Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 25 de 47

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Modern Love

Agora eu preciso de um lugar para me esconder

ANN HOOD

 

É DIFÍCIL SE ESCONDER DOS BEATLES. DEPOIS DE TODOS esses anos, eles ainda estão regularmente no noticiário. As músicas tocam em estações de flashback, em contagens regressivas, aparecem nas listas de sucessos. Há sempre alguma data comemorativa dos Beatles: a primeira vez em que uma música deles ficou em primeiro lugar nos Estados Unidos, um aniversário, um marco, um show na Broadway.

Mas preciso me esconder dos Beatles. Ou, em alguns casos, escapar deles. Um dia, no mercado, quando começou a tocar “Eight Days a Week”, tive que deixar meu carrinho cheio de comida ali mesmo e fugir. Entrar em um elevador em que está tocando uma versão de “Hey Jude” em estilo música ambiente é o bastante para me deixar de cama.

É claro que não foi sempre assim. Eu costumava amar tudo relacionado aos Beatles. Quando era criança, decorei os aniversários deles, as trágicas histórias de vida, as letras de todas as músicas. Colecionava cards dos Beatles que vinham em embalagens de chiclete e usava uma pulseira de pingentes com as cabeças dos Beatles balançando e guitarras.

Por dias, a minha prima Debbie e eu discutimos sobre se tinha valido a pena a espera por “Penny Lane” e pela música do lado B do disco compacto, “Strawberry Fields Forevever”. Tive dificuldades em compreender Sgt. Pepper. Fiquei maravilhada com a genialidade de White Album.

Minhas primas e eu costumávamos brincar de esposas dos Beatles. Todas queríamos nos casar com o Paul, mas também aceitávamos o John. Nenhuma de nós queria o Ringo. Ou, ainda pior, o George.

Era fácil demais amar o Paul. Aqueles olhos sedutores. Aquele monte de cabelo. Classicamente bonitinho. Quando eu tinha oito anos, perguntei a minha mãe se ela achava que um dia eu talvez me casasse com Paul McCartney.

— Ora, meu bem — disse ela, dando uma longa tragada no cigarro Pall Mall que segurava. — Alguém vai se casar com ele. Talvez seja você.

No quinto ano, em um diário em que na maior parte do tempo eu escrevia Está tão chato aqui, ou simplesmente, Entediada, apenas uma entrada destoava: Acabei de ouvir no rádio que o Paul se casou. Ah, por favor, Deus, não deixe isso ser verdade.

Era verdade. E eu fiquei de luto por muito, muito tempo.

É claro que quando eu já estava no ensino médio, entendi a minha tolice. John era o melhor Beatle: sarcástico, divertido, com uma aparência interessante. Aquele nariz longo e fino. Os óculos de aros redondos. Naquela época, eu não queria ser esposa de ninguém. Mas queria, sim, um cara como o John, alguém que falasse o que lhe passava na cabeça, que se metesse em encrenca, xingasse muito e escrevesse poesia.

Quando eu realmente me casei, e então tive filhos, eram as músicas dos Beatles que eu cantava para eles à noite. Como uma das mais novas de vinte e quatro primos, nunca tinha segurado um bebê no colo. Não conhecia nenhuma canção de ninar, então colocava Sam e Grace para dormir ao som de “I Will” e de “P.S. I Love You”. Sam acabou se apaixonando por musicais da Broadway e abandonou os Beatles.

Mas Grace, não. Ela abraçou os Beatles com o mesmo fervor que eu. Seu gosto era peculiar e maduro.

— Qual é a música em que o homem está parado, segurando a cabeça? — perguntou ela, franzindo o cenho, e não demorou muito eu desencavei meu velho álbum Help! e nós duas cantávamos: — “Here I stand, head in hand.”

No quarto Natal de Grace, o Papai Noel levou para ela todos os filmes dos Beatles em vídeo, um fotolivro da carreira deles e a fita de 1. Não demorou muito, tocar “Eight Days a Week” o mais alto possível se tornou nosso hino. Até o Sam cantava junto, e acabou admitindo que aquela era indiscutivelmente a melhor canção já escrita.

O melhor de tudo em relação à minha filha fã dos Beatles era que, aos cinco anos, ela já tinha se apaixonado pelo John. A boa pinta tradicional do Paul não ganhou o coração dela. Em vez disso, Grace gostava da voz anasalada de John, do seu lado sombrio. Depois de assistir ao filme biográfico Backbeat — Os cinco rapazes de Liverpool, ela disse que Stu era o seu favorito. Mas logo voltou para John. Uma vez, eu a ouvi discutindo com um garoto do primeiro ano que não acreditava que tinha havido outro Beatle.

— Houve dois outros Beatles — disse Grace a ele, decepcionada. — Stu e Pete Best. — Ela revirou os olhos e saiu pisando firme, em seus sapatos com purpurina.

Às vezes, antes de adormecer, Grace me fazia contar a ela histórias sobre a morte da mãe de John, sobre como a banda se formou em Liverpool, e sobre o momento em que Paul, quando escrevia a música para “Yesterday”, usou “scrambled eggs”(ovos mexidos) na letra, no lugar de “Yesterday”.

Depois que eu deixava Sam na escola e continuava com Grace no carro para deixá-la no jardim de infância, ela me pedia para colocar para tocar uma das suas fitas dos Beatles. Grace cantava junto com eles o caminho todo:

— “Scrambled eggs, all my troubles seemed so far way.”

