Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 40 de 47

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Modern Love

Uma promessa mantida, além do divórcio e até da morte

 

JENNIFER JUST

 

E STÁ FEITO: FINALMENTE TERMINEI DE LEVAR OS PERTENCES do meu ex-marido de volta para a casa de fazenda grande e bagunçada que já dividimos. Ele não voltaria, mas suas camisas estavam mais uma vez penduradas no armário, as caixas com itens domésticos e arquivos financeiros se acumulavam no sótão e no porão, e a mobília que não caberia na casa, agora enchia a terceira baia da garagem.

Três anos antes, o nosso casamento estava terminando. Corey e eu tínhamos “ido além” um do outro, uma descrição breve para o mal-estar que tinha se infiltrado no nosso casamento e que, apesar dos nossos melhores esforços, não foi embora. Ainda éramos amigos, não tínhamos grandes brigas. De um modo geral tínhamos tido um bom casamento, e assim passáramos muito tempo discutindo a necessidade do divórcio.

Tínhamos nossos meninos a levar em consideração — Evan, de nove anos, e Cameron, de treze —, junto com dezoito anos de memórias compartilhadas. E a ideia de morarmos separados nos desestabilizava. Quando você morou a maior parte da sua vida adulta com outra pessoa, não sabe mais o que pode e o que não pode fazer sozinho, o que pode ou não viver sem.

No entanto, nenhum de nós parecia conseguir reunir imaginação o bastante para ver um futuro feliz juntos. Éramos menos marido e mulher do que inquilinos morando na mesma casa.

Embora tivéssemos uma boa parceria no que dizia respeito a criarmos os nosso filhos, não tínhamos praticamente mais nada em comum e não queríamos ter. Mas quando decidimos terminar o nosso casamento, impusemos uma condição.

Uma noite, quando discutíamos o que poderia acontecer depois da separação, Corey e eu nos pegamos prometendo a nós mesmos que sempre poderíamos contar um com o outro. Ele tinha uma razão especialmente concreta para se preocupar: sofria de esclerose múltipla. Embora viesse progredindo lentamente, a doença era imprevisível, o que significava que a condição de Corey poderia descer rapidamente ladeira abaixo a qualquer momento.

— Escute — disse a ele. — Se as coisas ficarem ruins demais mudamos você de novo para cá. Você simplesmente volta.

Não sei por que foi tão fácil prometer guardar um espaço para Corey na minha vida e para ele prometer o mesmo. Talvez tenhamos decidido que poderíamos nos manter fiéis a alguns dos nossos votos de casamento, afinal.

Quando finalmente nos separamos pra valer, Corey comprou uma casinha na praia, a vinte minutos de distância, em West Haven, em Connecticut, que parecia dizer muito sobre o que ele queria e o que ele escolhera deixar para trás. Corey sempre foi um minimalista (em contraste com a minha tendência a comprar o que podia nas liquidações e a recolher o que fosse possível dos sótãos de parentes), e a nova casa dele, em estilo clean Cape Cod, refletia essa estética. O lugar tinha poucas superfícies para encher com lembranças de família, muito espaço para os livros dele e a vista para o mar que Corey sempre quisera.

Eu estava feliz por ele, e feliz por mim também, que mais uma vez poderia ser o meu eu bagunçado e complicado sem ter que pedir desculpas. Até mesmo nossos filhos pareciam mais felizes. Agora eles se deleitavam com o tempo que Corey estava destinando só para os três: fins de semana inteiros, e noites durante a semana.

No último feriado de Quatro de Julho, Cameron, Evan e eu estávamos voltando de uma viagem a Long Island quando decidimos ligar para Corey. A praia onde ficava a casa dele tinha uma vista espetacular da queima de fogos na nossa região, uma imensa parábola de luz correndo para cima e para baixo da região costeira de Connecticut e Nova York.

Ele ficou encantado com o telefonema, disse que estava com saudades dos meninos e que, por coincidência, tinha marinado frango demais. Assim, jantamos todos juntos e, quando anoiteceu, descemos até a praia para assistir ao espetáculo dos fogos.

Na mesma hora, Corey e eu voltamos aos antigos padrões de comportamento com os nossos filhos, brincando com eles como sempre tínhamos feito, inventando histórias e rindo de um jeito que raramente ríamos com outra pessoa.

Mas quando o barulho e as luzes acabaram, era hora de voltar para casa, o que para nós, é claro, significava casas separadas. Compartilhávamos uma história e filhos, mas o que tínhamos já não resultava em um casamento. E tudo bem. Naquela noite, descobrimos um modo de estarmos juntos que funcionava para nós e para os nossos filhos.

No sábado seguinte, deixei os meninos para passarem uma semana inteira com o pai, então levei-os de novo para jantar na noite da segunda-feira seguinte.

A quarta-feira seria o dia de visita dos pais e mães ao acampamento dos meninos, e Corey deveria se juntar a mim lá, mas ele não apareceu. Imaginei que tivesse surgido algum imprevisto e decidi não incomodá-lo. Mas quando voltei para casa, descobri dez mensagens na secretária eletrônica. A primeira era da irmã de Corey, chorando, me pedindo para ligar para ela imediatamente.

Os pais do Corey, pensei. Tinha acontecido alguma coisa com os pais dele.

A segunda mensagem, no entanto, era da polícia de West Haven, dizendo que precisavam falar comigo imediatamente. Não precisei ouvir as outras mensagens. Nunca ouvi.

Corey tinha morrido na manhã do dia anterior, sozinho na casinha dele, de um problema do coração que ninguém sabia que ele tinha.

