Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 14 de 47

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Modern Love

Escute a marcha nupcial com muita frequência e vai começar a andar no mesmo ritmo

LARRY SMITH

 

S IM, ESTÁVAMOS EM CIMA DE UMA ROCHA IDÍLICA, EM UMA enseada digna de cartão-postal na costa da Nova Inglaterra. Está certo, eu tinha um anel — sete na verdade, nenhum com diamantes. Tudo bem, havia agitação e nervosismo e a garrafa de champanhe “muito” sorrateiramente escondida na gaveta de legumes da geladeira, no chalé. Mas vamos deixar uma coisa clara: eu não disse as palavras. Não precisei fazer o pedido. Ela não precisou responder. Não importava.

Quer se casar comigo? Quem quer saber? Quem se importa? Eu não. Nem ela. Sinceramente, há mais alguém cuja opinião importe?

Estávamos juntos havia sete anos. Com os avanços da medicina, as galinhas caipiras e as aulas de Pilates poderiam ser mais uns bons cinquenta, talvez sessenta anos, na minha estimativa. Não precisávamos de um pedaço de papel para tornar o que tínhamos mais real. O que precisávamos era aprender espanhol e ir surfar na Costa Rica. Precisávamos comprar um apartamento juntos e debater sobre luminárias. Talvez precisássemos até procriar. Mas não precisávamos casar.

Isso perturbava os suspeitos de sempre (avós, mães). Mas também, para nossa surpresa, preocupava os que esperávamos que abraçassem o nosso estilo de vida “anticonvencional” (o que tinha piercing, o gay, os irmãos mais novos). Em uma competição de luta feminina em Daytona, na Flórida, um ciclista grisalho disse que ela era louca (“O que está fazendo com esse cara? Ele tem dinheiro?”) e me chamou de idiota por não selar o compromisso (“É melhor você segurar firme, garoto, antes que alguém a leve embora”).

Qual era exatamente o problema? Não tínhamos problema.

Aquilo não era um posicionamento político. Fomos a vinte e sete casamentos — vinte e sete! — nos nossos sete anos juntos. Brindamos, dançamos com primos isolados, persuadimos garçons a servirem mais bebida. Ninguém poderia nos acusar de não apoiar, com gosto, essa tradição consagrada.

Também não era resultado de traumas familiares. Meus pais começaram a namorar no ensino médio e estão casados há quarenta anos, para o bem e para o mal. Os pais dela se divorciaram quando ela estava no ensino médio — não foi o ideal, mas não era exatamente fora do comum para alguém nascido em 1969, nem, no caso dela, motivo para grandes gastos com terapia mais tarde.

E não era uma postura descolada, pós-moderna. Apesar do mito popular, nunca houve um momento em que achei que me casar era ceder às convenções. Na verdade, eu sempre presumi que me casaria.

Ela lhe diria que seus sonhos de garota nunca envolveram um homem erguendo-a do chão, enfiando uma pedra no dedo dela, e fazendo-a percorrer a nave de uma igreja. Ela lhe diria que sempre foi determinada e independente — e que nunca esperou permanecer tanto tempo em um relacionamento. Ela lhe diria que a coisa toda tem sido uma surpresa agradável, que ela fica impressionada por estar funcionando tão bem. Não vejo razão para mexer em time que está ganhando.

Corta para a noite da véspera do nosso casamento: vamos dizer maio de 2006. Uma brisa fresca recepciona os convidados no jantar de ensaio do casamento, em um café da moda em Key West. A conversa e a interação silenciam quando um pastiche divertido de nossas vidas separadas é projetado na frente da sala. Começa o vídeo.

