Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 26 de 47

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Modern Love

Só segurando firme nas curvas

SÓ SEGURANDO FIRME

NAS CURVAS

CRIS BEAM

 

A MINHA FILHA ACABOU DE FAZER TRINTA ANOS. COMO isso é possível quando parece que apenas uma semana atrás ela era uma adolescente brigona e petulante? Como as mães por toda parte, não me acho velha o bastante pra ter parido uma bebê que conseguisse chegar a essa idade.

No meu caso, é verdade: tenho só quarenta e um anos. Não dei à luz a minha filha. Eu me tornei sua mãe quando tinha vinte e oito anos e ela dezessete. Chame isso de filho não planejado, gestação longa demais. Christina era uma das mais de 135 mil adolescentes que viviam em lares adotivos temporários por todo o país — a maior parte desses adolescentes eram abandonados à própria sorte quando atingiam a idade em que saíam do sistema de adoção e lares temporários, entre dezoito e vinte e um anos.

Eu tive uma sorte enorme de conseguir descobrir uma dessas preciosidades, de compartilhar a minha vida com a garota mais inteligente, mais linda, mais engenhosa e engraçada que há por aí.

Quer uma prova? Tenho fotos. Mas cuidado com o que pede: como as mães por toda parte, sou insuportável com a quantidade de fotos que tenho.

Digo que tenho sorte porque não planejei essa vida para mim. Quando tudo aconteceu, Christina era só a minha aluna favorita na turma de Inglês do ensino médio em que eu dava aula. Quando a agência a fez mudar de escola, permanecemos em contato.

Havia algo ao mesmo tempo ardente e vulnerável em Christina, e eu gostava de estar com ela. Christina também era profundamente inteligente, e eu queria me certificar de que não importava como o mundo a virasse de um lado para o outro, ao menos uma de suas professoras havia lhe mostrado que ela importava.

Eu também queria ficar de olho na segurança dela. Christina é transgênero, o que significa que havia menos camas disponíveis para ela no sistema e pouca proteção de um modo geral.

E como era de se imaginar, em sua nova escola, o desastre aconteceu: depois que um segurança contou a alguns colegas de escola que Christina tinha nascido homem, eles ameaçaram matá-la, e ela fugiu. Fui a primeira pessoa para quem Christina ligou, e eu e meu parceiro na época nos oferecemos para deixá-la dormir no nosso sofá até conseguirmos resolver as coisas com a agência do governo responsável por ela. Qualquer pessoa com um mínimo de consciência teria feito a mesma coisa.

O que eu não compreendia na época era como a assistência social do Estado pode ser falha no que se refere aos adolescentes. Eu não sabia que metade de todos os adolescentes sob cuidado tutelar são internados em abrigos ou em instituições de encarceramento porque não há famílias que os queiram.

Eu não sabia que, aos dezenove anos, trinta por cento dos meninos terão sido encarcerados. Não sabia, enquanto aquela primeira noite de Christina se transformava em uma segunda e uma terceira, ou quando fomos a uma loja para comprar caixas para guardar as roupas dela, ou quando liberamos uma prateleira no banheiro para ela, que trinta por cento dos sem-teto nos Estados Unidos já estiveram sob o cuidado do Estado, em lares adotivos temporários.

A maior parte de nós não consegue sobreviver aos primeiros empregos, aos primeiros apartamentos, aos primeiros amores ou aos primeiros grandes erros, sem a família para nos apoiar. Precisamos de dinheiro, de amor, de conselhos e de encorajamento mesmo bem depois dos nossos aniversários de dezoito anos — especialmente se celebramos esse aniversário em uma instituição com guardiães financiados pelo estado, trabalhando em turnos de oito horas.

O que eu sabia, enquanto arrumava os lençóis na cama improvisada de Christina naquelas primeiras noites, era que eu tinha uma menina magoada e zangada nas mãos, que estava morrendo de medo de ser rejeitada mais uma vez. E eu sabia como aquela menina se sentia porque eu também já fora como ela.

Quando eu tinha catorze anos, saí da casa da minha mãe e nunca mais a vi. Eu me mudei para a casa do meu pai, a cinquenta quilômetros de distância. Minha mãe não foi atrás de mim, nem me ligou, e eu tinha medo demais para voltar a fazer contato com a mulher que não me queria.

Quando me formei na faculdade, mandei uma carta para minha mãe, e ela me mandou um bilhete, em um pedaço qualquer de papel, me desejando uma boa vida... e escreveu o meu nome errado. Mais tarde, reconheci sinais de doença mental nela; reconheci isso por causa dos homens com quem ela andava, das noites em que não voltava para casa, no modo com que se enfiava em algum canto e se perdia pelo dia todo.

Mas eu não sabia diagnosticar isso quando era criança. Na maior parte do tempo, eu focava ao redor, pisando em ovos, tentando fazer com que ela melhorasse. Basicamente eu achava que a rejeição da minha mãe era culpa minha. E quando eu não consegui mais suportar isso, fui embora.

Quando Christina se mudou para minha casa, eu não ignorei a semelhança. Vi que, ajudando-a, eu poderia consertar um pouco da minha própria história, poderia ser a mãe que a minha mãe nunca foi. Mas quando Christina já começava a se acomodar em uma espécie de rotina no nosso apartamentinho sala-e-quarto, a agência responsável ligou para dizer que ela não poderia ficar.

