Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 18 de 47

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Modern Love

Quando Eva e Eva mordem a maçã

 

KRISTEN SCHAROLD

 

Q UANDO SE É CRIADA PARA SER UMA BOA GAROTA CRISTÃ, você não vai simplesmente à igreja, você namora a igreja. A igreja é a parceira com quem você passa os fins de semana e as noites, o namorado cujos amigos se tornam seus amigos, a namorada com quem você compartilha todos os seus sonhos.

Eu era mesmo uma boa garota cristã, por isso eu não apenas namorava a igreja; eu me casei com ela.

Depois de me formar em uma universidade do Meio-Oeste, cujo lema é “Por Cristo e Seu Reino”, eu me mudei para Nova York. Era a minha primeira vez fora do casulo evangélico, e a minha prioridade era encontrar uma igreja que eu pudesse amar, com a qual pudesse comprometer minha vida, e fazer dela o meu centro espiritual e social.

Minha busca acabou me levando ao Brooklyn, onde encontrei uma igreja de pessoas jovens e criativas e de profissionais inexperientes que, como eu, estavam procurando por uma fé menos sobrecarregada pelo fundamentalismo. Forjamos uma rápida camaradagem, incluindo nosso pastor, que era tanto um amigo e parceiro quanto líder espiritual. Nos encontrávamos nos bancos da igreja, aos domingos, mas também em bares e nas salas das casas uns dos outros durante a semana.

Logo, a congregação se tornou o meu amor. Fiz meus votos como membro e comecei a dirigir um estudo da Bíblia, a ensinar na escola dominical, a comparecer a reuniões semanais de planejamento, e me ofereci para outras incontáveis atividades. Eu me comprometi com aquela igreja com o vigor e a alegria de uma recém-casada.

Como a maioria das mulheres solteiras na minha posição, a prioridade seguinte na minha lista era encontrar um marido naquela igreja. Havia um padrão de triângulos amorosos no cristianismo. Como o amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o básico do evangelismo também ensina a santíssima trindade do matrimônio: homem, mulher, igreja. Assim, eu examinava os bancos da igreja toda semana, procurando por alguém com um dedo anelar sem aliança.

Um domingo, reparei em uma mulher nova ali, usando um casaco de camurça, os cabelos escuros e curtos enfiados em um chapéu. Nossa conversa não teve nada demais, mas, ainda assim, fui cativada. E fiz o convite mais religioso possível:

— Quer vir ao meu estudo da Bíblia?

Ela foi. Então, apareceu para jantar. E começou a dormir no meu sofá. Nos encontrávamos para tomar café e uísque, e acabamos deixando pra lá quem pagava a conta da outra. Eu a convenci de que andar de bicicleta em Nova York não era arriscado demais. Então, ela comprou uma bicicleta na Craigslist.

Quando ela caiu — duas vezes! —, fomos para o meu apartamento, onde eu limpei o machucado e fiz um curativo em seu tornozelo. Então, sem prestarmos muita atenção no que fazíamos, fomos a uma exposição em um museu sobre arte gay e lésbica, e me vi forçada a pensar sobre nós. Mas eu não me permitia reconhecer o que estava tão dolorosamente óbvio.

No entanto, ao longo dos meses seguintes, conforme Jess começava a deixar pares de sapato extras no meu armário, a chegar com compras do mercado — para ampliar um pouco a minha dieta básica de burritos congelados —, eu não pude mais negar que estava me apaixonando. E ao me dar conta disso, despenquei do sétimo céu e me vi encarando o fogo do inferno.

Finalmente saí do armário. Para logo correr de volta para dentro dele. Estava em jogo a minha alma e a minha identidade, minha visão de mundo e minha cosmologia espiritual, o relacionamento com meus amigos, com minha família, com Deus. Aquela santíssima trindade de marido, mulher e igreja continuava a me assombrar mesmo se mostrando cada vez mais fora do meu alcance.

Era uma crise de proporções eternas. Mergulhei fundo em um inferno de vergonha e pânico. Meu medo do inferno impediu qualquer possibilidade de imaginar um futuro com Jesse. Eu me arrependia do que os cristãos chamam de a minha “luta com a atração por pessoas do mesmo sexo”, mas ainda encontrava um prazer incomparável com ela. Li um número incontável de livros sobre homossexualidade, e ainda assim não conseguia clarear as minhas ideias.

Para tentar me confortar, eu me convenci de que Jess e eu éramos só amigas.

Aquilo funcionou até uma noite, quando fomos ao balé, e eu a beijei, e ela me disse que me amava. Pela primeira vez, me senti completa, amada, compreendida. Dormir ao lado de Jess curou meu eu passado e presente. Também confirmou meus piores medos. Acordei apavorada. Precisava expulsar Jess e terminar tudo com ela imediatamente.

Mas primeiro tínhamos que comparecer a um brunch. Era o tipo de brunch a que não podíamos faltar: uma despedida para um bom amigo.

Mal conseguimos consumir as longas mimosas e os ovos Benedicts enquanto contemplávamos nossas vidas transformadas de forma catastrófica, à la Adão e Eva depois de comerem a maçã, totalmente culpadas. A ficha finalmente tinha caído e saímos dali para confrontar nossa realidade.

