Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 20 de 47

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Modern Love

Sincera, louca, culpadamente

SINCERA, LOUCA,

CULPADAMENTE

AYELET WALDMAN

 

J Á PARTICIPEI DE VÁRIOS GRUPOS DE MÃES — MOMMY AND Me (“Mamãe e eu”), Gymboree, Second-Time Moms (“Mães de Segunda Viagem”) — e toda vez, depois de três minutos, a conversa invariavelmente passava a girar ao redor do assunto de com que frequência as mães se sentiam compelidas a fazer sexo. Todas também queriam garantir que ninguém mais estava fazendo sexo. Aquelas eram mulheres que, em sua maioria, estavam confortáveis com seus corpos, se consideravam seres sexuais. Eram mulheres que amavam seus maridos, ou parceiros. Ainda assim, quase nenhuma delas estava fazendo sexo de forma alguma.

Há motivos de senso comum para essa cama morta. Elas estão exaustas. Ainda dói. Estão tão fisicamente disponíveis para os bebês — amamentando, dando colo, acariciando — que como conseguiriam suportar estar fisicamente disponíveis para outra pessoa? Mas o motivo real para a ausência de sexo, ou ao menos o mais intenso, é que a paixão da esposa passa a ter novo foco. Em vez de concentrar seu ardor no marido, ela concentra nos bebês. Quando, antes, o marido era o centro do seu universo de paixões, agora havia um novo sol ao redor do qual a mulher orbitava. A libido, como ela havia conhecido, se foi, e em seu lugar entra um desejo maternal totalmente absorvente. Há uma unanimidade absoluta em relação a esse tópico, o que tranquiliza as mulheres no mesmo instante.

A não ser, é claro, por mim.

Sou a única mulher no Mommy and Me que parece estar, bem, fazendo algum sexo. Isso poderia me encher de um bem-estar presunçoso. Eu poderia me sentar naquela sala e tripudiar por causa do meu casamento maravilhoso. Poderia pensar em como a nossa vida sexual — sempre vital, até mesmo tórrida — é mais empolgante e imaginativa agora do que quando nos conhecemos. Poderia checar o relógio para ver se tenho tempo de parar na loja Good Vibrations e ver se eles têm alguns brinquedinhos sexuais novos e excitantes. Poderia até olhar com pena para as outras mães no grupo, desejando que elas também pudessem experimentar um amor tão intenso quanto o meu.

Mas não faço isso. Estou ocupada demais me preocupando com o que está errado comigo. Por que, de todas as mulheres na sala, sou a única que não fez a transição erótica que uma boa mãe supostamente deveria fazer? Por que sou a única incapaz de colocar o filho no centro do meu universo de paixões?

Quando a minha primeira filha nasceu, meu marido segurou-a no colo e disse:

— Meu Deus, ela é tão linda.

Desenrolei as mantas que envolviam o bebê. Ela era de um tamanho médio, com dedos longos e magros e uma variedade aleatória de dedos dos pés. Seus olhos estavam bem fechados, e ela tinha o nariz adunco do pai. Parecia melhor nele.

A bebê parecia uma recém-nascida, vermelha e mirrada, o rosto cheio de manchas vermelhas, e ela choramingava. Não me lembro do que eu disse para o meu marido. Na verdade, eu me lembro muito pouco dos meus primeiros dias de maternidade, passados sob uma bruma de analgésicos, a não ser por um telefonema de uma amiga, que perguntou em um gritinho agudo:

— Você não está completamente apaixonada?

E é claro que eu estava. Só que não pelo meu bebê.

Eu amava a minha filha, sim. Mas não estava apaixonada por ela. Nem pelos dois irmãos ou pela irmã dela. Sim, tenho quatro filhos. Quatro filhos com quem passo uma boa parte de cada dia: dando banho, penteando cabelos, sentada com eles para ajudar com os deveres de casa, abraçando enquanto choram suas lágrimas trágicas. Mas não sou apaixonada por nenhum deles. Sou apaixonada pelo meu marido.

É o rosto dele que inspira em mim paroxismos de devoção apaixonada. Se uma boa mãe é a que ama os filhos mais do que qualquer outra pessoa no mundo, não sou uma boa mãe. Na verdade, sou uma mãe ruim. Amo meu marido mais do que amo meus filhos.

Um exemplo: com frequência, eu faço um passatempo típico de pais e mães conhecido como Que Deus Não Permita. E se, que Deus não permita, alguém raptasse um dos meus filhos? Que Deus não permita. Imagine o que você sentiria se perdesse um deles, ou mesmo todos eles. Eu me imagino devastada, destruída pela dor. Ainda assim, nessas fantasias, sempre há um futuro além da morte do filho. Porque se eu perdesse um dos meus filhos, que Deus não permita, mesmo se eu perdesse todos os meus filhos, que Deus não permita, eu ainda teria ele, o meu marido.

Mas a minha imaginação simplesmente falha quando tento imaginar um futuro além da morte do meu marido. É claro que eu teria que viver. Tenho quatro filhos, uma hipoteca, um trabalho. Mas não consigo imaginar qualquer alegria sem o meu marido.

