Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 35 de 47

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Modern Love

Quando o Sr. Estável se torna o Sr. Carente

QUANDO O SR. ESTÁVEL

SE TORNA O SR. CARENTE

KATHERINE TANNEY

 

M INHA MÃE MORAVA A UMA DISTÂNCIA CURTA DE CARRO da casa de repouso onde meu pai morreu, no início do ano passado. Mas ela não estava com ele no fim, nem sabia que suas três filhas estavam na cidade, reunidas ao redor do leito dele. Conforme a capacidade respiratória do meu pai diminuía lentamente, é provável que ela estivesse em casa, assistindo à HBO, lendo um romance, ou preparando um lanche. Eles foram casados por quarenta e sete anos — “todos maravilhosos”, para citar a minha mãe, que aparentemente não incluía os últimos cinco anos, quando o marido dela, aos sessenta e três anos, ficou doente, com Alzheimer. O mundo da minha mãe se desintegrou e nada entre eles nunca mais foi maravilhoso.

Esse é o fim. Frio, conciso. Mas o que um fim diz, na verdade, sobre uma vida, um casamento? As reclamações da minha mãe começaram há cinco anos, quando ela contou às minhas irmãs e a mim que nosso pai estava sendo “cruel” com ela e “impossível de se lidar”. Ele deixava o queimador do fogão aceso. Precisava de ajuda para saber que lado da camisa passar primeiro pela cabeça. Às duas da manhã, já barbeado e vestido, ele ia até a calçada para pegar o jornal, e acordava a minha mãe para reclamar quando não encontrava o jornal. Pior de tudo, disse ela, era a teimosia insistente do meu pai de que não havia nada de errado com ele.

Não é difícil para mim imaginar as discussões entre eles nesse período. Minha mãe sempre reagiu às coisas que a assustavam atacando ou fugindo, e meu pai era capaz de ser muito teimoso, até mesmo intransigente. A questão era que, quando minhas irmãs e eu vimos nosso pai em um primeiro momento, não percebemos nada da paranoia ou beligerância que minha mãe descrevia. Para nós, ele pareceu só muito mais carente do que antes, mais esquecido, e sem qualquer noção de que suas percepções não correspondiam mais à realidade, o que era desconcertante.

É preciso dizer que “carente” e “impossível” sempre tinham sido traços característicos da minha mãe, enquanto meu pai era o Sr. Estável, o Sr. Autocontrole. Ele nos levava com toda calma ao McDonald’s, nas noites em que ela estava ocupada demais batendo portas ou quebrando objetos amados e, portanto, sem tempo para preparar o jantar. Em outras ocasiões, quando saíamos em família, ele dava a volta no carro para abrir educadamente a porta para ela, e passava ao garçom o pedido dela, que permanecia sentada, cheia de pose.

— A dama vai querer... — era o modo como ele sempre começava.

Meus pais tiveram grandes planos para os seus anos de ouro, planos que os dois fizeram desde os primeiros dias do seu casamento. Meu pai era alto e bonito, observador e tranquilo, e vinha de um lar partido e modesto. Minha mãe era criativa e cheia de opinião, furiosa e impulsiva, e vinha de uma família abastada e perfeita. Quanto mais tempo eles ficavam casados, mais perto chegavam da herança dela, e dos sonhos que tinham de ter uma casa em Aspen para quando se aposentassem, ou um pied-à-terre em Paris, ou em Manhattan. Assim eram os meus pais. Eles acreditavam que o dinheiro tinha o propósito exclusivo de garantir aos dois experiências prazerosas. Raramente faziam contribuições para a caridade, ou para causas políticas, ou mesmo para a televisão pública, ou para as estações de rádio de que gostavam. O dinheiro dos dois sustentava restaurantes caros e bilheterias de apresentações artísticas, criadores de roupas caras, de peças de mobília, de arte de bom gosto e de carros elegantes.

Mas então o Alzheimer foi diagnosticado, o que não fazia parte dos planos da minha mãe, e a reação dela foi se fechar. Quando sugerimos que procurasse um grupo de apoio, a resposta foi:

— Eu liguei para lá. É para viúvas, não para pessoas com cônjuges vivos.

Quando recomendamos que procurasse um terapeuta, ela reclamou:

— Se eles realmente se importassem, não cobrariam.

Em vez de se informar sobre a doença e sobre como lidar com ela, minha mãe determinou tarefas para meu pai fazer no jardim e em casa, como se a disciplina do trabalho pudesse restaurar a ordem na vida deles. Em vez disso, ele saiu andando sem rumo, pegou um ônibus — ele já havia perdido o privilégio de dirigir àquela altura — e voltou horas mais tarde, em um táxi, deixando o motorista, que ignorava totalmente a situação, sem saber como lidar com a fúria da minha mãe.

Aqueles foram os últimos dias para eles, quando a onda de palavras amorosas da minha mãe dirigidas ao marido eram faladas em um tempo passado, aos soluços, como se ele já tivesse morrido. Ela considerava o homem com quem estava vivendo um estranho, que precisava ser levado ao médico e a quem ela tinha que estar sempre atenta, mas com quem já não era mais possível ter uma boa conversa.

Eu me perguntava com frequência como as outras esposas lidavam com uma situação como aquela. As revistas estavam cheias de matérias sobre casais lidando heroicamente com o Alzheimer, famílias se unindo para cuidar de um membro afligido pela doença. Eu e você contra o mundo. Quantos casamentos são baseados em alguma forma desse sentimento, e o que acontece quando o mundo inesperadamente marca um ponto?

