Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 5 de 47

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Modern Love

No hospital, um interlúdio de clareza

NO HOSPITAL,

UM INTERLÚDIO DE CLAREZA

BRIAN GITTIS

 

N UNCA É UM BOM MOMENTO PARA CAIRMOS DO SOFÁ EM cima de um copo de martíni, romper uma veia importante e começar a perder uma quantidade perigosa de sangue, mas se isso acontece no meio de um encontro promissor, o momento é especialmente ruim. Nada acaba mais rápido com a magia do desabrochar da atração entre duas pessoas do que sangue espirrando.

Demonstrei isso na primavera passada, no meu quarto encontro com uma brasileira tão linda que eu quase tinha medo dela. Depois do jantar, em um restaurante italiano aconchegante, voltamos andando para o apartamento para onde eu tinha acabado de me mudar, no Brooklyn. Aquela era a primeira vez que eu morava na cidade sem dividir apartamento com ninguém, e estava ansioso para aproveitar a privacidade recém-conquistada. E as coisas estavam indo bem. Há um certo romantismo envolvido em beber em copos elegantes, em uma sala sem mobília, cheia de caixas ainda por abrir. E com In a Silent Way, de Miles Davis, tocando.

Eu estava impressionado por ter chegado tão longe. Como meus amigos já estavam cansados de me ouvir dizer, não fazia o menor sentido que uma mulher com vinte e poucos anos, que falava quatro idiomas e tinha morado em três continentes, passasse seus sábados comigo, um rato de livros de trinta e um anos, vindo de Pittsburgh.

Cada saída era como se eu estivesse entrando de penetra em um clube exclusivo, e no fim da noite eu sempre tinha medo de ser descoberto e de me pedirem para sair. Sei que conhecer alguém incrível é o grande objetivo dos encontros, mas a verdade é que estar com alguém incrível pode ser tão estressante para mim que não consigo aproveitar.

Esse estresse é uma característica típica minha. Tomo ansiolíticos há cerca de dez anos, e quando saio com alguém passo o tempo todo me perguntando: “O que eu não devo falar? Estou parecendo nervoso? Ficar obsessivo por estar nervoso me faz parecer ainda mais nervoso?”

Não são questões comuns de se perguntar quando conhecemos pessoas novas, mas para mim podem ser paralisantes. Qualquer espaço que sobre no cérebro para aproveitar o encontro é lamentavelmente pequeno. Mesmo se a noite for boa, se tudo der certo, normalmente só consigo aproveitá-la mais tarde, a distância, como se tivesse acontecido com outra pessoa — é como ter um encontro na terceira pessoa do singular.

Até ali, meu sucesso com aquela mulher em particular tinha sido um exercício de ignorar a realidade da situação, o que aparentemente também me levava a ignorar a realidade do que me cercava de um modo geral. Quando ela se desvencilhou do nosso abraço no sofá para usar o banheiro, eu caí em cima do copo do drinque que tomamos depois do jantar e que ela tinha deixado no chão. Quando olhei para baixo, vi os meus tríceps expostos e mais sangue do que jamais tinha visto na vida. O corte tinha chegado perto do osso.

Aquela não era a primeira vez que um encontro terminava comigo dando entrada em um pronto-socorro. Eu parecia ter um dom para isso. A minha namorada da faculdade uma vez serviu um frango malcozido que me deu alucinações e uma febre de quarenta graus. Anos mais tarde, a minha tentativa de preparar o café da manhã para outra mulher terminou em queimaduras de segundo grau, depois de eu conseguir colocar fogo na toalha de papel. Mas a gravidade desse ferimento em particular, o péssimo momento em que aconteceu e o fato de eu estar nu inauguravam uma nova fase.

Na ambulância, os médicos da emergência cuidaram do meu braço, mas as perguntas deles ameaçaram acabar com a minha fachada de camarada aceitável para aquela jovem tão perfeita.

— Quantos anos você tem? — perguntou um deles, expondo subitamente nossa substancial diferença de idade, que era um tema que ainda não tínhamos abordado.

— Está tomando alguma medicação?

— Antidepressivos e tranquilizantes — respondi com relutância.

Então, para ela:

— Ele é seu namorado? Seu amigo?

Longa pausa.

— Namorado — deixou escapar ela, soando desconfortável. Então, um instante depois: — Amigo.

Embora eu estivesse dentro de uma ambulância, me encaminhando para uma cirurgia, aquilo doeu.

Para diversão da equipe do turno da madrugada do hospital, eu ainda estava seminu quando cheguei. A garota tinha conseguido vestir a calça em mim enquanto esperávamos a ambulância, mas, como eu não podia soltar meu braço naquele momento, a camisa ficou pela metade do caminho. Estar sendo levado para a cirurgia daquele jeito, ao lado de uma mulher usando um vestido sexy, praticamente gritava “lesão sexual”.

A hora seguinte foi um borrão caótico de radiografias, perguntas que eu precisava me esforçar para não entrar em pânico antes de responder (por que aquele formulário de isenção perguntava a minha preferência religiosa?), e de vários médicos reagindo ao meu ferimento com olhos arregalados e uma expressão de espanto desconcertante.

