Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 3 de 47

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Modern Love

Ei, meu bem, essa fala não é sua

EI, MEU BEM, ESSA FALA

NÃO É SUA

MATTESON PERRY

 

A LUZ DA LUA ENTRANDO PELA JANELA ILUMINOU A TATUAGEM de uma fênix cobrindo o lado esquerdo do torso dela. Tracei o desenho com o dedo, logo abaixo da axila, passando por cima do relevo rápido das costelas, até o osso do quadril. Eu só tinha visto tatuagens como aquela em filmes, nunca pessoalmente, nunca tão perto, e nunca na minha própria cama.

Sabia que havia encontrado a minha própria Manic Pixie Dream Girl.

Quando era crítico de cinema no A.V. Club, Nathan Rabin cunhou o termo “Manic Pixie Dream Girl” para descrever o interesse amoroso no filme Tudo acontece em Elizabethtown, de Cameron Crowe, embora esse tipo de personagem já tivesse aparecido em muitos filmes antes e depois (Natalie Portman em Hora de voltar talvez seja o exemplo perfeito).

A Manic Pixie Dream Girl agora se tornou um clichê de filmes alternativos, e é mais uma coleção de peculiaridades do que uma pessoa, que existe para ser o perfeito objeto de amor do protagonista masculino. Essas garotas esquisitas (mas lindas) gostam de caras tímidos, tristes e criativos e os ensinam a voltar a aproveitar a vida com sexo, amor e várias atividades feitas na chuva.

Embora com frequência seja alegre, a Manic Pixie Dream Girl também é perturbada. Ela se equilibra na estreita linha entre o excêntrico e o louco, o misterioso e o estranho, o sexy e o promíscuo — é perfeitamente imperfeita. E essa imperfeição é a chave, porque a Manic Pixie Dream Girl tem que ser problemática o bastante para precisar ser salva; assim, o cara impotente pode ter alguma atitude heroica no terceiro ato.

Conheci a minha Manic Pixie Dream Girl em uma aula de esquetes de humor. No primeiro dia, ela usou um vestido vermelho chamativo e botas de caubói como se tivesse sido arrumada pelo departamento de figurino. Tinha a pele cor de oliva e os olhos escuros de sua ascendência meio-mexicana, uma aparência que alguns talvez chamassem de “exótica”, embora ela lhe desse um soco no braço se você usasse esse termo. A garota tinha namorado, por isso não deu para chamá-la para um encontro, mas conversamos online e trocamos informações sobre nossas vidas, enquanto indicávamos um para o outro nossos esquetes favoritos do Saturday Night Live, no YouTube.

Em uma tarde quente de verão, nos encontramos em um bar, com a intenção de redigir esquetes juntos, mas nossos planos mudaram, como costuma acontecer com Manic Pixie Dream Girls. Nem chegamos a abrir nossos cadernos e acabamos em uma maratona improvisada por bares.

Em cada novo bar, entrávamos um pouco mais bêbados e nos sentávamos um pouco mais próximos. Nossos joelhos se tocavam embaixo das mesas e nossos ombros se roçavam enquanto caminhávamos. Nos sentamos tão juntos que eu conseguia sentir o cheiro do suor dela, embora a química da paixão transformasse o odor em um doce perfume.

A noite terminou com uma tentativa ébria de beijo da minha parte, da qual ela se esquivou.

— Não posso trair o meu namorado — disse ela. — Mesmo que as coisas não estejam indo muito bem entre nós.

As coisas não estavam bem entre eles. Eu tinha esperança. Acabou sendo mais do que esperança. Em um mês, ela terminou o namoro, e não demorou muito para que a Manic Pixie Dream Girl e sua tatuagem estivessem na minha cama.

Não sou um nerd de forma alguma, mas nunca fui descolado do jeito clássico, rebelde. Um exemplo disso: eu me divertia secretamente fazendo meu imposto de renda. Mas aquela garota era descolada. Ela era capaz de conseguir um drinque em um bar absurdamente cheio. Nas festas, encantava os homens dançando, contando piadas e rindo alto. Eu via a inveja nos olhos deles quando ela ia embora comigo.

A garota fazia com que eu me sentisse descolado por aproximação, como se ela fosse um passe VIP humano. Impulsiva, errática e elétrica, ela era o meu oposto e aquela justaposição me excitava. Eu me apaixonei profundamente. E ela retribuiu o meu amor.

A minha Manic Pixie Dream Girl era tudo ou nada em tudo o que fazia, por isso as coisas avançaram rapidamente entre nós. Em um ano, nos mudamos para Los Angeles e passamos a morar juntos. Eu nunca tinha morado com uma mulher antes e amei a intimidade daquilo, mas a domesticidade a perturbava. Ela começou a se apavorar periodicamente em relação ao nosso futuro juntos.

Fosse qual fosse o motivo (a compra de cadeiras para a sala de jantar foi o primeiro detonador), esses ataques de pânico tinham o mesmo roteiro. Ela chorava, gritava e ficava andando de um lado para o outro do apartamento, dizendo que éramos incompatíveis. Eu permanecia calmo e explicava que eram as nossas diferenças que nos faziam dar certo juntos, porque a força de um fortalecia o que era fraqueza no outro.

Eu sempre demonstrava por que ela não deveria se apavorar, por que deveríamos ficar juntos, em suma, por que os sentimentos dela eram “errados”. (Surpresa: os sentimentos das pessoas nunca são errados.) Aqueles episódios não me preocupavam muito. Eu os considerava como um sintoma de que a minha Manic Pixie Dream Girl era perfeitamente imperfeita.

