Modern Love
Livre da embriaguez
LIVRE
DA EMBRIAGUEZ
KEVIN CAHILLANE
M EU PRIMEIRO ENCONTRO COM JULIE NÃO COMEÇOU bem e terminou ainda pior. Para começar, eu não apareci. Era a noite de sábado do fim de semana do Dia do Presidente, e eu estava tomando gim-tônica e assistindo a um jogo de basquete no Telephone Bar and Grill, na Second Avenue, passando o tempo até chegar a hora em que supostamente a encontraria na John’s Pizzeria, mais abaixo na rua. Quando voltei a dar conta de mim, horas haviam se passado e o toque do telefone me acordava de um sono profundo, no meu apartamento, na East Twelfth Street.
Saí cambaleando do prédio e corri até o John’s, onde Julie terminou gritando irritada, na calçada. E mesmo não tendo conseguido ouvir suas palavras direito, o significado delas ficou claro: nunca mais.
Depois que ela foi embora de táxi para o Upper West Side, aquele poderia ter permanecido como apenas mais um desses primeiros encontros dos infernos, que acabam se tornando engraçados quando são contados mais tarde. Mas não era simples assim. Trabalhamos juntos em uma agência de publicidade, ela como coordenadora de recursos humanos e eu como um dos recursos humanos que ela coordena. Julie foi a primeira pessoa que conheci no trabalho. Eu tinha acabado de passar no teste de digitação porque ela havia acrescentado cinco minutos ao cronômetro.
Com isso e um sorriso, Julie me fisgou, e comecei a passar as noites compondo mensagens de e-mail inteligentes e elaboradas para ela que eu trataria como espontâneas no dia seguinte. Julie começou a parar na minha mesa com uma frequência que eu atribuía mais à atração que ela sentia pelo meu charme esfarrapado do que à obrigação de distribuir os memorandos que levava.
Agora, todo aquele território conquistado parecia perdido. E, na terça-feira, eu teria que encará-la de novo.
Continuei a beber por todo o fim de semana, chafurdando no arrependimento, e no domingo mandei cem dólares em rosas para ela, comprados com um dinheiro que eu não tinha, junto com um bilhete pedindo desculpas. Infelizmente, também deixei uma mensagem de voz para ela que consistia em Hootie & The Blowfish cantando “Hold My Hand” inteirinha.
Quando a terça-feira chegou, eu fiquei em casa. O mesmo na quarta-feira.
Eu sabia que aquele tipo de negação não era uma estratégia de longo prazo prática, por isso, na quinta-feira, eu me arrumei e tentei voltar ao trabalho. Mas meus nervos estavam em frangalhos, a minha cabeça anuviada. Eu havia atravessado o limite, como às vezes acontecia, do alcoólatra funcional para o claramente não funcional.
Finalmente liguei para a Julie.
— Você recebeu as rosas? — perguntei.
Sim, ela havia recebido, e eram lindas, mas ao mesmo tempo tinha achado um gesto um tanto grotesco.
— Você é alcoólatra — disse Julie, de forma nada gentil. — Precisa de ajuda.
Eu mesmo já chegara a essa conclusão aos dezesseis anos, mas ninguém jamais me dissera isso diretamente. Julie sugeriu que eu marcasse uma consulta para a manhã seguinte com um médico associado ao programa de assistência ao empregado da agência de publicidade em que trabalhávamos. Fiz isso. Estava perdidamente apaixonado, e se ela me pedisse para saltar de uma ponte, eu talvez tivesse feito isso, também. No entanto, mais uma vez, saí da cama cambaleando e desorientado, e cheguei à consulta com meia hora de atraso, encharcado de chuva.
O consultório na West Fifty-seventh Street era exuberante e silencioso — em algum lugar, uma fonte jorrava tranquilamente. Ele usava barba e era gentil, mas foi direto ao ponto.
— Então, o que o traz aqui? — perguntou.
