Modern Love
Não? Não? Não? Deixe-me ler nas entrelinhas
STEVE FRIEDMAN
E LA ME DISPENSOU. O IMPORTANTE NÃO SÃO OS DETALHES, mas o lugar do pronome, ela antes de mim. Mas não há vilão nessa história. Meu terapeuta sugere que eu repita esse mantra para mim mesmo. É o que eu faço, então. NÃO HÁ VILÃO NESSA HISTÓRIA.
Não há uma vilã de olhos verdes, cintura de vespa, seios macios, rainha-zombeteira-dos-malditos, que me dispensou tão rapidamente e com uma beleza tão imperiosa e frígida que tive dores no peito, a respiração ficou difícil, o que me levou a uma coisa chamada teste de estresse Cardiolyte, que acabei de descobrir que a minha seguradora não cobre e que me deixou não apenas infeliz, solitário e ocasionalmente propenso a ter crises de choro em banheiros públicos, como também com uma dívida de seis mil dólares. Mas não se pode culpar ninguém nessa história. Meu terapeuta sugere que eu repita essa frase também. Não se pode culpar ninguém nessa história.
Ela teve suas razões? Eu poderia ter sido um namorado melhor? Vale mencionar que eu tinha quarenta e oito anos quando nos conhecemos e nunca tinha me casado. Que tinha passado boa parte das três últimas décadas me desvencilhando de namoradas que hoje estavam casadas e felizes, como um tailback do futebol americano driblando os enormes linebackers. E que tinha me olhado recentemente no espelho e visto, me encarando de volta, a calvície e a tolice chocante do meu padrão de fuga de romances. Nenhum bem pode vir de encarar verdades como essas.
Portanto, vamos presumir que ela tenha tido suas razões. O importante não é o que ela fez, ou por quê. O importante é como eu lidei com isso. De acordo com autoridades que vão do Dalai Lama aos editores da revista Cosmo Girl, derrotas pessoais e rejeições românticas nos oferecem todas as oportunidades para nos comportarmos com elegância, coragem e amor-próprio. Também oferecem a oportunidade de fazer o que eu fiz.
Primeiro, um dia depois de ela me dispensar, eu lhe mandei um e-mail. Uma mensagem afetuosa, elegante e nada desesperada que tinha cerca de duzentas palavras e que demorei três horas para escrever.
“Eu me lembro de como as coisas eram maravilhosas e doces quando estava com você”, escrevi.
Achei que aquilo era bom. Determinado, mas sensível.
“De rirmos e nos beijarmos na quadra de tênis, de boiarmos no mar em direção aos braços um do outro. Eu me sentia tão sortudo, tão grato. Só queria que você soubesse disso.”
Nada mal. Triste, mas não grudento.
“E queria reconhecer as coisas tóxicas que levei para o relacionamento. E dizer quanto você significou/significa para mim, e também reconhecer o enorme esforço, a bondade e o amor que você dedicou a mim e ao nosso relacionamento.”
Eu queria tanto ela de volta que isso me dava dor de estômago. Mas me lembrei com alguma preocupação das vezes em que ela havia me acusado de me lamuriar. Demorei vinte minutos até chegar a um consenso sobre a última linha. Decidi por: “Responda esse e-mail se quiser, mas não precisa se sentir obrigada.”
Ela não se sentiu obrigada. O que me fez querer ligar para ela. O que me fez querer transar com ela. O que me fez querer acordar do lado dela, envelhecer ao lado dela. Ou vê-la envelhecer, engordar e enfear muito rapidamente.
— Ela morreu pra mim — disse aos meus amigos. — Eu estava mentalmente doente para ter namorado com ela — disse aos meus amigos. — Obviamente ela é uma pessoa com transtorno de personalidade limítrofe — disse aos meus amigos.
“Por que joguei fora a melhor coisa que eu já tive?”, escrevi no meu diário. “Por favor, meu Deus, traz ela de volta.”
Uma semana depois, recebi uma resposta. Ela me agradecia pelo meu e-mail, se desculpava por não ter respondido mais cedo e admitia que estava triste pelo modo como as coisas tinham terminado. Então, veio a frase-chave: “Só espero que possamos continuar amigos de algum modo daqui pra frente.”
Resolvi que aquele era o modo dela de ampliar o diálogo. Resolvi que era o modo dela de sinalizar que estava aberta ao romance. Resolvi ignorar o conselho de todos os meus amigos. Para não mencionar o meu terapeuta. Liguei para ela e sugeri que tentássemos de novo.
Ela riu. Eu insisti. Ela talvez tenha usado a frase “só amigos”, mas não fui capaz de localizar essas palavras nas anotações detalhadas que mantinha das nossas conversas. Além do mais, os detalhes realmente importam tanto? O fato de termos nos amado incondicional, completa e intensamente por quatro semanas, três dias, nove horas e vinte e seis minutos e meio não significa mais do que meras palavras?
Marcamos um encontro para ir ao cinema. Na tarde do encontro, ela cancelou, alegando cansaço e uma dor de garganta iminente. Disse que preferia que remarcássemos para outra noite. Tudo bem?
Mas é claro que estava tudo bem. Afinal, sou adulto, não uma criança. Não sou uma criança. Ela não poderia estar imaginando que eu ficaria chateado com um encontro adiado, não é? Ou magoado, desconfiado, profundamente ferido, ou lembrando com um vazio pulsante nas entranhas e uma dor lancinante atrás dos olhos que quando estávamos nos agarrando nas quadras de tênis, boiando nas correntes do mar e fazendo planos para caminhar juntos pela Nova Zelândia, e nos abraçando na cama, nada como uma dor de garganta — perdão, uma dor de garganta iminente — teria nos mantido separados.
