Modern Love
Os cinco estágios do luto por ser ignorada
OS CINCO ESTÁGIOS DO
LUTO POR SER IGNORADA
RACHEL FIELDS
À S 6:30 DA MANHÃ, EU ESTAVA SECANDO MEU CABELO, ME preparando para o trabalho e aceitando a morte do meu relacionamento de duas semanas. O último prego no caixão foi que às dez da noite da véspera, eu tinha mandado uma mensagem para ele com alguma coisa vagamente sexual, e ele não me respondeu.
A manhã se tornara uma rápida mas emocionalmente turbulenta jornada pelos cinco estágios do luto.
Primeiro: negação. Era totalmente possível que ele não tivesse visto a mensagem. Talvez estivesse dormindo profundamente. Ou o telefone poderia ter caído dentro do vaso sanitário. Ele poderia estar morto! Qualquer uma dessas opções era confortadora.
Ele não era mesmo muito chegado a mensagens de texto, por isso a ausência de resposta não refletia necessariamente a estranheza do meu texto. Provavelmente era normal para quem não era um grande usuário de mensagens de texto ver uma mensagem e não responder. Essas pessoas viam a mensagem, achavam legal (ou não), mas não achavam necessário responder. Absolutamente normal.
Além do mais, a mensagem era mesmo assim tão esquisita? Se você saísse com um cara e fosse ligeiramente ousada enquanto se agarrava com ele em um banco, em uma área isolada de um parque público, não pareceria natural mandar uma mensagem de conteúdo vagamente sexual alguns dias depois?
Abri minhas mensagens para lembrar exatamente o que eu tinha mandado. Lá estava, às 22:02: “Não consigo parar de pensar no que agora me refiro como ‘o tempo no banco’.”
Certo, era um pouco confuso. Depois do terceiro copo de vinho, eu tinha achado que estava sendo recatada, mas o resultado saiu um pouco incompreensível. Não ficava claro nem se eu tinha gostado da experiência. Seria possível que ele achasse que eu fiquei traumatizada? Será que pensou que eu o estava acusando de alguma coisa?
Não, que absurdo. Ele provavelmente tinha visto minha mensagem, sorrido, se sentido tão excitado sexualmente quanto é possível com uma mensagem tão vagamente sexual como a minha, então foi dormir e sonhou comigo.
Mas, ao mesmo tempo, não é um pouco rude receber uma mensagem de uma mulher com quem você está saindo há duas semanas e nem sequer acusar recebimento? Seria assim tão difícil responder com um emoji sorrindo ruborizado, ou com quatro palavras que fosse? Ele nem precisava retribuir a insinuação sexual (embora isso tivesse sido bom). Poderia ter dito só “legal”.
(Risque isso. “Legal” teria sido muito pior. Se ele tivesse respondido com um “Legal”, eu teria me jogado no mar.)
Não me importava se ele não costumava mandar mensagens — e o que isso significava nos dias de hoje? Se você é um profissional urbano de vinte e poucos anos que não manda mensagens de texto, é praticamente impossível ser seu amigo. Para uma amizade existir em 2015, as pessoas precisam saber que podem mandar uma mensagem dizendo “nossa, adoro ostrrrras” às 14:15 e que vão receber uma resposta às 14:30.
É claro que teria muito pouco em jogo se ele não respondesse a uma mensagem de “nossa, adoro ostrrrras” em uma sexta-feira à tarde. Mas aquela foi a minha primeira mensagem insinuante depois do nosso primeiro encontro mais físico. Ao não responder, ele estava basicamente gritando para o universo: “Você é excessivamente sexual, atirada demais, e não me atrai em nada.”
Mas, sinceramente, se ele se ofendeu, eu não ia mais querer sair com ele. Não dá para se envolver em uma sessão de amassos no nível blusa aberta e ficar ofendido quando a mulher manda uma mensagem vagamente (vagamente!) sensual para você na sequência.
Talvez se eu não olhasse para o celular pelos próximos cinco minutos, ele respondesse. Sim, era isso que eu tinha que fazer. Ia secar os cabelos como uma mulher despojada, confiante e independente. Ia pensar em trabalho e nos meus amigos, e se devia marcar um horário... é sério que ele ainda não respondeu?
Pousei o celular com a tela para baixo e tirei o som. Agora não ia poder ver se ele respondeu e podia começar a viver minha vida. Era solteira, empoderada e pronta para o que desse e viesse.
Não que aquilo fosse funcionar. Se o celular estava para baixo e sem som, eu não saberia se ele tinha respondido. A melhor solução era manter o aparelho virado para cima, com o som desligado, assim eu poderia ver a tela acendendo se ele mandasse uma mensagem — mas não seria incomodada pelo toque. Aliás, era um toque irritante, e eu estava secando o cabelo, por isso não ouviria de qualquer modo.
Dois minutos mais tarde, ainda nada de resposta.
Comecei a pensar na minha vida, e em como ela devia parecer para quem olhasse de fora. Duas noites antes, ele e eu tínhamos ficado contemplando uma flor conhecida como “flor-cadáver”, no Jardim Botânico de Chicago. A flor deveria ter desabrochado naquela noite, mas isso não acontecera.
