Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 34 de 47

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Modern Love

Primeiro, conheci os meus filhos, então, a minha namorada. Há uma relação entre todos.

 

AARON LONG

 

S Ó CONHECI MINHA NAMORADA, JESSICA, DOZE ANOS depois de nossa filha, Alice, nascer. Deixe-me explicar. Há quase vinte e cinco anos, voltei de um ano ensinando Inglês no exterior, fui morar com minha mãe e, como não tinha qualquer perspectiva, passei a trabalhar como motorista de táxi. Um dia, vi em um anúncio de jornal que estavam procurando homens saudáveis, entre dezoito e trinta e cinco anos, para participar de um programa de doação de sêmen.

Doador é a palavra padrão da indústria, ainda que praticamente todos nós sejamos pagos. Quarenta dólares por uma ejaculada, foi o que recebi em 1994.

Por um ano, eu vendi meu esperma duas vezes por semana. Na época, estava em um relacionamento a longa distância, assim, me parecia uma boa válvula de escape. Quando contei para minha mãe, ela, de forma visionária, se perguntou em voz alta se aquela seria a única forma de vir a ter netos.

Hoje, os compradores de esperma visualizam perfis detalhados de potenciais doadores, enquanto na minha época eu não tive que dar muitas informações além da minha formação universitária, hobbies e histórico de saúde da família. Jessica e o parceiro dela na época me escolheram basicamente porque eu era escritor e músico.

Depois de um ano vendendo meu esperma, voltei a distribuí-lo de graça e me esqueci completamente da coisa toda. De vez em quando, o assunto de se eu tinha filhos vinha à tona, e eu brincava dizendo que provavelmente tinha uma penca. Eu assinara um contrato de sigilo abdicando de qualquer direito, e presumi que nunca haveria uma forma de a minha prole e eu nos encontrarmos.

Então, a internet aconteceu.

No início dos anos 2000, procurei online uma forma de encontrar minha prole e descobri o Donor Sibling Registry (Registro de Irmãos Doadores), mas não havia nenhuma pista ali e nunca voltei para checar de novo. (Eu tinha olhado cedo demais: minha prole começou a usar o site para encontrarem uns aos outros quando entraram na adolescência, nos anos 2010.)

Alguns anos atrás, comecei a ver anúncios do 23andMe, um serviço que analisa a sua saliva — você cospe em um tubo de ensaio e envia por correio para análise —, e lhe fornece informação sobre seus ancestrais, sua saúde e seus parentes, via DNA. A oportunidade era óbvia, mas presumi que as chances de encontrar os meus filhos fossem baixas. Procrastinei por meses antes que a curiosidade e vontade de saber me fizessem encomendar um kit.

Recebi os meus resultados de volta e pronto: eu tinha um filho, Bryce. Seu nome completo era incomum o bastante para que fosse fácil procurá-lo no Google, e a foto que encontrei se parecia o bastante comigo para que eu acreditasse que aquele estudante de Geografia fosse meu (meu?). Imaginei que ele tinha sido avisado da minha existência pelo 23andMe, passei uma semana ruminando antes de finalmente pousar os dedos no teclado.

“Caro Bryce”, escrevi. “Me juntei recentemente ao 23andMe e o encontrei listado como meu ‘filho’, portanto acredito que eu seja seu pai biológico. Espero que minha existência não seja um choque para você, e me pergunto se você se juntou ao projeto com esperança de se conectar comigo.” Minha carta continuou daí, de forma muito constrangida, dando a ele um breve resumo da minha vida.

Bryce respondeu quase instantaneamente:

“Pai, você não imagina como estou animado por receber notícias suas. Eu me juntei ao 23andMe com esperança de você já ter feito isso, e fiquei chateado quando vi que ainda não tinha. Mas é incrível ter contato com você e estou muito feliz. Sou um dos seus seis filhos, até onde sei, e com quem mantenho contato. Tenho vinte anos e moro em Long Island, mas estou estudando no norte do estado de Nova York.”

— Pai?

Por um instante, fiquei preocupado que Bryce pudesse ter expectativas paternais a meu respeito, e que aparecesse na minha porta, mas as minhas preocupações eram infundadas. Eu estava em um mundo completamente novo, e estamos todos ainda tateando em relação à terminologia.

Mais importante, seis filhos? Caramba! Fiz algumas contas no guardanapo, baseado no número de amostras que eu entregara para doação, e nas chances de concepção, e estimei que eu poderia ter uns 67 filhos.

Por intermédio de Bryce, conheci Madalyn, de dezenove anos. Depois de ver sua página no Facebook, tive meu primeiro pensamento de pai na vida: minha filha deveria usar roupas que a cobrissem mais.

Posso ser suspeito para falar, mas achei meus filhos absurdamente atraentes. Senti uma súbita necessidade de compartilhar as fotos deles com todas as ex-namoradas que optaram por não se casar e procriar comigo.

Poucos meses mais tarde, uma nova confirmação de DNA apareceu no 23andMe: Alice, de onze anos. A mãe dela, Jessica, me escreveu um bilhete. Ela e a ex-parceira tinham, cada uma, dado à luz, uma filha concebida com o meu esperma. As duas terminaram o relacionamento anos antes, mas criaram as meninas juntas até recentemente, quando a outra mãe se mudou com a filha a quem dera à luz.

