Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 41 de 47

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Modern Love

A terceira metade de um casal

A TERCEIRA METADE DE

UM CASAL

HOWIE KAHN

 

E SSA É UMA MANHÃ IMPORTANTE PARA MIM: UM ENCONTRO para café da manhã na minha casa, e estou cozinhando. Explorei os mercados e escolhi o melhor de tudo: laranjas para as raspas, peras para assar, balsâmico para temperar, queijo de cabra para esfarelar e, para valorizar a minha rabanada, um frasco de baunilha orgânica mexicana para realçar o sabor e deixar uns pontinhos. Até ralei a canela eu mesmo. Isso é o que se faz quando alguém especial está vindo tomar café da manhã.

Depois de terminar de cortar tudo o que eu precisava, coloco a mesa (guardanapos dobrados nos formatos que vemos nos salões de festa), peônias cor-de-rosa flutuando na água, em uma tigela de vidro, um banho rápido. Visto uma camiseta preta bem usada e um bom jeans rasgado. Às onze da manhã — bem na hora — a campainha toca.

Atendo a porta e lá estão eles, meus “parceiros”: ansiosos, radiantes e, o que os torna mais atraentes, casados.

Sei que esse cenário soa potencialmente pervertido, mas não há qualquer dinâmica sexual a ser revelada aqui. Não faríamos sexo a três assim que a fruta estivesse caramelizada. Meus convidados, Cory e Jake, são fiéis um ao outro, e não pretendo estragar isso. Ao contrário, dependo da estabilidade do casamento deles, preciso que fiquem juntos para que eu possa ir aonde eles vão e fazer o que eles fazem. Colocado de forma simples, sou quem está sempre “segurando vela” para os dois.

Estar com eles é um papel para o qual me candidatei desde o início. Quando me mudei para Nova York (para fazer pós-graduação), Cory, minha amiga de faculdade, já morava na cidade e, por sorte, tinha um quarto vago. Eu o aluguei prontamente e logo conheci Jake, o novo namorado dela.

Como Jake estava em um hiato no seu trabalho com finanças, e eu tinha aulas apenas duas vezes por semana, passávamos muito tempo juntos, na maior parte das vezes conversando sobre os mais diversos assuntos.

Cerca de um mês antes de Jake pedir Cory em casamento, ele foi até o meu quarto — que ficava bem ao lado do de Cory — e me entregou um estojinho laqueado.

— Ei — disse casualmente —, pode guardar isso pra mim?

Olhei para o estojo e senti a garganta apertada. Meus olhos ficaram marejados.

Orgulhoso, Jake me deu permissão para abrir o estojo e foi o que eu fiz, cheio de cuidado: o anel cintilava, perfeito, surpreendentemente grande.

— Não quero que a Cory encontre — disse Jake. — Assim, se você aceitar ficar com ele por enquanto, estou entregando a você.

— Sim — respondi em um sussurro, e guardei o diamante na minha gaveta, em cima da minha calculadora científica.

Logo depois, Jake levou Cory para uma fazenda, na Pensilvânia, para fazer o pedido de casamento, e como tinha acontecido comigo pouco antes, ela aceitou o anel. Quando eles voltaram da lua de mel na República Dominicana, ficou claro que a vida de casada combinava lindamente conosco. As necessidades dos dois eram atendidas um pelo outro, e as minhas necessidades eram atendidas, em conjunto, por eles.

Nessa altura, eles tinham uma casa só deles, mas sempre havia comida e um assento para mim à mesa dos dois (aquela era uma época em que eu não tinha mobília e comprava muito poucos mantimentos). Cory me convidava para conversar sobre livros e filmes. Jake me levava para jogar basquete com os amigos dele. Cory e eu íamos juntos ao teatro e a museus. Jake e eu fomos a um jogo dos Rangers e assistíamos ao World Series, de beisebol. Cory me aconselhava em relação ao que eu carinhosamente me referia como o abismo cada vez maior entre mim e todas as mulheres do planeta. Jake também participava dessas conversas

Tínhamos uma boa relação, uma rotina doméstica totalmente promissora. Nossos jantares e conversas levavam noites inteiras. Cory com frequência adormecia no meio da conversa e eu ia embora silenciosamente, me sentindo satisfeito e amado.

