Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 13 de 47

Páginas do PDF

Modern Love

Dormindo com o guitarrista

DORMINDO COM

O GUITARRISTA

JEAN HANFF KORELITZ

 

N AS FASES DA VIDA DO HOMEM, HÁ OS CLÁSSICOS — INFÂNCIA, juventude, idade adulta. Temos as crises de meia-idade, é claro, tão caras aos terapeutas e segundas esposas por toda parte. Há a adolescência, na qual alguns homens parecem se demorar... ah, bem, quando ela termina? Mas nos últimos anos experimentei, por intermédio do meu marido, outro estágio masculino, um estágio do qual eu até então, felizmente, não tinha noção. Esse é o estágio da vida de um homem que, a partir de agora e para sempre, eu vou pensar como a fase da guitarra-no-porão.

Há seis anos, quando meu marido, Paul Muldoon — um poeta que dá aulas em Princeton —, trouxe para casa uma guitarra elétrica, levou-a para o porão da nossa casa em Nova Jersey e ligou-a, eu estava rindo demais para absorver a enormidade do que estava acontecendo. Eu sabia que ele amava música. Como cresceu na Irlanda, durante os anos 1960, Paul estava presente no nascimento do rock britânico, e sabia muito mais sobre o blues norte-americano e sua influência nos dois lados do Atlântico do que eu jamais tinha me preocupado em aprender. Ele entrava rapidamente em ação quando os ingressos para show do U2 começavam a ser vendidos e me arrastou, ao longo dos anos, para muitos, muitos concertos que eu desprezava. (Uma vez, caí no sono ouvindo Bob Dylan no Beacon Theatre.)

Ainda assim, não me dei conta de que aqueles sons muito altos vindo de debaixo do piso da sala de estar anunciavam grandes mudanças para a nossa família. Na época, eu estava grávida do nosso segundo filho e, para ser honesta, não estava conseguindo me concentrar muito bem. Quando Paul tocava a guitarra dele no porão, o prédio todo vibrava, e eu ficava sentada ali, um andar acima, cambaleando de tanto enjoo. Quando não conseguia mais aguentar, eu ia até o topo da escada que dava para o porão e piscava a luz, para chamar a atenção dele.

— Pare, por favor.

Ele parava. Mas não por muito tempo.

Eu logo descobriria que aquilo não era uma mera questão de comprar um único instrumento musical. Era como se estivéssemos em uma esteira rolante de aquisições de mais guitarras e equipamentos relacionados — os encantos de um sendo rapidamente negados pelas ondulações do seguinte. Depois da primeira guitarra, uma Cort, e de seu amplificador correspondente, Paul encomendou uma Fender Stratocaster, uma Gibson Les Paul, um amplificador Marshall, uma reedição de uma Telecaster de 1952 (“como a guitarra que o Keith toca”), uma Ibanez acústica/elétrica e um amplificador Fender Acoustasonic.

Era um lado novo e desagradável de um homem que eu achei que conhecia muito bem, um homem que nunca fazia compras, que usava um relógio com a pulseira de plástico quebrada, e que dirigia um carro velho e feio, que tinha ficado torto depois de ter sido abalroado por um cervo, uma década antes. Agora, ele fazia visitas especiais ao Sam Ash, a loja de instrumentos musicais em Nova York. (Imaginei os vendedores se cutucando e dizendo: “Cara, lá vem outro guitarrista-de-porão.”) Estava ficando lotado, lá embaixo, no porão.

Aos poucos, comecei a compreender que o meu marido não era um caso isolado. Havia hordas de homens por aí, mais ou menos da idade dele, se divertindo no mundo maravilhoso das guitarras e estocando amplificadores em seus próprios porões. Nas semanas que se seguiram ao 11 de Setembro, quando eu começava cada dia triste lendo “Portraits of Grief” (“Retratos do Luto”) no New York Times, eu li e reli sobre homens que voltavam do trabalho, desciam as escadas para o porão e abalavam as estruturas de suas casas em Jersey, ou Westchester, ou Long Island.

