Modern Love
Para uma melhor interação, use suas próprias palavras, certo?
GABRIELLE ULUBAY
E U O TINHA CONVIDADO SÓ PARA FAZER SEXO, POR ISSO, quando acordei na manhã seguinte e o vi vestindo a calça, falei:
— Precisa que eu acompanhe você até a porta?
— Não, vou só usar o banheiro — disse ele. — Gostaria de ficar, se estiver tudo bem pra você.
E estava. Assim, ele ficou pelo resto do dia, sempre a poucos centímetros de mim. Só saímos do quarto para usar o banheiro, ou para revirar a cozinha atrás de alguma coisa para beliscar. Nesse meio-tempo, minhas colegas de apartamento riam e comentavam sobre a minha “sexescapada com o carinha fofo do Tinder”.
— Acho que você é a garota dos meus sonhos — comentou ele. — Não acredito que nos conhecemos pelo Tinder.
Eu nunca tinha sido a garota dos sonhos de ninguém — nem mesmo dos meus. Sempre imaginei que a garota perfeita dos sonhos dos homens seria mais alta do que eu, mais magra, mais segura de si e loira. Mas meu amante insistiu, e nos atiramos um em cima do outro até o fim da tarde.
Mais tarde, eu disse:
— Você costuma fazer sexo com as garotas na noite em que as conhece?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ora, eu pareço promíscuo?
Dei um risinho nervoso.
— É claro que não.
Finalmente, ele respondeu:
— Na verdade, não. Quer dizer, eu não dispensaria sexo, mas também não iria atrás.
Depois de um minuto, perguntei:
— Eu pareço promíscua?
A voz dele ficou mais suave e ele me abraçou com força.
— Não, de forma alguma. Você parece uma dama.
Talvez a intenção tenha sido que aquilo soasse como um elogio, mas minhas dúvidas sobre a sinceridade dele fizeram parecer um golpe. Eu me perguntei se ele estaria mentindo para fazer eu me sentir melhor, ou só para garantir mais sexo mais tarde.
Quando eu era criança, sempre ouvia, “Use suas próprias palavras” para me estimular a dizer exatamente o que eu pretendia e o que esperava das pessoas. Já adulta, percebi que muitas pessoas não são muito boas em usar as próprias palavras, principalmente antes e depois do sexo. E menos pessoas ainda parecem dizer exatamente o que pretendem ou o que esperam.
Ainda assim, sorri e disse:
— É mesmo? Obrigada. — Eu o beijei no rosto, nas têmporas, na testa. — E você parece um cavalheiro.
E era verdade. Mas eu torcia secretamente para que ele fosse como eu, para que seu peito fervesse com indiscrições escondidas, e que a velocidade com que acabáramos dormindo juntos fosse tão comum para ele quanto era para mim. Porque se não fosse, eu não poderia deixar de me perguntar se, caso descobrisse a verdade, ele se afastaria. Não poderia deixar de me perguntar se ele me acharia promíscua ou moralmente deficiente, mesmo já tendo dito que me achava uma dama.
— Uau, você tem um sorriso lindo — disse ele, enquanto acariciava lentamente minha cintura, minha barriga, meus quadris, minhas coxas. — Você é mesmo o pacote completo.
— Você não precisa dizer isso.
— Sei que não — disse ele. — Mas estou falando sério.
Ele falou que eu era inteligente, divertida e criativa.
— Você tem uma boa energia, Gab — comentou.
Eu disse:
— Você vê coisas em mim que eu não sabia que eram visíveis.
Não sei por que me deixei seduzir por aquilo, ainda mais porque nem sequer estava procurando aquilo. Por algum motivo, eu sempre tive a tendência a achar que a minha vida melhoraria muito com a solução de um único problema. No ensino médio, eu pensava, tudo vai melhorar quando eu tirar o aparelho dos dentes, ou quando a minha pele melhorar, ou quando eu for para a universidade.
E agora, mais velha e supostamente mais sábia, me pego achando que tudo vai melhorar quando eu encontrar romance na vida. Quando eu tiver um homem que me queira, não importa quanto eu seja errada, exagerada ou ligada em política. Alguém que, com um beijo, consiga me arrancar do meu devaneio de autopiedade. Penso em há quanto tempo já estou pronta para encontrar beleza em outro ser humano, para acariciar as cicatrizes de alguém tão cheio de defeitos quanto eu, e para sentir que essa pessoa sente o mesmo por mim.
Naquela noite, eu não estava procurando por romance, mas meu amante de duas vezes se entranhou na minha consciência quando me disse que eu era a garota dos seus sonhos, e não posso deixar de pensar em como aquilo foi cruel, levando em consideração o rumo que a situação tomou. Nossa despedida foi com um beijo na boca e uma piscada de olho, enquanto ele descia para pegar o metrô.
Ele tinha sorrido e dito “Até logo”, mas nunca mais me viu. Desde então, aprendi que logo significa o mesmo que significava quando eu era criança e queria fazer alguma coisa extravagante: quer dizer não quero ou se eu tiver vontade.
