Modern Love
O meu marido agora é a minha esposa
DIANE DANIEL
O ALARME SOOU ÀS QUATRO DA MANHÃ DE UMA TERÇA-FEIRA no último novembro. Tinham dito a mim e ao meu marido para chegarmos duas horas mais cedo, como se fôssemos pegar um avião. Minhas pálpebras estavam inchadas da noite anterior, quando ele me abraçou e me disse que sentia muito, que sentia muito mesmo.
Eu comecei a chorar de repente, depois do jantar, porque não veria o rosto dele de novo, aquele rosto perfeitamente comum, com um nariz de tamanho considerável e um queixo pequeno, o rosto que eu tinha segurado e beijado, e que cumprimentara com alegria por oito anos.
— Você ainda está com a aliança no dedo? — perguntei. — Disseram para tirar.
Nos casamos quando estávamos na casa dos quarenta anos, ambos pela primeira vez, nossas vidas independentes se mesclando perfeitamente.
— Ih, é verdade.
Ele tirou a aliança do dedo esguio e colocou dentro de uma caixinha de miçangas em cima da minha cômoda. Tínhamos comprado a caixa em Bali, em uma das nossas muitas aventuras. Naquela viagem, dividimos refeições absurdamente apimentadas, subimos montanhas vulcânicas e ficamos em um quarto imundo, que abrigava um lagarto enorme, um fato que o meu companheiro atencioso não revelou até sairmos dali. Meu protetor, meu parceiro, meu príncipe.
Aqui estamos nós de novo, explorando um novo território, indo para um lugar onde conhecemos alguns costumes e palavras, mas não somos fluentes.
Enquanto ele saía com o carro da garagem, lembrei da lista de coisas a fazer e perguntei:
— Você não bebeu água, não é?
— Como assim?
— As instruções para o pré-operatório, quanto você bebeu?
— Mais ou menos meio copo — confessou ele.
— Inacreditável — resmunguei.
Seguimos em silêncio, a raiva mascarando o medo. Eu me concentrei em respirar, em deixar o meu afeto retornar como uma onda se movendo em direção à praia.
— Como está sentindo, meu bem? — pousei a mão na perna dele, voltando a ser a pessoa que costumava ser com ele.
— Como um idiota por não ter lido as orientações.
— É melhor do que sentir medo.
Tinham nos dito que a operação poderia demorar sete horas, e a recuperação muitas mais, por isso fui preparada, como para uma viagem, levando notebook, celular, revistas, uma manta e um travesseiro.
Ele deu entrada no hospital e uma enfermeira nos levou para um quarto, onde checou seus sinais vitais, todos excelentes. A transgressão dele em relação à água foi considerada aceitável.
“Ele” deu entrada. A transgressão “dele”.
Mesmo naquele dia, quando meu marido daria o primeiro passo cirúrgico em direção a se tornar mulher, eu continuava a dizer “dele” e “ele”, embora nossa terapeuta tivesse sugerido há meses que eu usasse o pronome feminino em casa.
— Farei isso quando for preciso — eu disse a ela em nossa última consulta. — Mas por ora, ele ainda é um homem para mim. Eu me virei para meu marido, então, que usava jeans e uma camisa abotoada na frente e disse: — Quando olho para você, meu bem, vejo um homem.
— Mas ela é uma mulher — retrucou a nossa terapeuta, suas palavras cortantes em relação à minha negação.
— Não para mim — falei com os olhos úmidos. Cruzei os braços como uma criança teimosa. — Consigo aceitar que ele vai se tornar uma mulher, mas agora ainda é um homem. Como você se sente, meu bem? Realmente se sente como uma mulher agora?
— Eu já lhe disse antes que sim, eu me sinto como uma mulher — respondeu ele, com um olhar pesaroso.
E então a hora do “quando for preciso” chegou. Estávamos no hospital, para a cirurgia de feminização facial, um procedimento nada incomum nas transições de masculino para feminino, no qual a cirurgiã iria esculpir uma versão em proporções mais femininas de um rosto masculino. No caso do meu marido, isso significava sobrancelhas mais altas, um nariz menor e um queixo pronunciado. Alguns meses mais tarde, o pomo de adão seria raspado e ele receberia implantes de seios. Na sequência viria a cirurgia genital.
O estrogênio que ele tomava já havia estreitado e suavizado seu rosto, e a cirurgiã disse que as alterações seriam sutis. Os olhos azuis grandes não mudariam, nem os malares altos, ou os lábios macios.
Nossa história de franqueza, afeto e confiança me fazia continuar acreditando que nosso relacionamento sobreviveria, que até prosperaria. Eu nunca tive a sensação de que ele tinha me ludibriado, como alguns amigos sugeriram. Ele logo me contou que se sentia ambivalente em relação a sua masculinidade, mas que tinha feito as pazes com isso. Como eu mesma tinha conflitos em relação aos homens do tipo machões, não me dei conta da profundidade da confusão que ele sentia.
Foi só quando já estávamos casados que meu marido, finalmente se sentido amado, admitiu para si mesmo que era transgênero. Que por dentro, era uma mulher. Que não queria ser o homem com quem eu me casei.
