Modern Love
Durante uma noite de sexo casual, mensagens urgentes ficam sem resposta
ANDREW RANNELLS
N ÃO ME LEMBRO DO SOBRENOME DELE. SEU NOME ERA Brad, que é o nome perfeito para uma lembrança relativamente sem rosto dos vinte e poucos anos. Ele era bonito, com um belo sorriso e olhos azuis impressionantes.
Eu sempre tinha achado que quando os olhos são azuis demais, a pessoa parece não ter alma. É como se víssemos fundo demais na cabeça dela e não houvesse nada lá. Mas eu nunca tinha saído com ninguém com olhos azuis, e era primavera. Brad também tinha um belo corpo, musculoso, mas com a pele extremamente macia. E o sexo era bom, eu acho.
Há um grande debate entre mulheres hétero e homens gays sobre o que conta como sexo. A maior parte das minhas amigas acha que sexo oral não conta. Eu discordo. Conto tudo. Se alguém tem um orgasmo, conta como sexo. Minhas amigas também se equivocam profundamente quando acham que o sexo anal, para homens gays, é como um aperto de mão. Notícia urgente, moças: às vezes, nós não queremos fazer sexo anal com os nossos parceiros, do mesmo jeito que vocês não querem fazer com os seus.
Aquele era apenas o meu segundo encontro com Brad. Não nos conhecíamos muito bem. Nunca chegaríamos a nos conhecer. O corte de cabelo dele era espalhafatoso e as mãos um tanto femininas, mas a colônia que usava era atraente. Eu tinha vinte e dois anos e não tivera muitos encontros, portanto aquela era uma das minhas primeiras incursões no terreno da sedução. Um bônus: Brad morava apenas a poucos metros da minha casa, em Astoria.
Se você já morou em Astoria, no Queens, sabe que convencer as pessoas a irem até lá no fim da noite é como pedir uma carona para o aeroporto a um estranho. Brad ia servir por enquanto. Eu era jovem, independente e estava tendo encontros, e tinha feito reflexos nos cabelos.
A conversa durante o jantar foi sem graça, mas ele riu de quase tudo o que eu disse, portanto, para um narcisista da comédia como eu, Brad era a companhia ideal. Enquanto comíamos, meu celular Nokia, um modelo flip, começou a tocar. Era a minha irmã, Julie.
Não atendi. Meu celular era novo e eu ainda estava me acostumando a usá-lo. Não amava o fato de as pessoas poderem entrar em contato comigo sempre que quisessem. Preferia acionar minha secretária eletrônica, que fazia com que eu me sentisse como um astro de cinema de antigamente. Meu pai tinha me apresentado aos filmes da Doris Day quando eu era novo, e ela estava sempre checando a secretária eletrônica, à espera de mensagens de pretendentes ou de produtores de Hollywood.
Depois do jantar, fomos a um bar gay, cheio de outros casais gays, porque o que é mais divertido do que tentar não parecer que você está reparando nas outras pessoas enquanto sabe mais sobre os irmãos e irmãs do cara com quem você está?
Brad e eu bebemos nossos cosmos (era 2001, e se Carrie Bradshaw estava fazendo aquilo, então eu também estava) até os olhos dele parecerem menos sem alma e nós começarmos a nos beijar.
Meu celular vibrou de novo. Outra irmã. Becky. Ignorei também.
Outra rodada, mais agarramento, outra ligação, Julie de novo. A minha embriaguez, somada ao desejo de aproveitar o momento com Brad, tornou fácil não dar atenção às ligações. A temperatura da nossa pegação estava se elevando — estávamos prestes a pegar fogo — e tive a lucidez de ao menos sugerir chamarmos um táxi.
Como estava me sentindo um apostador perdulário, me ofereci para pagar. No caminho para Astoria, teve mais agarração, mais beijos, mais visualizações dele como Paul Walker. No meu apartamento, fomos direto para o quarto. Levamos mais tempo do que o necessário. Então teve o aconchego, os abraços, o suor e o pânico, e o adormecer ao lado de um estranho, basicamente, para mais tarde acordar e pensar: Gosto disso? Ele gosta disso?
Pedi licença para ir até o banheiro e abri novamente o celular. Mais seis ligações perdidas. Senti o estômago dar uma cambalhota. Agora estava sóbrio o bastante para saber que havia alguma coisa muito errada.
Comecei a escutar as mensagens. Julie estava histérica. Ela falou alguma coisa sobre o meu pai cair e uma ambulância. Na mensagem seguinte, Becky estava mais calma, mas abalada. Um ataque do coração ou um AVC, não tinham certeza. A seguinte: minha mãe me dizendo para não entrar em pânico. A seguinte: Julie me dizendo para entrar em pânico.
Pulei logo para a última mensagem, de Doug, que era mais ou menos meu cunhado (eles não eram casados), enviada apenas quinze minutos antes.
Eu liguei. Ele atendeu na mesma hora.
Durante a festa de aniversário de um ano da minha sobrinha, meu pai tinha desabado no chão depois de entregar os hambúrgueres que estava grelhando. A festa era na casa dos meus pais, embora meu pai não estivesse morando lá. Meus pais estavam se divorciando e meu pai, aos sessenta e um anos, tinha se mudado para um apartamentinho deprimente perto do escritório dele.
