivas do meu marido com dinheiro tivessem ameaçado o nosso casamento antes, eu acreditava que aqueles dias tinham ficado para trás há muito tempo. Mas naquela tarde, sem nem mesmo tentar, descobri a verdade: longe de mudar seu jeito, o meu marido simplesmente tinha se tornado mais dissimulado. Eu o confrontei. E isso, como dizem, foi o que bastou.
Assim, o frango assado alimentou apenas uma pessoa naquela noite: nossa filha de nove anos, Elizabeth. Eu não consegui comer e a nossa filha de cinco anos, Grace, anunciou que não comeria um frango de verdade, só nuggets de frango. Peguei a caixa vermelha de nuggets no freezer, tirei cinco pedaços amarelados, aqueci no micro-ondas e coloquei diante de Grace, que acreditava, assim como a irmã, que o pai delas tinha ido ao centro da cidade para encontrar um amigo, e que ele e esse amigo iam sair em uma viagem de carro de última hora.
— O papai vai voltar para casa daqui a uma semana — disse a elas. Não sabia o que mais dizer.
Eu me lembrei da minha amiga de infância, Nancy, cujo casamento tinha acabado um ano antes. Tenho três amigas de infância das quais ainda sou próxima — coincidentemente, nós quatro nos casamos por volta dos trinta anos. Por dez anos, nos mantivemos firmes. Então, o casamento de Nancy acabou, e agora, com o meu, nosso pequeno grupo refletia aquelas estatísticas citadas com frequência: metade dos casamentos termina em divórcio.
No casamento de Nancy, o pastor tinha desviado brevemente a atenção dos recém-casados para se dirigir diretamente ao grupo.
— Cabe à comunidade manter esse casal unido — disse ele em tom de comando. — Cada um de vocês aqui é responsável por lembrar a esse casal do amor que os uniu e do compromisso que assumiram.
Guardei essas palavras no fundo do coração, e jurei silenciosamente apoiar Nancy e Terry, lembrar a Nancy os pontos fortes de Terry, caso algum dia ela viesse desabafar comigo depois de algum desentendimento conjugal. Apesar dos votos deles e do meu apoio, apesar de dez anos juntos e de dois filhos, o casamento não conseguiu se manter. E agora, apesar de onze anos e duas filhas, o meu também não.
As mulheres com quem eu cresci, assim como a maior parte das mulheres hoje, têm talentos concretos e úteis no mercado de trabalho. Uma é eletricista, a outra artista gráfica e a terceira é enfermeira. Casadas ou não, elas são capazes de se sustentar. Eu também sou uma mulher com boa formação e um currículo decente, e na verdade ganhava mais do que meu marido quando nos casamos. Eu me orgulhava de ser autossuficiente. Mas nós dois queríamos que um de nós ficasse em casa com as crianças, e decidimos que seria eu, por isso, parei de trabalhar e deixei que ele nos sustentasse. E agora me via na mesma posição vulnerável que antes achava ser o destino apenas das mulheres que se casavam assim que saiam do ensino médio, sem experiência de emprego a não ser aquela das férias de verão em lanchonetes.
Eu não teria escolhido diferente. Dava muito mais valor ao tempo que tinha com minhas filhas do que a qualquer outra experiência que já vivera. Mas para uma mãe que se dedica apenas aos filhos, sem renda própria, divórcio não é só divórcio. É mais como divórcio somado à demissão, porque você não tem mais condições de manter o seu trabalho em casa, o mesmo pelo qual abriu mão da sua carreira. Quando eu trabalhava como professora de Inglês em uma universidade comunitária, chamávamos pessoas como eu de donas de casa desalojadas. Eu imaginava legiões de Betty Crockers de avental girando perpetuamente, passando os espanadores por uma mobília imaginária, sem parar de arrumar uma casa que já não estava lá. Agora que a minha renda definhou para a pensão das meninas e um cheque magro de “manutenção”, eu preciso deixar o trabalho que tenho e conseguir um “de verdade”. Somo as nossas despesas do mês e subtraio desse valor a contribuição do meu marido. O total indica que manter as meninas e a mim mesma sem dívidas, vai exigir que eu ganhe um terço a mais do que jamais ganhei.
E o divorcio é um trabalho em si, com seu programa de estudos, seus manuais. Um dos muitos livros sobre divórcio empilhados ao lado da minha cama me estimula a criar duas histórias sobre a separação — uma privada e uma pública. Dizem que devo ensaiar algumas frases que seja capaz de recitar (no mercado, no parquinho), sem emoção excessiva, uma espécie de slogan de campanha do meu divórcio. E parece que muito do meu trabalho diário envolve negociar o caminho escorregadio entre o meu eu público e o privado. Sozinha, grito com a cabeça enfiada no travesseiro e berro “Imbecil” pela janela fechada do carro, quando passo pelo novo apartamento do meu ex-marido. Em público, sou estoica, distante, e aceno tranquilamente quando uma mãe casada do time de futebol de Elizabeth me diz:
— Sua dor é como uma casa. Um dia você entra no quarto da tristeza, no outro talvez seja o quarto da raiva.