— Eu bebo.
— Com que frequência?
— Diariamente.
— Bebeu essa manhã?
— Afirmativo.
— O que houve com o seu braço?
— Eu tenho um gato.
— Deve ser um gato e tanto.
— Na verdade, eu não tenho um gato.
— Acho que você gostar de ver a manifestação física da sua dor psíquica.
— Quem não gosta?
Ele me diagnosticou com alcoolismo grave, o que não era exatamente uma novidade, e recomendou que eu procurasse tratamento imediato, que me internasse em uma clínica de reabilitação.
— Se estiver tudo bem com a Blue Cross, a seguradora — concordei —, por mim tudo bem.
Eu tinha vinte e quatro anos.
Voltei ao meu apartamento, do qual não pagava o aluguel há algum tempo, e esperei por uma ligação do pessoal da área de benefícios do trabalho. Eu estava na agência há apenas seis meses, e só conseguira o emprego como um favor à minha tia, que tinha trabalhado lá por muitos anos. Tanto pelo meu guarda-roupa bagunçado quanto pela minha ignorância com computadores, ficava claro que eu não era adequado ao ambiente da Madison Avenue, mas minha tia me descolou uma entrevista assim mesmo.
Julie, a minha improvável defensora, ligou e me disse que os meus benefícios tinham sido aprovados e que eu podia ir. Então, eu fui, mas não sem antes virar alguns copos para ganhar coragem para dar os telefonemas que precisava para a minha família e para os meus amigos, e garantir que eu não fosse dado como desaparecido.
Quando a van chegou para me pegar, o motorista grisalho me disse que a maior parte das pessoas costumava estar mais bêbada do que eu. Por algum motivo, aquilo fez com que eu me sentisse pior, como se não tivesse capacidade nem de me autodestruir corretamente. Conforme a van seguia para o norte na FDR Drive, achei que as luzes cintilantes da cidade grande nunca parecem tão absolutamente intoxicantes como quando se está partindo.
Quase três semanas mais tarde, apareci no cubículo de Julie usando o meu único terno. Ela me abraçou e me disse que eu parecia ótimo. Eu disse que ela também estava ótima. Julie me entregou alguns envelopes para eu guardar papéis e documentos para copiar, tarefas que completei com um zelo sem precedentes. Ela parecia achar divertido cada vez que eu relatava o meu progresso e pedia mais trabalho.
No fim do dia, tirei o paletó, me sentei no cubículo dela e contei sobre a reabilitação.
— Ninguém achou que você voltaria — disse ela.
Quando eu levantei para ir embora, toquei brevemente no joelho dela, como um personagem reprimido de um filme da produtora Merchant Ivory, e fui para casa, andando pelas ruas de Manhattan.
Naquele fim de semana, nos encontramos no Central Park e conversamos enquanto caminhávamos. Julie era de Canton, em Ohio, filha de uma professora e de um técnico de futebol americano. Ela era membro da Phi Beta Kappa, e a irmã era a sua melhor amiga, uma designer gráfica que morava em Chicago. Julie tinha escolhido a agência de publicidade em vez da Merrill Lynch porque parecia mais humana. Eu, bem, eu era só um cara de Nova Jersey cuja opção pela menor resistência o tinha feito atravessar o Lincoln Tunnel.
O material de leitura da reabilitação alertava para os perigos de começar um romance dias (ou mesmo semanas, às vezes anos) depois de parar de beber, mas eu queria companhia no meu bote salva-vidas, e Julie parecia pronta para assumir um dos remos, mesmo que com cautela.
No nosso encontro seguinte no parque, ela subiu em uma pedra e me declarou muito sensível ainda para um namoro.
— Acho que devemos ser só amigos — disse ela.
