Modern Love
Quando a mãe está desconfiada, e certa
QUANDO A MÃE ESTÁ
DESCONFIADA, E CERTA
LIZA MONROY
— N ÃO GOSTO DELE — DISSE MINHA MÃE. EU TINHA ligado para ela do trem depois de visitar em Boston o cara que eu estava namorando a distância, havia oito meses. Quis contar a ela como tinha me apaixonado por ele, um homem que frequentou a minha universidade na mesma época que eu, mas que só conheci mais tarde. Nos conhecemos no encontro de dez anos de formados e logo ficamos próximos. Ele estava se mudando para o Brooklyn, para morar comigo. Eu estava muito empolgada, mas minha mãe insistia que era um erro.
— Você nem chegou a conhecê-lo — disse eu.
— Estou sentindo vibrações negativas — retrucou ela.
— Nunca nem sequer o viu.
— Não gosto dos posts dele no Facebook.
— Você nunca conversou com ele.
— Ele não é má pessoa — disse ela. — Só não é a pessoa certa para você.
— Você se concentra em características muito superficiais — argumentei. — Julgamentos rápidos não lhe dizem nada sobre um relacionamento.
— Sou analista de perfis. É o que faço para viver.
Por vinte e seis anos, minha mãe trabalhou para o Departamento de Estado, como funcionária do consulado na área de Relações Exteriores, entrevistando candidatos a um visto e determinando rapidamente se eles estavam mentindo sobre os seus planos, se pretendiam permanecer ilegalmente no país.
— Quando você conversa com várias centenas de pessoas por dia, fica boa nisso — disse ela. — Torna-se uma segunda natureza.
Minha mãe ganhou prêmios pelo trabalho dela, e achava que eu devia dar atenção ao julgamento que fazia dos meus parceiros românticos.
Em vez disso, fiquei furiosa.
— Você não permite que as outras pessoas aceitem quem elas são — falei, já no fim da ligação que fiz no trem. — E por isso é sufocante ficar perto de você.
Frustrada, liguei para meu primo Doug, que também trabalhava na área de Relações Exteriores.
— É uma equação matemática baseada em como sua mãe entrevista quem solicita um visto — disse ele. — Ela transformou isso em uma ciência: qual é a renda da pessoa, o trabalho, o histórico? Sua mãe está aplicando o mesmo critério nos seus relacionamentos.
Ele estava certo. Minha mãe estava fazendo um perfil do meu namorado baseada, ora, em um perfil: uma tatuagem que cobria toda a parte de cima de um braço e as atualizações de status na rede social. A aparência de roqueiro do meu namorado e as postagens breves nas redes sociais não representavam o homem que amava crianças e o mar tanto quanto eu, que era um padeiro talentoso e bom nos consertos da casa.
Além do emprego em uma universidade de prestígio, ele era cineasta nas horas vagas. Era bom e amoroso. Eu não entendia o que minha mãe via de errado. Desconfiava que ela o teria aprovado se ele fosse exatamente quem era, mas judeu, se não tivesse as tatuagens e as camisetas de bandas.
Aos trinta e dois anos, eu não queria que minha mãe opinasse em cada decisão minha. Como ela poderia realmente saber? O trabalho dela a mantinha no exterior, e nos víamos cerca de duas vezes por ano. Enquanto ela chamava a si mesma, brincando, de “A Avaliadora”, eu a chamava de outros nomes: “Mãe controladora” e “Sufocadora”.
Estava começando a achar que minha mãe sempre reprovaria qualquer homem com quem eu namorasse. Eu era filha única. E se, comecei a suspeitar, ela não quisesse que eu encontrasse alguém para poder me ter só para si?
Mas o que realmente me preocupava era que ela já tinha feito aquilo antes e, no fim, estava certa.
O meu relacionamento anterior foi com um poeta que conheci na pós-graduação. Em um mês já tínhamos planejado nos mudarmos para uma cidade universitária pitoresca, onde encheríamos nossa vida de livros, animais de estimação e refeições vegetarianas elaboradas. Minha infância, passada me mudando ao redor do mundo com minha mãe, inspirou em mim um desejo de uma família mais arraigada, mais tradicional. Achei que havia encontrado no poeta um homem compatível.
Então, a Avaliadora apareceu, vindo da Venezuela.
— Não gosto dele — anunciou, depois de cinco minutos no restaurante. Meu namorado tinha ido ao banheiro. — Tem alguma coisa errada.
Eu a ignorei.
No entanto, três anos mais tarde, descobri que o poeta vinha mentindo havia meses, para esconder um problema financeiro grave. Achei que não poderia mais confiar nele. Fomos fazer terapia. Pedi a ele para sair de casa.
Algumas noites mais tarde, cheguei em casa e descobri que ele tinha rasgado minhas roupas, colocado meus dois notebooks dentro da banheira e destruído algumas das minhas fotos de família — algumas das únicas que eu tinha do meu pai, que já havia falecido. Fiquei chocada por ele ser capaz de um comportamento tão destrutivo.
Liguei para a Avaliadora do tribunal de família, onde a polícia tinha me orientado a ir, para pedir uma ordem de proteção judicial.
— Havia algo errado — falei. — Você agora tem que aprovar todo mundo com quem eu pensar em ter alguma coisa mais séria.
Brincamos que aquilo daria um bom enredo para uma comédia romântica.
