Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 42 de 47

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Modern Love

Quando eu tinha dezesseis anos, entreguei-o para adoção. Poderíamos tentar de novo?

 

MEREDITH HALL

 

O TELEFONEMA CHEGOU EM MAIO. — Alô — disse a mulher. — Meu nome é Ann Hurd. Trabalho com a corte judicial de New Hampshire. Quero que se sente. Seu filho está procurando por você.

Eu vinha torcendo para receber esse telefonema havia vinte e um anos, e ele chegou como um sonho em um dia comum de primavera.

— Vamos fazer tudo bem devagar — disse Ann. — Isso pode causar enormes problemas tanto para o filho quanto para a mãe biológica.

— Mas estou pronta agora. Venho esperando há anos.

— Primeiro vocês vão trocar cartas por algum tempo, passando por mim. É devastador para um filho viver um segundo abandono.

— Eu nunca seria capaz de abandoná-lo de novo.

— Mas acontece muito — disse ela.

— Onde ele está?

— Ainda não posso lhe dizer isso.

— Pode me dizer o nome dele? — Era como se a minha voz estivesse separada de mim.

— O nome dele é Ron.

Aquilo soou elétrico. Meu filho tinha um nome!

— O seu filho é extraordinário — voltou a falar Ann. — O Ron é um jovem espetacular.

Três semanas mais tarde, finalmente recebi uma carta, via Ann. Havia uma foto junto, e foi a primeira vez que vi o meu filho perdido. A foto estava fora de foco e acinzentada, mas ali estava Ron — sério, o maxilar forte, olhos inteligentes.

Cara Meredith, escreveu ele. Não sei o que dizer. Não sei como fazer isso. Ron.

A letra dele se inclinava pela página, a escrita apressada. Coloquei o bilhete de Ron no bolso e li e reli enquanto olhava para a foto.

Ann ligou e disse:

— Escreva de volta para ele imediatamente. O Ron está muito assustado. Faça algumas perguntas a ele.

Caro Ron. Meu nome é Meredith Hall. Moro em East Boothbay, na costa do Maine. Tenho um filho, Morgan, de dez anos. E outro, Zachary, de sete anos. Criamos carneiros e galinhas e temos jardins enormes. Conte-me sobre a sua família. Me diga como é o seu quarto. O que você gosta de fazer. Quero que saiba que eu sempre amei você.

Ann editava as nossas cartas censurando os detalhes reveladores. Elas chegavam para nós com trechos ilegíveis:

Meu nome é Meredith———. Moro em———, na costa do ———.

Meu nome é Ron———. Cresci em uma fazenda em———, no sul de———. Meu pai e minha mãe, ——— e, ——— são muito amorosos e compreensivos.

Nossas vidas fantasmas lentamente tomaram forma. Cinco meses mais tarde, Ann organizou um encontro entre nós.

Eram dez da manhã do dia 18 de outubro. O carro de Ron se aproximou lentamente pela minha rua de terra. Ele me olhou rapidamente, de relance, enquanto eu esperava de pé nos degraus da varanda. Pude ver seus cabelos louros e cacheados. Ele desligou o motor, saiu do carro, olhou para mim e nossos olhos se encontraram. Ron era magro, atlético, bonito. Meu filho. Ele não era uma criança. Era um rapaz, usando jeans, um suéter listrado e mocassins antigos e macios. Ele caminhou na minha direção, os sapatos fazendo barulho na trilha de pedra. Seus dentes eram brancos e brilhantes, com um espaço na frente. O meu pai tinha um espaço como aquele. Fui na direção dele. Todo dia, por vinte e um anos, eu tinha imaginado essa cena. Nunca soubera o que faria se ela acontecesse, e não sabia naquele momento. Estava cheia de alegria, mas também de tristeza, porque ali estava Ron, um homem adulto, ali estava eu, com quase quarenta anos... todos aqueles anos perdidos. Estendi a mão para ele e puxei-o para mim, um estranho, meu filho, esse filho sorridente, aterrorizante, radiante, lindo.