Quando nos aproximávamos dos três anos juntos, ela estava lutando contra uma crise de depressão, e isso criou um abismo entre nós. Até ali, éramos um casal que fazia tudo junto, mas ela começou a sair sem mim.

Em várias ocasiões, acordei às três ou quatro da manhã e descobri que ela ainda não tinha chegado em casa, e não tinha me ligado. Eu ficava deitado na cama, oscilando entre a preocupação e a raiva, ligando para ela a cada meia hora. Se ela atendia, normalmente recusava a minha oferta de pegá-la onde estivesse e dizia alguma coisa como:

— Não, ainda estou me divertindo aqui.

Às vezes, eu não sabia onde era “aqui”, se o “aqui” pertencia a um cara ou a uma garota.

Pela manhã, eu a questionava sobre onde tinha andado, mais como um pai desaprovador do que como um amante furioso, me mantendo no meu papel de namorado calmo, racional e conciliador. Ela apenas assentia, dizia um “desculpe” mecânico e ia dormir. À noite, ela era a Manic Pixie Dream Girl para outras pessoas, durante o dia era a Pixie Pesadelo Deprimida de Ressaca. Eu sabia que nosso relacionamento estava com problemas, mas ainda a amava, e acreditava que aquele era apenas o difícil terceiro ato, antes do “e viveram felizes para sempre”.

Um fim de semana, fui acampar com amigos, tentando dar espaço a ela. Antes de sair, escrevi uma carta para ela (cinco páginas, entrelinhas um) sobre o nosso relacionamento. Disse o quanto a amava e que não deixaria de lutar por “nós”, e concluí dizendo “sei que meu amor não é capaz de resolver o problema da sua depressão, mas ainda quero que você saiba que o meu amor está aqui, e sempre estará”.

Deixei a carta em cima da mesa dela, com flores, e saí. Passei as doze horas da viagem de carro esperando pela ligação dela, mas o telefone permaneceu enfiado no porta-copo, silencioso, por horas e horas. No fim da tarde, ele finalmente fez um bipe — não uma ligação, mas uma mensagem. Ela me agradeceu pelas flores e nem sequer mencionou a carta. Eu soube então que o nosso relacionamento havia acabado.

Enquanto a Manic Pixie Dream Girl sempre salva o homem das estagnações da vida no primeiro ato do filme, os papéis se invertem no final, quando ele finalmente salva a garota com o seu amor. Além da vida descolada e empolgante que eles compartilham, esse é o verdadeiro presente da Manic Pixie Dream Girl, porque resolver alguma coisa, especialmente resolver o problema de uma pessoa, é o que faz um homem sentir que tem mais valor.

Quando eu disse na minha carta que sabia que o meu amor não era capaz de resolver seu problema de depressão, estava mentindo. Eu achava que o meu amor era capaz de resolver tudo, incluindo a depressão dela. Aquela carta foi o meu Grande Gesto, o que salva o relacionamento e a garota. Foi o meu momento Lloyd Dobler, em Digam o que quiserem, segurando um radiogravador acima da cabeça, de onde saía “In Your Eyes” às alturas.

Nos filmes, os gestos românticos funcionam. Mas comigo, na vida real, eles falharam. Aquilo era como Diane Court aparecendo na janela só para fechá-la e ela poder voltar a dormir. Eu tinha dado o meu coração à minha Manic Pixie Dream Girl, e ela me agradecera pelas flores de 12,99 dólares.

O que torna os filmes mágicos não são as coisas incríveis que acontecem neles. Coisas incríveis acontecem na vida real. Não, o que torna os filmes mágicos é que eles terminam logo depois que coisas incríveis acontecem. Eles acabam depois que a guerra chega ao fim, depois que o time vence o jogo, depois que o garoto conquista a garota. Mas, na vida, a história continua e o garoto pode perder a garota mais tarde. O “e viveram felizes para sempre” é tedioso demais para uma Manic Pixie Dream Girl.

Pouco depois de eu voltar de viagem, ela me dispensou. Não houve qualquer esforço para salvar o relacionamento — como não estava mais dentro, ela agora estava fora. Ao que parecia, meu amor não seria capaz de “consertá-la”, afinal, e pior ainda, ela não queria ser consertada. Precisar de conserto é a regra nº 1 de ser uma Manic Pixie Dream Girl — como ela podia ignorar isso?

Ela podia ignorar porque não era uma Manic Pixie Dream Girl. Não era um personagem, ou um recurso de roteiro da minha história. Não era uma criatura estragada, em profundo desespero, que eu e só eu seria capaz de curar como parte da minha “jornada do herói”. Ela era simplesmente alguém que deixara de amar o namorado. O que acontece. Não é nada cinematográfico, mas acontece.

Assim, nossa história terminou, não com créditos rolando na tela para congelar o nosso relacionamento em uma felicidade eterna, mas com choro e divisão de bens. (Eu fiquei com as cadeiras da sala de jantar; ela com as máquinas de escrever antigas.) Demorou algum tempo, mas encontrei outra pessoa.

Dessa vez, estou tentando fazer da nossa história de amor um roteiro original, em vez de roubar algum dos filmes.

Matteson Perry é escritor e ator em Los Angeles, onde mora com a esposa, a “outra pessoa” do final deste relato, que foi publicado em julho de 2013.