Modern Love
Meu coração seria mais rápido do que quem o persegue?
GARY PRESLEY
S OU QUASE TETRAPLÉGICO, EM CONSEQUÊNCIA DA PÓLIO, e não consigo ficar de pé. A força nos meus braços é limitada — é o bastante para funcionar quando estou na minha cadeira de rodas, mas não para eu entrar ou sair da cadeira.
Morar no meu próprio apartamento, como eu desejei, em vez de receber assistência em uma casa de repouso, exigia um rodízio na equipe de atendentes, para me transferir da cadeira de rodas para a cama, da cama para a cadeira de rodas, da cadeira de rodas para a cadeira no chuveiro... vocês pegaram a ideia. Dez a vinte minutos pela manhã e à noite normalmente resolviam a questão. De resto, eu dava conta da minha vida, o que incluía trabalhar em uma agência de seguros. Nada de trabalhar no estoque pra mim, obrigado.
As atendentes mulheres preferiam ir em duplas, o que era melhor para ajudar a colocar um homem na cama e despi-lo. Costumo ser um tanto deferente na companhia de mulheres, e tinha feito um esforço consciente de evitar qualquer toque, qualquer palavra que pudesse ser encarada como impróprios. Assim, esse esquema seguiu sem problemas, logo passando a ser um trabalho feito e esquecido — ao menos até Belinda, uma jovem mãe de dois meninos, aparecer como uma das metades da minha equipe de atendentes. Ela estava trabalhando à noite para pagar a universidade.
Mais cedo, naquele dia, eu tinha percebido que uma parte da estrutura da minha cadeira de banho estava frouxa.
— Você sabe usar uma chave de encaixe? — perguntei a Belinda.
— Claro — respondeu ela. — Eu era uma moleca. Ajudava meu pai o tempo todo quando menina.
Belinda usava os cabelos escuros, longos, sedosos e lisos presos junto à nuca delicada, tinha olhos exóticos, escuros e amendoados, e o corpo flexível de uma bailarina. Ela podia até ter sido uma moleca quando pequena, mas o que eu via agora era uma linda mulher.
— Tem um conjunto de chaves na gaveta de baixo da minha escrivaninha, à esquerda — falei. — Pegue e eu lhe mostro como juntar essas partes de novo.
Conforme os dias se passavam, Belinda às vezes começava seu turno na minha escala de transferência sem uma parceira.
— Você não se incomoda de ficar sozinha aqui? — perguntei.
— Por quê? Consigo correr mais rápido do que você.
E, com isso, a necessidade da minha escala rígida se tornou menos importante, e começamos a conversar sobre outras coisas: livros e filmes, meu trabalho e o dela. Pareceu uma evolução natural que, depois de algumas semanas, a rotina de Belinda incluísse uma visita amigável ocasional, antes de ela começar seu turno, que ia das 15 às 23 horas.
Um dia, Belinda apareceu com os filhos.
— Esses são o Matthew e o Christopher — disse.
Os meninos me cumprimentaram, embora Mathew, o mais novo, ficasse agarrado com força à saia da mãe. Ficou evidente que ela havia explicado a eles sobre a minha cadeira de rodas. Matt tinha os cabelos ruivos e sardas, enquanto Chris tinha as cores morenas da mãe.
E foi assim que o homem em uma cadeira de rodas, sardônico e reservado, e a jovem vibrante, que amava ciência e se preocupava se seria capaz de sustentar os filhos, desenvolveram um estranho vínculo, uma conexão onde mãos podiam se tocar, mas pensamentos, sentimentos e emoções começavam a cintilar como relâmpagos além do horizonte.
Eu tinha mais de quarenta anos, e a minha raiva e frustração por ser tetraplégico já haviam abrandado em sua maior parte. Mas nunca me ocorreu que a amizade, a conexão, com Belinda, também seria a ponte entre a cautela e a paixão, entre o isolamento e o vínculo com alguém.
— Sinceramente, não vejo a cadeira — comentou Belinda, alguns meses depois de nos conhecermos. — Vejo você.
Mas eu não acreditei nela, na época. Tinha ficado tetraplégico jovem demais, quando era imaturo demais, e em uma época e um lugar onde a maior parte das pessoas com deficiências eram vistas como inválidas e confinadas, que deveriam aceitar passivamente suas limitações e se esconder atrás de um sorriso de aceitação, para evitar ofensas, negligência, abusos ou rejeição.
Belinda tinha vinte e seis anos, estava começando a estudar para um mestrado em microbiologia, mas também era mãe solteira com uma renda muito baixa. Quase uma década se passou enquanto ela trabalhava como assistente de enfermagem para pagar pelos estudos e pela creche dos filhos. E a vida estava começando a se tornar mais frenética à medida que ela assumia mais responsabilidades com os estudos para o mestrado.
Eu não sabia como amar, não na época, mas sabia ser amigo. Tentei ajudá-la com os meninos, aprontando-os para o ônibus quando Belinda tinha um compromisso cedo, tomando conta deles depois da escola e cuidando para que o trabalho de casa dos dois fosse feito e para que eles estivessem com as barrigas cheias.
Em um dia de final de verão, Belinda me convidou para acompanhá-la a uma cidade universitária próxima.
— Preciso da opinião de um homem a respeito do que uma mulher deve usar para parecer profissional — disse ela.
O programa de mestrado permitia que ela completasse a renda trabalhando como assistente de ensino. Ela estava apreensiva em relação à aparência, por isso fomos até lá na minha van.
No caminho, passamos por um Fusca na rua ao lado, ela apontou para ele e disse:
— Qualquer dia, vou encontrar um desses e reformar.
Eu não estava prestando muita atenção e falei:
— Se os sonhos fossem cavalos, os mendigos seriam cavaleiros.
