Modern Love
A infelicidade também adora frango frito
MARK McDEVITT
N ATE ERA O CARA QUE ME AJUDAVA A DECIDIR SE EU IA terminar um relacionamento ou não. Nos conhecemos no pub irlandês Scruffy Murphy — fomos apresentados por um amigo em comum, que achou que íamos gostar um do outro. Com o corte de cabelo bem curto e as feições vivas, ele parecia transplantado de outra geração. Seria fácil imaginá-lo como um ator de um filme de guerra dos anos 1950, gritando falas como: “Ei, sargento! Venha cá. Ele caiu em um buraco!” ou “Atiraram em mim, mãe! Estou sangrando!”
Saímos juntos naquela noite de verão para apoiar uma banda local que era uma das nossas favoritas. Mas quando nosso amigo em comum foi da Flórida para Boston, e Nate começou a sair com uma mulher, nossa amizade incipiente estacou.
Nessa época, eu também estava em um relacionamento. Ela e eu estávamos juntos há mais de dois anos e tínhamos começado até a falar em casamento, o que ao mesmo tempo nos empolgou e nos apavorou. Nós dois já nos aproximávamos dos trinta anos, por isso parecia lógico que esse fosse o próximo passo. Então, tudo terminou de repente, me deixando perplexo e furioso.
Foi durante esse período que esbarrei novamente em Nate. A princípio, não o reconheci. No ano que se passara desde que o vira pela última vez, Nate ganhara uns bons dez quilos e deixara crescer uma barba cheia. As feições antes tão expressivas e as piadinhas animadas tinham desaparecido. Algo no olhar vazio e na aparência traumatizada me disse que o relacionamento dele também não andara bem. Não foi surpresa alguma, então, que o lugar onde nos esbarramos tenha sido a seção de livros de autoajuda da livraria Barnes & Noble.
Daquela vez, nossa identificação um com o outro foi instantânea e absoluta, do tipo que sobreviventes de um naufrágio compartilham em um bote salva-vidas amarelo. Por mais que eu mesmo não fosse um modelo de saúde mental, ao menos já tinha tido alguns meses a mais que Nate para lidar com a situação. Para ele, apenas poucas semanas depois do rompimento, o mundo ainda era um campo minado de lembranças dolorosas por associação: um súbito aroma de jasmim ou um jingle inocente no rádio eram capazes de provocar surtos de risadas dementes ou um choro incontrolável.
Nos meses seguintes, nossa amizade floresceu. Receitas favoritas de chilli foram trocadas, junto com discos de Patsy Cline. Emprestávamos um para o outro nossos livros de autoajuda aos quais nos referíamos com títulos como Homens são de Marte, Mulheres são para os pássaros e Coabitar nunca mais. Dei a Nate a edição completa de colecionador de Os Três Patetas. Ele me deu um cacto.
— Esses cretininhos afiados são hombres durões — explicou ele. — Exatamente como eu e você. Podemos estar no deserto nesse momento, mas estou aqui para lhe dizer que vamos superar isso.
Com o tempo, nossa raiva e nosso desespero se transformaram em confusão. O que havia acontecido, afinal? Onde tínhamos errado?
Como uma equipe brilhante de investigadores da Administração Geral de Aviação, vasculhamos os locais de acidente dos nossos respectivos desastres, em busca de pistas. Mas a causa da explosão em pleno ar de Nate permaneceu tão misteriosa para nós quanto as forças que tinham feito meu próprio relacionamento aterrissar de barriga em Everglades, como um jumbo com as asas arrancadas.
Nossa busca sem sucesso por respostas só serviu para aprofundar nossa depressão, mas a grande vantagem da depressão é que ela não vem em tamanho único, mas sim feita sob medida para se ajustar à personalidade de cada um. Para mim, veio na forma de insônia, de prioridades distorcidas e de perda de interesse.