O meu é o primeiro. A juventude de Dennis, o Pimentinha. Uso inapropriado do sistema de alto-falantes da escola onde cursei o ensino médio, que faria as donas de casa da série Desperate Housewives enrubescerem. Verões malucos em Atlantic City, na casa da minha avó, quando eu ficava fora o tempo todo, com uma série de brinquedos que ela e a sua melhor amiga, Bunny Bookbinder, não aprovavam. Um tema emerge: garotas. Ele adora garotas. Baixas, altas, pequenas, grandes, pequenas. Brancas, negras, asiáticas. Mais velhas, mais novas. Laurence David Smith é louco por garotas. E veja bem, ele mesmo não é grande coisa de se olhar, por isso tem que se esforçar muito. Mas ele adora. Veja ele correndo atrás! Por que desistir disso algum dia? Agora nós o vemos com trinta e poucos anos, morando em Nova York — o melhor lugar na terra para um cara de aparência decente, com um bom emprego, e nenhum problema visível com drogas ou com gerenciamento de raiva, conhecer muitas mulheres. Ele poderia continuar assim por anos — cinco! dez! — antes de assentar com uma mulher escolhida dentro de seu objetivo demográfico. Divertido!

Mas a história de vida dela é para agradar multidões. Aqui está ela, sendo concebida por pais hippies, na San Francisco de 1969. A breve, mas memorável carreira como modelo infantil. O lento, mas firme nascimento de uma personalidade obstinada e independente, e a indiferença aos garotos durante o ensino médio. Os anos em uma universidade só para mulheres. Os empregos em bares agitados. Explorando a Indonésia. Amor perigoso. Não se engane, ela é sempre quem está sendo assediada (e raramente cede) nesse filme. Tema: não me prenda. Casamento? Não aposte o dinheiro do seu almoço nisso.

O homem que ama mulheres e a mulher que não quer ser encurralada — dá um grande filme. Você diz: um tigre nunca muda suas listras. Nós dizemos: juntos, somos felizes. Estudos dizem: se não está quebrado, não case.

O que aconteceu?

Não sei direito. Meu caminho para acabar carregando sete anéis de ouro (um para cada ano que estávamos juntos) em um saco hermeticamente fechado, enquanto eu manejava com cuidado o caiaque para sair daquela rocha, foi sutil, uma combinação de perspectiva pessoal, um impulso emocional difícil de definir e um instinto que até agora não consigo definir direito.

Nunca houve um ponto de virada, um momento eureca em que percebi que fazer a coisa mais tradicional possível era uma boa ideia. Alguns caras dizem que sabem na mesma hora que Ela é a Escolhida. Não eu. Não importa se é um suéter ou um software, demoro algum tempo até saber se quero ficar com alguma coisa — esse é um dos motivos pelos quais eu sempre guardo recibos. Não posso dizer que houve um momento em que olhei dentro dos pálidos olhos azuis da garota que conheci enquanto comia carne moída com batatas em um café em San Francisco e pensei, É isso.

Agora, depois de oito anos, eu sei. Quando eu soube? Foi pelo modo como ela me ajudou a lidar com a morte do meu avô? O alívio que senti quando ela finalmente atendeu ao celular no 11 de Setembro? Aquela caminhada longa em Pont Reyes? Foi porque ela chorou quando o Sox finalmente venceu? Pelo modo com que o meu sobrinho a recebe como uma estrela do rock quando ela entra na sala? Talvez eu devesse ter sabido desde o começo, naquela manhã da nossa viagem atravessando o país, quando ela exigiu uma última ida ao Arthur Bryant’s para meia porção de costela para o café da manhã (e depois de dez minutos comendo, me disse, “Ei, amor, por que não abre uma cerveja?”). Ou eu não soube até sete anos depois, quando nos vimos forçados a ficar separados por mais de um ano? Quem poderia dizer? Não grandes momentos, talvez, mas também, ou mais ainda, nos pequenos momentos.