Melhoras, respondi generosamente. Ligue ou escreva quando estiver recuperada e vamos comemorar a volta da sua saúde, sugeri, máscula e altivamente. Com segurança. Sem nenhuma carência. Nem raiva. Ou palavras desesperadas induzidas pelo teste Cardiolyte.
Quase uma semana depois, no meu aniversário, enquanto eu terminava um perfil para uma revista, recebi outro e-mail breve:
Espero que esteja tendo um dia mt especial!
Acabou a história??
Bjs
Passei a tarde e a noite desconstruindo o texto. Duas linhas — nada bom. Onze palavras sobre o meu aniversário — nada bom. O “mt” em vez de muito — não muito bom. Mas talvez eu estivesse interpretando errado. Talvez estivesse refletindo as minhas próprias inseguranças em um sinal doce e amoroso do ciberespaço. Fiz referências cruzadas do uso de palavras dela com todos os outros e-mails que eu tinha salvado em um arquivo especial e fiz uma descoberta impressionante. Ela havia usado o “mt” como abreviação antes! Obviamente era uma afetação literária, ou apenas um tique de comunicação. A minha ansiedade excessiva tinha me feito ver aquilo como uma prova de sentimentos enfraquecidos. E seria cego e terrivelmente injusto da minha parte ignorar o “Bjs”, uma indicação clara e inconfundível de que ela estava pronta para boiar comigo nas correntes do mar de novo, não seria?
Liguei para ela, para esclarecer as coisas. Não queria interpretá-la mal, falei. Ela queria sair comigo ou não?
Ela sugeriu que eu não ligasse de novo.
Ah, é? Ora, muito bem, sugeri que ela não ligasse de novo. E que esquecesse o meu endereço de e-mail. E mais, que se algum dia me visse na rua, era melhor...
Ela desligou.
Fiquei furioso. Escrevi cartas amargas sobre como ela era incapaz de amar, como não reconhecia os presentes que eu lhe dera. Não mandei as cartas. (Obrigado, dez anos de terapia.) Não a persegui tecnicamente. Realmente passei de bicicleta pelo prédio dela uma noite, mas não fiquei por ali por uma quantidade legalmente significativa de tempo. Me demorei vendo fotos dela em um slideshow que eu tinha montado no meu computador, acompanhado por Rebecca Luker cantando “Till There Was You” vezes sem conta de novo. Perdi quase cinco quilos em duas semanas.
Então, uma epifania ofuscante. Eu não deveria ter perdido a cabeça com ela no telefone. É claro que ela havia se retraído. Quem não teria? Com essa percepção veio uma imensa sensação de calma. Com a calma, a esperança. Com a esperança, um plano. Se eu a fizesse entender quanto a amava, que de forma alguma a culpava, e como eu tinha mudado e agora não estava nem carente, nem zangado, que era apenas um homem com amor e afeto para dar e com as intenções mais magníficas, ela talvez me aceitasse de volta, e voltaríamos às correntes do mar e às quadras de tênis.
Dessa vez, fiquei longe do telefone. A linguagem falada era facilmente mal-interpretada.
“Sinto muito”, escrevi. “Sinto muito, muito mesmo.” Então, elaborei um pouco mais. “Você não tem ideia de como eu sinto.” Outros pontos altos incluídos no texto: “Fui tão idiota. Você não tem ideia da saudade que eu senti de você. Gostaria que você nos desse mais uma chance, nos termos que você quiser.”
Uma semana mais tarde ela respondeu. Agradecia o pedido de desculpas. Não confiava em mim. Me desejava tudo de bom.
Não confiava em mim? Não é de espantar que ela não tenha querido viajar comigo para a Nova Zelândia. Com certeza se soubesse sobre as minhas dores no peito, a dificuldade de respirar, suas dúvidas sobre a minha sinceridade desapareceriam. Com certeza se eu contasse a ela sobre como ouvia The Music Man enquanto sonhava acordado em cima das fotos digitais dela, então voltaria para mim.
Fiz isso, então. Contei pra ela. Mais um e-mail. Contei tudo isso a ela. Também citei falas de Casablanca e de Malcom. Mencionei minhas preces.
Isso foi há quase um mês. Nesse tempo refleti a respeito e me maravilhei com o silêncio frio e digno mantido pelas mulheres que eu mesmo dispensei ao longo dos anos. Lembrei do professor velho e patético no filme O anjo azul, que Marlene Dietrich força a cacarejar como uma galinha, do pobre desgraçado em Amor sem fim, de todos os aparvalhados infelizes que Frank Sinatra imortalizou em seus maiores hinos dos fracassados. Levei em consideração a possibilidade de levar o estilo de vida aconselhado pelo Dalai Lama e pela Cosmo Girl, e percebi que tinha me comportado com a dignidade de um Teletubby furioso, deprimido e seriamente ofendido.
Mas estou melhorando e, finalmente, aceitando. Sei disso porque duas semanas atrás, pela primeira vez em muito tempo, quando uma mulher sorriu na minha direção no metrô, me ocorreu que talvez houvesse possibilidades ali. Sei disso porque, pela primeira vez em muito tempo, não estou correndo para checar meu e-mail todo dia, nem fico olhando para fotos dela.
Não destruí essas fotos, ou as cartas e e-mails, como amigos me aconselharam a fazer. Mas não preciso. Dessa vez ela realmente morreu pra mim. De verdade. Estou falando sério.
Steve Friedman é autor de The Agony of Victory, Driving Lessons, e de Lost on Treasure Island, e coautor de dois livros que entraram na lista dos mais vendidos do New York Times. Ele mora em Nova York e pode ser encontrado em stevefriedman.net. Esse relato, o primeiro da coluna “Modern Love”, foi publicado no fim de outubro de 2004.