Modern Love
Unir forças para manter o jogo vivo
ANN LEARY
Q UANDO EU COMECEI A APRENDER TÊNIS, MEU MARIDO ficou feliz em jogar com os nossos dois filhos e comigo, desde que não tivéssemos que jogar pelas regras. Como Denis nos explicou vezes sem conta, jogar pelas regras o deixava em uma desvantagem injusta porque ele não sabia as regras, e não sabia como sacar.
Em vez de aprender as regras, ele queria jogar uma variação do tênis que ele mesmo inventara com outro ator, enquanto os dois estavam em uma locação em um país tropical. O jogo deles envolvia não ter saque e um complicado mas curiosamente maleável sistema de regras que eu, com frequência, tinha a impressão de que mudavam no meio do jogo e quase sempre para dar vantagem a Denis.
Isso causou algumas brigas acaloradas na quadra. Fico envergonhada de admitir que, certo ano, nós passamos vários dias das férias em família sem nos falarmos, depois de um jogo do “Tênis do Denis”, que eu tinha perdido “injustamente” (como eu sussurrava repetidamente para os nossos filhos), até finalmente o nosso filho e a nossa filha precisarem intervir e forçar uma trégua entre nós.
Aquele foi um período difícil do nosso casamento. Embora tivéssemos descoberto o tênis tarde, havíamos descoberto um ao outro no início da nossa vida adulta, e agora estávamos passando por um período complicado, que já durava alguns anos.
Quando nos conhecemos, eu tinha vinte anos e Denis vinte e cinco. Éramos jovens e inexperientes demais para saber que as pessoas não mudam quem elas são, apenas a forma como lidam com os outros. Nosso problema básico era, e ainda é, que somos quase idênticos — na aparência, nas atitudes e na constituição psicológica. Dois leoninos que amavam crianças e animais, eram profundamente emotivos e altamente sensíveis e competitivos com todo mundo, mas especialmente um com o outro.
Quando os filhos chegaram, nos vimos disputando para ver quem fazia mais pelo casamento e pela família, e quem estava sendo egoísta, desaprovador, quem não estava demonstrando amor. Não discutíamos com frequência, mas quando brigávamos, era com fúria.
Acabamos indo ver um terapeuta de casal que, entre outras coisas, sugeriu que fizéssemos programas juntos, à noite. Nossa apatia era tanta que nossa saída programada era a noite da terapia de casal. Depois da sessão, às vezes íamos ao cinema. Um dos filmes que vimos foi A marcha dos pinguins.
Esse filme nos comoveu às lágrimas, porque fossem quais fossem as batalhas que travássemos um com o outro, por mais feio que o outro com frequência parecesse ser, tínhamos aqueles dois filhotes muito delicados que precisavam ser protegidos e encaminhados com cuidado, com muito cuidado, porque há alguma coisa mais frágil do que uma menina pré-adolescente, ou um garoto inseguro, em crescimento?
Esses filhos incríveis eram o motivo para estarmos fazendo a terapia, o motivo para estarmos tentando manter o ovo da família inteiro. Assim, continuamos a trabalhar duro para sermos gentis um com o outro. Tínhamos noites regulares em família e tirávamos férias juntos. E, de vez em quando, tentávamos jogar tênis juntos.
Apesar de tudo isso, o casamento continuava tendo dificuldades, e chegou um momento em que nos encontramos no consultório do terapeuta de casal e eu disse:
— Acho que acabou.
— É isso — concordou Denis.
Quando saímos, tive a sensação de que estávamos flutuando, tamanha a nossa calma. Em outros dias, já tínhamos saído furiosos pela porta do consultório e descido os degraus para a rua pisando firme, cheios de raiva, mas agora Denis segurou a porta para mim, e eu agradeci. Quando chegamos à rua, estava nevando. Eu estava com botas de salto alto e as calçadas estavam escorregadias por causa do gelo. Eu não conseguiria andar naquelas calçadas com aquelas botas, por isso perguntei se podia dar o braço a ele, se ele podia caminhar comigo até em casa.
— Claro — concordou Denis. Ele não se importou.
Nem eu. Só precisava de alguma coisa em que me apoiar, para não escorregar e cair. Me agarrei ao braço dele e nos inclinamos para a frente por causa do vento.
— Acontece — disse ele, enquanto caminhávamos — que estou cansado e faminto.
— Vamos comer alguma coisa — propus.
Entramos em um restaurante em frente ao nosso prédio, um lugar pequeno, um restaurante de bairro, onde os garçons sabiam os nossos nomes e o chef sabia como gostávamos dos nossos hambúrgueres. Nos sentamos em um reservado no fundo. Denis pediu sopa.
Estava tudo acabado entre nós, não havia nada a perder, por isso decidi colocar na mesa os meus ressentimentos finais, as coisas que eu achava que o Denis precisava saber para compreender de vez que ele era a causa do fim prematuro do nosso casamento. Lembrei a ele, em um tom resignado, de quando ele tinha feito isso e aquilo.
Eram farrapos miseráveis de ressentimento, tão amargos e antigos, tão insignificantes, que eu tinha me sentido envergonhada demais até para mencioná-los na terapia, assim, agora joguei todos para o alto e lancei no campo de Denis.