Uma vez, em um jantar na casa de um amigo, Paul foi acomodado perto de um gerente financeiro muito chato, que tinha me alugado durante o coquetel. Para minha surpresa, eles entabularam rapidamente uma conversa ávida, que durou toda a refeição. Fiquei de olho nos dois, sem conseguir imaginar que assunto teriam conseguido encontrar para tanta conversa, quanto mais tanta animação.

— Ele tem uma Stratocaster no porão — contou Paul, feliz da vida, quando voltávamos de carro para casa. — E acabou de comprar um pedal Wah Wah.

Inevitavelmente, Paul começou a tocar com alguns desses homens. Havia um advogado que tinha um estúdio completo de gravação no apartamento dele, então um professor de poesia Renascentista com uma vasta coleção de guitarras. No início, sair depois do jantar com a guitarra no assento de trás era uma ocasião especial, uma aventura empolgante para ele, se não para mim, mas logo se tornou uma saída rotineira.

— Você não se importa se eu for ensaiar essa noite, não é? — perguntava ele.

Ensaiar?, eu pensava desconcertada. Ele ainda estava aprendendo os acordes básicos do instrumento. Ensaiar?

Demorou um bom tempo para eu compreender com o que estava lidando. Mas sou mulher, o que significa que, no fundo do meu coração, já entendi há muito tempo que certas coisas nunca vão acontecer na minha vida. Não vou, por exemplo, posar de roupa de banho para a Sports Illustrated, ou representar meu país como ginasta olímpica, ou dançar Coppélia com o Balé da Cidade de Nova York.

Eu já tinha lidado com esses desapontamentos e, como dizem, tocado o barco. Mas meu marido — meu querido e maravilhoso marido, que é extremamente bem-sucedido escrevendo e ensinando poesia — acreditou, aos cinquenta e três anos, que era absolutamente possível se tornar um guitarrista de rock. No palco. Diante de uma plateia.

Nossa filha de doze anos apelidou a nova banda de Terror das Guitarras, mas o nome verdadeiro guardava um humor mais sutil. Eram chamados de Rackett (Alvoroço) e, àquela altura, aos três homens mais velhos haviam se juntado três rapazes bonitos, recém-saídos da universidade. Eles começaram a escrever músicas: o professor de poesia Renascentista a música, meu marido as letras.

Dois desses rapazes bonitos realmente eram capazes de cantar. O professor de poesia Renascentista na verdade era um excelente guitarrista. Em poucos meses, as gravações feitas no estúdio do advogado não soavam tão diferentes da música que a minha filha de doze anos ouvia às alturas no quarto dela. O tecladista, que tinha sua própria empresa de pastilhas de menta, começou a falar sobre a produção eventual de CDs.

Eu já não me dava mais ao trabalho de tentar apelar para o bom senso do meu marido. Que bom senso, afinal? Minha noção de realidade foi embora no dia em que entrei em casa e encontrei Paul ouvindo vezes sem conta uma mensagem gravada na secretária eletrônica de um dos poucos astros do rock que nós dois reverenciávamos, Warren Zevon. O Sr. Zevon tinha lido poesias de Paul. Quando Paul apertou o play na secretária eletrônica, ouvi o autor de “Werewolves of London” e “Excitable Boy” declarar o meu marido como “O melhor poeta do planeta, cacete”.

No devido tempo, eles se encontraram, ficaram amigos e escreveram duas canções juntos, incluindo “My Ride’s Here”, a faixa-título do penúltimo álbum do Sr. Zevon. Livros sobre música começaram a se acumular no nosso banheiro. Paul abriu uma editora para registrar suas letras e se tornou membro da Sociedade Americana de Compositores, Autores e Editores (ASCAP, em inglês). Exemplares das revistas Spin e Guitar World começaram a chegar mensalmente, junto com um suprimento exaustivo de catálogos da Sam Ash. O Rackett foi convidado para fazer seu primeiro show, em um clube em Greenwich Village. O catálogo de canções originais da banda chegava a trinta, então a cinquenta. Bruce Springsteen produziu uma gravação ao vivo de “My Ride’s Here”, para o álbum póstumo em tributo a Warren Zevon.

