Modern Love
Eu parecia corajosa e decidida, até para mim mesma
MINDY HUNG
S OU UMA BOA GAROTA, PRÁTICA. COMO MEUS LEGUMES. Vou para a cama cedo. Na verdade, aos trinta e um anos, não sou apenas boa, sou uma puritana assustada — e detesto isso.
Em uma recente tentativa de inventar uma versão nova e corajosa de mim, entrei em contato com Tom em um site de namoro online. Alguma coisa precisava mudar. Eu precisava mudar. Nas minhas noites livres, tenho a tendência a gravitar mais na direção de livrarias do que na de mesas de bares. Caminho com a cabeça caída para a frente e os olhos baixos. Dificilmente posso ser descrita como uma ermitã — tenho muitos amigos, viajo sozinha pela Europa (com meu roteiro metodicamente planejado, é claro), e preencho meus fins de semana com brunches e shows. Mas a minha vida romântica tem sido no máximo morna, normalmente empacada pela minha cautela e timidez.
Os amigos me animaram a tentar os encontros via internet e, a princípio, fiquei desconfiada. Mas logo percebi que tinha encontrado o veículo perfeito. Podia ser extrovertida sem esforço. E, de repente, eu era popular: parecia ser atraente tanto para homens do Havaí quanto da Virgínia. Músicos, maratonistas, soldados, corretores da bolsa, um homem que alegava possuir cinco relógios “Rolix”, um dentista de Hollywood — todos esses homens e mais alguns me escreviam e declaravam seu interesse. A atenção deles me deu uma injeção de coragem — ou ao menos de ousadia. Eles me achavam interessante. Talvez eu fosse.
O perfil de Tom começava de forma nada especial: ele adorava a Austrália, lençóis limpos e suco de laranja. Mas no meio do caminho, Tom acabou me encantando ao confessar que tinha deletado um parágrafo inteiro do que escrevera porque tinha medo que o texto parecesse com o tipo de recado aleatório, e com frequência incoerente, que ele às vezes deixava nas secretárias eletrônicas das pessoas.
Eu olhei para aquela confissão irônica e envergonhada e entendi na mesma hora. E mais, eu sabia exatamente como responder.
“Você parece ser muito bom nesse truque do charme autodepreciativo”, provoquei, no meu e-mail de apresentação. “Pessoalmente você ruboriza e balbucia?” Dei o meu número a ele, antes que pedisse.
Alguns dias mais tarde, ele ligou e, enquanto conversávamos e brincávamos, eu me surpreendi comigo mesma convidando-o para sair. Escolhi a data e a hora (sábado, às três da tarde) e o lugar (a casa de chá Cha-An Teahouse, na East Ninth Street). Passei para ele as instruções sobre que trem pegar, para que lado seguir depois que saísse da estação e onde me encontrar, caso chovesse. Tentei parecer despreocupada e no controle da situação, como se convidasse homens para sair o tempo todo.
Quando saí para o encontro, usava uma saia de seda, uma blusa decotada, e levei uma mochila. Iria para Connecticut mais tarde, naquela noite, e tinha planos para andar de caiaque no domingo. Parecia corajosa e decidida, até para mim mesma.
Quando me aproximava da Cha-An, vi Tom esperando na frente — reconheci os cílios longos e o sorriso fácil da foto que ele postara. Mas, em pessoa, ele era de uma segurança desconcertante. Não balbuciou, ou enrubesceu, como eu havia imaginado. E, ao que parecia, também era ousado de outras maneiras: Tom me contou depois que uma vez havia saído de um emprego para se tornar jogador profissional. Quando lhe contei sobre os meus planos para andar de caiaque, ele me ensinou como transformar as minhas roupas em uma boia, caso o caiaque virasse.
O tempo todo, por três horas, permaneci confiante, envolvida na conversa, decididamente nada afetada. Meu único escorregão aconteceu quando ele parou e disse:
— Você tem duas covinhas muito fundas. — Uma pausa. — E agora está enrubescendo.
Eu me recuperei e me mantive firme pelo resto do encontro, mas o dano já havia sido feito, e a minha fachada — ou a minha pose — não durou muito. Pior, em vez de manter a atitude descolada, atrevida, do tipo vamos-ver-o-que-acontece, eu prontamente comecei a fantasiar o nosso futuro juntos: Tom e eu jogando frisbee no parque, dividindo um cupcake com cobertura de chocolate, correndo às margens do Hudson. Eu daria um tapinha no traseiro dele e me desviaria rindo.
No segundo encontro, decidi abandonar o estilo aventureira despreocupada. Ia ser uma grande sedutora. Bateria as pestanas, acariciaria o punho dele e faria mágica com meu jeito coquete.
Havíamos combinado de sair para comer comida indiana, em Curry Hill. Levei duas barras de Aero para Tom, porque ele tinha me dito que gostava de chocolates ingleses. Seus olhos se iluminaram quando peguei as barras.
— Você talvez seja a mulher perfeita par mim — disse ele.
Ou talvez não. Porque então ele falou sobre Nicole Kidman e outras loiras por quem era louco. Eu me concentrei em arrulhar e assentir com a minha cabeça decididamente não loira.
Estava concentrada demais em garantir a minha fantasia para perceber que estava agindo como boba. Se estivesse usando a cabeça, teria reparado nos sinais de alerta: toda aquela conversa sobre ex-namoradas, e as reclamações sobre mulheres terríveis no site de relacionamentos... Tom não estava interessado — ou ao menos não interessado o bastante.
Depois do jantar, eu o convidei para ir ao meu apartamento e preparei chá. Ele se esticou no sofá e colocou os pés em cima da mesa de centro. Eu me aconcheguei perto dele. Ele se afastou.