Meu pai, que sempre defendeu as piores palavras e atos da minha mãe, agora dependia de quem havia dependido tanto dele. Na ausência de alguém a quem minha mãe pudesse culpar por aquela traição, ela culpava a ele. Quando minhas irmãs e eu soubemos por ela que meu pai estava vagando pela cidade, a pé, sem dinheiro, água ou comida, e que ela se recusava a ir resgatá-lo quando ele ligava de telefones públicos em bairros perigosos, perdido e desorientado, finalmente concordamos que, para o bem do nosso pai, ele deveria ser afastado dela.

Então começaram as jornadas separadas dos meus pais, ainda tumultuadas, por causa das decisões cada vez mais erráticas que minha mãe tomava. Ela desenvolveu um medo sem precedentes de gastar dinheiro, o que levou meu pai a se mudar seis vezes nos últimos quatro anos e meio da vida dele.

Primeiro, ele morou com minha irmã, que contratou ajuda particular para cuidar dele quando ela estivesse no trabalho. Quando o estado dele piorou, nós o transferimos para uma clínica de repouso, onde a sua eventual incontinência provocou um aumento de mensalidade que minha mãe se recusou a pagar. Encontramos outro lugar. Então, ela alegou que o dinheiro dele tinha acabado, manifestou um súbito desejo de estar com o seu amado até o fim e anunciou sua intenção de interromper novamente os pagamentos da clínica de repouso.

— Eu mesma vou tomar conta dele — disse ela.

Àquela altura, ele já não morava mais com ela havia quase três anos, e durante esse período ela só o vira duas vezes, quando ele ainda conseguia andar e falar. Apesar das nossas objeções e explicações sobre o estado avançado da doença, minha mãe o levou para casa de novo, mas ele passou apenas três dias lá, antes de se se machucar e forçá-la a ligar para a emergência.

— Eu lavo as mãos em relação a ele — disse ela à assistente social do hospital, ao telefone. — Não vou pagar nem um centavo a mais.

Omiti muitas coisas: caminhadas que eu e meu pai abandonado compartilhamos; risadas que demos; a entrada dos advogados nas nossas vidas, com sua linguagem jurídica e suas contas altas; a saraivada de trocas verbais furiosas entre minha mãe e as filhas; cenas das clínicas onde pacientes com Alzheimer vivem juntos em um asilo de loucos de monotonia. Dei ao meu pai um bicho de pelúcia grande, com um sininho na ponta. Ele gostava de sentir a pelúcia entre os dedos. Comprei uma bola para ele, e brincávamos de lançar e pegar, no que ele era excepcionalmente bom. Ele gostava de ser tocado e de conversar.

Aproximadamente na mesma época em que minha mãe lavou as mãos em relação ao meu pai, ela recebeu a herança dela. Depois da morte do meu pai, ela continuou a viver na casa grande deles, de cinco quartos, dois andares, com deque, piscina aquecida e uma cozinha com tudo o que havia de mais moderno. Era o tipo de casa de arquitetura interessante, que se costuma ver em revistas, toda ângulos retos e projeções verticais, que valia mais de um milhão de dólares. Em algum lugar daquela casa, presumivelmente em uma urna de bom gosto, ela mantinha as cinzas do meu pai. Minhas irmãs e eu pagamos a conta do crematório, mas quando minha mãe descobriu sobre a morte dele, insistiu em pagar o que era devido e manter as cinzas com ela. Afinal, era com a perturbação dele que ela não conseguia lidar, e agora que ele já não estava mais perturbado, ela o queria de volta.

Eu não estava falando com minha mãe quando meu pai morreu, nem as minhas irmãs. Em uma mensagem que me deixou antes de ele partir, ela me dizia que eu morreria “sozinha e sem um tostão” — por abandoná-la, eu presumo, assim como ela havia abandonado meu pai. Então, seis meses mais tarde, pouco antes de uma cirurgia de ponte de safena já agendada, minha mãe teve um ataque cardíaco.

Demorei algum tempo para visitá-la, em parte porque ela estava inconsciente e não tinha expectativa de se recuperar. E em parte, porque eu desconfiava que minha presença lhe traria pouco conforto. Mas quando finalmente fui ao hospital, a visão da minha mãe — tão indefesa e sem vida quanto meu pai tinha ficado — tornou o passado recente irrelevante, e terminamos nossos anos de discordância de forma amigável. Ela morreu cinco semanas mais tarde.

É difícil para mim aceitar esse exemplo lancinante de dissolução familiar que me foi entregue no meio do caminho da minha própria vida acidentada. O que é moral? O que é vilania? Não deveríamos todos, depois de tantos anos com minha mãe, já saber quem ela era e do que era capaz? E é possível que meu pai tivesse tolerado o comportamento dela, ou ao menos perdoado, se tivesse sido capaz de pensar direito? “Me mate de uma vez”, eu o imagino dizendo no começo, se tivesse tido noção do que estava por vir e a que custo.

Os meus pais tiveram um casamento “maravilhoso”? É claro que não. Também não foi tão ruim. Eles tiveram um casamento. Meu pai teve uma morte. Isso deveria ter sido melhor, mas essa é a natureza da sobrevivência e do amor. Na semana passada, um dos meus cachorros encontrou um passarinho fraco na grama e o matou lentamente, prolongando a vida do brinquedo dele pelo máximo de tempo possível. Observei a cena da janela, arrasada, mas ao mesmo tempo compreendendo.

Costumava achar que o momento final da vida era o momento da verdade, e me preocupava com isso. Eu tinha proezas de imaginação bizarras, como tentar invocar a minha própria morte em um momento de suprema felicidade.

— Agora — eu procurava persuadir o universo, de olhos fechados, respiração presa —, me leve agora.

Porque eu sabia bem demais o que costuma seguir a suprema felicidade, e queria desesperadamente que o universo abrisse uma exceção para mim.

Katherine Tanney é autora do romance Carousel of Progress. Este relato foi publicado em fevereiro de 2005.