Enquanto caminhávamos, Jess reparou em um sem-teto perturbado, parado no meio do trânsito. Como jamais ignorava alguém em necessidade, ela o chamou até a calçada, onde o homem começou a contar a história dos golpes que a vida lhe infligira. Jess o escutou com paciência. Fiquei parada ali, arredia e constrangida, enquanto ela se oferecia para comprar almoço para ele.

Quando eles saíram de uma mercearia próxima, o homem segurava um saco de comida, um café quente, e tinha algo parecido com um sorriso no rosto.

— Quanto eu lhe devo? — perguntou o homem.

— Ah, nada. É um presente.

— Quanto eu lhe devo? — insistiu o homem.

— Está certo, então. — Jess hesitou. — Um dólar.

Ele enfiou a mão dentro do casaco e tirou um porta-níqueis, então contou quatro moedas de 25 centavos e colocou-as na mão de Jess. E foi embora.

Jess ficou olhando para as moedas.

— Isso é a coisa mais valiosa que alguém já me deu — comentou. — Não sei nem o que fazer com elas.

Pela maior parte da minha vida, tinha recebido uma enorme quantidade de definições sobre o amor e os relacionamentos que eram fáceis de serem verificadas nas Escrituras, assim como a Terra plana já fora confirmada, um dia, ao se olhar para o horizonte. Mas enquanto observava Jess interagir com aquele homem, vi um novo horizonte, muito mais complicado.

Em Jess, eu vi o amor que Jesus pregava, um amor que não era limitado pelas situações e que se estendia a todo mundo, principalmente a quem era esquecido, a quem era estranho. Jesus nunca mencionou a homossexualidade. A cosmologia dEle não era limitada por crenças, crimes e desdém, sua essência era amar os marginalizados. Todas as fibras de Jess refletiam aquilo. Ela incorporava os atributos pelos quais Jesus tinha mais paixão: compaixão, bondade, justiça. Como amar alguém que amava tão bem poderia ser errado?

Senti o meu limitado conjunto de referências religiosas, de falsas dicotomias e austeridade moral, começar a desmoronar. O que já havia me parecido uma escolha sombria entre perder a minha alma e perder a minha amiga mais querida, na verdade foi uma lição de que o verdadeiro amor era a única coisa capaz de me salvar.

Ainda haveria muita confusão à frente. Muitas pessoas se opuseram ao nosso relacionamento e insistiam que, se nos amávamos, não amávamos a Deus. Nosso pastor foi uma dessas pessoas. Ele foi o primeiro que procuramos para confessar o que, então, considerávamos nosso relacionamento pecaminoso. Mas, conforme o tempo passava, começamos a debater com ele a evolução do nosso pensamento, com a esperança de que nossos anos de dedicação leal à igreja seriam nosso testemunho, e que nosso pastor — um amigo — concordaria em discordar onde nossa teologia divergia.

Mas, em vez disso, ele nos deu um ultimato: rompermos nosso relacionamento, ou perdermos nosso lugar como membros da igreja. Logo depois disso, a Igreja se divorciou de nós.

Olhando em retrospectiva para aquele triângulo amoroso confuso entre Jess, nossa igreja e eu, continuo a me perguntar o que o amor de Cristo pede de nós, e o refrão que continuo a ouvir é “ame ao próximo como a si mesmo”. Jess não me apresentou apenas ao verdadeiro amor romântico, mas também ao verdadeiro amor ágape, e me mostrou que o preceito mais fundamental é a trindade de amar a Deus e ao seu próximo como você ama a si mesmo. Acabamos encontrando uma nova igreja, que defende essa crença e acolhe a todos. Agora tenho a alegria de servir como presbítera lá.

Dois anos depois do nosso primeiro beijo, Jess e eu nos esgueiramos para uma praia vazia em Rhode Island. Só algumas estrelas no céu e uma lua ligeiramente encoberta iluminavam nossa corrida e nossos pulos, enquanto deixávamos a liberdade levar embora a nossa vergonha. Conforme nossos olhos se ajustavam à escuridão, vimos uma torre de salva-vidas e subimos nela. Com o mar aos nossos pés e o horizonte ao nível dos olhos, nos sentamos uma ao lado da outra sob o ar da noite.

— Vamos escrever alguma coisa — sugeriu Jess, e pegou o diário que compartilhávamos.

— Não, vamos só aproveitar isso — insisti. O momento parecia perfeito como estava.

— Bem, vou escrever alguma coisa, e podemos ler mais tarde.

Jess escreveu, me entregou o caderno aberto e iluminou a folha com a luz do celular. Aquela luz foi uma intrusão chocante na nossa escuridão particular, e pedi a ela que desligasse.

Em vez disso, Jess empurrou o diário nas minhas mãos. Quando abaixei os olhos, vi um buraco recortado no meio de todas as páginas. E no meio dele uma aliança.

Minha cabeça pareceu girar. Esperei que ela dissesse as palavras fatídicas, mas Jess permaneceu em silêncio. O momento não precisava de palavras.

Peguei a caneta e escrevi sim na página.

Ela colocou a aliança de prata no meu dedo e me entregou outra igual para colocar no dedo dela. Então, perguntou se eu me lembrava do sem-teto que tínhamos encontrado naquela manhã, depois do brunch.

Eu ri.

— É claro que sim! Por quê?

— Descobri o que fazer com aquelas moedas. Elas foram derretidas para fazer nossas alianças. Cinquenta centavos em cada aliança.

Kristen Scharold é escritora e mora no Brooklyn. Seu relato foi publicado em novembro de 2016.