Modern Love
Minha primeira lição sobre maternidade
MINHA PRIMEIRA LIÇÃO
SOBRE MATERNIDADE
ELIZABETH FITZSIMONS
V I A CICATRIZ NA PRIMEIRA VEZ EM QUE TROQUEI A FRALDA de Natalie, apenas uma hora depois que o diretor do orfanato me estendeu a menina em um salão de festas de um hotel em Nanchang, a capital de uma província no sudeste da China.
Apesar do calor forte e da umidade, as cuidadoras tinham vestido Natalie com duas camadas de roupas e, quando as despi suadas, e tirei a fralda, encontrei a pior assadura que eu já tinha visto, e uma cicatriz de cinco centímetros, na base da espinha de Natalie, atravessando as marcas vermelhas na pele descamada.
O dia seguinte, quando o governo chinês completaria a adoção, também seria o primeiro aniversário de Natalie. Fizemos uma festa para ela naquela noite, com a presença de famílias que tínhamos conhecido e de representantes da agência de adoção, e Natalie lambeu a cobertura do bolo do meu dedo. Mas estávamos preocupados com um ronco no peito dela, e ainda havia a cicatriz. Assim, depois da festa, meu marido, Matt, pediu à nossa agência de adoção que mandasse o médico.
Também tínhamos outras preocupações. Natalie estava magra e pálida, e não conseguia se sentar ou segurar uma mamadeira. A menina tinha apenas dois dentes e quase nenhum cabelo, e não sorria. Mas eu já havia imaginado que uma situação assim pudesse acontecer. Minha irmã e meus dois irmãos foram adotados na Nicarágua — os meninos ainda bebês —, e quando eles chegaram na nossa casa cheiravam mal, tinham diarreia, estavam cheios de sarna e mal conseguiam sustentar a cabeça erguida. Mas esses problemas logo desapareceram.
Acreditei que Natalie também logo fosse ficar bem. Havia claramente uma luz por trás daqueles grandes olhos escuros. Ela apoiou a cabeça contra o meu peito, no canguru em que eu a carregava, e levantou os olhos para o meu rosto, os lábios se abrindo quando se inclinou para trás, como se soubesse que agora estava segura.
Ela seria a nossa primeira filha. Tínhamos definido anos antes em nossos corações que adotaríamos uma menina, bebê, na China, quando eu estava fazendo uma matéria para um jornal sobre um prefeito local que voltara para casa com uma filhinha chinesa. Mas achamos que a adoção viria mais tarde. Depois que eu ficasse grávida.
Só que eu nunca fiquei grávida. Depois de dois anos de tentativas, estava cansada de me sentir sem esperança, de me arrastar por um caminho sem saber como terminaria. Mas eu sabia como o caminho da adoção terminaria: com um bebê.
Assim, iríamos primeiro para a China e depois tentaríamos ter um filho biológico. Mergulhamos de cabeça em um processo de preparação para a nossa candidatura à adoção que durou meses, abrimos a nossa vida para que fosse escrutinada até que um dia tínhamos a foto da nossa filha na porta da geladeira. Catorze meses depois de decidirmos adotar, estávamos na China.
E agora estávamos em um quarto de hotel, com um médico chinês, um senhor, que não falava muito bem o nosso idioma. Depois de auscultar o peito de Natalie, ele disse que era bronquite. Então virou-a de bruços e viu a cicatriz.
O médico franziu o cenho e pediu um cotonete e sabonete. Ele molhou uma das pontas do cotonete no sabonete e enfiou no esfíncter de Natalie, que declarou estar “frouxo”. O médico desconfiava que tivessem removido um tumor da menina, e se perguntou em voz alta se ela teria espinha bífida, antes de finalmente declarar que Natalie teria que ser examinada no hospital.
Dois táxis levaram a todos nós para lá e, enquanto esperávamos por notícias, tentei resgatar pensamentos positivos: lembrei do quarto que tínhamos pintado de amarelo-claro para receber Natalie, e do berço com lençóis do ursinho Pooh. Mas a minha mente se desviou desses pensamentos quando vi a mulher da agência de adoção em uma discussão acalorada em chinês com um dos médicos, e logo depois com alguém ao celular. Imploramos a ela por informação.
— Não é bom — disse a mulher.
