Modern Love
A mãe sem-teto do DJ
A MÃE SEM-TETO
DO DJ
DAN SAVAGE
N ÃO HAVIA GARANTIA DE QUE UMA ADOÇÃO ABERTA NOS faria conseguir um bebê mais rápido do que optar por uma adoção fechada, ou no exterior. Na verdade, a nossa agência nos alertou que, por sermos um casal gay, talvez tivéssemos que esperar por um longo tempo. Esse ponto ficou claro quando as duas mães biológicas com quem falamos no seminário de adoção aberta, com duração de dois dias, do qual era exigido que participássemos, disseram que a principal preocupação delas para os bebês que carregavam era encontrar “lares bons e cristãos”. Mas decidimos seguir em frente e tentar uma adoção aberta de qualquer modo. Se nos tornássemos pais, queríamos que os pais biológicos do nosso filho fizessem parte da nossa vida.
Por fim, não tivemos que esperar muito. Poucas semanas depois de terminarmos de preencher toda a papelada, recebemos uma ligação da agência. Uma menina de dezenove anos que morava na rua — uma sem-teto por escolha, grávida de sete meses por acidente — tinha selecionado a nós entre os aspirantes a pais pré-selecionados pela agência. No dia em que encontramos com ela, a agência sugeriu que nós três saíssemos para almoçar — ora, nós quatro se contarmos com Wish, o pastor-alemão dela... Cinco, se contarmos com o bebê que ela estava carregando. Estávamos cheios de perguntas sentimentais, mas ela estava desconfiada, só interessada em fatos: não quis fazer um aborto, não poderia criar o filho nas ruas. Restava, então, a adoção. E ela estava disposta a passar por cima de todos os passos da agência — que incluíam reuniões de aconselhamento semanais e algumas poucas reuniões conosco — porque também queria fazer uma adoção aberta.
Estávamos com ela quando o DJ nasceu. E estávamos no quarto dela no hospital dois dias mais tarde, na hora dela entregar o bebê. Antes que pudéssemos levar o DJ para casa, tivemos que literalmente tirá-lo dos braços da mãe enquanto ela ficava sentada na cama, chorando.
Eu tinha trinta e três anos quando adotamos o DJ, e achava que sabia como era um coração partido, mas não sabia nada. Sabe como é um coração partido? É a imagem de uma adolescente chorando de soluçar, enquanto entrega um bebê de dois dias, de quem não pode tomar conta, para um casal que ela tem esperança que possa.
Pergunte a um casal com esperança de adotar um filho o que eles mais querem no mundo, e eles vão lhe dizer que só desejam uma coisa na vida: um bebê saudável. Mas muitos casais querem algo mais: querem que os pais biológicos da criança desapareçam permanentemente, assim, nunca haverá qualquer dúvida sobre quem são os pais “de verdade” daquele filho. No pesadelo coletivo de todos os pais adotivos, discutido infinitamente em fóruns de adoção na internet, e durante seminários de adoção, os pais biológicos aparecem na porta deles, com os advogados a reboque, exigindo o filho de volta.
Mas nos parecia que todos os filhos adotados eventualmente vão querer saber por que foram adotados e, mais cedo ou mais tarde, vão começar a fazer perguntas. “Eles me amavam?” “Por que se livraram de mim?” Nos casos de adoção fechada não há muito que os pais adotivos possam dizer. A verdade é que eles não sabem as respostas. Nos saberíamos.
Como a maior parte da juventude que escolhe viver sem-teto, a mãe biológica do nosso filho segue por um circuito nacional. Portland ou Seattle no verão; Denver, Minneapolis, Chicago e Nova York no fim do verão e início do outono; Phoenix, Las Vegas ou Los Angeles no inverno e primavera. Então, de carona, ou viajando como clandestina de trem, de volta para Portland, de onde ela é, e começa tudo de novo. Durante os primeiros anos depois que adotamos o DJ, a mãe dele combinou de ir até Seattle durante o verão para podermos ficar juntos. Quando ela estava em Seattle, mantinha contato por telefone. As ligações dela costumavam ser curtas. Ela perguntava como estávamos, fazíamos a mesma pergunta, então colocávamos o DJ para falar ao telefone. Ela não era efusiva, e ele não sabia o que dizer. Mas era importante para o DJ que a mãe dele ligasse.