Disse que estava nervoso. As mulheres eram imprevisíveis. Queria ser honesto.
— Acho você atraente — comentou —, mas não nos vejo em uma relação a longo prazo. — Então ele me olhou de lado e acrescentou: — Mas não me oporia a um caso sem compromisso.
Eu me senti desalentada. A eu ousada talvez tivesse perguntado que diabo dava a ele o direito de se decidir tão rapidamente. Mas, no fim das contas, eu não era uma guerreira valente, não é mesmo?
Em vez disso, me encolhi no sofá. Queria mais — tinha agido como uma tonta agradável e apaixonada a noite toda para conseguir o que queria. Não me restava mais pose alguma.
Tom pareceu um pouco triste, mas ainda assim me levou até o quarto, onde me deitou e passou os braços ao meu redor.
— Eu me sinto um canalha — comentou, tocando a minha barriga. — Poderíamos ser só amigos. Não precisamos ter um caso.
Eu pisquei algumas vezes e me apoiei em um cotovelo.
— Ah, não, eu gostaria de fazer sexo — falei, em um tom jovial —, mas não vejo como poderíamos algum dia ser amigos. A coisa do sexo sempre ficaria no caminho.
Houve uma pausa. Ao que parecia, aquilo havia sido bem original da minha parte. E também bastante insano da minha parte. Tom riu. Pela primeira vez naquela noite, ele me olhou com algo parecido com admiração.
— Essa costuma ser a minha fala — disse.
Minha coragem voltou. Em um movimento audacioso, eu tinha recuperado meu respeito próprio e o controle do meu cérebro — ou foi o que pensei. Debatemos um pouco mais a ideia e decidimos que eu deveria pensar melhor a respeito. Fui com Tom até a estação de metrô. Quando nos despedimos, disse que eu ligaria para ele. Tom falou que era melhor assim, e me deu um beijo na testa.
Na manhã seguinte, levantei e corri seis quilômetros. Então, voltei para a cama e me enrodilhei em posição fetal.
Ainda era capaz de ser uma versão aventureira de mim, argumentei comigo mesma na segurança das cobertas. Lembrei dos olhos de Tom me espiando por baixo dos cílios longos. Quanto mais eu refletia a respeito, mais um caso sem compromisso me parecia uma boa ideia: eu tinha uma libido saudável, estoque para um ano de pílulas anticoncepcionais e várias mudas de roupa de cama. Se conseguisse me desapegar da decepção pela ausência de um interesse a longo prazo em mim, poderia até me divertir. Não vinha ao caso o fato de que eu tinha passado o dia na cama, deprimida por causa de um cara, como uma garota nada descolada, e que não estava se divertindo nada com a situação.
Disparei um e-mail:
Muito bem, pensei a respeito. Topo um caso sem compromisso. Mas não
tenho certeza sobre a coisa de sermos amigos. Não sei se gosto muito
de você no momento. Além do mais, embora eu esteja familiarizada com
o conceito de um modo geral, não estou certa de como essa amizade
específica funcionaria na vida real. O que faríamos? Brincaríamos de
pega-pega no parque? Iríamos juntos à manicure? Enfim, Barbara
Ehrenreich vai fazer uma leitura na Barnes and Noble da Union Square
na quarta-feira, às sete da noite. Está interessado em ir?
Reli o e-mail. Parecia descompromissado. Expressava uma certa raiva, sim, mas ainda assim parecia descolado, sincero, espirituoso e inteligente.
Mas na verdade, é claro, fui apenas confusa.
“Fiquei confuso com a sua mensagem”, escreveu Tom. “Se você não gosta muito de mim, então por que quer continuar a me ver? Não gosto muito de não ser muito gostado!”
Está certo, talvez eu não tivesse aparentado ser a mulher aventureira e pronta para o que desse e viesse que pretendera. Talvez tivesse soado como uma louca, amarga e assustadora.
Sou capaz de consertar isso, pensei, esfregando as mãos. Mas não sabia bem o que eu queria reparar. O caso sem compromisso em potencial? Ou a amizade em potencial?
Comecei a digitar. Expliquei que, embora me sentisse atraída por ele, não poderia me permitir gostar dele. Precisava permanecer fria, para evitar ser magoada. Com certeza, ele compreenderia.
“Eu gostaria de ver como seria essa experiência”, escrevi, concluindo. “A questão é, e você?”
Reli o e-mail: era um texto honesto, vulnerável e realista, sem qualquer erro de ortografia aparente. Apertei “Enviar”.
Daquela vez, demorei apenas duas horas para entender que tinha escrito outra mensagem maluca. Eu não era uma exploradora audaciosa no mar do amor. Era a mesma garota tímida que sempre tinha sido, só me esforçando um pouco mais dessa vez para evitar um coração partido.
Tom nunca me respondeu.
Meu amigo Dwight me diz que a loucura é o resultado quando duas visões claras e opostas colidem. Ele se refere ao plano de Tom de ter um caso versus as minhas vinhetas orvalhadas de futuro. Dwight é casado. Pode ser objetivo. Ele diz que as minhas respostas malucas foram uma reação natural a uma proposta injusta.
Eu não sei. Talvez as minhas expectativas — para um relacionamento e para mim mesma — fossem tão pouco razoáveis quanto as de Tom. Baseada em um encontro e em um telefonema, eu visualizei um futuro de verões intermináveis: gramados verdes, cupcakes e Tom correndo ao lado de uma versão sorridente e feliz de mim. A única coisa menos real do que a presença de Tom no meu idílio era a versão que vi de mim — atrevida, ainda que despreocupada — saltitando ao lado dele.
Mindy Hung mora na cidade de Nova York, onde escreve romances como Ruby Lang. Ela é autora, entre outros, dos romances da série Uptown. Esse relato apareceu em novembro de 2005.