Modern Love
Solteira e cercada por uma parede de homens
SOLTEIRA E CERCADA POR
UMA PAREDE DE HOMENS
SUSAN M. GELLES
À S VEZES FAÇO UMA ESPÉCIE DE JOGO DE PROVOCAR calafrios, no qual penso sobre como minha vida teria sido diferente se eu tivesse feito outras escolhas. Uma coisa leva a outra totalmente imprevisível.
Depois de passar a casa dos meus vinte anos como uma aspirante à música, frequentei a Escola de Direito na cidade de Nova York. Eu me formei devendo cem mil dólares em empréstimo estudantil. Por sorte, consegui um emprego em uma firma de Direito incrível, mas exigente, onde fui designada para compartilhar um escritório com um associado chamado Daniel.
Daniel e eu nos unimos como soldados que compartilham uma trincheira em tempo de guerra. Éramos ambos tímidos, mas trabalhar juntos dia e noite e nos fins de semana é uma boa maneira de quebrar o gelo. Ele me mandava e-mails falsos de advogados assustadores, e eu saltava de dentro de salas vazias no escritório para assustá-lo.
Não tínhamos nenhuma ligação romântica, mas conversávamos um com o outro sobre as nossas confusões amorosas. Concordávamos que socializar em ambientes sem uma organização formal era particularmente assustador. Por isso, nos escondíamos na nossa sala no escritório e evitávamos a hora do coquetel semanal da firma. A perspectiva de ter que conversar e agradar colegas de trabalho que não conhecíamos fazia com que nos encolhêssemos na defensiva.
Mas mesmo as melhores alianças em tempos de guerra acabam enfraquecendo. Depois de três anos, Daniel deixou a firma e se mudou para outra cidade. Demorei mais dois anos para quitar as minhas dívidas estudantis. Cerca de cinco segundos depois disso, fugi do campo de batalha e me juntei ao departamento jurídico de uma editora onde o ritmo de trabalho era mais lento.
Com mais tempo livre, reuni coragem e me inscrevi em um evento de solteiros, organizado por um grupo que promovia reuniões regulares para as pessoas se conhecerem. Eu estava com trinta e sete anos, em um ponto crucial da minha vida, e parecia que dali para a frente seria ladeira abaixo. Assim, deixei meu receio de lado e apareci na reunião seguinte.
Havia nove pessoas presentes — cinco homens e três outras mulheres, além de mim. Cada um de nós falou um pouco sobre si diante de um microfone. Então, veio a parte que eu sempre detestava: a socialização. Os organizadores do evento davam as orientações de sempre. Nenhum de nós deveria ser rude. Se alguém se aproximasse, deveríamos conversar com a pessoa por pelo menos um minuto.
Cadeiras foram arrastadas e nos levantamos. Vi um cara atraente e me aproximei dele. Ele sorriu, veio na minha direção, então se desviou para falar com a mulher que realmente tinha em mente. Vi um segundo cara e parti pra cima.
— Oi! — falei.
— Desculpe — respondeu ele, e continuou a andar.
Fui embora, jurando nunca mais comparecer a uma reunião de solteiros. Mandei um e-mail para Daniel, que respondeu que o mesmo grupo promoveria outra reunião dali a um mês, e eu deveria ir. Rá rá, pensei. Comecei a pesquisar sobre adoção solo e assinei contrato para comprar um pequeno apartamento em sistema de cooperativa.
Uma sexta-feira à tarde, algumas semanas depois, estava sentada diante da mesa do meu emprego abençoadamente tranquilo. Ali não havia necessidade urgente de pesquisa para um memorando, sintetizando uma pesquisa jurídica. Ninguém esperava que eu trabalhasse àquela noite. Eram tempos de paz no Direito para mim.
Decidi limpar minha caixa de entrada de e-mails. E lá estava: o e-mail de Daniel sobre a reunião para solteiros. O evento começaria às seis daquela noite mesmo, em Midtown Manhattan.
Eu estava usando uma blusa de flanela, jeans e tênis. Mas e daí? Eu não conheceria ninguém mesmo. E, afinal, quem precisava de amor? No entanto, talvez fosse divertido. Mas eu não teria que conversar com as pessoas? Você pode ir embora na hora que quiser, lembrei a mim mesma.
Aquele encontro tinha cerca de noventa pessoas presentes, que se sentaram na sala de reunião de uma escola de ensino médio. Demorou uma hora para passarem o microfone por todo mundo. Fiz anotações sobre o que certos homens diziam sobre si: esse era um empreiteiro que gostava de Shakespeare, aquele outro era advogado e gostava de ópera.
Então chegou a hora da temida socialização. Um homem de aparência furiosa se aproximou intempestivamente e exigiu saber como eu estava indo. Instantes depois, outro homem, esse com um sorriso fixo, me perguntou de que filmes eu gostava.
A socialização era para durar trinta minutos, mas eu não conseguiria fingir ser jovial e relaxada por tanto tempo. Se não fosse embora logo, começaria a contar histórias pessoais impróprias, como a da freira no ensino fundamental, que me disse que eu nunca conquistaria nada, porque falava muito baixo. Depois de conversar com mais alguns homens, sem sentir interesse por nenhum deles, corri para o banheiro e me tranquei dentro de um reservado.
