Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 39 de 47

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Modern Love

Dois dezembros: perda e redenção

DOIS DEZEMBROS:

PERDA E REDENÇÃO

ANNE MARIE FELD

 

N A TARDE EM QUE MINHA MÃE MORREU, ELA SAIU CEDO do trabalho. Seu dia como programadora de computador no banco Chase Manhattan teve um fim súbito graças a uma falha no sistema de computadores do banco, e todos os empregados tiveram a tarde livre. Era fim de dezembro. Dia do meu aniversário de dezesseis anos. O dia estava cinza, sem neve e frio o bastante para fazer o gramado estalar sob os nossos pés, mas estávamos perto do Natal o bastante para fazer com que algumas horas livres parecessem um presente. No caso da minha mãe, uma maldição.

Em vez de aproveitar para fazer algumas compras de última hora ou se jogar no sofá, ela arrumou metodicamente a mesa de trabalho, voltou para casa dirigindo o seu Honda, preparou um bule de café turco e se enforcou na nossa garagem.

Vinte anos depois, meu pai ainda insiste que ela não teria morrido naquele dia se o sistema de computador não tivesse caído. Ele talvez esteja certo. O trabalho garantia uma estrutura à minha mãe que bloqueava a loucura dentro dela, mesmo que por pequenos períodos de tempo. O ócio lhe causava problemas.

Em todas as minhas lembranças da minha mãe ela está trabalhando em alguma coisa: cozinhando, raspando papel de parede a noite toda, estudando em livros grossos para conseguir o mestrado. Em vídeos caseiros, minha irmã e eu, corpos pequenos, membros longos, dançamos e fazemos ginástica em primeiro plano, enquanto minha mãe espreita ao fundo, lavando pratos ou atravessando a cena a caminho de algum outro lugar.

Embora minha mãe trabalhasse em período integral, minha irmã e eu nunca levantamos um dedo naquela casa. E era uma casa imaculada, sem as pilhas de bagunça e tufos de poeira que caracterizam a minha própria casa.

A loucura da minha mãe se infiltrou tão silenciosamente que o meu pai, um otimista até o fim, foi capaz de ignorar, acreditando que o problema se resolveria sozinho. Na nossa casa, as perguntas sobre o que fizemos e como nos sentíamos não eram feitas. Ou, se fossem, não eram respondidas. A minha irmã e eu comíamos sozinhas nos nossos quartos enquanto assistíamos à televisão em preto e branco.

Eu não soube das duas tentativas de suicídio anteriores da minha mãe, e nunca teria imaginado. Na minha mente, suicidas eram delirantes, falavam desvarios. Mulheres loucas eram trancadas nos sótãos, onde gemiam e arrastavam correntes. De vez em quando, colocavam fogo em casas no campo. Elas certamente não faziam compras no mercado, ou deixavam os filhos na piscina comunitária a caminho do escritório.

Por telefonemas recebidos no telefone de disco amarelado na cozinha, eu sabia que minha mãe tinha uma terapeuta, uma mulher chamada Barbara, que ela tentava disfarçar como sendo uma amiga. Mas eu sabia que aquilo não era verdade. A minha mãe não tinha amigas.

Quando eu tinha catorze anos, minha mãe começou a dormir no chão da sala e a usar um gorro de esqui cinza escuro com três listras brancas. Ela parecia só tomar café puro e vinho branco, servido de garrafas enormes que ficavam guardadas embaixo da pia da cozinha. Ela me mandava à pizzaria para pegar a nossa pizza, convencida de que os pizzaiolos falavam dela por trás.

Conforme eu me arrastava pela minha bolha adolescente, muito pouca coisa era registrada como alarmante. Todas as famílias são assim. À medida que a loucura da minha mãe evoluía, ela passou a acreditar que a nossa casa estava grampeada e que o chefe dela estava tentando lhe fazer mal. Mas enquanto houvesse um programa de computador para escrever ou um tapete para ser aspirado, podia-se contar com ela e tudo correria bem.