Quando o DJ tinha três anos, a mãe parou de ligar regularmente e de visitar. Quando ela finalmente ligava, normalmente era com notícias perturbadoras. Uma vez foi o namorado que morreu de intoxicação alcoólica. Eles estavam dormindo em uma calçada, em Nova Orleans, e quando ela acordou, ele estava morto. Outra vez, ela ligou depois que o namorado seguinte voltou a usar heroína. Logo as ligações pararam e começamos a nos preocupar se ela estava viva ou morta. Depois de seis meses sem qualquer contato da parte dela, começamos a ligar para hospitais. Então para os necrotérios.
Quando o aniversário de quatro anos do DJ chegou e passou sem nem uma ligação dela, eu me convenci de que alguma coisa tinha acontecido na estrada, ou em um pátio de trem em algum lugar. Ela só podia estar morta.
Uma noite, pouco depois do aniversário de quatro anos do DJ, eu estava arrancando o papel de parede em um quarto extra da casa. O melhor amigo dele, um garotinho chamado Haven, tinha passado a noite na nossa casa, e depois que a mãe de Haven passou para pegá-lo, o DJ arrastou uma cadeira para dentro do quarto e ficou assistindo enquanto eu arrancava tiras de papel de parede.
— Haven tem uma mamãe — disse ele de repente —, e eu tenho uma mamãe.
— Isso mesmo — confirmei.
Ele continuou.
— Eu saí da barriga da minha mamãe. Brincava com a minha mamãe no parque. — Então ele olhou para mim e perguntou: — Quando vou ver a minha mamãe de novo?
— Esse verão — respondi, torcendo para não estar mentindo. Estávamos em abril, e não tínhamos notícia da mãe do DJ desde setembro do ano anterior. — Vamos ver a sua mamãe no parque, exatamente como no verão passado.
Não a vimos naquele verão. Ou no outono, ou na primavera. Não sabia o que dizer para o DJ. Sabíamos que ela não o havia abandonado e que o amava. Mas também sabíamos que ela não estava ligando, e que poderia estar morta. Na verdade, eu estava convencido de que ela estava morta. Mas viva ou morta, não sabíamos muito bem como lidar com o assunto com o DJ. O que seria pior? Dizer que a mãe dele muito provavelmente estava morta? Ou que estava em algum lugar qualquer, mas não se importava o bastante com ele para aparecer ou ligar? E logo ele estaria fazendo perguntas mais complicadas. E se quisesse saber por que a mãe não o amava o bastante para tomar conta de si mesma? Para que pudesse viver o bastante para estar presente na vida dele? Assim, ela mesma poderia dizer a ele quanto o amava quando ele tivesse idade o bastante para se lembrar dela e saber o que significava amar?
Meu parceiro e eu conversávamos sobre esses assuntos tarde da noite, quando o DJ estava na cama, gratos por cada dia que passava sem o assunto da mãe sumida ter vindo à tona. Sabíamos que não conseguiríamos evitar ou driblar a questão depois que o verão chegasse em Seattle. Conforme as pessoas passavam, admitimos um para o ouro que aquelas adoções fechadas para as quais franzíamos o cenho antes começavam a parecer boas opções. Em vez de ser um mistério, a mãe do DJ era um conjunto de peculiaridades muito negativas. E em vez de lidar com as peculiaridades dos pais biológicos aos, digamos, dezoito ou vinte e um anos, como muitos filhos adotados, ele teria que lidar com elas aos quatro ou cinco.
DJ já estava começando a lidar com elas: na última vez em que a mãe o visitara, quando ele tinha três anos, DJ quis saber por que ela cheirava tão mal. Fomos pegos de surpresa e respondemos sem pensar muito. Explicamos que, como ela não tinha casa, não tinha como tomar banho ou lavar as roupas com frequência.
Percebemos a besteira que tínhamos feito antes mesmo do DJ começar a surtar. Afinal, o que pode ser mais aterrorizante para uma criança do que a ideia de não ter uma casa? Dizer a ele que a mãe escolhe morar na rua, que para ela as ruas eram a casa, não adiantou. Por meses, DJ insistiu que a mãe simplesmente teria que passar a morar com a gente. Tínhamos um banheiro, uma máquina de lavar roupa. Ela poderia dormir no quarto de hóspedes. Quando a avó aparecesse para nos visitar, ela poderia dormir na cama dele e ele dormiria no chão.
Acabamos tendo notícia da mãe de DJ de novo, catorze meses mais tarde, quando ela ligou de Portland, no Oregon. Não estava morta, era apenas desatenciosa. Tinha perdido a noção do tempo e não conseguiu chegar a Seattle antes que a cidade ficasse muito fria e úmida. E sempre que pensava em ligar, ou estava tarde demais, ou ela estava bêbada demais. Quando a mãe do DJ me contou que tinha chegado ao ponto em que ficava nauseada quando não bebia, eu sugeri gentilmente que talvez estivesse na hora de ela sair das ruas, parar de beber e de usar drogas, e começar a pensar no futuro. Consegui ouvi-la revirando os olhos.