Eu não me ressenti da decisão dela. Se pegássemos os pretendentes de Julie ao longo dos anos e os colocássemos naquelas filas de possíveis suspeitos da polícia, eu claramente seria o que mais destoaria dos outros. Caminhamos pelo Ramble, atravessamos o Sheep Meadow, e chegamos a uma clareira onde a silhueta dos hotéis em Central Park South parecia cintilar na luz do fim do dia. Conforme a luz desaparecia atrás de Palisades e a lua cheia brilhava, Julie se virou pra mim e disse:
— Se não fôssemos apenas amigos, isso seria bem romântico.
Durante os dias e noites juntos, hermeticamente confidenciais, que se seguiram, prometi a Julie que me manteria sóbrio.
Mas, dois meses depois, eu estava de volta aos meus velhos amigos e ao meu velho eu. Julie e eu fomos a um casamento em Jersey Shore onde, sem que ela soubesse, virei um drinque atrás do outro. Eu simplesmente não conseguia ver nada além dos cubos de gelo tilintando, os limões ondulando, aparentemente nos copos de todo mundo. Dancei com a irmã do noivo, que sussurrou no meu ouvido para eu ligar para ela se em algum momento decidisse “largar a loira”. Um antigo conhecido ficou me olhando perplexo enquanto eu virava alguns copos durante a nossa conversa e disse:
— Está com sede?
Na volta para a cidade, ficamos parados no trânsito, esperando para chegar a um posto de controle de embriaguez no trânsito. Apavorado, disfarcei dizendo a Julie que era bom que eu tivesse parado de beber. Assim é o copo sem fundo da duplicidade do qual nós, bêbados, bebemos. Quando o oficial simplesmente me mandou seguir adiante, senti tamanha alegria e alívio que jurei que nunca mais beberia. E a não ser por alguns poucos lapsos menores no mês seguinte, assim foi.
Dois anos mais tarde, nos casamos em um dia quente de junho, em uma igrejinha em uma área industrial de Canton, enquanto os convidados se abanavam com os folhetos. Na noite anterior ao casamento, um grupo de esperançosos e de sem fé tinha se reunido para o jantar de ensaio do casamento em um restaurante no centro antigo de Canton. Houve a mistura típica de bebidas e desejos de felicidade, e eu ainda tinha a sensação de que a minha boca e o meu braço poderiam conspirar contra o meu cérebro para provocar um pequeno inferno, mas isso não aconteceu.
Quando chegou a minha vez de brindar, recitei o discurso que tinha rabiscado em um guardanapo no jogo dos Indians na noite anterior. Eu me esqueci de todas as palavras, a não ser pela última frase, que peguei emprestada de uma música do Bruce Springsteen. Prometi a Julie que, no melhor ou no pior, na riqueza ou (mais provavelmente) na pobreza, eu a amaria com toda a loucura da minha alma. Era em parte um juramento, em parte apenas pose, e em parte uma aposta.
Então, ergui o copo e voltei a abaixá-lo.
Já se passaram dez anos desde que tomei o meu último drinque, e não é como rolar uma pedra montanha acima todo dia. Na verdade, não é esforço algum. Não frequento reuniões, não falo em jargões ou repito silenciosamente a Oração da Serenidade quando me sinto confuso. O acúmulo de milhares de dias sem álcool simplesmente transformou o beber em um não hábito por reflexo.
Julie e eu temos empregos comuns, uma casa nos subúrbios e uma minivan para nossos dois filhos e meio (dois agora e um previsto para dezembro) que, geneticamente falando, poderiam ter tido coisa melhor. Com certeza não vai demorar muito para eles me dizerem isso.
Mas não sei. A questão é: será que a mãe deles e eu teríamos chegado a ficar juntos se eu não estivesse me afogando em álcool e precisando que alguém me estendesse a mão? Às vezes, não consigo evitar imaginar se os fardos que carregamos não acabam nos carregando.
Kevin Cahillane é redator e jornalista e mora em Summit, em Nova Jersey. Este relato foi publicado em julho de 2005.