Em sua insistência em fazer as coisas, em viver uma vida ordenada, minha mãe acabou não aproveitando os aspectos acalentadores da vida em família e da vida em geral: rir de coisas bobas, deitar de conchinha no sofá com as pessoas amadas, compartilhar boa comida, sentir o prazer tátil de ter os filhos às gargalhadas em cima de você. Sem isso, a vida em família é uma série interminável de tarefas domésticas: balcões e narizes para secar, pratos e corpos para lavar, roupas brancas e coloridas para dobrar, de novo e de novo, em uma sucessão de sugar a alma.

Na manhã do dia em que a minha mãe morreu, fui na direção da porta para pegar o ônibus de 7:10 para a escola. Minha mãe e minha irmã de doze anos estavam acabando de acordar no lugar onde dormiam, no tapete cinza da sala de estar. Elas cantaram “Parabéns pra você” pra mim, a voz linda e baixa da minha mãe coberta pelo soprano fraco da minha irmã.

Oito horas mais tarde, desci do ônibus escolar, ansiando por uma tarde assistindo a One Life to Live e All My Children, e fiquei desapontada quando vi o carro da minha mãe na garagem. Deixei a mochila no assento da janela, fiz carinho nas orelhas empoeiradas do cachorro e chamei:

— Mãe?

A bolsa dela estava em cima da mesa. Olhei em todos os quartos, mas estavam todos vazios. Então abri a porta da garagem e parei de respirar.

Fechei a porta, subi correndo as escadas, saí de casa e me sentei no degrau de concreto na entrada da casa, olhando para a rua. As casas na rua se estendiam uma após a outra pela rua em curva, com uma coisa em comum: não havia ninguém em nenhuma delas. Todos os pais da minha vizinhança trabalhavam e, como eu tinha pegado o ônibus cedo para voltar da escola, os filhos também ainda não tinham chegado.

Eu me sentei com o corpo curvado para a frente, os braços ao redor das canelas, enquanto meu coração se acalmava. Finalmente me levantei, abri a porta de tela, voltei para dentro de casa e liguei para a emergência.

Nos dias que se seguiram, meu pai, minha irmã e eu chapinhamos em um mar de inabilidade. A esposa de um amigo do meu pai me comprou um vestido para usar no funeral, uma monstruosidade de veludo marrom da Gunny Sax, com mangas bufantes e barra de renda.

Se funerais regulares já são bastante difíceis, o funeral de um suicida testa até mesmo os mais hábeis socialmente. Quando todos os “obrigado por vir” robóticos terminaram, a minha irmã tentou abrir o caixão quando ninguém estava olhando. O meu pai a deteve quando ela já estava prestes a erguer a tampa.

— Eu só queria ver a mamãe — explicou ela, em uma voz quase inaudível.

Foi preciso lidar com outros detalhes, o que me garantiu um primeiro gosto metálico das obrigações que acompanhariam a idade adulta. Pela primeira vez na vida, tinha sido planejada uma festa formal para comemorar o meu aniversário em um salão de festas local. Os brindes da festa — caixas de acrílico transparente cheias de chocolates Kisses da Hershey, decoradas com corações rosa e prata — estavam em sacolas na garagem, esperando.

Mas não haveria festa. Peguei o telefone e repeti vezes sem conta: “Sinto muito, mas a festa do meu aniversário de dezesseis anos foi cancelada.” Quando terminei, o suor frio escorria pelo meu pulso, molhando a minha manga. Não chorei.

No dia em que aconteceria a festa, eu estava parada ao lado do meu pai na Loehmann’s. O vestido da minha mãe para a ocasião, um tubinho de lã cinza de mangas compridas, estava em cima do balcão da loja de departamentos. A caixa disse ao meu pai que o vestido não poderia ser devolvido. O meu pai olhou para ela e disse bem baixinho:

— Mas ela morreu.

Eles aceitaram o vestido de volta.

E, assim que pude, eu fugi. Primeiro para a universidade, então para o lugar mais distante de Long Island que consegui: San Francisco. Toda noite eu me enfiava em um vestido preto curto, meias-calças e botas com salto plataforma e gastava todo o meu dinheiro em palcos pequenos e riscados, olhando para futuros Kurt Cobains, ou para garotos com chapéus-coco uivando covers de Louis Armstrong, ou balançando a cabeça no ritmo da música, enquanto DJs de cabeça raspada giravam em cantos de armazéns e centenas de pessoas vibravam, sacudindo garrafas de água acima das cabeças até o sol projetar seus raios fracos pelas claraboias sujas.