Por que eu tinha me colocado novamente naquela situação? Era exaustivo. Talvez o amor fosse supervalorizado. Talvez o amor fosse só o que as pessoas alegavam sentir por qualquer um que as aturasse. Eu me encostei contra a parede e fechei os olhos. Conseguia ouvir as mulheres tagarelando, abrindo torneiras e dando descarga. Vou só esperar aqui, pensei, até a socialização acabar. Então volto e vejo se alguém anotou meu número de identificação para demonstrar interesse em sair comigo.
Voltei para a sala de reunião, mas descobri que a sessão de socialização ainda não tinha acabado. Na mesma hora, o advogado que gostava de ópera se posicionou na minha frente. Ele estava imaculadamente vestido em um terno, os cabelos escuros cortados bem curtos, os olhos castanhos penetrantes. Enquanto isso, eu poderia ter feito o papel do cavalariço que cuidava do cavalo dele.
— Oi! — falei. — Eu me lembro de você. Você é advogado.
— Sim — confirmou ele, a expressão do rosto ainda uma porta fechada.
— Também sou advogada. Trabalhava como litigante. Agora estou no departamento jurídico de uma editora. Que tipo de Direito você pratica?
— Imobiliário — respondeu ele, sem inflexão na voz.
— Ah. E você gosta de ópera. De que período gosta mais, ou de que compositor?
A expressão dele ficou mais suave.
— Gosto de Puccini.
Tive uma lembrança distante de mim, sentada em uma biblioteca musical, uma década antes, ouvindo uma ópera que achei terrível.
— Eu me lembro de ouvir Tosca uma vez, anos atrás — comentei. — Foi tão exagerado.
Seguiu-se uma longa pausa. Em algum lugar atrás do advogado, os organizadores convidavam as pessoas a voltarem a se sentar.
— Tosca é a minha ópera favorita — disse o advogado.
Foi tudo tão deliciosamente horrível: a socialização, a roupa que eu estava usando, a futilidade de tentar conhecer alguém. Mesmo quando eu tentava mostrar interesse em uma pessoa, acabava insultando-a sem querer.
Não consegui me conter e comecei a rir.
— Perdão — falei. — Provavelmente foi um disco arranhado. Ou eu estava rabugenta naquela tarde.
— Sem dúvida — retrucou o homem.
Voltamos todos para os nossos lugares, anotamos obedientemente o número de identificação das pessoas de que tínhamos gostado e entregamos nossos cartões de pontuação. Então, esperamos que o computador desse os resultados.
Eu fui compatível com o advogado, que se chamava Richard. Uma semana mais tarde, tivemos um belo jantar em um restaurante italiano. Richard usava outro terno impecável e eu estava de vestido. Perguntei:
— Se você não tivesse conversado comigo durante a etapa de socialização, ainda assim teria anotado o meu número de identificação?
— Ah, não — respondeu ele. — Eu nunca sairia com alguém com quem não tivesse conversado antes. — Richard inclinou a cabeça, se lembrando. — Foi difícil chegar até você àquela noite.
Sim, pensei, porque eu estava escondida no banheiro.
— Você estava cercada de homens — continuou ele.
Pobre iludido, pensei.
— Tive que atravessar uma parede de homens — disse Richard.
Decidi optar pela honestidade.
— Não havia uma parede de homens.
— Havia, sim! — insistiu ele.
— Eu estava me escondendo no banheiro — confessei.
— Havia uma parede de homens.
Provavelmente é assim o começo do amor: quando se vê alguém de um modo que desafia a realidade, mas que faz total sentido para você.
No nosso segundo encontro, fomos ao Metropolitan Opera e assistimos a Tosca. Saímos em meio à aglomeração do público presente para uma noite fria de outono. Mas as ruas laterais estavam quase vazias e nós caminhamos, conversando animadamente sobre como Scarpia era mau, e sobre o terrível destino que se abateu sobre Cavaradossi.
— É gentil da sua parte ter me perdoado por insultar a sua ópera favorita — comentei.
Richard encolheu os ombros, bem-humorado.
— Pelo menos você já tinha ouvido.
Continuamos a caminhar, demos as mãos e conversamos sobre musicais. De algum modo, nos vimos de volta à fonte, agora deserta, em frente à opera. Era meia-noite.
— Cante alguma coisa de Rodgers e Hart — pedi.
Richard pensou por um instante.
— “I’m wild again” — cantou. — “Beguiled again. A simpering, whimpering child again.”
Dois anos mais tarde, nos casamos. Mais de uma década depois disso, somos pais de meninos gêmeos de dez anos.
Quando me pergunto como consegui ter tanta sorte, penso: porque a minha vida na música não deu certo. Porque eu fui para uma Escola de Direito cara, mesmo não tendo dinheiro para pagar. Porque precisei de um emprego que pagasse bem. Porque a firma designou Daniel como meu parceiro no escritório. Porque Daniel me mandou aquele e-mail me lembrando da reunião de solteiros.
Mas o mais crucial, eu acho, é que saí do meu esconderijo no banheiro antes que fosse tarde demais.
Susan M. Gelles é escritora e mora com a família em Larchmont, Nova York. O relato dela foi publicado em dezembro de 2015.