Modern Love
Amou e perdeu? Está tudo bem, principalmente se você vence
VERONICA CHAMBERS
T ER ENCONTROS PARA MIM SEMPRE FOI COMO AQUELE videogame: você tenta acompanhar os passos de dança, e quanto mais avança no jogo, mais complicados se tornam os movimentos, até você se ver em um emaranhado de braços e pernas. Eu estava carente e desesperada, e vulnerável, e me apaixonava loucamente vezes seguidas, mas acabava tendo o coração partido toda vez.
Por isso não é nada menos do que um milagre que, dois anos atrás, eu tenha me casado rapidamente e seja feliz no casamento.
Até então eu era um caso de estudo de Ele simplesmente não está a fim de você, ou foi o que me disseram. Eu não tinha lido o livro: amigos me avisaram que dispararia muitas lembranças desagradáveis. Ao que parece, ele é todo sobre mulheres como eu: que usam antolhos em relação aos homens de suas vidas, que mergulham rápido demais e se apaixonam vezes sem conta pelas pessoas erradas.
Tenho certeza de que há muitas de vocês por aí. E se você é uma de nós, o que eu tenho a lhe dizer, o que eu desejaria que alguém tivesse me dito em algum momento é: está tudo bem.
Está tudo bem se apaixonar perdidamente por um fraco depois do outro. Está tudo bem aparecer na casa do cara com uma dúzia de rosas e declarar seu afeto imortal. Está tudo bem beber demais e ligar vinte vezes para o seu ex, e então ficar mortalmente constrangida ao perceber que seu número deve ter aparecido no identificador de chamadas dele. Está tudo bem ficar parada dentro de uma cabine telefônica na Times Square, na noite de Ano-Novo, encharcada como um gato de rua embaixo da chuva forte, chorando desconsolada porque o homem por quem está apaixonada decidiu que precisa de mais espaço.
Está tudo bem, porque eu acredito que todos esses grandes gestos e tentativas heroicas de seguir o conselho simples de E. M. Forster para “apenas faça contato” não são realmente sobre esse ou aquele cara. Fazer papel de boba por amor no fim é sobre você, sobre quanto você tem para dar e as distâncias que está disposta a percorrer para manter seu coração aberto, quando tudo ao redor faz você sentir que deveria se trancar.
Sem querer cair demais na psicologia de botequim, mas às vezes acho que nunca tive a oportunidade de ser uma dessas garotas cabeça fresca. O casamento dos meus pais foi uma novela de saídas dramáticas, casos extraconjugais e pressão psicológica. Quando eu era pequena, meu pai me forçava a escolher de quem eu gostava mais, se dele ou da minha mãe. Se eu escolhesse a minha mãe, ele reagia com fúria. Se escolhesse ele, então ele me enchia de abraços e beijos, se deleitando com vitória, e prometia voltar logo para mim.
Logo podia significar dois dias, duas semanas ou dois meses. Aprendi cedo que amar significa nunca ter que cumprir as promessas que se faz.
Minha mãe, que Deus a abençoe, tentava evitar que eu me tornasse uma garota desesperada com problemas em relação à figura paterna. No sétimo ano, tive o meu primeiro namorado: um garoto muito bonito, do terceiro ano do ensino médio, astro do atletismo da escola, chamado Chuck Douglas. Éramos de escolas diferentes, por isso nosso relacionamento consistia em longos telefonemas, cheios de divagações, que na maior parte das vezes eram iniciados por mim.
Um dia, quando a minha mãe não conseguiu fazer contato comigo depois da escola por três horas seguidas, ela chegou em casa cedo, com a intenção de me dar uma surra. Quando me encontrou largada embaixo da mesa de jantar, com o fio do telefone enrolado ao redor do braço como uma pulseira (ou uma algema), ficou com pena de mim. Minha mãe me levou para o quarto dela e me perguntou com que frequência eu ligava para Chuck.
— O tempo todo.
— E com que frequência ele liga pra você? — ela quis saber
Encolhi os ombros.
— Você não pode correr atrás dos garotos — disse minha mãe. — Eles não gostam disso.
Eu tinha treze anos, Chuck Douglas estava namorando comigo, uma nerd de carteirinha, em um mar de animadoras de torcida peitudas. As palavras da minha mãe não significaram nada. Eu já era um caso perdido.
Na faculdade, descobri a cadeira de estudos sobre mulheres e, de algum modo, consegui envolver cuidadosamente as palavras de Gloria Steinem e Angela Davis ao redor da minha agora já bem solidificada loucura por garotos.
— Sou feminista — declarei. — Não preciso esperar que um homem me chame pra sair.
Assim, chamei um cara depois do outro para sair: a própria epítome de “ele simplesmente não está a fim de você”. Saí com muitos caras gays que ainda não tinham se assumido. Isso acabou se tornando uma espécie de prestação de serviço depois de algum tempo, estimular os ex-namorados a sair do armário. Saí com um DJ de música eletrônica que me convidou para velejar com os pais dele. Detestava o gosto musical do cara e ele beijava mal demais, mas ainda assim eu chorei quando ele me dispensou, uma semana mais tarde.
Quando eu estava na casa dos vinte anos, tive dois relacionamentos longos que ainda assim terminaram, e me vi de volta ao selvagem mundo dos encontros. Nessa época, o livro de autoajuda sobre relacionamentos que estava na moda era As 35 regras para conquistar o homem perfeito. Havia muitas regras que supostamente ajudariam a laçar um homem, mas a que eu me lembro dizia que nunca se deve aceitar o convite para um encontro no sábado feito depois da quinta-feira anterior.
O livro me lembrou daquela conversa que eu tive com a minha mãe sobre o lindo Chuck Douglas. Eu compreendia que as regras eram boas para mim, mas tofu também é, e não consigo suportar aquele negócio.