Não nos abraçamos por muito tempo porque estávamos tímidos, éramos estranhos um para o outro. Subimos para a varanda e ficamos parados diante da cerca, com um metro de distância entre nós, os olhos voltados na direção do rio e da costa do Maine. Eu não conseguia encontrar a pergunta que daria início a nossa vida juntos. O que eu queria perguntar era: Você sentiu o meu amor todos os dias? Sentiu quanto eu sentia a sua falta? Sabia quanto eu lamentava? Você foi amado? Foi feliz? Vai me perdoar?

Tudo o que consegui dizer foi:

— Você gosta da universidade?

— Sim. — A primeira palavra dele pra mim. A voz baixa e profunda.

— Em que ano você está?

— Bem, como estou trabalhando para pagar a universidade, tenho mais dois anos pela frente.

O corpo dele estava rígido, como se estivesse pronto para lutar contra alguma coisa que o atacasse. Seu rosto era franco, os olhos enormes e azuis bem separados. Ele tinha uma cicatriz que atravessava o queixo. Era muito sério. Então, virou-se para mim e sorriu subitamente. Tinha covinhas fundas. O meu irmão tinha aquelas covinhas. Nós sorrimos, então nos víramos novamente para o mar, em um silêncio esmagador.

— Quer dar uma caminhada? — perguntei. Sentia uma felicidade profunda, que se misturou à tristeza antiga em uma confusão louca.

Descemos a rua de terra até o rio, deixando escapar cada pensamento que nos ocorria, a conversa saltando de um assunto para o outro como se tentássemos reconstruir os anos perdidos.

— Essa é a árvore da coruja — falei. — Morgan e Zachary são meus filhos. Seus irmãos. — Vi Ron ficar tenso só por um momento, então voltamos ao nosso ritmo de caminhada. — Eles acharam plumadas de corujas aqui e nós as dissecamos.

Ron disse:

— Minha mãe me deixava matar aula para ir pescar com ela.

Minha mãe. Respiro fundo. É claro. Éramos duas mães.

Nos sentamos em um banco antigo, acima das algas ondulantes, falando rápido. Eu sabia que ele iria embora naquela tarde, e não sabia se voltaria algum dia. Ele provavelmente estava se perguntando se eu iria querer que ele me visitasse de novo. Às vezes, nos pegávamos rindo. Por duas vezes, Ron falou:

— Eu nunca disse isso a ninguém antes.

Subimos de volta a colina e mostrei a ele o primeiro andar da nossa casinha aconchegante em estilo Cape.

— Quer ver o quarto dos seus irmãos? — perguntei.

— Sim — respondeu, ele, baixinho.

Ron examinou rapidamente os quartos ensolarados, os brinquedos e livros, a vida que os irmãos tinham ali comigo, onde viviam amados e seguros... eles não tinham sido entregues a ninguém. Descemos novamente para a cozinha. Enquanto comíamos sanduíches de atum, retomamos nossas histórias, a alegria que sentíamos naquele momento se destacando como um lago dentro da tristeza que sentíamos.

— Você gostaria que eu lhe contasse sobre o seu pai?

As mãos dele se detiveram no ar, uma imagem do nosso primeiro dia que nunca vou esquecer, a imagem do seu poderoso anseio por pertencer.

— Você se parece com ele — falei. — Eu tinha dezesseis anos, e ele estava no segundo ano da universidade. Nos conhecemos na praia. Ele me visitou depois que você nasceu, por cinco ou seis anos. Aparecia de repente, e nunca fazia qualquer pergunta.

Observei enquanto ele se esforçava para incorporar aquela informação à identidade dele de vinte e um anos.

— De qualquer modo, não importa — foi tudo o que conseguiu dizer.

Ron deixou que eu lhe desse um abraço de despedida antes de entrar no carro. Ele ligou na quarta-feira e disse que apareceria no domingo.

— Os meninos podem estar aí também? — perguntou.