Como uma divorciada mortificada, só posso agir como se tudo aquilo fosse novidade para mim.
— E, ah, a negação! — acrescenta ela. — Também é um cômodo da casa... não se esqueça.
Em algum momento, você precisa contar a novidade a todos que ainda não ouviram da boca de outra pessoa. Algumas pessoas escutam “a história toda” e outras recebem apenas a versão reduzida (“nos separamos”).
As pessoas da história-toda são exaustivas. A princípio, tudo é alívio e adrenalina, quando você está relembrando o momento em que se deu conta de que o barco estava afundando. Mas então você fica apavorada quando percebe quantas pessoas história-toda há na sua vida. E, com isso, incontáveis ah-meu-Deus e você-está-brincando. Você ouve perguntas solidárias e compreensivas e sua língua cansa de repetir as mesmas respostas mais uma vez. Você chega a considerar a hipótese de escrever uma carta-resposta padrão:
Caros bons amigos que merecem a história toda,
Lamento isso chegar a vocês como uma mensagem-padrão.
Lamento muito por isso.
Só lamento.
Ou talvez pudesse haver um site:
www.quediaboaconteceu.com, com um link para as perguntas mais frequentes:
P. E as crianças?
R. Elas moram comigo, mas vão passar todas as sextas-feiras
com ele, assim como todas as primeiras, terceiras e quintas noites de quinta e o primeiro sábado de cada mês. Sim, é difícil lembrar que semana é qual.
P. É possível uma reconciliação?
R. Não. Se você ler a história toda, vai entender por quê. (Use
a senha para acessar o site protegido.)
P. Você está bem?
R. Não, não estou. Obrigada por perguntar.
P. Há alguma coisa que possamos fazer para ajudar?
R. Sim. Clique no link “Mandar dinheiro” abaixo.
Quando tirei a aliança, meu dedo tinha atrofiado embaixo dela de uma maneira que me parece excessivamente simbólica. Protejo aquela parte branca com o polegar como uma ferida. Olho para os anelares das outras mulheres: alianças de ouro, solitários simples, pencas de diamantes. O fato de elas conseguirem manter aquelas alianças no lugar parece um milagre, um desafio à gravidade. Quando usava a minha aliança, eu era uma pessoa diferente, confiante e ousada, como costumamos nos sentir quando usamos uma fantasia de Halloween. Eu podia rir tão alto quanto quisesse e sair de casa com os cabelos sujos e usando uma calça de moletom. Era casada. Alguém me amava, e isso era visível. Eu poderia me referir a um marido em conversas com uma nova amiga, ou com o vendedor de uma loja. Essas pessoas não se importavam se eu era casada ou não, mas eu sim. A minha aliança dizia: vocês não podem me tocar. É como a base em uma brincadeira de pique-pega. Você está segura.
Agora, quando vou para a cama, ligo o cobertor elétrico na temperatura alta e deixo o calor penetrar a minha pele. Às vezes, fico deitada ali, e penso nessa história de divórcio como alguma coisa parecida com uma gripe. O começo febril, por mais infeliz e cheio de suor que seja, de certa forma é mais fácil de suportar (é como um borrão, na verdade) do que os muitos dias em que estamos meio-bem, meio-doentes que se seguem, dias em que não sabemos direito o que fazer. Você está bem demais para ficar deitada na cama assistindo à TV, mas doente demais para sair e fazer bem todas as coisas que as pessoas esperam que faça.
Para adormecer, recorro à antiga rotina de contar as minhas bênçãos. Incluo minhas filhas entre essas bênçãos vezes sem conta. Conto a saúde delas, a felicidade delas, o presente de serem quem são.
Tento encontrar mais alguma coisa por que ser grata, mas não consigo. Então percebo que há, sim, outra coisa.
É essa crueza de espírito, o modo como a crosta da concha da minha meia-idade foi arrancada de mim, e aqui estou, a verdadeira eu. Não sou mais a pessoa que fingia que tudo estava bem. Não consigo mais pensar em mim mesma como estando “segura” ou protegida por outra pessoa. Agora sei que cabe a mim caçar, checar se todos estão bem e manter o abrigo quente.
Theo Pauline Nestor mora no condado de Kitsap, no estado de Washington. Seu livro mais recente é Writing Is My Drink: A Writer’s Story of Finding Her Voice (and a Guide to How You Can Too). Este relato foi publicado em novembro de 2004.