Eu me recuso a concluir de tudo isso que passei quase dezoito anos sem saber que estava casada com um astro do rock. Não era possível que eu tivesse sido tão pouco observadora, que não tivesse percebido as roupas de lycra no armário, o ônibus de turismo na garagem, as mensagens de fãs apaixonadas na caixa de correio. Essa também não é uma história de trabalho duro, de um talento musical prodigioso inato, e do aperfeiçoamento do “ofício” chegando a sua conclusão justa e inevitável.

Me ocorre que, muito do sucesso de Paul nessa estranha empreitada deriva do fato de que ele simplesmente não sabia que a coisa toda era impossível, que sua ausência de musicalidade, a idade avançada e a ausência de lábios de astro do rock tornavam categoricamente impossível para ele se tornar o que havia decidido que queria se tornar. Mais uma vez, parte dessa obtusidade devia ser derivada do fato de ele ser homem, antes de mais nada.

Ao contrário das mulheres, para quem a menopausa serve como uma transição impossível de ignorar, uma linha que divide a vida em duas partes, os homens não têm um marco da meia-idade diante do qual frear, ou mesmo que precisem contornar, no vasto território que vai da juventude deles até a velhice — há apenas um meio grande e elástico. É de espantar que eles percam a noção de onde estão e achem que podem fazer qualquer coisa? E tendo a evidência que tenho, sou forçada a concordar. Se Paul entrar em casa amanhã e anunciar que decidiu se tornar engenheiro, pintor ou ídolo das matinês, temo que serei forçada a dar a ele o benefício da dúvida.

No palco, ele parece um poeta irlandês de meia-idade, de óculos, vestindo o mesmo terno amarrotado que usa para dar aula. Ele não é um grande músico e ainda só consegue tocar sete acordes (o que já são quatro além do que se precisa, argumenta Paul). Mas, antes de mais nada, ter sucesso em alguma coisa é muito improvável. Por que o fato de ele ter cinquenta e três anos e ser um neófito musical deveria tornar o fato de assistir à banda dele no palco mais bizarro para mim? Por que eu deveria ficar surpresa?

Mais uma vez, um dos grandes prazeres de ficar chocada com alguma coisa incrível que uma pessoa que amamos faz é, na sequência, ficar chocada com alguma coisa em nós mesmas. Devo admitir que agora tenho feito coisas que nunca pensei que faria, como pular feito louca no porão escuro de um clube de rock, com um bando de garotos e garotas de vinte e poucos anos. Vi coisas que nunca imaginei que veria, como um grupo de universitários na plateia erguendo um cartaz com o nome de Paul, em uma apresentação do Rackett.

E disse uma coisa que nunca imaginei que diria, na entrada do palco de um clube de Nova York, quando tentei levar a guitarra dele — uma das guitarras dele! — para o camarim, no andar de baixo. O segurança, depois de me olhar muito desconfiado, imaginando quem sabe que eu tivesse acabado de chegar de um campo de futebol em Nova Jersey (que era exatamente o lugar onde eu estava, algumas horas antes), perguntou se poderia me ajudar.

— Está tudo certo — disse a ele, levantando a guitarra. — Estou com a banda.

Jean Hanff Korelitz é autora de cinco romances, incluindo Admission, You Should Have Known (exibido na HBO como The Undoing) e The Devil and Webster, e é coadaptadora e coprodutora de Os mortos, 1904, uma adaptação imersiva de Os mortos, de James Joyce, apresentado no Irish Repertory Theatre

(www.thedead1904.com). Ela mora na cidade de Nova York com o marido, Paul Muldoon, que agora está em uma banda chamada Rogue Oliphant. Este relato foi publicado em março de 2005.