— Essa planta parece falsa — tinha dito ele. — Parece uma planta de um filme dos anos 1930 sobre florestas pré-históricas. Como podemos saber se essa coisa é real?
— Talvez seja só uma artimanha para atrair visitantes, e a planta na verdade seja de plástico. Ninguém iria saber.
A sala onde se encontrava a flor estava silenciosa. Já estava quase anoitecendo e uma tempestade forte afastara as multidões que iam ali à noite. A felicidade me invadiu, a alegria tranquila de ficar parada no escuro, diante de uma planta de um metro e oitenta de altura, conversando em sussurros desnecessários.
— E se ela desabrochar agora mesmo? — falei. — E se ela desabrochar e nós formos os únicos a ver?
A ideia me fez estremecer. Enquanto a chuva castigava as paredes do lado de fora, tudo o que eu mais queria era que a flor-cadáver desabrochasse só para nós.
Um segurança na porta interrompeu a minha fantasia. Ele espiou dentro da sala e nos olhou de cara de feia.
— Hora de fechar — bradou. — Vocês iam acabar ficando trancados aqui a noite toda.
— Desculpe, senhor — falei, e nós o seguimos, abafando nossas risadas.
Sim, achei que tudo tinha corrido bem. Nós nos separamos na plataforma do trem, e eu estava certa de que sairíamos de novo. Sim, ainda era cedo para eu me sentir tão confiante, mas na bruma feliz das nossas quatro horas juntos, eu nos visualizei dali a meses, andando de mãos dadas por uma rua de Chicago. Achei que ele tinha realmente gostado de mim.
Mas quando olhei ao redor do meu apartamento — a toalha ainda em cima da cama, a luminária do Walmart dos tempos da faculdade no canto — comecei a reconsiderar. Sou complicada, preguiçosa e seletivamente gentil. Outras mulheres têm lençóis brancos que são realmente limpos e potinhos com pedras decorativas dentro. Outras mulheres cultivam orquídeas. Outras mulheres fazem ioga.
Disse a mim mesma que aquilo não era verdade, que todos temos defeitos, mas duvidava que os defeitos das outras mulheres fossem ruins como os meus.
No passado, quando eu perguntava às minhas amigas sobre os defeitos delas, elas mencionavam coisas que não contavam: que ficavam frustradas às vezes, ou que trabalhavam demais. Essas conversas inevitavelmente acabavam comigo dizendo: “Não é tão ruim assim”, e indo embora correndo.
Elas não diziam o que eu queria ouvir. Que, no fundo, não tinham certeza se eram dignas de serem gostadas. Que eram tão irresponsáveis que não conseguiam se imaginar sendo mães. Não diziam que ansiavam por atenção, mas que tinham problemas em dar atenção aos outros. Não diziam como eram capazes de ser cruéis.
Esses com certeza tinham sido os defeitos que ele vira em mim.
Passei a secar o outro lado da minha cabeça e respirei fundo algumas vezes. E se ele tivesse visto meus defeitos e não tivesse respondido a mensagem por causa deles? E se ele tivesse visto quem eu era e não tivesse gostado de mim? Tentei ir além da minha resposta imediata (Se ele não gosta de mim, ninguém gosta de mim e não sou digna de ser gostada) e realmente pensar a respeito.
Se ele não respondeu a minha mensagem porque não gostou de mim, isso era assim tão ruim? Relacionamentos não deveriam ser uma enganação, não deveríamos apresentar uma versão esterilizada de nós mesmos, para só revelar quem somos de verdade mais tarde.
E se ele não tivesse gostado de mim, por que eu iria querer ficar com ele? Eu queria um relacionamento com alguém que me achasse maravilhosa. Complicada, talvez. Com a tendência a deixar toalhas em cima da cama, sim. Ruim com dinheiro, com certeza. Mas maravilhosa.
Talvez ele tivesse uma sementinha de dúvida e tivesse percebido logo o que muitas pessoas levavam anos para se dar conta: que essa sementinha de dúvida pode espalhar tentáculos pelo seu corpo até que eles acabem estrangulando seu coração. Então, cinco anos mais tarde, vocês vão estar jantando juntos e tudo em que você vai conseguir pensar vai ser: “Isso não está certo.” Mas aí já vai ser tarde demais.
Era melhor se dar conta logo e bater em retirada graciosamente. Melhor poupar nós dois de anos de indecisão, ressentimento e desespero.
Talvez, ao não responder a mensagem, ele tivesse me dado de presente o resto da minha vida.
Pousei o secador e chequei a hora: 7:15. Do lado de fora, a brisa levantava as folhas nas árvores e o trânsito começava a ficar mais cheio.
Havia vida demais para ser vivida e nenhum tempo a perder com pessoas que não combinassem perfeitamente com você.
Então ele respondeu.
Rachel Fields é escritora e profissional de marketing em Madison, no Wisconsin. Esse relato foi publicado em novembro de 2015.