A última vez em que estive em casa, há um mês, tinha visitado o meu pai junto com a minha irmã mais nova, Natalie. As paredes eram bege, assim como o carpete. A mobília que ele tinha escolhido era ou grande demais, ou escura demais. O lugar estava cheio de coisas, e ainda assim parecia vazio.
Meu pai estava tentando fazer daquele lugar um lar, mas não sabia como. Eu me fechei no banheiro do apartamento para chorar. Não queria que ele me visse sentindo pena dele. Meu pai não pertencia àquele lugar, ele pertencia à casa dele.
Eu me recompus e nós comemos sanduíches. Ele colocou pratos e guardanapos na mesa, e uma embalagem de Pringles. Quando ele abriu o armário da cozinha, vi que estava estocado com ensopado enlatado. Tive que cerrar o maxilar para não chorar de novo.
Depois do jantar, assistimos à TV.
— Quero que vocês se sintam em casa aqui — disse ele.
— Talvez eu fique aqui na próxima vez que vier visitar vocês — falei, o que pareceu deixá-lo feliz.
Quando Natalie e eu fomos embora, meu pai estava parado no topo das escadas. Eu me virei e gritei:
— Amo você, pai.
Foi a última coisa que eu disse a ele.
— Amo você, Andy.
E foi isso.
Dough tinha tentado reanimá-lo. Os paramédicos tinham usado o aparelho de reanimação e tinham conseguido só uma pulsação fraca. Agora o meu pai estava em coma.
Eu imaginei a cena: as decorações da festa, o quintal cheio de brinquedos, o deque onde ele caiu, os vasos de plantas que a minha mãe colocava fora de casa toda primavera, a minha mãe chorando, as minhas irmãs chorando, os hambúrgueres que ninguém comeu, o bolo de aniversário da menininha.
Era demais. Comecei a chorar. Alto.
Brad apareceu para checar qual era o problema. Estava com os cabelos desalinhados e completamente nu. Ele ficou parado à minha frente, o pênis semiereto ao nível dos meus olhos, enquanto eu tentava conseguir mais informações de Doug: Em que hospital ele estava? Eu deveria pegar um avião?
Gesticulei para que Brad se sentasse. Ele começou a esfregar as minhas costas, o que pareceu uma tortura. Estava constrangido de chorar na frente dele, mas não o bastante para parar.
Depois que desliguei, ele tentou me abraçar.
— O que aconteceu?
Senti vontade de gritar: Obviamente nada de bom! Vista uma calça! Em vez disso, tentei explicar.
Enquanto Brad andava de um lado para o outro do apartamento, ainda nu, sugerindo planos de ação, eu sentia um desprezo crescente. Nem sequer gostava daquele cara. Por que tinha feito sexo com ele? Tudo parecia errado. O apartamento parecia apertado e sujo. Eu odiava tudo o que havia ali dentro. Me vi de relance no espelho e me encolhi diante dos meus cabelos tingidos de louro. Por que eu tinha feito aquilo comigo mesmo? Parecia um bobo.
Pedi a Brad que fosse embora, disse que precisava fazer algumas ligações. Ele se sentou e passou o braço ao meu redor.
— Você não deveria ficar sozinho em um momento como esse — disse Brad, e beijou o meu pescoço.
Eu me apoiei nele. Não queria ficar sozinho. Não queria ficar onde estava. Tudo desmoronou. Era assim que meu pai se sentia naquele apartamento triste? Como se estivesse tudo errado?
Dei um beijinho em Brad.
— Eu realmente preciso que você vá embora.
Ele pareceu magoado, mas se levantou junto comigo. Então, me deu um abraço demorado demais.
— Tá certo! — falei. — Tchau!
Entrei no banheiro e fechei a porta. Fiquei olhando pela janela, ouvindo Brad se vestir. Então, ouvi a porta da frente se fechar. Ele finalmente se fora.
Em poucos dias, meu pai também se foi.
Ao longo dos meses seguintes, Brad me mandou mensagens de texto e de voz que não foram respondidas. Eu tinha muito o que resolver. E acho que estava constrangido.
Cerca de dois anos depois, Brad passou por mim na Nona Avenida. Quase paramos, mas acabamos nos cumprimentando só com um aceno de cabeça e um sorriso constrangido, e seguimos em frente. Eu sentia que devia uma explicação a Brad, um fim qualquer para a nossa história, mas simplesmente não conseguia. Tinha que continuar seguindo em frente.
Eu já tinha consertado muito do que me pareceu tão errado naquela noite. Agora tinha um emprego que me dava orgulho, um apartamento que me dava orgulho. Tinha enterrado o meu pai e, junto com ele, enterrei também todo um capítulo da minha vida. O que significava que não poderia ter Brad, ou qualquer vestígio daquela época, daquela noite, na minha vida.
Não foi generoso da minha parte, ou gentil, mas foi o que eu fiz. E mais importante de tudo, nunca mais fiz reflexos nos cabelos.
Andrew Rannells é ator e escritor na cidade de Nova York, que publicou seu primeiro livro, Too Much Is Not Enough, em março de 2019. Este relato foi publicado em julho de 2017.