— Que coisa cruel de se dizer — retrucou Belinda, aborrecida, e virou o rosto.
Ela estava dirigindo a minha van, e eu ia sentado ao lado dela, com a cadeira de rodas presa por faixas.
— Desculpe — pedi automaticamente, mas não entendi o que provocou a reação dela. O aforismo sardônico fez perfeito sentido pra mim — eu era um especialista em desejos.
— As pessoas têm o direito de sonhar — comentou Belinda.
Permanecemos em silêncio enquanto ela comprava vestidos. Belinda gostava de estampas florais. Eu gostei de um azul-marinho com minúsculos poás brancos. Paguei o almoço e voltamos para o meu apartamento. Enquanto esperávamos que o ônibus da escola chegasse, ela se sentou no meu sofá, ainda cabisbaixa, as pernas enfiadas embaixo do corpo, os cabelos cascateando pela lateral do rosto. Ela olhou para fora da janela, para a fileira de cedros ao longo da rua.
— Realmente não tive a intenção de magoar seus sentimentos — falei.
— Não tem problema. Eu não deveria ser tão melindrosa. — Eu podia ver a desesperança refletida nos seus ombros curvados.
Eu conhecia a desesperança. Costumava usá-la como um casaco familiar, incapaz de aceitar o que devia ser tolerado e ignorando petulantemente o que devia ser admitido. Mas naquele momento — diante de tamanha tristeza em uma pessoa normalmente tão aberta e animada, tristeza em uma mulher que precisava de alguma coisa de mim — quis oferecer mais do que palavras de desculpa balbuciadas. Mas também sabia que me insinuar mais fundo no mundo dela nos levaria a um lugar onde eu talvez perdesse o que fizera de mim, um lugar onde eu sabia que não poderia mais me agarrar à dura realidade que me mantinha são.
Eu acreditava que não merecia o amor de Belinda. Acreditava que não deveria permitir que ela me amasse. Me agarrava com força à ideia de que deveria me contentar em suportar o resto da minha vida sem reclamar, um caso encerrado, uma miscelânea absurda de partes quebradas, um mendigo que já não desejava um cavalo. Mas Belinda também era uma mulher, linda e vibrante, e eu era um homem — em uma cadeira de rodas, era verdade —, mas um homem cheio de ardor e desejo que às vezes tornava a cadeira irrelevante.
E eu era o guardião de um segredinho obsceno que eu talvez soubesse desde que tinha ficado preso a um pulmão artificial, e com certeza desde algum vago momento depois, o momento em que me dei conta de que nunca mais voltaria a andar. É uma coisa que vai me corroer as entranhas até o dia em que eu morrer, uma coisa que até então tinha acabado com qualquer ilusão de que o amor e o casamento para mim seriam como nos livros e nos filmes. E era o seguinte: eu seria fisicamente dependente daqueles que viessem a me amar. Era um fardo, uma obrigação, e sempre seria. Não conseguia imaginar como uma mulher poderia me amar e não acabar odiando a carga que eu acreditava ser.
Tudo isso ricocheteou pela minha mente — não em palavras, mas em uma bruma de desconforto melancólico —, enquanto eu olhava para Belinda. De repente, ela se levantou do sofá e atravessou os poucos passos que nos separavam. Abri os braços e ela se sentou no meu colo e apoiou a cabeça no meu ombro. Não houve som, ou qualquer palavra entre nós, só lagrimas e o meu deslumbramento silencioso.
Amigos. Amantes. É possível que aquele dia tenha sido uma dica de que talvez houvesse uma trilha entre o emaranhado das minhas inseguranças. Só me lembro do presente, da magia, da transição perfeita do que eu jamais poderia imaginar para o que vou guardar como um tesouro até o meu último suspiro. Um beijo. Um toque. O doce aroma na curva do pescoço dela.
— Você sabe que deveríamos parar com isso — falei, a boca contra os cabelos dela. — Você precisa encontrar outra pessoa.
— Onde consigo encontrar um homem tolo o bastante para ficar em casa com os meus meninos quando eles têm catapora? — questionou ela, sorrindo e se levantando para dar um beijo no topo da minha cabeça. — Gosto do fato de você me colocar em primeiro lugar.
Meses mais tarde, Belinda passou pelo meu apartamento e estendeu uma caixinha. Dentro, havia uma aliança masculina, uma faixa larga com folhas de carvalho gravadas na superfície.
— Veja se cabe — disse ela.
Agora nos aproximamos de duas décadas de casados e, às vezes, ainda me encanto com o que o amor forjou. Às vezes, acho que Belinda talvez me veja como algo para cuidar, um lugar de sacrifício, um altar onde oferecer amor. Mas também sinto mais uma coisa — aquele brilho de duas décadas atrás, aquele ardor entre uma mulher e seu parceiro.
Os cínicos dizem que o amor romântico é uma ficção. Eu me apaixonei completamente apenas uma vez, e considero o amor um mistério, um enigma, um nó górdio entrelaçando dois espíritos. Mas mesmo agora, não consigo superar completamente a realidade do amor de Belinda. Escolhi amar Belinda, escolhi contra a minha mente racional, seguindo os sonhos do meu coração. E mesmo agora, confronto as tarefas com as quais ela me ajuda todo dia com uma mistura de culpa e gratidão, ressentimento e apreço, raiva e estupefação.
E em algum lugar no fundo da minha psique, dorme um velho mendigo, que não se dá conta de que o homem que Belinda escolheu para amar conseguiu seu cavalo e saiu cavalgando.
Gary Presley é o autor de Seven Wheelchairs: A Life beyond Polio. O relato dele foi publicado em novembro de 2009.