Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 12 de 47

Páginas do PDF

Modern Love

Acho que amo você

QUANDO O CUPIDO É UMA JORNALISTA INTROMETIDA

DEBORAH COPAKEN

 

M INHA ENTREVISTA COM JUSTIN MCLEOD COMEÇOU A desandar quando soltei a última pergunta: — Você já se apaixonou?

O CEO com cara de criança tinha criado o Hinge, que era um novo aplicativo de encontros. A minha pergunta foi uma óbvia bola fora.

Justin pareceu chocado. Ninguém, disse ele, jamais tinha lhe perguntado aquilo em uma entrevista.

— Sim — respondeu Justin finalmente. — Mas não me dei conta disso até ser tarde demais.

Então ele me pediu para desligar o gravador. Apertei o “Stop”.

Sem estar sendo gravado, Justin pareceu aliviado em desabafar. O nome dela era Kate. Eles foram namorados na universidade. E ele tinha feito ela sofrer várias vezes. (Os olhos dele ficaram marejados, então.) Ele não era a melhor versão de si mesmo na época. Desde então, tinha se redimido com todo mundo, incluindo Kate. Mas agora ela estava morando no exterior, noiva de outra pessoa.

— Ela sabe que você ainda a ama? — perguntei.

— Não — respondeu Justin. — Ela já está noiva há dois anos.

— Dois anos? Por quê?

— Não sei.

Naquela época, fazia um ano que eu estava separada, depois de duas décadas de casamento. Vinha pensando muito sobre a natureza do amor, sobre quanto era precioso. Na verdade, a razão para eu estar entrevistando Justin era porque o aplicativo dele tinha sido responsável pelo meu primeiro encontro às cegas pós-separação, com um artista por quem eu tinha me apaixonado à primeira vista.

Aquilo nunca tinha acontecido comigo, a parte do “à primeira vista”. Ele também foi o primeiro homem que surgiu na minha tela depois que fiz o download do aplicativo de Justin.

Para os que estão reparando, sim, são várias primeiras vezes: o primeiro aplicativo de encontros, o primeiro homem na minha tela, o primeiro encontro às escuras, o primeiro amor à primeira vista. Eu estava interessada em compreender o algoritmo do aplicativo, como ele surgira, como conseguira, tendo como base os amigos que compartilhávamos no Facebook, imaginar que aquele homem em particular, um escultor com foco na ligação entre imagística libidinosa e flores, fincaria raízes no meu coração.

— Você tem que falar com ela — disse a Justin. — Escute...

E contei a ele a história do rapaz que eu tinha amado antes de conhecer meu marido.

Ele estava no último ano da faculdade, estudando Shakespeare no exterior. Eu tinha vinte e dois anos e era fotógrafa de guerra, baseada em Paris. Nos conhecemos em uma praia do Caribe, então eu o visitei em Londres, traumatizada, depois de ter feito a cobertura do fim da Guerra do Afeganistão.

Pensei nele todos os dias enquanto cobria a guerra. Foi meu amor por ele que me deu forças quando estava dormindo em cavernas, tão doente de disenteria e mal por causa de um ferimento infeccionado na mão, provocado por estilhaços, que tive que ser removida da cordilheira de Indocuche pela organização Médicos Sem Fronteiras.

Mas poucas semanas depois da minha viagem para Londres, ele me deu o bolo. Disse que me visitaria no meu apartamento em Paris, um fim de semana, e nunca apareceu. Ou foi o que pensei.

Duas décadas mais tarde, eu soube que ele na verdade tinha voado para Paris naquele fim de semana, mas tinha perdido o pedaço de papel com o meu endereço e o meu telefone. Eu não estava no catálogo telefônico. Ele não tinha secretária eletrônica. Não tínhamos amigos em comum. Ele acabou ficando em um albergue, e eu acabei me casando e tendo três filhos com o primeiro homem com quem saí depois dele. E assim a vida continuou.

Quando o Google foi inventado, a primeira foto minha que apareceu na tela dele me mostrava junto com os meus filhos, em uma matéria que alguém tinha escrito sobre o meu primeiro livro, uma biografia dos meus anos como fotógrafa de guerra. Logo depois, ele se casou e teve três filhos com a primeira mulher com quem saiu depois de mim. E assim a vida continuou.

Eu o encontrei por acaso, quando estava pesquisando sobre companhias de teatro para o meu último romance. Lá estava a foto dele, acima do nome, que era bem comum. Escrevi um e-mail: “Você é o mesmo homem que me deu o bolo em Paris?”

E foi assim que eu soube o que tinha acontecido naquele fim de semana, e comecei a digerir o impacto real da nossa conexão perdida.

O trabalho o levou a Nova York alguns meses depois, e tínhamos nos encontrado para um almoço de primavera em um banco do Central Park. Eu estava tão desnorteada que derrubei a minha limonada e deixei cair meu sanduíche de salada de ovo: nosso amor há tanto tempo perdido ainda estava vivo.

Na verdade, a conclusão que nosso encontro nos permitiu, e o choque de reconhecer que o amor que fora privado de sol e água ainda persistia, afetou o meu casamento e o dele, embora de maneiras diferentes. Ele se deu conta de quanto precisava se esforçar mais para nutrir o próprio casamento. Eu percebi que já tinha dado ao meu todos os cuidados e nutrientes que podia — tinham sido vinte e três anos cultivando aquele solo —, mas o campo já não rendia mais frutos.