Fiquei comovida com a coragem dele. Era o começo da nossa nova família.

Eu me consumia de culpa em relação aos meus filhos mais novos, pois sabia que estava pedindo a eles que aceitassem tranquilamente os efeitos da minha própria história assustadora. Mas os dois nunca vacilaram. Quando contei a eles que tinham um irmão mais velho, meus filhos menores imediatamente abraçaram a ideia. Eles pararam na frente de Ron naquele primeiro encontro e sorriram. Subiram em cima dele, rindo. Como macaquinhos, examinaram cada centímetro do irmão, cutucando, tocando, tirando as meias e os sapatos dele, examinando os dedos dos pés, as mãos, as costas, comparando-se com ele. Espiaram dentro da boca de Ron. Morgan passou o braço pelo ombro do irmão mais velho quando estavam sentados no sofá, e Zachary se enfiou embaixo do braço dele. Ron aparecia todo domingo a princípio, depois por fins de semana inteiro, então foi passar o verão conosco. Eu estava impressionada com a capacidade dos meus filhos de incluí-lo, de ceder parte de mim.

E Ron também me levou para a família dele.

— Essa é a minha mãe, Rose — falou. — E essa é a minha outra mãe, Meredith.

Ele não me chamava de mamãe, mãezinha, ou mama, como Morgan e Zachary. Ron já tinha uma mãe. E uma irmã, Tammy, adotada aos dois anos. Tinha um pai, Hank. Por incrível que pudesse parecer, Rose e Hank me receberam como se estivessem felizes por eu passar a fazer parte da vida de Ron. Eu me sentia como se tivesse roubado o filho deles.

Aqueles meses foram confusos, perturbadores, mas a casa estava sempre cheia de riso. E de choro. Aceitamos nosso profundo amor um pelo outro, então nos separávamos desesperados, ou magoados. Alguns dias, precisávamos da garantia de que aquilo era para sempre. Outros dias, lutávamos pelas nossas vidas, as vidas que tinham funcionado tão bem antes. Às vezes, não conseguíamos conter tudo o que fora perdido.

Eu nunca havia contado aos meus amigos sobre esse filho. A dor e a vergonha de perdê-lo aos dezesseis anos tinha me acompanhado por toda a minha vida como uma tristeza particular e profunda. Agora, os meus amigos argumentavam comigo, dizendo que Morgan e Zachary não deveriam ter que pagar o preço da minha história.

— Estão me dizendo que eu deveria mandar esse filho embora de novo? — perguntei.

Sim, disseram eles. Não é justo com os seus filhos. Mas uma amiga mais antiga discordou e me disse:

— Esse rapaz é seu filho. Não dê ouvido a essas pessoas. Isso é um milagre. É um conto de fadas com final feliz.

Então, chegou novamente o dia 18 de outubro, nosso aniversário de reencontro. Nossos dias tinham encontrado um ritmo próprio. As emoções exacerbadas estavam aquietando. A minha amiga estava certa: aquilo era um milagre, um conto de fadas, embora cada dia parecesse frágil, como se tudo pudesse desaparecer se déssemos as costas. Mas nossas vidas antigas recuaram e a nossa nova família se manteve junta. Eu tinha o meu filho. Ele tinha a mãe dele.

Para marcar a data, dei a Ron a minha corujinha de cerâmica, a única coisa que eu tinha daqueles anos devastadores depois que ele nasceu.

— Isso é para que você se lembre todo dia que esse lugar na minha vida é para sempre — falei.

Ele me deu uma bolota de carvalho.

— Meu renascimento — disse Ron, a voz baixa e esperançosa.

Não há um padrão de como se fazer isso, de como abraçar um ao outro de forma segura e plena depois de uma vida inteira separados. Éramos uma família. Nos amávamos. Precisávamos um do outro. Aquele era o nosso único mapa.

Meredith Hall mora na costa do Maine. É autora do livro Without a Map: A Memoir. Este relato foi publicado em março de 2005.