Comida, trabalho, correspondência, até Os Três Patetas: tudo perdeu a graça. A imagem mais ampla se apaga quando os detalhes menores assumem proporções dramáticas. Os CDs subitamente pedem para ser rearrumados, da ordem alfabética para a ordem cronológica reversa e de novo para a alfabética. Eu simplesmente não tenho escolha.
O único consolo de verdade que encontro é na música pop. Leonard Cohen, Elvis Costello, The Smiths: um ciclo sem-fim de infelicidade e tristeza garantindo grãos para o nosso moinho de autopiedade. A música pop tem a incrível habilidade de fazer a pessoa se sentir deprimida e esperançosa ao mesmo tempo: deprimida por se identificar com o sentimento, e esperançosa porque alguém se sente mais infeliz do que ela.
Para mim esse alguém era Nate. A única animação do meu dia era ver meu companheiro do pé na bunda e me sentir ligeiramente melhor por ele estar ainda mais deprimido do que eu. Nate aparecia na minha porta trazendo um balde tamanho família de asinhas de frango. Se eu tinha perdido todo o interesse por comida, Nate fora na direção oposta: ele engolia qualquer coisa que não estivesse amassada no chão. Mesmo assim, não conseguia entender por que estava engordando.
— Não entendo — dizia, enquanto dava conta do terceiro cheeseburguer. — Quer dizer, de onde vem tanto peso? É como se eu tivesse feito trinta anos e bum! Virei uma abóbora.
Sugeri um pouco de exercício. Havia quadras de tênis perto do apartamento dele, assim, pegamos o hábito de jogar uma ou duas vezes por semana. Nenhum de nós dois jogava bem, mas o suor e os grunhidos acabaram se mostrando terapêuticos.
Quando o velho problema que eu tinha no ombro piorou, nossas partidas de tênis chegaram ao fim. Depois de duas semanas sem ter notícia de Nate, presumi que ele tivesse encontrado outro parceiro para jogar tênis, ou que estivesse ocupado no trabalho. Mas quando meus telefonemas e e-mails não foram respondidos, resolvi ir até o apartamento dele para checar como estavam as coisas. O carro de Nate estava à vista, mas as persianas do apartamento estavam fechadas. Depois de passar uns bons quinze minutos batendo à porta, Nate finalmente enfiou a cabeça para fora da porta, como um mastodonte gigante sendo acordado de um sono de mil anos. Algo no olhar vidrado dele e no tom verde-alaranjado da pele me disse que ele tomara o pior rumo.
Quando entrei no covil escuro que era o apartamento, entendi que Nate não tinha encontrado outro parceiro de tênis. Em vez disso, ele havia adentrado o território de Joseph Conrad — havia subido o rio e entrado no “coração das trevas”.
Sem ar-condicionado, o apartamento estava uns bons dez graus mais quente do que os trinta graus do lado de fora. O sussurro fétido de suor, roupas sujas e comida podre pairava no ar, pesado. A carcaça de um frango jazia no chão da cozinha, limpa até o osso, como se tivesse sido atacada por uma piranha.
Quando fui abrir a janela, reparei que havia legumes descascados por todo o chão. Nate apareceu momentos depois, vindo da cozinha, raspando mecanicamente a casca de uma cenoura. Quando terminou, ele comeu a cenoura e começou a descascar outra.
— Qual é o lance com as cenouras? — perguntei.
— Ah, nada. Eu só parei de fumar.
— E passou a comer cenouras.
— Me dá o que fazer com as mãos.
Enchi três sacos de lixo com ossos de frango e caixas de pizza e levei para a caçamba de lixo.
Bem no meio da sala, na frente da televisão, estava um banco de supino e um halter gigante. Revistas e folhetos em cores brilhantes, plastificados, sobre como se tornar um agente imobiliário milionário em dez passos simples se espalhavam pelo chão. Aos poucos, começou a emergir a imagem de um homem que não dormia nem tomava banho havia dias, que passava o tempo levantando pesos, assistindo a canais de venda na televisão, e comendo frango frito.