Não demorou muito para que eu parasse totalmente de ter encontros. Parecia sem sentido namorar, afinal eu já fazia parte de um casamento muito sólido.

Eu sempre ansiei por esse tipo de estabilidade, sempre desejei a minha parcela disso. Mas nunca foi fácil. Afinal, não sou nenhum conquistador, e há muito tempo me sinto afastado de qualquer ritual de namoro que não inclua deixar para trás um cartão de visita com uma tia com sobrepeso e usando uma cinta apertada demais.

Sou antiquado, me sinto mais a vontade buscando um momento emocionalmente íntimo do que entrelaçando o meu corpo por horas sem fim com alguma estranha com cabelos cheirando à fumaça. Isso e os rigores do ritual de encontros acabaram me levando a extremos nada saudáveis — até para o hospital.

Alguns verões atrás, passei a sofrer de dores de estômago crônicas. Na época, a coisa tinha a sua própria agenda sísmica: ribombando, fervendo em fogo brando, gorgolejando, até mesmo jorrando pedaços ardentes que subiam pelo fundo da minha garganta. Aquela foi a resposta do meu corpo a uma mulher brilhantemente audaciosa, mas totalmente inalcançável, que, na época, era o motivo de eu viver e respirar.

Na sala de exames, um médico pressionou os dedos contra o meu abdômen e auscultou meu peito com o estetoscópio.

— O coração parece bem — falou. — Muito forte.

Não fiquei surpreso. As mulheres só começaram a causar danos no meu coração depois de terem destruído o meu estômago. Disse isso ao médico, que assentiu em solidariedade e me mandou de volta par casa com a receita para um regulador intestinal.

Depois da hospitalização, comecei a sair com outras mulheres. Mas o resultado, lamentavelmente, foi todo um novo cenário de pseudodilemas gastroenterológicos, que faziam com que eu me atrasasse, ou que chegasse zonzo ou um pouco verde em um encontro. Quando eu estava me arrumando para sair, o meu estômago se agitava de um jeito que me eu sentia prestes a vomitar um tablete de manteiga. Demorava pelo menos vinte e cinco minutos para o meu desconforto passar naturalmente. Ou quinze minutos e um Xanax. Ou cinco minutos e um dedo no fundo da garganta.

Cory e Jake provaram ser a minha panaceia, melhor do que todos os outros remédios (antiácidos, psicoterapia, Julie Delpy em Antes do amanhecer), que faziam o amor me parecer, momentaneamente, algo sem presa prestes a me morder. Assim, eu ficava perto deles, me agarrava a eles com vontade. Era quase como se eu estivesse seguindo uma diretriz biológica, a que permite que pequenas criaturas busquem proteção e cuidados montando nas costas de um animal muito maior.

Parte do que fazíamos a três, embora a minha participação fosse esperada e sempre bem-vinda, eu provavelmente deveria ter deixado que os dois fizessem a sós, como um casal. Como jantares de aniversários à meia luz, nos quais Cory parecia uma bígama sentada entre mim e Jake. Ou o passeio ao zoológico do Bronx, onde todos dividíamos casquinhas de sorvete e, a meu pedido, andávamos quatro vezes no teleférico que fazia um “safári” pelo alto do zoológico.

Em um determinado ponto, reparei em alguns babuínos dando cambalhotas em uma encosta gramada abaixo: três deles desciam rolando a encosta. Mas, quando chegaram à base, dois, de mãos dadas, começaram a subir de volta em direção ao topo, enquanto o terceiro se afastava sozinho.

Os primatas não eram os únicos a me mandarem sinais. Cory e Jake agora também tinham uma mensagem para mim. Não lembro exatamente como eles disseram. Anunciaram durante o jantar que estavam me abandonando para se mudarem pra outra cidade? Ou deram a notícia embaixo de um poste de luz, na rua, assim que começou a chover? Ou me mandaram cravos com um bilhete? Não tenho ideia.