Ao saber do amor de Justin por Kate, enquanto estava sentada em outro banco em Nova York, quatro anos mais tarde, senti uma urgência renovada.

— Se você ainda a ama — disse a ele —, e se ela ainda não está casada, você precisa conversar com ela. Agora. Você não vai querer acordar daqui a vinte anos e se arrepender do seu silêncio. Mas não pode fazer isso por e-mail ou pelo Facebook. Tem que fazer contato pessoalmente com ela, e correr o risco de levar com a porta na cara.

Ele deu uma risadinha triste.

— Não posso fazer isso. É tarde demais.

Três meses mais tarde, Justin me mandou por e-mail um convite para almoçar. A matéria que eu tinha escrito sobre ele e sobre a empresa dele, na qual ele me autorizara a mencionar Kate (a quem chamei de “Botão de Rosa”), tinha gerado interesse em seu aplicativo, e ele queria me agradecer.

No dia marcado, cheguei ao restaurante e disse à recepcionista:

— Justin McLeod, mesa para dois.

— Não — retrucou ele, que apareceu de repente atrás de mim. — Para três.

— Três? Quem vai se juntar a nós?

— Ela — disse Justin, e apontou para uma mulher pequena, passando correndo pela janela do restaurante, um borrão de rosa por causa do casaco, os cabelos avermelhados voando atrás dela.

— O que...? É a Botão de Rosa?

— É.

Kate entrou correndo e me abraçou com força. De perto, ela lembrava outra Kate — a Hepburn —, que tinha atuado em muitas comédias em que sua personagem se casava novamente com o mesmo parceiro. Eu havia estudado sobre essas comédias na faculdade, com Stanley Cavell.

Esses filmes, precursores das comédias românticas de hoje em dia, foram feitos nos Estados Unidos, nos anos 1930 e 1940, quando não era permitido exibir adultério ou sexo ilícito. Para conseguirem passar pelos censores, os argumentos eram sempre os mesmos: um casal se divorciava, flertava com outras pessoas, então voltava a se casar. A lição? Às vezes é preciso perder o amor para reencontrá-lo, e a volta para o lugar de origem é a chave para que esse amor volte a desabrochar.

— Isso é tudo por sua causa — disse Kate, chorando. — Obrigada.

Agora, Justin e eu também estávamos chorando, ao ponto de outras pessoas no restaurante estarem nos encarando, confusas.

Depois que nos sentamos, eles me contaram a história do reencontro dos dois, um terminando a frase do outro, como se estivessem casados há anos. Um dia, depois de esbarrar por acaso com um amigo de Kate, Justin mandou uma mensagem pra ela, para combinarem uma conversa pelo telefone, então, reservou um voo transatlântico para vê-la, de surpresa. Ele ligou para ela do quarto do hotel, perguntando se poderia passar para vê-la. Kate iria se casar em um mês, mas três dias depois foi embora do apartamento que estava dividindo com o noivo.

Senti uma pontada de culpa. Pobre homem!

Estava tudo bem, garantiu Kate. O relacionamento deles já vinha passando por problemas havia anos. Ela tentara encontrar um modo de adiar ou cancelar o casamento, mas os convites já tinham sido enviados, o salão e os fornecedores já contratados, e ela não sabia como resolver a ambivalência que sentia sem decepcionar a todos.

Justin tinha aparecido na porta dela quase no último instante em que poderia ter dito alguma coisa ou se calado para sempre. No nosso almoço, os dois já estavam morando juntos.

Logo depois, eu os recebi para jantar, para apresentá-los ao artista obcecado por flores que tinha metade da responsabilidade pela reconciliação de Justin e Kate. Eu e ele não tínhamos funcionado como casal, para profundo lamento e decepção da minha parte, mas havíamos nos tornado amigos muito próximos e tínhamos feito até uma colaboração artística, depois que ele me mandou por mensagem de texto um desenho que tinha feito.

Na verdade, acabamos de assinar contrato para produzir três livros juntos: The ABC of Adulthood, The ABC of Parenthood, e — ah, a ironia — The ABC of Love.

— Qual era o desenho? — perguntou Kate.

Mostrei a ela, no meu iPhone.

— São ovários? — perguntou Kate, sorrindo.

— Ou sementes — falei. — Ou botões de flores, dependendo de como você olha.

Todas interpretações perfeitamente razoáveis de amor gerando amor gerando amor, que era o motivo para estarmos todos reunidos ao redor da minha mesa naquela noite, não era? Porque o amor de verdade, depois que floresce, nunca desaparece. Ele pode se perder com uma folha de papel, ou se transformar em arte, em livros ou em filhos, pode provocar a união de outro casal, por mais que não consiga cimentar o nosso próprio relacionamento.

Mas está sempre presente, esperando por um raio de sol, abrindo caminho pelo solo degelado, insistindo em sua existência legítima em nossos corações e na terra.

Deborah Copaken é autora de Shutterbabe e de The Red Book, ambos presentes nas listas dos mais vendidos do New York Times, é colunista do The Atlantic, e parte da equipe de roteiristas do programa de Darren Star, Emily in Paris. Sua biografia, Ladyparts, será publicada pela Penguin Random House em 2021. Ela divide seu tempo entre o Brooklyn e Los Angeles. Este relato foi publicado em novembro de 2015.