Já havíamos matriculado Christina em uma nova escola pública e ela estava fazendo um currículo para poder arrumar um emprego. Estávamos redistribuindo as tarefas domésticas. Mas não éramos um lar adotivo licenciado, por isso eles encontraram lugar para ela em um lar social para adolescentes acusados de crimes sexuais.

Christina nunca cometera um crime desse tipo, e ficou compreensivelmente apavorada. Prometeram que seria só por algum tempo, até que conseguissem encontrar alguma coisa melhor.

A questão é que eu era a “coisa melhor”. Já tinha sido encontrada, e Christina estava segura comigo. Eu não ia deixar que um sistema arruinado arruinasse uma menina que eu amava. Não tinha planejado ser mãe de uma adolescente aos vinte e oito anos, mas descobri que se um filhote ferido fosse ameaçado na minha toca, eu era capaz de me transformar em mãe em um piscar de olhos.

Juntas, nós reagimos, e depois de alguns telefonemas acalorados e de arranjos apressados, ela acabou ficando conosco. Mas essa não é a parte triunfal da história. O triunfo são os últimos treze anos.

Ser mãe de uma adolescente pode ser como dirigir um carro de corrida em uma pista escorregadia sem freios. O rádio berra um rap espanhol e a menina no assento do passageiro assovia alto para os outros motoristas que passam, então abaixa. Ou então sai correndo pela porta se está zangada com você. Ah, espere — talvez isso seja só a minha adolescente.

De qualquer modo, aprendi com a minha adolescente que você só precisa se segurar firme nas curvas. Não aprendi a ser uma ótima mãe do modo como eu tinha planejado, mas aprendi, sim, que nenhum comportamento “ruim” da parte dela jamais vai gerar a rejeição definitiva. Aprendi que, criança ou adolescente, ninguém merece ser descartado — nem as dezenas de milhares de crianças e adolescentes em lares sociais, nem Christina, nem eu.

Essa última parte foi o presente de Christina. O bônus foi perceber que a adolescência passa. Então, você se vê com um jovem adulto que de repente, milagrosamente, ama você também.

Minha experiência com o crescimento de Christina foi extraordinariamente compactada. Não vivi a fase das fraldas, dos dentes nascendo, ou dos primeiros cortes de cabelo. Mas vivi os primeiros passos dela. Houve o momento em que ela começou a chegar em casa na hora determinada, porque “não queria me preocupar”, mesmo nunca tendo tido um horário para chegar em casa antes de morar comigo. (Ninguém nunca tinha se importado com isso antes.)

A minha ex e eu costumávamos acordá-la com a música da Dolly Parton, “Little Sparrow” (Pardalzinho), que ela alegava odiar, porque era a única coisa que conseguia tirá-la da cama. Quando completou dezenove anos, Christina fez uma tatuagem de um pardal em homenagem à música.

E, finalmente, teve a carta, alguns anos atrás, em que Christina me agradecia por salvar a sua vida. Ela salvou a própria vida, eu disse a ela, mas é preciso ter muita profundidade de alma para sentir tanta gratidão.

Além do mais, eu é que sou grata. Gostaria que mais pessoas quisessem adotar adolescentes (embora essas pessoas, como eu, talvez não considerem essa possibilidade até um adolescente aterrissar em seu colo). Ao contrário das crianças menores, os adolescentes normalmente reconhecem que suas frustrações e tristezas são fruto do sistema e das famílias biológicas deles, e não de você.

Eles podem dizer, como Christina disse com frequência quando tinha um ataque de raiva:

— Nem sei por que estou agindo assim. Provavelmente é por causa do abuso que sofri em uma das casas em que morei.

E eu podia dizer:

— Não sei o que fazer com você. Não tenho experiência.

E nós duas podíamos nos abraçar para abrandar a confusão que sentíamos e pedir uma pizza para comermos juntas no sofá.

O triunfo na história não é termos celebrado os aniversários de dezoito, dezenove e vinte e cinco anos de Christina, e ela nunca ter chegado nem perto de se tornar uma daquelas tristes estatísticas relacionadas com o sistema de lares adotivos temporários. O triunfo é que os celebramos juntas. E a família de Christina cresceu. Ela fez progressos com seus parentes biológicos e tem a minha ex como sua outra mãe — no último verão, Christina participou do casamento dela.

Minha atual parceira e eu viajamos recentemente para ver Christina no aniversário dela e para marcar o momento com um churrasco coreano, como sempre fazemos. Nossa família bagunçada é como um monte de famílias bagunçadas, mas o principal é que permanecemos próximas porque escolhemos. Christina me ensinou que uma família duradoura não é algo que simplesmente acontece e sim uma escolha, ano após ano.

O que significa que realmente gostamos de passar aniversários juntas. Mesmo se trinta anos parecer terrivelmente velha.

Está tudo certo. Ainda sou uma mãe muito jovem.

Cris Beam é escritora e professora na cidade de Nova York. Seu livro mais recente é I Feel You: The Surprising Power of Extreme Empathy. Este relato foi publicado em agosto de 2013.