Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 21 de 47

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Modern Love

Quem é essa moça no quarto, papai?

QUEM É ESSA MOÇA

NO QUARTO, PAPAI?

TREY ELLIS

 

E U OS OUVI ANTES DE ELES ENTRAREM, PISANDO FIRME E sussurrando freneticamente no corredor do lado de fora do meu quarto. Então a porta foi aberta apenas o necessário para que seus ombros e cotovelos passassem, enquanto competiam para ver quem era o primeiro, acompanhados pelo som do alarme do meu relógio:

— Papai, são sete horas.

Essa é a minha filha, que tem seis anos. Ela sobe na cama e pressiona o rosto contra o meu.

Abro um dos olhos e a vejo, enorme. Então, meu filho sobe na cama, atravessa o vasto território do meu edredom, e acerta as minhas canelas com o joelhinho ossudo.

— Papai, são sete horas — repete. Ele tem três anos e meio.

E de repente, na maior parte das manhãs ao longo dos três anos desde que a minha esposa foi embora, a minha cama grande e vazia volta a ficar cheia.

A minha cama é tamanho Califórnia king, o colchão sueco feito com uma espuma viscoelástica, desenvolvida pela NASA. Tanto o meu filho quanto a minha filha foram concebidos nesse polímero da era espacial, e seus primeiros movimentos para sair do útero aconteceram aqui, antes da urgência da situação nos fazer sair correndo para o hospital.

Mas apenas sete meses depois que o meu filho nasceu, me vi sozinho nessa expansão flexível. Meu filho estava dormindo no berço. Minha filha na caminha dela. E a minha esposa estava em seu estúdio boêmio em Venice Beach.

Ela queria ser livre. Eu queria estabilidade para os nossos filhos. Assim, ela foi embora e eu fiquei, mas fiquei mal. Abalado e carente, eu me sentia desesperado por consolo.

A maior parte dos meus amigos e todas as minhas amigas me alertaram contra a ideia de eu me apressar a entrar em outro relacionamento, mas eu estava convencido de que o que mais precisava para ajudar a curar o meu coração era o cheiro de uma pele nova. Eu me atirei em todos os bares de solteiros no meu CEP, mas sempre ia embora tão só como quando chegara. E, por meses, não prosperei no mercado de relacionamentos.

Finalmente, uma divorciada veterana me deu esse conselho:

— Lembre-se de todas as mulheres com quem você quis dormir quando estava casado, e ligue para elas.

Alguns dias mais tarde, eu estava voltando de carro para casa, a capota arriada, o vento soprando as lágrimas que escorriam direto para os meus ouvidos, quando gritei para mim mesmo o nome de uma garota de que eu sempre gostara, uma nigeriana de trinta e poucos anos que chegara de Liverpool.

Quando cheguei em casa, vasculhei todos os meus antigos cadernos de endereço, encontrei um número, disquei e, para meu espanto, ela atendeu. Nervoso, disse que eu e a minha esposa tínhamos nos divorciado e que eu estava ligando para convidá-la para sair.

Depois de um longo silêncio, ela falou:

— Acho que não. Você ainda está casado.

Era verdade, a papelada de Dissolução do Casamento tinha sido protocolada no tribunal apenas recentemente, e ainda levaria mais seis meses para que o processo fosse finalizado. Felizmente a minha futura ex-esposa por acaso estava em casa naquele dia, tomando conta das crianças. Sempre compartilhamos os deveres com os filhos, e nossos horários não mudaram muito depois que ela se mudou.

— Escute, vou colocá-la no telefone e você mesma pode perguntar a ela.

Tapei o bocal com a mão e contei à minha futura ex-esposa o problema em andamento. Ela levou o telefone para outro cômodo.

Que vida estranha se tornou a minha, eu me lembro de pensar.

Finalmente, ela voltou e me estendeu o telefone.

— Ora, isso é uma coisa que nunca me aconteceu, Ellis — ronronou a nigeriana. — Você deve mesmo querer muito sair comigo.

Sair era uma coisa, mas apresentar novas mulheres para os meus filhos era outra. Eu estava determinado a não ser um desses pais que apresentam aos filhos uma nova madrasta em potencial a cada poucos meses. Minha ex e eu chegamos até a determinar um período de espera em nosso acordo de Dissolução do Casamento, que exigia que esperássemos seis meses antes de apresentarmos as crianças a alguém com quem estivéssemos tendo um relacionamento sério.

Como sou eu que estou morando com os nossos filhos, esse acordo acaba sendo muito mais fácil para ela do que para mim. É um bom plano, e tenho toda a intenção de me manter fiel a ele. Mas levar a minha nova namorada para a minha cama Califórnia king e tirá-la de lá sem que os meus filhos percebam, às vezes é um exercício enervante de técnicas de espionagem intrafamiliar.

No meu terceiro encontro com a nigeriana, fomos para a minha casa depois do jantar. Estava ficando tarde e a esperança crescia em mim quase tão rapidamente quanto o terror. Será que eu desmoronaria e começaria a chorar no meio de tudo? Será que, depois de doze anos com a mesma mulher, as minhas técnicas tinham se tornado tão desajeitadas e fora de moda quanto Phil Collins e os ternos com ombreiras?

Mas na manhã seguinte, acordei ao lado dela na minha cama, encantado e aliviado ao mesmo tempo — então, apavorado. O meu relógio marcava 6:59. Enfiei rapidamente a calça de moletom, interceptei as crianças na escada e os levei habilmente para o andar de baixo com um suborno:

— Rabanadas! Quem quer rabanadas?