Um exame de tomografia computadorizada confirmou que tinha havido um tumor que alguém, em algum lugar, removera. O trabalho foi sofrível e tinha provocado danos nos nervos. E, conforme Natalie crescesse, seu estado iria piorar e ela acabaria paralisada da cintura para baixo. Também não teria mais controle sobre a bexiga e os intestinos — e isso já começara a acontecer, como indicava o esfíncter frouxo. Sim, a menina tinha uma forma de espinha bífida, assim como um cisto na espinha.
Olhei para meu marido, chocada, esperando que ele me dissesse que eu tinha entendido alguma coisa errada. Mas ele só balançou a cabeça.
Eu o abracei e chorei em seu peito, furiosa com a sensação de que formar uma família parecia impossível para nós, e pelo fato de a vida já ter sido tão difícil para Natalie.
De volta ao hotel, exigimos respostas das mulheres da agência. Por que aquilo não estava na ficha médica de Natalie? Como uma cicatriz daquele tamanho não fora percebida? A cicatriz tinha cinco centímetros, pelo amor de Deus.
Elas balançaram a cabeça. Encolheram os ombros. Se desculparam.
Então, ofereceram um modo de reparar aquilo.
— Em casos como esse, podemos arrumar outro bebê para vocês — disse a mulher que estava no comando.
O resto do processo seria acelerado, e voltaríamos para casa na data prevista. Simplesmente iríamos embora com uma menina diferente.
Meses antes, quando preenchemos formulários perguntando que tipo de deficiências seriam aceitáveis em uma possível adoção — com o que, em outras palavras, nós achávamos que conseguiríamos lidar: HIV, hepatite, cegueira? Aceitamos apenas alguns problemas mais brandos, que sabíamos que poderíamos tratar rapidamente com atendimento médico adequado. Como Matt escreveu em nosso formulário: “Esse será o nosso primeiro filho, e achamos que precisamos ter mais experiência para lidar com algo mais sério.”
Agora, estávamos diante da possibilidade de cirurgias, cadeiras de rodas e bolsas de colostomia. Imaginei a nossa casa em San Diego com rampas de acesso às portas. Vi as nossas vidas sendo totalmente devotadas aos cuidados com ela. Como conseguiríamos?
Ainda assim, como conseguiríamos deixá-la? Se eu tivesse dado à luz uma criança com aqueles problemas, eu não a teria deixado no hospital. Embora uma amiga, mais tarde, fosse me dizer, “Ora, mas isso é diferente”, para mim não era.
Eu me imaginei embarcando no avião com alguma criança substituta sem rosto, então explicando para os amigos e para a família que aquela não era a Natalie, que tínhamos deixado Natalie na China porque ela estava estragada demais, que o acordo tinha sido um bebê saudável, e ela não era saudável.
Como eu iria me encarar? Como iria conseguir esquecer? Estaria sempre imaginando o que teria acontecido com Natalie.
Eu sabia que aquele era o meu teste, o valor da minha vida destilado em um momento. Eu já estava balançando a cabeça dizendo “Não”, antes mesmo que elas terminassem de explicar. Não queremos outro bebê, disse a elas. Queremos o nosso bebê, a que está dormindo bem ali.
— Ela é nossa filha — falei. — Nós a amamos.
Matt, que estava sentado na cama, tirou os óculos, secou as lágrimas e assentiu, concordando.
Mesmo assim, tivemos uma longa e assustadora noite, imaginando como conseguiríamos lidar com aquilo. Liguei para minha mãe em lágrimas e contei a ela o que tinha acontecido.
Houve uma longa pausa do outro lado a linha.
— Ah, meu bem.
Eu soluçava.
Ela esperou até eu recuperar o folego.
— Não seria errado você voltar para casa sem ela.
— Por que você está dizendo isso?
— Eu só queria absolvê-la. O que você quer fazer?
— Quero pegar o meu bebê e sair daqui — falei.
— Ótimo — disse minha mãe. — Então é isso o que deve fazer.
De manhã, com os olhos injetados e ardendo, decidimos que seríamos felizes com a nossa decisão. E realmente nos sentíamos felizes. Dissemos a nós mesmos que excelentes cuidados médicos talvez aplacassem algumas das piores aflições. Era o melhor que poderíamos esperar.
Mas dois dias depois de voltarmos a San Diego — antes mesmo de termos tempo de levar Natalie ao pediatra —, as coisas tomaram mais um rumo alarmante.
Enquanto jantava em sua cadeira alta, Natalie teve uma convulsão — a cabeça dela caiu para a frente, então foi jogada rapidamente para trás, ela revirou os olhos e suas pernas e braços se esticaram com força. Eu a tirei do cadeirão, entreguei-a para Matt e liguei para a emergência.