Jess e eu começamos a conversar online. Ela sabia muito sobre compra de esperma e autofecundação, e achei fascinante saber mais a respeito, além de ter descoberto que era bem mais difícil do que tinha sido o meu papel: me masturbar em um copinho. Ela também não se identificava mais como lésbica, e estava namorando um homem que, por incrível que pudesse parecer, tinha o meu primeiro nome e o nome do meio (Aaron David), com um sobrenome similar, monossilábico.

Tinha havido alguma confusão no Departamento de Namorados? Seria eu que deveria estar namorando com ela?

Meus filhos e eu trocamos biografias escritas. A do Bryce me mostrou como eu sabia pouco sobre a cultura dos jovens adultos, e me lembrou de como a década dos vinte anos é difícil. A da Madi me revelou uma compreensão aguçada das formas como fora criada, e das partes do processo que ela gostaria de deixar de lado. Mas foi a biografia de Alice, intitulada “Uma série de eventos constrangedores separados por lanchinhos”, que acabou comigo.

A história dela era uma miscelânea de listas e lembranças escritas sob pressão (“Mãe: Escreva ou morra!”). Cor favorita: “Preto. Como a minha alma.” Feriado favorito: “Halloween (por causa dos doces e da morte).” Ela gostava de filmes do Alfred Hitchcock. “Basicamente”, escreveu ela, “sou uma adolescente angustiada em um corpo de criança.”

Aquela menina tinha onze anos?

Bryce e Madi traçaram um plano para passar algumas semanas em Seattle no verão. Jess e Alice moravam a poucas horas ao sul e viriam de carro. Imaginei que encontrar meus filhos seria o mais perto que eu já teria chegado de me casar, por isso resolvi dar uma festa.

Tinha contado a respeito dos meus filhos para poucas pessoas, mas a maior parte dos meus amigos soube pelo convite do Facebook para a “Festa para encontrar meus filhos”, com fotos de Bryce, Madi e Alice. O choque que o convite provocou foi grande.

Não sei se por genética, boa sorte ou força das circunstâncias, mas o fato é que amei meus filhos imediatamente. Eles tinham uma estranha aura que me fazia lembrar de mim. Bryce é tímido, mas espirituoso, e é obcecado por memes de um modo que provavelmente eu também seria se fosse da Geração Z. Alice não tem muita paciência com adultos, como eu ainda não tenho. Madi, em particular, tem o meu senso de humor e os meus olhos: trocar um olhar com ela faz o meu cérebro explodir, mas então eu rio.

Na festa, brincamos de um jogo de perguntas e respostas “biológico versus quem cria” e descobrimos que éramos todos bastante liberais e que nenhum de nós acreditava em Deus. Nenhum deles, no entanto, dorme com um travesseiro entre os joelhos, como eu faço há muito tempo.

A primeira vez que Jess e eu nos vimos a sós, nos abraçamos longamente, de um jeito totalmente inapropriado para pessoas que acabaram de se conhecer. Jess diz que tenho maneirismos que a fazem se lembrar das duas filhas, por isso se sentiu imediatamente confortável comigo.

Se por sermos peões no jogo do destino, ou participantes involuntários em um casamento cromossomicamente arranjado, o fato é que Jess e eu criamos um vínculo imediato. Eu comentei sobre a minha ideia de uma confusão no Departamento de Namorados e a reação foi relutante, mas fofa. Durante as férias, Jess e eu assumimos facilmente os papéis de mãe e pai em relação a Bryce, Madi e Alice. Logo já tínhamos piadas internas e implicávamos um com o outro em relação aos nossos pontos fracos, como qualquer família. Eu cheguei a fazer um sermão para Bryce e Madi sobre fumar.

No fim da visita, Bryce acabou fazendo com que Jess e Alice fossem expulsas da casa que estavam alugando, quando subiu no telhado para recuperar um brinquedo. Por isso, eu as convidei para ficarem comigo enquanto resolviam as coisas. O que Jess logo descobriu foi que queria continuar morando comigo. Alice revirou os olhos como se tivesse caído na armadilha de um arranjo familiar tradicional.

Por mais que o 23andMe normalmente não seja considerado um site de namoro, Jess e eu somos gratos à tecnologia que tornou o nosso relacionamento retroativo possível. Temos muitas perguntas sobre amor e genética, e dúvidas de se teríamos nos conectado desse jeito se tivéssemos nos conhecido de forma mais convencional.

Nosso laço sobreviveu à fase do “Como isso é legal, não?”, embora ainda seja divertido cibermonitorar o resto da minha prole e especular sobre quantos mais podem emergir. (Cheguei a dez agora. Já fiz contanto com as mães dos recém-descobertos, mas ainda não fizemos planos de nos encontrarmos.)

Madi gostou da Costa Oeste e de nós e se mudou recentemente para a nossa casa. Estamos torcendo para conseguirmos convencer Bryce a fazer o mesmo.

No fim, os elementos de ficção científica da nossa história de amor são irrelevantes: Jess e eu funcionamos como casal porque gostamos de ficar juntos. Acho que ajuda um pouco o fato de eu ser pai da filha dela.

Aaron Long é escritor em Seattle. Este relato foi publicado em setembro de 2018.