Seja como for, a explicação deles para estarem se mudando de Nova York para Portland (para o Oregon! Não era nem para o Maine!), como se lubrificada pelo absurdo da possibilidade, entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Como vinha sendo agradavelmente protegido, há tanto tempo, pela passividade elementar do papel de “vela” do casal, não ouvi o que disseram, ou não consegui, porque já não era mais fluente no idioma dos rompimentos e da ansiedade em relacionamentos.

Partir? Se mudar? Despedida? Todas as palavras soavam embaralhadas e distantes, como se saídas de um manual idiomático de Urdu, ou de uma música da Kelly Clarkson.

Na noite em que Cory e Jake partiram, eu chorei tanto que hiperventilei pela primeira vez na vida. Sem um saco de papel à vista, enfiei uma toalha de mão suja dentro da boca, como o freio de um cavalo, e soprei o que pareceu ser todo o ar que havia na minha cavidade pulmonar.

Quando finalmente recuperei o fôlego, e tirei a toalha da boca (que deixou fios soltos na minha língua e entre vários dentes), estava tremendo no chão do meu banheiro, os joelhos puxados contra o peito. Disse, então, em voz alta:

— Que inferno, qual é o problema comigo? As pessoas vão embora o tempo todo. Aprenda a lidar com isso.

Mas como eu não conseguia lidar com aquilo, liguei para o meu pai.

— Qual é o problema comigo? — perguntei a ele.

— É difícil — respondeu o meu pai — ter a sua rede de segurança arrancada de debaixo de você. Dói.

Àquela altura — eram duas e meia da manhã —, coloquei dois comprimidos de melatonina embaixo da língua.

O meu pai fez uma pausa, então voltou a falar:

— Ficar sozinho por algum tempo... provavelmente vai ser bom pra você.

Quando voltei a dar conta de mim, o sol estava alto e meu rosto estava semicongelado e marcado pelo ar-condicionado que usei como travesseiro.

Sempre soube que passar por um divórcio me arrasaria, me deixaria fora de controle, me induziria a deixar a barba crescer, a ter sonhos espectrais e a ser doutrinado religiosamente. Mas eu mesmo nunca tinha feito qualquer voto de casamento, portanto não poderia deixar as coisas saírem tanto do controle. Além do mais, eu ainda poderia lutar contra aquilo, não é mesmo? Poderia me mudar para Portland também.

Realmente pensei em fazer isso: em deixar Nova York e incorporar granola à minha dieta. Eu aprenderia a reciclar, andaria o tempo todo de capa impermeável e passaria os fins de semana andando pesadamente por trilhas subalpinas cheias de arbustos de frutas vermelhas. No Oregon, eu poderia preservar a minha realidade livre de encontros e namoros e livre de riscos.

Mas isso seria patético, covarde. Até os babuínos do zoológico eram capazes de se afastar uns dos outros, e eles supostamente eram inferiores a mim na cadeia evolutiva.

Comecei a me concentrar na minha convalescência. Rilke, vodca Grey Goose e sorvete de manga Häagen-Dazs tiveram papéis essenciais nisso. Mas o choque real do desfibrilador veio do que hoje considero como uma fonte alternativa de cura: encontros online (ideia da Cory).

Não comecei a ter encontros imediatamente com quem conhecia online, mas o choque de receber tanta atenção de estranhos baseados apenas na foto que postei levantou consideravelmente a minha moral. Cheguei mesmo a começar a acreditar que talvez houvesse alguma garota especial por aí capaz de me oferecer alguma coisa mais sublime do que a úlcera de sempre. Aquele súbito surto de fé não foi exatamente um enlevo matrimonial, mas pareceu um progresso, uma oportunidade de voltar para o jogo.

Eu me dei conta de que, sim, eu me recuperaria, e isso merecia um prêmio. Por isso, decidir fazer uma pequena viagem. Para Portland, é claro.

Howie Kahn é editor-colaborador da WSJ: The Wall Street Journal Magazine, coautor de Sneakers, livro que apareceu na lista dos mais vendidos do New York Times, autor de Becoming a Private Investigator e apresentador de Prince Street, um podcast sobre cultura e comida que é ouvido em mais de duzentos países. Este relato foi publicado em outubro de 2005.