Nas noites insones que se seguiram, várias dúvidas me atormentaram: se ainda estivéssemos morando na mesa casa, eu teria conseguido salvá-lo? O divórcio realmente fora necessário? Talvez tivéssemos encontrado um modo de retomar o nossos casamento depois de algum tempo (não muito) solteiros?

Eu poderia facilmente ter passado todas as horas do dia obcecada com essas dúvidas, mas precisava tomar conta dos nossos filhos. E logo me dei conta de que tinha que manter a promessa que havia feito a Corey.

Era verdade que eu tinha prometido levá-lo de volta para morar conosco se a saúde dele decaísse, mas não foi isso exatamente o que combinei. Para começar, no plano original ele estaria vivo, e as minhas decisões angustiadas do que manter e do que jogar fora teriam sido dele, ele que nunca se angustiava por nada. Em segundo lugar, era difícil saber quanto trazer de volta de um homem que eu tinha começado a desenredar da minha vida. Eu tinha começado a desembaraçar os fios da vida que tínhamos levado juntos, mas agora me via diante da necessidade de retomar alguns desses pontos soltos e costurar novamente a tapeçaria.

As fotos da família, que eu tinha tirado da parede quando Corey se mudou, voltaram para o lugar antigo. Reservei uma estante para os livros dele, assim os meninos saberiam o que ele lia. Os CDs também, ganharam sua própria prateleira perto do aparelho de som. Eu sentia que tinha que restaurar a presença dele na nossa casa. De que outra forma poderia mostrar que ele já estivera ali? Que, de alguma forma, ainda estava?

Há horas de gravações em vídeo, e um dia vou editá-las. Mas vou contar aos nossos filhos a história verdadeira da nossa vida (há prenúncios desconfortáveis do fim do nosso casamento em certas conversas naquelas fitas), ou vou decidir criar uma versão mais facilmente digerível? Isso, também, cabe a mim e só a mim decidir.

Levá-lo de volta para a nossa casa, também implicou fechar sua casa de praia, lidar com as contas de banco, buscar os amigos espalhados por vários lugares, que não teriam como saber que ele se fora, e de um modo geral limpar a vida de Corey.

Achei que seria mais fácil reincorporar a vida dele à nossa se eu o levasse de volta aos poucos, enchendo o carro e repetindo isso ao longo de semanas. E foi bom eu ter me demorado e feito isso sozinha, porque enquanto arrumava tudo, encontrei coisas que talvez ele tivesse preferido manter encaixotadas: a evidência da namorada que ele não tinha apresentado aos meninos, presentes pornográficos de colegas do escritório.

A arquivista que eu sou por natureza considerou cada item por seu possível valor histórico. Aquilo dizia alguma coisa significativa sobre quem Corey era? A namorada, afinal, tinha sido uma parte importante da vida dele, não era certo expurgar toda a evidência da sua existência.

No mês passado, fui pela última vez à casa de Corey para limpá-la antes que os novos donos tomassem posse. Limpei o banheiro, a geladeira, o piso e as paredes com uma dedicação tão pouco característica que teria feito Corey rir.

Eu me sentei uma última vez no corredor do andar de cima, onde ele morrera, e, como no passado, tentei imaginar o que ele teria visto em seus últimos momentos. Gosto de pensar que Corey escolheu fixar o olhar em uma imagem para levar com ele, quando foi desse lugar para o próximo. Se foi isso, os olhos dele facilmente se fixaram na foto em preto e branco do lado de fora do seu escritório, que mostrava os nosso meninos, na época com quatro e sete anos, vestidos de piratas, os olhos cintilando na direção do fotógrafo, como se dissessem: Venha com tudo pra cima de nós. Estamos prontos.

É claro que eles estavam só brincando, na época.

Espero que Corey tenha sido capaz de levar aquela imagem com ele. Por mais coisas que eu esteja mantendo comigo, gosto de pensar que Corey também manteve alguma coisa com ele.

Terminei. Limpei as aparas de unha da pia e os fios grisalhos do chuveiro. Limpei também algumas folhas de salsa perdidas na gaveta de legumes da geladeira. Guardei para levar embora alguns itens aleatórios que, por algum motivo, tinham me escapado: um mata-moscas, cabides, meias.

Levei-os de volta para nossa casa, já explodindo com o que restara do meu ex-marido.

Foi de cortar o coração e, ao mesmo tempo, uma honra ser “a pessoa” de Corey. Ter sido, apesar do fracasso do nosso casamento, a pessoa mais importante da vida dele.

Sim, estávamos seguindo em direção a futuros separados. Sim, ele tinha uma namorada que provavelmente conheceria os meninos no tempo devido. Ainda assim, no fim, fui eu que varri os cantos, que salvei o que era precioso, e que fechei a porta da vida dele. Não esperamos todos que, quando a nossa hora chegar, tenhamos uma pessoa assim, que saiba o que fazer e se sinta privilegiada em fazer?

Dez meses depois da morte de Corey, os meninos estão seguindo admiravelmente bem com suas vidas — talvez tenham herdado do pai o equilíbrio em relação a essas questões. E eu mantive a promessa que fiz a Corey quando ambos achávamos que ele viveria bastante para se tornar enfermo: eu o levei de volta para casa.

Jennifer Just mora em Woodbridge, em Connecticut. Ela atualmente está escrevendo um livro sobre o seu tataravô, George B. Swift, que se tornou prefeito de Chicago em 1893, depois de um assassinato, duas trocas de socos e três votos. Este relato foi publicado em junho de 2005.