Ele acabou de tomar a sopa. Então, limpou o queixo com o guardanapo. Estávamos ambos tão calmos que era como se a ilha de Manhattan tivesse sido envolvida por uma espécie de nuvem de Valium.
Acho que não havia nenhuma emoção restante, estava tudo acabado, e nós dois encarávamos aquele fim com um alívio surpreendente. Éramos como o casal de pinguins em A marcha dos pinguins, que acidentalmente deixara cair um ovo, que se quebrara. Eles ficaram olhando para o ovo por algum tempo, então seguiram caminhos separados, porque os pinguins não permanecem no mesmo casal para toda a vida. Eles flertam um com o outro, guardam a voz do outro na memória, produzem um ovo, se dedicam aos cuidados com o ovo e, quando esse ovo morre, ou amadurece, os pais vão cada um para um lado.
Era assim que tínhamos passado a ver o nosso casamento, como um casamento de pinguins, uma parceria devotada a criar filhos. Nutrimos a esperança de conseguirmos continuar juntos até esses filhos deixarem o ninho, mas agora isso parecia impossível. Então, estávamos só dando uma última olhada.
Denis dobrou cuidadosamente o guardanapo e falou:
— Desculpe. Se eu pudesse mudar essas coisas, mudaria. Mas não posso. Elas estão no passado. Mas me desculpe.
Eu esperava que ele reclamasse, que reagisse como sempre costumava fazer quando eu dizia que uma sacada questionável dele no tênis tinha ido para fora. Mas Denis só pediu desculpas. E eu acreditei. Ele não tinha razão para mentir àquela altura.
Sua admissão calma de culpa me inspirou a exalar a minha própria litania de arrependimentos e pedidos de desculpas. Nos filmes, aquele teria sido o momento em que nos jogaríamos um nos braços do outro, mas na vida real nós pedimos mais comida. Ligamos para nossos filhos em casa, para ver se eles queriam ir ao cinema. Naquela noite, Denis não foi para um hotel, ele ficou em casa. No dia seguinte, viajamos todos juntos para o campo. A família, depois de todos aqueles solavancos, de algum modo tinha se mantido intacta.
E assim as coisas melhoraram. Voltamos ao nosso terapeuta. Fomos assistir aos nossos filmes. Nos esforçamos para tratar um ao outro de forma mais justa. E começamos a jogar muito tênis, só nós dois, sempre que podíamos. Só que agora jogávamos de acordo com as regras.
Embora eu tivesse feito muitas aulas, Denis é melhor atleta, por isso quase imediatamente passamos a jogar mais ou menos no mesmo nível. Melhoramos a cada jogo. Paramos de trapacear. (Sim, admito, nós dois costumávamos questionar jogadas quando estávamos acuados em um canto, e também fraudávamos o placar, se pudéssemos, nós dois.)
Embora ainda fôssemos ultracompetitivos, estávamos nos tornando imensamente orgulhosos quando o outro fazia uma jogada incrível, e não odiávamos o vencedor quando perdíamos. Ainda jogávamos para ganhar, mas agora éramos capazes de nos alegrar pelo outro. Queremos melhorar, e também queremos — na verdade ficamos empolgados com a ideia de — ver o outro melhorar também.
O que me leva ao nosso último jogo daquele verão, o último antes de arrumarmos as coisas do nosso filho e o levarmos para a universidade. Cada um de nós tinha ganhado um set, e agora o placar estava 5-5 no set final. Mas tínhamos reservado a quadra por apenas uma hora, e essa hora estava quase no fim. Havia outros jogadores esperando. Ou seja, aquele teria que ser o game final, decisivo. Mas os games tinham sido ganhos com tanta dificuldade que nenhum de nós dois conseguia suportar a ideia de perder o jogo.
Denis estava sacando naquele game decisivo. Ele sacou com cuidado, sem tentar nem uma vez fazer um ace, um ponto de saque. Era arriscado demais. Não tirei vantagem devolvendo a bola para ele em um backhand, o golpe com as costas da raquete. E se ela fosse para fora? O jogo estaria terminado.
Eu mandava a bola para a quadra dele, ele devolvia para a minha. Eu colocava a bola com cuidado, muito cuidado, na quadra dele, e ele fazia o mesmo na minha. Disputamos, não com a adrenalina da determinação de vencer a qualquer custo, mas com a paciência e o controle que vinham da vontade de que não terminasse: nem o verão, nem a infância do nosso filho, nem aquele jogo, nunca.
Mandamos a bola de um lado para o outro. E me ocorreu que havia uma certa graça no corpo do meu marido, e senti o mesmo em relação ao meu, enquanto ambos nos esforçávamos para manter o jogo vivo só mais um pouquinho, tentando encontrar o melhor ponto de recepção do outro, jogando, ao menos uma vez, para a vantagem do outro.
Ann Leary é escritora e seus livros já apareceram na lista dos mais vendidos do New York Times. Ela mora em Nova York. Seu próximo livro será publicado em 2020 pela Simon & Shuster. Este relato foi publicado em setembro de 2013.