Modern Love
Assuntos de família
ALGO COMO
A MATERNIDADE
CAROLYN MEGAN
E STOU NO CARRO, LEVANDO MINHA SOBRINHA E MEU SOBRINHO ao Museu de Ciência. No fim do nosso passeio, quando eu levá-los para casa, o pai deles — meu irmão, John — vai lhes contar que o tratamento mais recente que a mãe dos dois estava fazendo para combater o câncer não deu resultado e que ela vai morrer. Mas por ora, minha sobrinha de nove anos revira o meu porta-luvas e descobre um absorvente íntimo. Ela abre a embalagem, ejeta o tampão e começa a balançá-lo pela cordinha.
— O que é isso?
— É um absorvente íntimo — digo.
— Pra que serve?
Parecia uma pergunta capciosa. Aprender sobre absorventes íntimos significa primeiro aprender sobre menstruação, que significa aprender sobre todo o ciclo da vida. Não tenho ideia do que John e a minha cunhada, Sarah, contaram a ela nessa altura.
— Bem, você sabe como os bebês são feitos, certo?
— Não — diz ela.
Meu sobrinho, de treze anos, que está brincando com um Game Boy no banco traseiro, diz:
— Ah, pronto. Lá vamos nós.
— O que é? — pergunta ela, se endireitando no assento.
Como devo responder? Não quero que minha sobrinha se sinta constrangida a respeito da própria sexualidade, e, de qualquer modo, quero que o próprio John tenha a oportunidade de conversar sobre isso com a filha. Começo a dar voltas no assunto, mas paro de falar quando me aproximo de uma cabine de pedágio, e nessa altura minha sobrinha deixa o absorvente íntimo de lado e se concentra no rádio. Eu tinha conseguido escapar.
Mais tarde, conto a John sobre a conversa, e ele comenta:
— Não tenho como dizer a ela o que é ser mulher. Provavelmente será você a ajudá-la com tudo isso.
Eu me dou conta de que ele provavelmente está certo. Ao longo dos últimos oito meses, conforme o estado de Sarah piorava, assumi uma boa quantidade dos deveres de mãe. Eu levava minha sobrinha e meu sobrinho para os jogos de futebol, comparecia a eventos da escola e os levava a consultas médicas. Ficava acordada à noite esfregando as costas deles, tentei reaprender álgebra, estudei sobre a Guerra Civil dos Estados Unidos, comprei lanches do McDonald’s, vetei idas ao Chuck E. Cheese, ministrava remédios, lavei toneladas de roupas, disse não mais vezes do que me senti confortável, disse sim mais vezes do que me senti confortável.
Durante esse tempo, eu me peguei lidando com as situações com a atitude calma típica de uma mãe, enquanto admitia para mim mesma que não tinha ideia do que estava fazendo.
Depois de deixar as crianças com John e Sarah na casa deles, fiquei esperando do lado de fora da sala onde eles se reuniram. O plano é que John e Sarah contem juntos aos filhos, e que, então, eu entre para ficar com as crianças enquanto elas assimilam a notícia. Quando John abre a porta da sala, sussurra:
— Eles estão devastados. Querem que você entre, mas não querem conversar.
Entro e me deparo com um quadro de choque e dor. Sarah está sentada no sofá, semiadormecida sob a influência dos analgésicos, a mão apoiada na minha sobrinha, que chora de soluçar. Meu sobrinho chora e anda pela sala com os braços cruzados diante do peito, a linguagem corporal já adolescente agora.
Vou até e ele e o abraço. Ele se apoia em mim e deixa escapar soluços contidos, os braços ainda cruzados. Naquele momento, uma parte do meu coração se abre e um novo amor se derrama, não um ajuste ou uma reconfiguração do amor que já sinto, mas uma nova categoria. Não havia separação entre mim e ele. E, nesse momento, eu penso: farei qualquer coisa por você.
Mas farei mesmo?
No início da doença de Sarah, quando John já estava imaginando um mundo sem ela, ele me perguntou se o meu parceiro, Michael, e eu consideraríamos a ideia de nos mudarmos para a casa deles.
— Você não vai ter que fazer nada. Seria só para tê-la aqui, ter a sua presença na casa.
Não cheguei a responder objetivamente a ele. Disse coisas como “Vamos ver como as coisas se encaminham” ou “Não vamos falar disso ainda”. Táticas para ganhar tempo. Cada vez que ele perguntava a respeito, eu me sentia imobilizada, com uma sensação de desespero e tragédia iminente. Era a mesma sensação que experimentei anos antes e que levou a decidir sobre não ter filhos.
A decisão nasceu do meu desejo de estar totalmente presente na minha vida como escritora, e não de criar um filho. Ter um filho não era o modo como eu queria dar significado à minha vida, nem como eu queria retribuir ao mundo. E a razão para isso era a sensação que eu tinha de que amaria com intensidade demais, desespero demais, à custa do meu eu.
Eu sabia que meus filhos sempre viriam em primeiro lugar e minha arte em segundo, e sabia também que me ressentiria disso. Assim, fiz uma escolha e disse não à ideia de ter um filho. Mas minha sobrinha e meu sobrinho estão vivos e aqui, e precisam de atenção e carinho agora. E eu me entreguei sem hesitação, algo de que nunca poderia me arrepender.
No entanto, a preocupação em que eu baseara a minha decisão de não ter filhos se provou verdadeira: toda a minha energia, o meu amor e paixão estão concentrados nos meus sobrinhos, e eu sofro pela perda de uma parte de mim que deixei de lado. No fundo, a pergunta de John se eu me mudaria para a casa deles me deixa mais uma vez tendo que escolher se quero ou não ter filhos.