Alarmado, e ansioso para sair dali, sugeri que fôssemos ao cinema. Ele topou e, depois de parar para comprar dois sacos de cenoura, entramos no cinema.
O filme do verão era Náufrago, estrelando Tom Hanks como Chuck Noland, um camarada esperto que acaba chegando a uma ilha deserta depois que o avião em que estava afunda no Pacífico. Conforme suas esperanças de ser resgatado vão desaparecendo, ele começa a longa batalha pela sobrevivência e, mais importante, pela sanidade. Algo na história de Chuck pareceu falar diretamente com Nate e comigo.
Por mais que eu não ache que Náufrago tivesse a intenção de ser uma comédia, nós nunca rimos tanto na vida. Foi como nos assistir na tela grande. As pessoas ao redor nos lançavam olhares irritados de desaprovação, enquanto ríamos em todos os momentos errados. Gargalhamos quando Chuck arrancou um dente com um patins de gelo. Enquanto o resto da audiência fungava quando ele foi escolher a árvore em que se enforcaria, nós tivemos que segurar a lateral do corpo, que doía de tanto rirmos.
Desesperadamente isolado e solitário, Chuck desenvolve um relacionamento com uma bola de vôlei, dá uma cara a ela, e até um nome: Wilson. É Wilson, mais do que qualquer coisa, que o ajuda a preservar a sanidade, o que permite que Chuck faça uma última tentativa desesperada de escapar da prisão naquela ilha.
Fiquei pensando no estranho conjunto de circunstâncias e coincidências que tinham aproximado Nate e eu. Disse a mim mesmo que ele tinha sorte por ter a mim como amigo. E por mais que ficar de olho nele tenha permitido que eu me sentisse caridoso e magnânimo, eu sabia que meu impulso de fazer isso era tudo menos altruísta.
Na verdade, Nate era o parâmetro pelo qual eu media o meu próprio progresso, e me ajudava a me sentir bem comigo mesmo e a preservar a minha própria sanidade. Eu me dei conta de que Nate tinha se tornado o meu Wilson. Aquela pessoa com sobrepeso, ligeiramente estragada ao meu lado, mascando cenouras, era o meu bote salva-vidas.
Quando o filme terminou, saímos junto com a multidão de casais que povoava o sábado à noite — garotos bonitos e garotas cheias de energia, usando short e camiseta. Eles andavam do lado de fora do cinema, rindo e sorrindo, abençoadamente inconscientes dos perigos com que flertavam.
Será que ainda estariam felizes e sorrindo dali a um ano, sabendo como nós sabíamos que amar é se arriscar a uma grande infelicidade? Para eles, o filme já havia acabado, fora esquecido junto com os enormes baldes de pipoca deixados embaixo dos assentos. Em nós, o filme continuava agarrado, como um estado demorado de sonho. O filme nos seguiu até o estacionamento e além.
Depois de comprarmos sorvete, Nate eu nos sentamos do lado de fora para admirar o céu claro daquela noite, ambos felizes por terem companhia, mas desejando secretamente estar em outro lugar, com outra pessoa. Eu não conseguia nem reconhecer quanto aquele momento era glorioso.
Seis meses mais tarde, finalmente consegui escapar da minha própria ilha deserta e me mudei para Nova York. E embora tenha perdido contato com Nate desde então, penso nele com frequência. E, nesses momentos, não é do sofrimento pelo rompimento terrível do meu relacionamento que eu me lembro, mas das risadas e da amizade que se seguiu.
Não acredita em mim? Basta perguntar a Chuck Noland. Tenho certeza que ele sentia da mesma forma em relação a Wilson.
Mark McDevitt é escritor e roteirista. Mora com a família em Nova Jersey. Esse relato foi publicado em junho de 2005.