O motivo para ela ter nos escolhido e não qualquer um de todos os casais hétero foi porque não parecíamos ter idade para ser pais. Ela não queria que começássemos a agir como pais dela agora, falou. Sairia das ruas quando estivesse pronta. Não estava com raiva e não ergueu a voz. Só queria se certificar de que estávamos nos entendendo.
DJ ficou feliz por ouvir a voz da mãe, e os catorze meses sem uma ligação ou uma visita foram esquecidos. Fomos até Portland para vê-la, ela se desculpou pessoalmente com o DJ, tiramos algumas fotos, e ela prometeu não desaparecer de novo.
Não tivemos notícia dela por um ano. Dessa vez, ela não estava bêbada. Estava na prisão, acusada de assalto. Ela já tinha sido presa antes, por curtos períodos, por vadiagem e invasão. Mas daquela vez era diferente — precisava da nossa ajuda. Ou o cachorro dela precisava.
Os namorados e companheiros de viagem da mãe do DJ estavam sempre desaparecendo, mas o cachorro dela, Wish, era a única presença constante em sua vida. Ter um cachorro grande complicava as caronas e as viagens clandestinas nos trens, é claro, mas a mãe do DJ é uma mulher pequenina e o cachorro garantia alguma proteção. E amor.
Uma noite já tarde, em Nova Orleans, do telefone de uma sala comum barulhenta na prisão, ela nos contou sobre uma discussão com outra pessoa sem-teto. Ele avançou para cima dela, e o Wish o mordeu. Ela disse que estava ligando porque, ao que parecia, não conseguiria ser solta antes que sacrificassem o Wish. Ela estava nervosa. Tínhamos que ajudar a salvar o Wish, implorou. Ela estava chorando, e aquela foi a primeira vez que a vi chorar desde aquele dia no hospital, seis anos antes.
Cinco semanas e 1.600 dólares depois, conseguimos não apenas salvar o Wish, mas também tirar a mãe do DJ da cadeia e fazer com que as acusações contra ela fossem retiradas. Quando conversamos ao telefone, eu a estimulei a se mudar para outro lugar. Três meses mais tarde, descobri que ela havia seguido o meu conselho — estava ligando de uma cadeia na Virgínia, onde tinha sido presa por invadir um pátio de uma estação ferroviária. O Wish estava bem, com amigos. Ela estava ligando só para dar um oi para o DJ.
Ouvi pessoas dizerem que escolher viver nas ruas é uma espécie de suicídio em câmera lenta. A essa altura, depois de já conhecer a mãe do DJ há seis anos, eu diria que isso é verdade. Tudo o que ela faz parece flertar com o perigo. Perdi a conta do número de amigos e namorados dela que morreram de overdose, de intoxicação alcoólica ou de hipotermia.
Conforme fica mais velho, o DJ está tendo uma imagem mais precisa da mãe, mas até agora isso não parece ser um problema. Ele a ama. DJ insiste que a foto de uma reunião de família a que comparecemos não está completa porque a mãe dele não está nela. Ele quer vê-la nesse verão, “mesmo se ela cheirar mal”, diz. Também estamos ansiosos para vê-la. Mas estou cansado.
Agora, vamos ao que-Deus-arranque-os-meus-dedos-fora-antes-de-eu-digitar-essa parte do relato: estou começando a ficar ansioso para que esse suicídio em câmera lenta chegue logo ao fim, não importa qual seja esse fim. Prefiro que termine com a mãe do DJ fora das ruas, em um apartamento em algum lugar, organizando a vida. Mas, à medida que fica mais velha, vai ficando mais difícil imaginá-la tomando essa decisão.
Muitas pessoas que se autodestroem não pensam duas vezes antes de também destruir os filhos no processo. Talvez a mãe do DJ soubesse que ia se autodestruir e amasse tanto o menino que quis se certificar de que ele não sairia machucado. Ela o deixou em um lugar seguro, com pais que escolheu para ele — embora tenha partido seu coração abrir mão do filho —, porque sabia que se o mantivesse por perto acabaria fazendo mal a ele também. Às vezes, me pergunto se essa resposta vai ser boa o bastante para DJ quando ele nos perguntar por que a mãe não se cuidou o necessário para permanecer no mundo para ele. Eu meio que duvido disso.
Dan Savage é autor de The Commitment: Love, Sex, Marriage, and My Family, do qual esse relato de setembro de 2005 foi adaptado.