Surpresa e magoada, procurei uma terapeuta, li livros sobre transgênero, busquei apoio online e confidenciei o meu segredo à única amiga em quem confiava. Meu marido e eu continuamos a conversar, a nos amarmos. Com o tempo, passei a crer que o meu marido, como minha esposa, seria, de modo geral, a mesma pessoa: inteligente, compassivo, maduro, com o mesmo corpo esguio. Eu tivera um relacionamento com uma mulher, aos vinte e poucos anos; assim, viver como lésbica me agradava, embora eu lamentasse a tranquilidade social que perderíamos.
Na sala do pré-operatório, aproximei minha cadeira da maca do meu marido. Ele estava sentado, os ombros curvados, os pés pendurados pela lateral. Aninhei a cabeça em seu peito.
A cortina foi aberta e a cirurgiã apareceu.
— Bom dia — disse ela, animada.
Fiquei nervosa ao vê-la fora do consultório. Agora a cirurgia não era mais um projeto e sim um evento real. Comecei a chorar — baixinho, educadamente, embora minha vontade fosse de uivar e soluçar desconsolada. Como se lamenta a perda de alguém que realmente perdemos, mas que ainda está aqui?
A médica pegou uma caneta cirúrgica no bolso e se sentou na frente do meu marido. Então, desenhou pontinhos no queixo dele, no nariz e na testa. Quando terminou, ele parecia um guerreiro.
A médica nos deixou a sós e eu peguei a mão dele, meus olhos agora secos, enquanto os dele estavam marejados.
— O que está havendo, meu bem? — perguntei.
— Lamento por todo o sofrimento que estou causando a você.
As lágrimas borraram os pontos embaixo do nariz dele e rolaram pelo rosto.
— Eu sei por que estou fazendo tudo isso, mas é muito louco, não é? — disse ele. — E lamento todos aqueles anos em que me senti isolado. Eu me pergunto o que perdi.
— Tente se concentrar na coragem que está demonstrando por simplesmente estar fazendo isso.
A enfermeira voltou.
— É hora de ir. Seu marido vai ficar bem — acrescentou ela com um sorriso.
A sala de espera estava cheia de pessoas ansiosas por notícias de familiares, amigos e amantes. Como faço em aviões, me sentei ao lado da janela. Vi que o dia tinha amanhecido cinzento e chuvoso, com rajadas de vento.
Ouvi as conversas ao redor, sobre ataques cardíacos, câncer, próteses de quadris, mas nada sobre transição de gênero. A começar daquele dia, eu seria uma minoria, uma excentricidade: a mulher de uma mulher transgênero. A ideia me deixava exausta.
Passei o tempo lendo e mandando e-mails de atualização da situação dele para o pequeno círculo de amigos e familiares que sabiam da operação. Nosso e-mail oficial de “revelação” seria mandado na semana seguinte.
A cirurgiã, toda sorrisos, parou para me avisar que tudo tinha corrido muito bem. Poucas horas mais tarde, uma enfermeira me levou para ver minha esposa, ela — esses são os termos que preciso começar a usar. O rosto operado estava protegido por bandagens, e havia outro curativo embaixo do nariz. Ela estava grogue e com dor.
— Depois que ele comer uma coisinha, nós lhe daremos comprimidos para a dor — avisou a enfermeira.
— Poderia chamá-la de ela? — pedi com gentileza.
Duas horas mais tarde, quando o sol se punha, voltamos para casa. Reclinei o assento dela, coloquei meu travesseiro embaixo da sua cabeça e a cobri com minha manta. Dirigi com cuidado, pousando a mão no joelho dela sempre que podia.
Quando chegamos em casa, perguntei se ela se importava de ficar no carro enquanto eu cuidava dos nossos bichos de estimação, pois sabia que, caso contrário, nossa entrada seria caótica. Ela assentiu.
A casa estava quente, mas liguei o aquecedor para deixá-la ainda mais quente. Imaginei a minha vida se a pessoa no carro não existisse. Mais fácil, porém vazia.
Voltei e despertei a minha parceira, esposa, mulher, que cochilava. Entramos em casa e fomos para o nosso quarto, que eu já havia estocado com os medicamentos de que ela precisaria, além de bolsas de gelo e gaze. Eu a coloquei embaixo das cobertas e afofei os travesseiros. Peguei sua aliança na caixinha e coloquei novamente em seu dedo. Eram sete da noite e estava escuro.
As instruções para o pós-operatório aconselhavam a paciente a dormir sozinha, para proteger o nariz do movimento involuntário dos braços de outra pessoa, mas não conseguíamos nos imaginar dormindo separadas naquela noite. Coloquei um saco de dormir no meu lado da cama, entrei nele e fechei o zíper. A cada algumas horas de sono, levantava para oferecer à minha esposa, que dormia um sono intermitente, mais bolsas de gelo, comprimidos, água.
Estávamos há quase doze horas na cama, quando uma luz cinza encheu o quarto. Ainda embaixo das cobertas, estávamos aquecidas e protegidas. Logo, encararíamos o mundo. Tirei o braço direito de dentro do saco de dormir e peguei a mão da minha parceira. Ficamos deitadas ali, lado a lado, até o sol nascer em nosso primeiro dia naquela terra estrangeira.
Diane Daniel mora com a esposa em Eindhoven, na Holanda. Ela pode ser encontrada em shewasthemanofmydreams.com. Este relato foi publicado em agosto de 2011.