Minha amiga Cassandra insistia que homens eram como leões — querem caçar a presa. Ela sugeriu que eu sorrisse para um cara em quem estivesse interessada, em vez de encurralá-lo com muita conversa.
— Veja como ele reage — disse ela. — E se você estiver em um dia ousado, talvez possa dar uma piscadinha pra ele.
Logo depois, fui convidada por uma amiga para fazer uma viagem à África do Sul. Em uma manhã encantadora, minha amiga e eu estávamos tomando café no restaurante do hotel. Do outro lado do salão, vi um homem charmoso, com o tipo de cara simpática que faz a gente ter a sensação de que o conhece a vida inteira. Eu me levantei para sair do restaurante e notei que ele estava olhando na minha direção. Sorri. Ele retribuiu o sorriso. Eu me senti ousada e pisquei, então tropecei e caí de cara no chão.
Os minutos seguintes foram confusos, eu fui cercada pelo pessoal do hotel, que me ofereceu gelo e curativos. Então, ouvi uma voz em meio à cacofonia. Era o homem para quem eu tinha piscado. Eu me virei, mortificada.
— Você devia ver um médico — disse ele.
Insisti que estava bem.
— Ora, é melhor deixar que eu julgue isso, porque por acaso sou médico.
Ele me levou para jantar naquela noite e todas as noites pelo resto da minha viagem. Trocamos números de telefone e, embora eu morasse em Nova York e ele em Sydney, na Austrália, eu ligava seguidamente para ele, porque tinha toda a certeza de que o que eu sentia por aquele homem era, se não amor, então certamente magia.
Não era. Para dar um pouco de crédito ao cara, nós vivíamos a continentes de distância. Mesmo se ele estivesse muito a fim de mim, teria sido uma missão difícil.
Foi por volta dessa época, quando eu estava com quase trinta anos, que li uma matéria, provavelmente em uma revista feminina, que levei muito a sério. O artigo sugeria que se você soubesse que iria encontrar o amor da sua vida em um ano, aproveitaria de verdade esse ano. Isso me pareceu razoável.
Assim, por mais que eu ainda tivesse a tendência a ser vulnerável demais e a me comprometer rápido demais, também tive alguns encontros divertidos com caras que eu sabia que nunca mais iriam me ligar. Fui ao cinema e a shows de hip-hop e tentei relaxar em relação a toda essa história de namoro e acasalamento.
Cerca de um ano mais tarde, conheci o homem que se tornaria meu marido. A amiga que nos apresentou insistia que, ao contrário da vasta maioria de homens com que eu vinha me encontrando em Nova York, Jason era um cara capaz de se manter firme. Ele não era o Mr. Big de Sex and the City, um tipo que eu conhecia muito bem: o cara mega bem-sucedido que mantém você a distância. Também não era o artista morto de fome e que estava disposto a se apaixonar embora tivesse problemas com coisas como manter um emprego e pagar as contas.
Jason era um cara comum: tinha um bom emprego, uma casa, gostava dos pais. Oito meses depois do nosso primeiro encontro, ele me pediu em casamento.
De repente, o papel que eu vinha assumindo durante toda a minha vida de encontros e namoros se inverteu: eu não queria me casar. Nunca almejei uma aliança. O que eu quis durante todo o período entre os vinte e os trinta anos foi um namorado realmente incrível: alguém que ligasse quando dizia que ia ligar, que levantasse cedo para correr comigo na ponte do Brooklyn, e que se animasse diante da oportunidade de uma viagem de fim de semana para as Berkshires.
Eu queria alguém com quem pudesse ler o jornal de domingo na cama, que se sentaria ao meu lado para ver filmes estrangeiros, que me serviria canja quando eu estivesse doente, que me mandasse flores no Dia dos Namorados, e às vezes sem qualquer razão específica.
Jason disse que também queria todas essas coisas. Mas, para ele, o relacionamento que eu descrevi era um casamento, não namoro.
Então, eu aceitei.
E provavelmente é por isso que depois de dois anos do sagrado matrimônio, ainda cometo o erro de chamar Jason de meu namorado. Ele é, de todas as maneiras, o melhor namorado que eu já tive. Ninguém jamais me contou que um casamento realmente incrível pode compensar duas décadas de encontros e namoros terríveis. Ninguém nunca disse que todos aqueles caras que simplesmente não estavam a fim de um relacionamento podem ser, para as mulheres, o equivalente psicológico a entalhes na cabeceira de uma cama.
Estou feliz agora por ter saído com o DJ, com o médico, com o fabricante de castiçais. Quando olho para esses relacionamentos em retrospectiva, vejo que no meio de todo o drama eu consegui me divertir bastante.
O que teria acontecido se algum desses relacionamentos tivesse durado, seguindo aos trancos e barrancos em toda a sua incorreção gritante? Em vez de ser dispensada e me consolar com potes de sorvete Chunky Monkey, assistindo a Bonequinha de luxo, eu poderia ter tido que encarar um daqueles homens em uma audiência de divórcio, ou ser forçada a ver um deles todo sábado à tarde, quando nos encontrássemos para revezar a guarda compartilhada dos nossos filhos e do nosso Cocker Spaniel.
Felizmente, todos esses homens simplesmente não estavam a fim de mim. Eles me fizeram um favor maior do que jamais poderiam imaginar.
Veronica Chambers é editora do New York Times e organizadora do livro Queen Bey: Celebrating the Power and Creativity of Beyoncé Knowles-Carter. Ela ainda se sente feliz por aqueles caras não terem ficado a fim dela. Nas palavras de Beyoncé: “Boy, Bye”. Este relato foi publicado em fevereiro de 2006.