Entupi os dois com meio pacote de pão e afoguei cada rabanada em calda, torcendo para que eles apagassem com o excesso de açúcar, e assim eu pudesse tirar a nigeriana sorrateiramente de casa. Ao mesmo tempo, eu estava rezando para que ela desse um jeito de sair sozinha pela janela e descer pela buganvília. Em vez disso, a nigeriana desceu tranquilamente as escadas e se juntou a nós no cantinho do café da manhã — usando o meu roupão. Meu coração quase entrou em colapso, mas felizmente as crianças, que na época tinham só quatro anos uma e dezoito meses a outra, apenas riram.

Depois dessa experiência, durante os momentos ainda aflitivamente raros em que uma mulher achava o caminho para a minha cama, eu explicava a ela com antecedência que, na minha casa, era preciso ir embora antes do amanhecer.

Então, veio a francesa. (Eu sei, tenho uma queda pelos tipos internacionais. Não posso evitar.) Ela estava com vinte e sete anos. Eu, com quarenta e um. É claro que era um clichê. É claro que meus amigos me ameaçaram com uma intervenção. E é claro que eu não dei ouvidos.

Nós dois nos conhecíamos há um ano, e trocávamos e-mails esporádicos. Então, um fim de semana, em Paris, nos apaixonamos. Duas semanas mais tarde, eu a encontrava no aeroporto de Los Angeles, com uma rosa na mão, tão nervoso que mal conseguia ficar de pé.

Expliquei à minha ex que a nossa regra de seis meses não teria como ser aplicada a amantes estrangeiros, certo? Quem poderia pagar por três semanas em um hotel em Los Angeles? Assim, a francesinha ficou comigo e as crianças, mas não nos beijamos na frente deles, determinados a irmos devagar. Então, de algum modo, as brincadeiras sobre casamento se tornaram mais sérias. Menos de dois meses depois daquele primeiro fim de semana, ficamos noivos. Em vez de ficar petrificada, ou de sentir repulsa pela ideia de se tornar uma mãe instantânea, ela disse que ansiava por isso. Ela amava os meus filhos, tirava fotos sem parar dos dois, e os ensinou a preparar fondant au chocolat.

Quando o meu garotinho dizia que estava cansado demais para andar até o carro e eu declinava da ideia de carregá-lo, era ela que o levantava no colo, e era nela que ele se agarrava como um macaquinho satisfeito. Ela disse até que queria que começássemos a tentar ter filhos nossos no outono. Eu tinha achado que para mim bastava de fraldas, mas a ideia de ter um filho com ela me fez sorrir.

Planejamos uma cerimônia civil no meio do verão, no vilarejo onde os pais dela moravam, em Bordeaux, que parecia saído de um conto de fadas. Imaginamos nossas famílias acomodadas ao redor de mesas impossivelmente longas, no meio de um campo dourado, com uma banda de senhores franceses bêbados tocando acordeões. Então, em janeiro, ela voltou para Paris por um mês e só mandou um e-mail durante todo esse tempo. Um longo e-mail.

Cometi o erro de abri-lo no meio de uma típica manhã enlouquecida com as crianças. O meu filho ainda não estava totalmente desfraldado, e me vi trocando-o em cima da máquina de lavar roupa, enquanto meu coração batia violentamente no peito. Engoli em seco e expliquei às crianças que os planos tinham mudado e que a francesinha não ia mais voltar. Nunca mais. Já se passou um ano e meio e o meu filho às vezes ainda diz que sente falta dela.

Ao longo dos meses seguintes, eu finalmente fiz as pazes com o meu destino e disse a mim mesmo que não precisava de mais amor do que o dos pequeninos que eu ajudara a gerar. Imaginei que se fosse bom com eles e não os estragasse com repreensões ou indiferença, o amor deles por mim não se dissolveria como os dois grandes romances da minha vida. Decidi que, mesmo se eu passasse o resto da vida sem uma companheira, já teria recebido uma grande porção de amor.

E, é claro, assim que cheguei a essa conclusão, conheci uma mulher, a Cris, uma italiana, que não apenas é um encanto, mas também tem idade mais próxima à minha. Já estamos juntos há cinco meses e ela veio me visitar três vezes em Los Angeles, e as crianças até nos viram de mãos dadas. Durante cada uma das visitas da Cris, ela ficava em um hotel no fim da rua, e eu acertei o alarme para as seis horas, para tirá-la de casa de fininho. Queremos estar certos do que vamos fazer. Queremos estar mais do que certos. Mas como se pode estar certo o bastante?

Ela chega de novo em três semanas, vamos comemorar seis meses de namoro, e decidimos que já é hora de ela receber permissão para ficar na minha cama depois da hora mágica. Conhecemos bem um ao outro, embora ela ainda não consiga compreender o pacote completo. A Cris também sobreviveu a um divórcio, mas não tem filhos, assim, vamos ver como ela vai aceitar minha bagagem extremamente fofa e falante.

Eu estava preparando as crianças para essa grande mudança, quando meu filho me olhou preocupado.

— Ainda vamos poder ficar aconchegados com você de manhã?

Eu o aconcheguei naquela hora mesmo e disse:

— É claro, essa é uma cama Califórnia king. Tem lugar pra todo mundo.

E é verdade: tem lugar pra todo mundo naquela cama grande e confortável.

Se ao menos fosse tão simples assim.

Trey Ellis é escritor e professor, e mora em Connecticut. Este relato, que inspirou o livro de memórias dele, Bedtime Stories: Adventures in the Land of Single Fatherhood, foi publicado em junho de 2005.