Agora me dizem, “Você só gostou dele porque ele elogiou você”, e “Bom sexo pode levar você a acreditar que gosta de qualquer um”.
— O que você esperava, Gab? — perguntou a minha amiga. — Não é possível criar um vínculo com alguém rápido assim.
Encolhi os ombros.
— Eu não pretendia. Mas foi diferente.
Ela suspirou.
— Seu problema é que você se joga nas coisas muito rápido.
— Tá certo...
Achei que devia haver alguma coisa terrivelmente, clinicamente errada comigo, para eu ter me equivocado tanto ao interpretar a situação. Queria consultar um médico. Queria um diagnóstico. Queria perguntar ao meu amante se ele tinha se decepcionado, se eu não era quem ele queria que eu fosse.
Meus amigos me dizem que preciso ter amor-próprio. Dizem que isso vai tornar a minha vida melhor, bem parecido com o jeito como os aparelhos nos dentes e a pele sem acne supostamente me fariam mais bonita. Quando pergunto como posso fazer isso, meus amigos filosofam e dizem “Você precisa encontrar isso dentro de si mesma”. O conselho deles é tão abstrato que me pergunto se eles também já procuraram o amor-próprio que aconselham e não conseguiram encontrar.
Como procuro dentro de mim mesma? Eu me imagino enfiando a mão pela minha garganta abaixo e procurando até encontrar uma massinha de cor viva com uma etiqueta “amor-próprio”. Estaria escondida, talvez atrás de algum órgão sem graça, ou dentro das dobras de um músculo teimoso. E quando eu encontrar essa panaceia mágica, vou dizer “Ah, aí está você. Onde tem andado todo esse tempo?” E vou reposicioná-lo dentro de mim, dessa vez no lugar correto.
A minha pergunta é: como vou saber quando encontrar essa coisa que nunca percebi que tinha perdido, e o que vai acontecer então?
Mas, sinceramente, não acho que o meu problema é falta de amor-próprio. Gosto do sexo pelo sexo tanto quanto qualquer homem, e sou honesta a respeito. O que confunde as coisas é toda essa conversa mole e o sumiço depois.
— Sumir é a forma mais covarde de terminar um relacionamento — eu disse uma vez para um amigo meu, quando estávamos na mesma sala com um cara que tinha sumido depois de sair comigo, anos antes.
— Você realmente prefere que alguém diga na sua cara que não sente nada por você? — tinha perguntado o meu amigo.
— Prefiro isso a ser feita de idiota — respondi.
Não muito tempo depois, um homem que dormiu comigo me disse que eu era linda, enquanto andávamos até o meu apartamento, no meio da noite. Ele acariciou as costas da minha mão com o polegar e sorriu, mas isso não significou nada — eu sabia que, sob o brilho alaranjado das luzes da rua, até vidro quebrado parece incrível.
— Estou me sentindo tão sortudo nesse momento — disse ele. — Não consigo acreditar que uma garota como você me deu atenção.
Mandei uma mensagem de texto para ele na semana seguinte, mas o cara nunca respondeu. Irritada, percebi que eu nem teria pensado em mandar uma mensagem para ele se o cara não tivesse me coberto de elogios tão gratuitos.
Então, meu amante de duas vezes me chamou de dama. Ele me adicionou no Facebook e me disse para manter contato. Disse que a minha pele era macia, que eu tinha um sorriso lindo e que ele não conseguia acreditar que tinha encontrado alguém como eu.
Ele disse:
— Nunca sou cruel com as garotas.
Sorri.
— Então você é o autodeclarado cara legal?
— Sim. Qual é o problema com isso?
— Nenhum — respondi, e passei a perna por cima das dele. Ele ajeitou o braço embaixo da minha cabeça, como um travesseiro. — Mas não quero que um cara seja legal comigo só porque se sente obrigado a isso, entende? Quero que ele seja legal porque tem vontade de ser.
— Isso faz sentido — disse ele, enquanto enfiava a mão nos meus cabelos e beijava a minha testa.
Não entro em uma relação de sexo casual esperando que ela vire um relacionamento sério. Nunca entendi por que alguns caras parecem achar que elogios são a chave para levar uma mulher para a cama, quando já foram convidados por ela para ir para a cama. Eles dizem que adorariam sair comigo, e não entendem, no dia seguinte, por que eu acho que querem sair comigo.
Não acho necessários os elogios, nem mereço o sumiço. Em uma relação de sexo casual, não é preciso ser cruel — basta dizer a sua intenção. Com as suas próprias palavras.
Gabrielle Ulubay está terminando um mestrado na University College Cork, em Cork, na Irlanda. Além do New York Times, ela tem trabalhos publicados na Film Ireland, O’Bheal, e na revista Alma e com a Trinity College, de Dublin. Esse relato foi publicado em janeiro de 2018.