Uma coisa eu sei: aqueles vinte e sete casamentos tiveram muito a ver com isso. Foram alegres, corretos, fantásticos (como Woody Allen disse sobre orgasmos, “mesmo o pior já está certo”). A ideia de colocar a nossa marca pessoal em uma tradição que àquela altura já tínhamos visto em tantas formas — incluindo, mas não apenas, missas, lagostas assadas, pombas brancas, chupás explodindo, bolhas de sabão gigante, nadar nus no frio congelante, e uma semiorgia — se tornou mais atraente, e não menos, a cada um.

Mas essa é a festa, e nunca houve qualquer dúvida de que saberíamos como dar uma grande festa para celebrar nossa perseverança. Se casar — com os exames de sangue e cartões com monograma do casal e deduções de imposto de renda — é muito mais do que isso.

Como eu disse, sempre achei que me casaria, até começar a perceber que isso talvez não acontecesse, ou ao menos que eu não teria que fazer isso. Tive relacionamentos longos antes e zero pressão para abordar o assunto. Ninguém se importou menos do que a minha noiva, o que a torna a Mulher do Ano para os meus amigos, que estão sentindo o calor de parceiras que querem ver uma linha de chegada tangível e cintilante. E embora eu também seja louco pela sua força e independência imperturbáveis, também vejo o lado negativo da insegurança: essa pessoa realmente precisa de mim? Ela usa sua autossuficiência determinada como uma medalha de honra, que será jogada fora se algum padre, juiz ou camarada que tenha conseguido uma licença temporária para fazer o casamento, começar a tagarelar sobre o poder da união?

Então, resolvi essa questão (ela precisa de mim, dã; e qualquer um que nos veja interagir sabe quanto eu preciso dela). E resolvi qualquer outra possível questão pelo modo como ela belisca a pele do meu cotovelo durante o brinde “não acredito que estamos ouvindo isso” do pai da noiva. E pelo aperto delicado na minha mão durante a linda cerimônia, e pelas lágrimas silenciosas que caíram em cima dos nossos dedos. E ainda pela expressão ligeiramente diferente que vi nos olhos dela na última vez em que um absoluto estranho questionou a minha sanidade por não amarrar logo aquela moça. E, lentamente como sempre, ainda que com toda a certeza, entendi: ela quer se casar. E eu quero me casar. Com ela. Não há nada menos original do que o casamento — essa talvez seja a ideia menos original que já tive em muito tempo —, mas precisei chegar a isso nos meus próprios termos. E depois de todos esses anos (tantos, que as pessoas há muito pararam de perguntar), uma coisa que eu realmente tenho a meu favor é o elemento surpresa.

Então, que diabo, vamos fazer logo isso. Ainda não acredito que o casamento seja o único caminho para a felicidade, ou para a completude como pessoa. Mas é a coisa certa para nós. Assim, eu a pedi em casamento. Ou, para ser mais preciso, o que eu disse, sentado do lado dela, naquela ilha boba, em uma cena saída diretamente da revista de noivas Bride, foi algo sobre amor e compromisso e não ir embora, e aqui estão esses anéis para você, e se realmente quiser tornar isso oficial, tudo bem, se não quiser, tudo bem, também. E se quiser um casamento, estou dentro, se não quiser, quem precisa disso. Ela ainda não tinha entendido exatamente o que eu estava pedindo, mas quando parou de rir, aceitou. Então tirou a roupa e se jogou na água.

Meus amigos brincam que eu já estive em vinte e sete casamentos e agora finalmente é hora de um funeral... o da minha solteirice. Que, sim, é triste como um funeral, mas essa morte não é um trágico acidente. Olho para isso mais como uma eutanásia que estou fazendo comigo mesmo, uma morte piedosa.

Estou pronto, meu amor. Desligue os aparelhos.

Larry Smith é criador do projeto Six-Word Memoir® e da série de livros, que recentemente publicou a coleção Six Words Fresh Off the Boat: Stories of Immigration, Identity, and Coming to America. Ele mora em Columbia, Ohio. Este relato foi publicado em dezembro de 2004.