Quando eu perguntei:

— Não vou perder o braço, não é?

A resposta foi um perturbador:

— Acho que não.

Um cirurgião brusco, com um olhar impiedoso, me espetou enquanto murmurava sobre o meu caso com um bando de residentes. Eu não consegui ouvir tudo, mas “sete centímetros” e “arterial” saíram alto e claro.

A humilhação física foi o passo seguinte na agenda. Antes da operação, a garota que estava comigo conseguiu ver uma enfermeira tirar meu corpo molenga e iluminado pela lâmpada fluorescente de dentro do jeans ensanguentado e vesti-lo com uma camisola do hospital. Eu nos imaginei sentando para jantar, dali a uma semana, com aquela cena nada lisonjeira pairando entre nós, enquanto eu apontava o que queria do cardápio para o garçom com um gancho fazendo as vezes do meu braço.

Então estava na hora. Lembro que as luzes da sala de cirurgia eram muito claras, lembro de me dizerem que estavam prestes a me anestesiar. E de repente: escuridão.

Acordei zonzo. Tanto o meu braço quanto a garota com quem eu estava saindo ainda estavam ali. A cirurgia tinha corrido bem, mas o protocolo exigia que eu ficasse na sala de emergência por mais seis horas. Deixe-me registrar brevemente que essa é uma terrível quantidade de tempo para uma mulher e eu sermos deixados sozinhos sem luz suave, nem álcool, nem um filme para assistir, ou aperitivos para beliscar, e sem saída de emergência em caso de constrangimento.

A ansiedade visita algumas pessoas em uma precipitação violenta, como uma tempestade elétrica. No meu caso, ela se insinua aos poucos, insidiosamente, como uma bruma se adensando. Quando a bruma se torna densa o bastante, ela provoca uma assustadora sensação de devaneio, que meu psiquiatra chama de “desrealização”, em que eu meio que me fecho e não consigo mais funcionar em uma situação social.

Aquele momento no hospital deveria ter sido um desses em que a bruma começa a se insinuar, mas por alguma razão ela permaneceu contida. Nunca vou saber se a minha calma foi psicológica (um coquetel de adrenalina, morfina e o mais profundo alívio), ou fisiológica: depois de seis horas ininterruptas de constrangimento e medo, eu estava simplesmente exausto demais.

Fosse qual fosse a razão, era bom. Meus pensamentos estavam claros e desimpedidos. A garota me olhava nos olhos com uma ternura descomplicada que fez a minha cabeça girar. Era como se eu tivesse saltado anos à frente, e as ansiedades e estratégias dos nossos encontros anteriores fossem apenas uma lembrança singular e distante. Isso, pensei, é realmente estar com uma mulher. Nenhum de nós tinha mudado, mas era um mundo diferente.

Aquelas seis horas passaram gloriosamente. Trocamos histórias de hospital e piadas intermináveis sobre copos de martíni. Conversamos sobre livros e sobre as nossas famílias. Tivemos uma ideia de roteiro absurda, de um filme de terror passado em um hospital. Eu estava conversando e rindo e me conectando sem esforço com uma das mulheres mais lindas que já vira, uma mulher por quem eu estava me apaixonando de verdade.

Quando finalmente fui liberado, a corrida de táxi, no meio da manhã, para voltarmos ao meu bairro me deu a sensação de estar em um sonho luminoso. Comemos sanduíches de ovo no parque e voltamos ao ambiente familiar da minha sala manchada de sangue. Em meio à bruma de privação de sono e da morfina residual, eu me sentia como um fantasma voltando à cena do meu próprio assassinato.

Estávamos ali, secando as pegadas no sangue com panos de chão, cercados por toalhas de papel manchadas e eu pensei: ou você nunca mais vai ver essa mulher de novo, ou ela vai ficar na sua vida por um longo tempo.

Nenhuma das duas coisas aconteceu. Eu gostaria de poder dizer que a minha história termina em uma epifania, com o fim da minha ansiedade e o começo de um relacionamento duradouro, mas a verdade é que ela me deixou cerca de um mês mais tarde. Não porque tivesse me achado repulsivo sob a luz fluorescente do hospital, mas por uma razão mais convencional: sentia falta do ex-namorado.

Às vezes, quando um cara gosta de verdade de uma garota, ele faz uma tatuagem no braço. Em vez disso, tenho essa cicatriz proeminente. Mas há momentos em que passo a mão pela marca funda (um tique nervoso) e aquelas seis lindas horas na sala de emergência voltam à minha mente. Então, sou lembrado de como estou perto de um mundo alternativo, no qual sou feliz, um mundo que ocupa o mesmo espaço desse, mas que é distinto dele de algum modo. E por mais que esse mundo melhor possa ser difícil de encontrar, está tão perto de mim quanto o ar diante do meu rosto.

Brian Gittis trabalha com edição de livros e mora em Nova Jersey com a esposa e o filho. Esse relato foi publicado em outubro de 2014.