Quando saio com minha sobrinha e meu sobrinho, estranhos sempre presumem que sou mãe deles. Quando pergunto à vendedora de uma loja de roupas onde ficam as camisetas de crianças, ela pergunta:
— Quantos anos tem sua filha?
— Nove — digo. Ela me indica a sessão de meninas, onde vejo um monte de camisetas estampadas com flores.
— Talvez eu tenha mais sorte na sessão de meninos — comento. — Ela é bem moleca e com certeza vai preferir uma camiseta de futebol.
A vendedora ri.
— Ah, uma dessas.
É tão fácil me deixar deslizar para dentro desse papel, tão confortável. Mais fácil do que ter que garantir aos outros que adoro crianças, que a minha decisão de não ter filhos não é o reflexo de uma infância difícil, nem uma atitude egoísta. É apenas uma escolha. Mas nesse momento, com a vendedora, experimento a tranquilidade de fazer parte do convencional, e é um alívio. Essa cena se repete: quando abraço minha sobrinha e meu sobrinho na saída do campo de futebol, quando espero por eles no ponto de ônibus, quando escuto minha sobrinha gritar ao entrar correndo em casa, depois de brincar do lado de fora:
— Mãe! Precisamos beber alguma coisa! — Quando ela me encontra na cozinha, ri e diz: — Quer dizer, tia Carolyn.
Qualquer pessoa que nos veja presumiria que eu sou mãe deles. Mas não sou, e não quero ser. Mas com tudo o que aconteceu, como posso não ser?
As pessoas sempre têm os seus próprios palpites sobre por que não tenho filhos: “Foi o divórcio?” “Nunca encontrou a pessoa certa, na hora certa?” “Relógio biológico?”
Agora a história assume um ponto de vista mais positivo: “Não é impressionante como as coisas acontecem?” “Você não teve filhos, e agora pode estar presente para sua sobrinha e para seu sobrinho.” “Era para ser assim.”
A literatura está cheia de tias solteironas que se mudam para morar com a família quando um irmão ou uma irmã, ou um cunhado ou cunhada morrem. Elas tomam conta do pai ou da mãe doentes e permanecem em vigília até a morte. Elas tomam a frente e se tornam mães substitutas, “esposas” platônicas que assumem com eficiência a administração da casa e das crianças.
Há uma expectativa de sacrifício: da sua vida, da sua história, em prol do desenrolar de uma nova história.
Eu gostaria de acreditar que não preciso estar presente o tempo todo para ser uma figura materna para meus sobrinhos. Gostaria de acreditar que saber que são amados e que estão bem-cuidados, esteja eu presente todo dia ou não, vai servir de apoio pra eles e garantir a base de que precisam para seguirem de forma saudável em direção à vida adulta.
Mas as preocupações do dia a dia me puxam. Meu sobrinho tem pé de atleta. Há uma rachadura grande embaixo do dedo mindinho que ele insiste que é de um arranhão na piscina. Um problema pequeno, na verdade, a não ser pelo fato de que meu irmão não teve oportunidade de comprar pomada para o pé do menino.
Outras preocupações: roupas limpas, o surto de piolho na escola. Por que a amiga da minha sobrinha está implicando com ela? Alguém já conversou com meu sobrinho sobre sonhos molhados? Está tudo bem se ele fechar a porta do quarto para ficar sozinho? Será que existe algum legume que eles se disponham a comer? Estão comendo açúcar demais? É claro que John se preocupa, mas ele está exausto. E o vaso sanitário está quebrado, a secadora está guinchando, o cachorro manca, não temos leite para o cereal de amanhã de manhã.
E ainda há a reunião para os pais dos alunos que estão na montagem de O Hobbit na escola. Meu sobrinho é um dos anões, e essa reunião é para conversar sobre a logística e sobre quem vai ficar com os cobiçados papéis de diretor de palco, de contrarregra e de figurinista. Só há mulheres presentes.
Elas conversam sobre a produção do ano anterior, riem e demonstram intimidade uma com a outra e com o processo de montar uma peça.
— Precisamos conversar sobre como vamos envolver os pais e mães que trabalham — diz uma das organizadoras. As outras assentem, concordando. — Isso precisa ser um evento da comunidade.
Estou ali porque não quero que meu sobrinho tenha a sensação de que não tem ninguém apoiando-o. Estou aqui por causa de uma amiga minha, cuja mãe morreu quando ela era pequena, e que uma vez me contou que sempre se sentia como uma órfã, sendo passada de uma babá para a outra. Não quero que meu sobrinho se sinta como órfão.
Ainda assim, me sinto como uma impostora, uma intrusa. Não me importo nem um pouco com a disputa de poder para definir quem será o diretor de palco. Estou entediada. Preferia estar em casa e estou ansiosa para voltar para a minha escrita.
Mas descubro que ficar longe das crianças me provoca uma saudade e uma preocupação constantes.
Fico imaginando como eles estão e sinto falta de estar perto deles, de tocá-los. Eu me interesso pelas suas histórias, pelos jovens que estão se tornando.
E embora não seja mãe e nunca vá ser, o sentimento que tenho por eles deve ser uma espécie de maternidade: tão difícil quanto eu esperava, sim, mas também cheio de prazer.
Carolyn Megan escreve e ensina em Portland, no Maine, e pode
ser encontrada pelo e-mail mainewritingworkshop@gmail.com. Este relato foi publicado em setembro de 2005.