Ela tentou ao máximo me fazer mudar de ideia sobre o cineasta de Boston, mas ele já estava levando seu equipamento de edição para o meu apartamento de um quarto no Brooklyn.
A minha mãe finalmente o encontrou quando veio em visita, da Espanha.
— Ele é legal — admitiu. — Mas não é a pessoa certa para você. Eu gostaria que vocês não estivessem indo morar juntos.
Isso pode ser cruel, mas me parece que a minha própria existência como filha de uma mãe solteira era prova de como o julgamento dela em relação aos homens era questionável. Se ela não conseguia fazer uma avaliação precisa para si mesma, como poderia fazer por mim?
Meus pais tinham se conhecido em um navio. Minha mãe estudava para um PhD na Itália e meu pai era o maître carismático do restaurante do navio. Eles estavam juntos havia três meses quando negaram ao meu pai o visto para os Estados Unidos, então eles se casaram. No entanto, aos poucos, meu pai acabou vítima do alcoolismo e eles se divorciaram quando eu tinha seis anos.
Perguntei a minha mãe por que ela se achava capaz de discernir por uma foto quem era a pessoa certa para mim, quando ela mesma tinha escolhido o homem errado para si.
— Essa é uma boa pergunta — respondeu ela. — Não tenho ideia. — E fez uma pausa. — Enganamos a nós mesmos. Pessoas ao longo da história provavelmente tiveram esse problema.
Eu estava determinada a fazer o meu relacionamento com o cineasta dar certo, mas um ano depois comecei a reconhecer uma sensação desagradável de que as coisas não estavam bem. Conversei com ele, e nos separamos amigavelmente. Foi um rompimento melhor, sem envolvimento da polícia. E moramos juntos, em paz, por mais um mês, antes de ele se mudar.
— Ele é legal — disse a minha mãe. — Mas não era o homem certo.
A Avaliadora, certa mais uma vez. Depois que o relacionamento acabou e pude ver mais claramente, também não gostei do que ele postava no Facebook.
— Você não repara nessas coisas com a mesma rapidez que eu — explicou minha mãe. — É preciso passar anos com essas pessoas. Com o poeta, você teve dois encontros. E o cineasta não deveria ter se mudado para a sua casa.
Talvez eu também tivesse sido capaz de ver essas coisas, só não queria ver. O poeta chegou bêbado para me pegar em um dos nossos primeiros encontros. Em vez de pedir que fosse embora, peguei um copo d’água para ele e o fiz prometer não aparecer bêbado de novo. Eu já tinha construído a fantasia da nossa vida idealizada e não quis arruiná-la.
Quando o cineasta reclamou que odiava o trabalho diário dele, e que se sentia inseguro sobre como ir atrás do seu sonho, eu não quis ver que ele precisava descobrir aquilo sozinho.
Ignorei o meu próprio “poder” de avaliação pelo mesmo motivo que minha mãe não avaliava os próprios namorados: eu queria estar apaixonada, e o amor não era lógico. Busquei homens que ainda estavam se descobrindo, esperando poder ajudá-los, um padrão clássico da filha de um viciado. Não pude salvar meu pai, que morreu de falência do fígado. E também não conseguiria consertar a vida de nenhum desses homens.
Talvez eu devesse evitar a decepção passando a prestar atenção aos conselhos da minha mãe? Afinal, ela estava certa nas duas ocasiões. Mas um relacionamento que não dá certo não é um desperdício. Não há ciência exata para isso, ou bola de cristal. Avaliação de perfis é uma arte superficial. O amor verdadeiro não é. Como Hemingway disse uma vez: “A melhor maneira de descobrir se você pode confiar em alguém é confiando.” Da mesma forma, a melhor maneira de descobrir se você está destinado a ficar com alguém, é ficando com essa pessoa.
— Aprendemos quando cometemos nossos próprios erros — disse à minha mãe. — Você deve saber disso.
Ela sempre disse que nunca se arrependeu de ter se casado com o meu pai, porque teve a mim.
Agora, estamos as duas solteiras. Ela se aposentou do Departamento de Relações Exteriores para tomar conta da minha avó, em Seattle, mas sempre vai ser a Avaliadora. Mas em vez de permitir que isso me aborreça, inventamos uma alternativa mais divertida: o Jogo da Avaliadora, em que mostro a ela páginas no Facebook de homens em quem estou interessada, e ela oferece avaliação profissional.
Recentemente conheci um escritor de sucesso em um evento. Compartilhamos a peculiaridade de sermos apaixonados por gamão. Quando nos encontramos na tarde seguinte para jogar, ele se inclinou por cima do tabuleiro e me beijou. Convencida de que havia alguma possibilidade ali, mandei para a Avaliadora a leitura que ele fez em Seattle.
— Eu ficaria muito mais satisfeita do que com os outros — respondeu dela. — Ele é judeu e inteligente, e vai ser bom pra você porque ele não serve para alguém mais alta.
Infelizmente, o escritor estava saindo com outra pessoa. A Avaliadora errou? Será que finalmente havia feito uma avaliação equivocada? Ela sugeriu que eu voltasse para o JDate, um serviço de namoro online destinado a judeus solteiros.
— Farei isso, se você também fizer — falei.
Liza Monroy é autora dos livros de memórias, The Marriage Act e Seeing as Your Shoes Are Soon to Be on Fire, ambos originados de relatos para a coluna “Modern Love”. Ela mora e escreve em Santa Cruz, na Califórnia. Este relato foi publicado em julho de 2012.