Quando os paramédicos chegaram, Natalie estava alerta e estável, mas logo sofreu uma segunda convulsão no pronto-socorro. Contamos aos médicos o que tínhamos descoberto na China e eles pediram uma tomografia computadorizada do cérebro.
Horas mais tarde, uma das médicas do pronto-socorro puxou uma cadeira e disse, muito séria:
— Vocês devem saber que alguma coisa está errada com o cérebro dela, certo?
Nós a encaramos. Também havia alguma coisa errada com o cérebro dela, além de todo o resto?
— Bem — nos disse a médica —, ela tem atrofia cerebral.
Peguei uma caneta na bolsa, enquanto a médica comparava a situação de Natalie à síndrome de Down, e dizia que um lar amoroso poderia fazer toda a diferença. Estava claro, acrescentou ela, que tínhamos esse tipo de lar.
Ela nos deixou e embalei Natalie, que estava apagada por causa da medicação anticonvulsiva. A boquinha estava aberta, e eu me inclinei para a frente, sentindo o hálito doce, que cheirava a leite de soja.
Será que seríamos capazes de conversar uma com a outra? Ela me contaria os seus segredos? Riria comigo?
Fosse qual fosse o caso, eu a amaria e ela saberia disso. E isso teria que bastar. Agradeci a Deus por não termos deixado Natalie na China.
Ela foi internada e passamos uma noite de sono entrecortado ao seu lado. Pela manhã, o chefe da neurocirurgia apareceu. Quando pedimos mais informações, ele disse:
— É mais fácil eu mostrar a vocês.
No departamento de radiologia, na sala de análise dos exames, ele apontou para a tomografia computadorizada e nos disse que a médica do pronto-socorro se equivocara, que Natalie não tinha atrofia cerebral. Ela era fraca e estava com o desenvolvimento atrasado, mas tinha coordenação óculo-manual e o havia observado com atenção enquanto ele a examinava. Ele precisaria fazer uma ressonância magnética para ter um diagnóstico melhor. Pedimos a ele que fizesse imagens da espinha de Natalie também.
Ele voltou com outras notícias incríveis. A ressonância magnética tinha descartado as síndromes cerebrais que o estavam preocupando. E não havia nada errado com a espinha de Natalie. Ela não tinha espinha bífida. Não ficaria paralisada. Ele não conseguiu acreditar que alguém pudesse ter dado um diagnóstico desses a partir da tomografia computadorizada de baixa qualidade feita na China. O médico concordou que provavelmente tinha havido um tumor, e que aquilo precisaria ser monitorado, mas ela provavelmente ficaria bem. O ano seguinte nos diria.
Haveria outros sustos, mais convulsões, e muita fisioterapia para ensinar Natalie a se sentar, a engatinhar e a andar. Ela deu seus primeiros passos em um dia na praia, aos vinte e um meses, com a barriguinha cheia de tacos de peixe.
Hoje, Natalie tem quase três anos, seus cabelos castanhos são cheios, os dentes brilham e os olhos cintilam. Ela faz natação, frequenta uma creche e insiste em usar sandálias floridas para dançar. Digo a ela:
— Ahhhh, Natalie.
E ela responde:
— Ahhhh, mamãe.
E eu sinto lágrimas de felicidade marejarem meus olhos.
Às vezes, quando estou ninando-a para dormir, eu me inclino para a frente e inspiro seu hálito, que agora cheira a pasta de dente de tutti frutti e ao jantar que preparei enquanto ela ficava sentada no cadeirão, cantando para o cachorro. E fico impressionada por essa menininha ser minha.
É tentador achar que a nossa decisão foi validada pelo fato de tudo ter terminado bem. Mas, para mim, não é esse o ponto. Nossa decisão foi certa porque ela era nossa filha e nós a amávamos. Não teríamos escolhido os fardos que imaginamos que teríamos — na verdade, declaramos de antemão a nossa inabilidade para lidar com eles. Mas somos mais fortes do que pensamos.
Elizabeth Fitzsimons é vice-presidente de liderança e empenho na Câmara Regional do Comércio de San Diego, e de sua afiliada, a LEAD San Diego. É uma das diretoras da Biblioteca de San Diego e membro do conselho da Jacob & Cushman San Diego Food Bank, e mora em San Diego com o marido, a filha e dois filhos gêmeos. Este relato foi publicado em maio de 2007.