No dia em que George Harrison morreu, Grace se comportou como se tivesse perdido um amigo, andando triste e com os olhos marejados pela casa, balançando a cabeça, sem acreditar. Ela perguntou se poderíamos tocar só músicas dos Beatles o dia todo, e foi o que fizemos. Naquela noite, assistimos a uma retrospectiva sobre George. Culpada, confessei a ela que George era o único Beatle com que nenhuma de nós queria se casar.

— O George? — disse Grace, espantada. — Mas ele é incrível!

Cinco meses mais tarde, em uma linda manhã de abril, Grace e eu deixamos Sam na escola, então entramos no carro e fomos cantando junto com “I Want to Hold Your Hand” enquanto eu dirigia. Antes de sair do carro, Grace me pediu para pausar a fita, assim, logo que ela entrasse de volta no carro, naquela tarde, poderia ouvir “You’ve Got to Hide Your Love Away” bem do começo. Aquela foi a última vez que ouvimos nossos Beatles juntas.

No dia seguinte, Grace teve uma febre altíssima e morreu de uma forma letal de infecção por estreptococo. Por um curto espaço de tempo, enquanto ela estava deitada na UTI, as enfermeiras nos disseram para levar algumas de suas músicas favoritas. O meu marido correu para o carro e pegou 1 dentro do toca-fitas. Ele colocou a fita no toca-fitas do hospital e nós subimos na cama da nossa filha e cantamos “Love Me Do” para ela. Apesar dos tubos e máquinas tentando mantê-la viva, Grace sorriu para nós enquanto cantávamos.

No funeral dela, nosso filho Sam, na época com oito anos, usando uma gravata-borboleta de um vermelho vivo, ficou parado diante de centenas de pessoas e cantou “Eight Days a Week” alto o bastante para que a irmã, onde quer que estivesse, o ouvisse.

Naquela noite, reuni tudo o que eu tinha dos Beatles — os álbuns empoeirados, as fitas que enchiam o chão do meu carro, os CDs que enchiam o nosso aparelho de som — e coloquei em uma caixa, com os vídeos de filmes dos Beatles que eram de Grace. Não parei para olhar nada daquilo.

Em vez disso, joguei tudo rápido e descuidadamente na caixa, pois sabia que a visão daqueles rostos em preto e branco em Revolver ou as cores psicodélicas de Sgt. Pepper, ou mesmo os desenhos coloridos de Yellow Submarine, coisas que tinham me feito tão feliz uma semana antes, agora eram dolorosas demais para olhar mesmo que de relance. Como os pais fazem, eu tinha compartilhado as minhas paixões com os meus filhos. E no que dizia respeito aos Beatles, Grace tinha se apossado da minha paixão e a tornado dela. Mas com a sua morte, a paixão virou do avesso e, em vez de me causar alegria, os Beatles passaram a me assombrar.

Eu não conseguia suportar ouvir nem sequer os acordes de abertura de “Yesterday”, ou um cover de “Michelle”. No carro, comecei a ouvir apenas programas de entrevistas no rádio, para evitar que uma canção dos Beatles me pegasse de surpresa e disparasse mais uma crise de choro.

Tentei me proteger completamente dos Beatles — da música deles, mas também das imagens e conversas sobre eles —, mas era difícil, se não impossível. Como, por exemplo, eu poderia pedir a Sam para não tocar a música deles lentamente durante as aulas de violão?

Nos anos 1960, na sala da casa da minha tia, com as paredes de pinho e a TV Zenith, com as minhas primas ao meu redor, nossos cabelos longos e lisos, as franjas entrando nos olhos, o ar pesado com a fumaça do cigarro dos nosso pais e as harmonias dos Beatles, eu acreditava que não havia amor maior do que o meu amor por Paul McCartney.

Agora, às vezes, sozinha, eu me pego cantando baixinho que quando finalmente a encontrar, a música dela vai encher o ar, como diz a letra dos Beatles: “And when at last I find you, your song will fill the air.” Canto para Grace, imaginando seus olhos azuis cintilando atrás dos pequenos óculos de armação de metal, os pés marcando o ritmo. Canto que a amo sempre que estamos juntas e quando estamos separadas — “Love you whenever we’re together, love you when we’re apart”. Essa já foi a minha canção de amor favorita, e agora jaz silenciosa no White Album que está no meu porão.

Que tolice a minha ter me apaixonado tão facilmente pelo Paul, esnobando John e George, ter acreditado que tudo o que eu iria querer na vida estava ali, naquela sala da minha infância, com a família: os meus primos, a TV, a minha música favorita. Mas principalmente, me sinto tola por acreditar que o meu tempo com a minha filha nunca acabaria.

Ou talvez isso seja amor: esse salto de fé, uma crença no impossível, a capacidade de acreditar que uma menininha em uma pequena cidade em Rhode Island se casaria com o Paul McCartney quando crescesse. Ou a crença de uma mulher de luto de que o amor de mãe é tão forte que a filha que ela perdeu consegue ouvi-la cantar uma canção de ninar.

Ann Hood mora em Providence, em Rhode Island. Seu livro mais recente é Kitchen Yarns: Notes on Life, Love, and Food. Este relato foi publicado em fevereiro de 2006.