O meu aluguel era de 365 dólares. Eu tinha algumas economias — o trabalho me parecia opcional, assim como a estabilidade. Ao longo da década seguinte, eu teria dez apartamentos, treze empregos e no mínimo o mesmo número de namorados. Conheci Dave em um festival de cinema, enquanto esperava na fila para ver um filme chamado Paixão e sedução. Começamos a ir ao cinema juntos, sempre escolhendo filmes com temática sexual. Meses depois de termos esgotado filmes sobre fornicação, sem nenhum sinal de que nós mesmos faríamos isso, ele finalmente me beijou embaixo de um poste de luz, na frente da casa dele. Eu estava usando botas pretas na altura do joelho. Ele usava chinelos de pele de carneiro.

Ele me ligava todo dia. Ele ouvia. Sorria muito. Ele me disse que eu era linda. Ele inventou raps sobre o nosso amor. Queria conversar sobre tudo, de política à minha menstruação. Ele queria filhos. Ele era, como disse o melhor amigo do meu pai, “um bom cidadão”.

Encontramos uma casa juntos, um chalé dos anos 1920, em uma rua de casas em estilo espanhol mediterrâneo, em todas as cores do arco-íris. Dividimos o pagamento meio a meio e começamos a arrumar as nossas coisas. Enquanto dirigia por uma chuva torrencial para assinar a escritura da nossa casa, perdi o controle. Perdi a estabilidade.

Eu me convenci de que Dave era um vigarista com um plano maquiavélico para me tirar o dinheiro do pagamento da casa. O ano que passamos juntos foi uma armação. Agora eu ficaria sem vinte e cinco mil dólares e sem namorado. Dali era um pulo para me ver parada na beira da estrada, sem-teto e completamente só, vítima de uma ambição alta demais.

As minhas mãos tremiam quando estacionei o carro do lado de fora da imobiliária. Dave estava parado ali, segurando um guarda-chuva, esperando para me acompanhar pelos três metros que levavam do meio-fio ao prédio. Oito meses mais tarde, quando acabávamos de voltar da nossa lua de mel, ele subiu os degraus instáveis da frente da nossa casa comigo no colo e atravessou a porta, antes de se deixar cair, exausto, no sofá azul do nosso escritório. Mais oito meses depois disso, um bastão de plástico com uma linha rosa nos disse que nossos planos de reforma da casa teriam que esperar.

Na minha primeira consulta, a obstetra calculou a provável data do parto: o meu aniversário. Fiquei apavorada com a ideia de que meu dia de infâmia pessoal seria compartilhado com a próxima geração da minha família. Os amigos receberam a notícia lindamente:

— Vai ser terapêutico. Vai devolver esse dia a você.

As contrações só ficaram fortes na noite de Natal, quatro dias depois de eu completar trinta e seis anos. Cinquenta e seis horas depois de sentir os primeiros tremores no meu abdômen, três horas depois da anestesia epidural fazer efeito, entreguei a minha filha ao mundo.

Eu não estava pensando na minha mãe. Ou na minha irmã, que ficou na minha cabeceira, me animando quando achei que meu corpo se rasgaria em dois. Ou em Dave, que assistiu em lágrimas a chegada de Pascale ao mundo. Não pensei em nada, só fiquei deitada ali, chocada pela dor e pela exaustão. Mas quando finalmente me devolveram o corpinho esfolado da minha filha, parecendo um franguinho, já limpa, meu primeiro pensamento foi que ela se parecia com a minha mãe.

Anne Marie Feld é escritora e editora. Ela vive no norte da Califórnia com o marido, os dois filhos e um cachorro do tamanho de um gato. O trabalho dela apareceu no New York Times, Edutopia, em numerosas antologias e na Netflix. Seu primeiro romance, Grilled, está disponível na Amazon e ela pode ser

encontrada online em www.annemariefield.net. Este relato foi publicado em janeiro de 2006.