Não acho que as outras mães do Mommy and Me se sentem da mesma forma. Sei que elas ficariam absolutamente devastadas se por acaso se vissem viúvas. Mas qualquer uma delas sacrificaria qualquer coisa, incluindo os maridos, pelos filhos.

Será que sou uma mãe ruim por culpa do meu marido? Talvez ele simplesmente inspire uma adoração mais absoluta do que outros maridos. Ele cozinha, limpa e cuida das crianças pelo menos cinquenta por cento do tempo.

Se a forma mais erótica de carícias preliminares para uma mãe de filho pequeno é, como já ouvi algumas mulheres alegarem, encher a lavadora de pratos ou varrer o chão, então meu marido é um mestre da sedução.

Ele é bonito, brilhante e bem-sucedido. Mas também pode ser distraído, antissocial e arrogante. Dança mal, sabe demais sobre a política dos klingons e decorou mais letras do Yes do que deveria. No fim das contas, não é tão melhor do que outros homens. A culpa deve ser minha mesmo.

Estou tentando me lembrar daqueles primeiros dias e semanas depois de dar à luz. Sei que meu desejo sexual pelo meu marido demorou um pouco para voltar. Eu me lembro de não querer fazer amor. Não queria nem me aconchegar nele. Às vezes tinha a sensação de que se a mão do meu marido roçasse sem querer no meu seio quando estava tentando pegar o saleiro, eu a cortaria fora com a faca de manteiga.

Mesmo agora, nem sempre estou com humor para a coisa. Quando as crianças vão para a cama, estou tão sem energia quanto qualquer mãe que passou o dia trabalhando, levando os filhos de um compromisso para o outro, construindo castelos de Lego e comprando a chuteira de futebol precisamente correta. Também sou uma leitora compulsiva. Some o cansaço à obsessão pelos livros, e você poderia ter uma situação em que ninguém consegue fazer sexo de jeito nenhum. Só que quando olho meu marido de relance, pelo canto do olho — os ombros macios e arredondados, os olhos azuis aumentados pelos óculos de leitura — fecho o romance que estou lendo.

Às vezes, acho que estou sozinha nessa obsessão pelo meu cônjuge. Às vezes, acho que o meu marido não se sente da mesma forma. Ele ama as crianças de um modo que uma mãe supostamente deveria amar. Ele as coloca no centro do seu mundo. Mas o meu marido é homem e, portanto, possui uma libido forte. Ter encontrado algo que me tire do lugar de sol do universo dele não significa que ele queira fazer menos amor.

E ainda assim, ele diz que eu estou errada. Diz que me ama como eu o amo. De vez em quando, fugimos das crianças por alguns dias. Conversamos sobre o nosso amor, sobre como amamos nossos corpos e nossos cérebros, sobre as coisas que nos fazem felizes no nosso casamento.

Durante o curso dessas conversas soltas e arrebatadoras, nos tocamos, começamos a fazer amor, paramos.

E depois meu marido vai dizer que nós, ele e eu, somos o centro do que ele mais preza, que nossos filhos são satélites, amados, mas tangenciais. Ele parece inteiramente imperturbado por me amar desse jeito. Amar mais a mim do que às crianças não o perturba. Não faz com que se sinta um mau pai. Ele não sente que me amar mais do que as ama é uma espécie de infidelidade.

E acho que eu também não. Eu não deveria usar essa expressão infeliz “mãe ruim”. No mínimo deveria assumir que, no fim das contas, sou boa o bastante. E sei de uma coisa: quando olho ao redor da sala, para as outras mulheres no grupo, sei que não trocaria de lugar com nenhuma delas.

Gostaria que algum bom sociólogo publicasse um estudo definitivo em que os pais estão desesperada e ardentemente apaixonados, em que os pais se amam mais do que amam os filhos. Seria maravilhoso se pudesse ser estabelecido, de uma vez por todas, que os frutos desses casamentos são mais bem-sucedidos, mais felizes, vivem mais e têm vidas mais saudáveis do que os filhos cujas mães neles concentram seus desejos e paixões.

Mas mesmo com a grande probabilidade de que um estudo como esse não seja feito, mesmo se eu acabar um dia encarando um ajuste de contas no qual os meus filhos, que Deus não permita, se tornem viciados em heroína, ou, que Deus não permita, sejam incapazes de criar vínculos decentes e acabem vagando de um relacionamento insatisfatório para outro, ou, que Deus não permita, outras coisas terríveis demais até para imaginar se abatam sobre eles, não consigo me arrepender por olhar para meu marido e ainda sentir a mesma onda de desejo que sentia doze anos atrás, quando o vi pela primeira vez, parado na portaria do meu prédio, com um buquê de íris roxas na mão.

E se meus filhos se ressentirem de serem luas em vez de sóis? Se eles me censurarem por não tê-los amado o bastante? E se me chamarem de péssima mãe?

Vou responder que desejo a eles um amor como o que eu tenho pelo pai deles. Vou dizer que eles são meus filhos, e que merecem amar e serem amados daquele jeito. Vou dizer para não se contentarem com nada menos do que o que viam quando olhavam para mim, olhando para ele.

Ayelet Waldman é autora de A Really Good Day e outros livros. Ela mora em Berkeley com o marido e os filhos. Este relato foi publicado em março de 2005.