Modern Love
Segurando firme nas curvas
SEGURANDO FIRME
NAS CURVAS
UM CORPO MARCADO,
UM CASAMENTO CURADO
AUTUMN STEPHENS
R ECEBI A LIGAÇÃO EM UMA MANHÃ ENSOLARADA DE JULHO, em 2001, enquanto o meu marido estava no trabalho e os meus filhos na creche, e quando rosas grandes e rosadas desabrochavam como loucas por todo o meu quintal. De acordo com a biópsia, os dutos de leite do meu seio direito estavam cheios de células cancerosas. Células latentes naquele momento, mas o oncologista disse que se em algum momento elas resolvessem se romper, seria um grande estrago.
Ele sugeriu que fizéssemos um ataque preventivo para combatê-las. E quem era eu para discutir? Um dos meus bebês, que eu já concebera tarde na vida, ainda usava fraldas, o outro mal conseguia escrever o próprio nome. Vamos tentar uma lumpectomia, decidimos. Se não funcionasse, simplesmente cortaríamos o seio fora.
Meu marido recebeu a notícia da minha doença estoicamente, quase como se fosse alguma coisa que ele já soubesse. Nem um erguer de sobrancelhas para revelar surpresa ou desalento. Como muitos homens, ele prefere a calma de quem está no controle a histrionismos. Por sinal, eu também. Mas naquela noite, não houve chance de sono para mim: fiquei deitada no escuro, tremendo e sozinha com os meus medos. Sabia que o meu marido conseguiria viver sem mim. Já tinha feito isso antes — por escolha. Apesar de seus surtos de ambivalência sobre o nosso casamento — e consequentemente os meus —, estou com esse homem (e sem ele, e com ele de novo) há mais de um quarto de século. Nem todas as cicatrizes são visíveis a olho nu.
Por mais incompreensível que possa parecer às vezes, o cara que hoje sofre de insônia, tem uma hipoteca para pagar, dirige um Volvo, paga impostos e cuja aliança eu uso no meu anelar, já foi um rapaz desengonçado de dezenove anos que abalou a minha alma, o namorado de olhos azuis que conheci no dormitório da faculdade onde nós dois morávamos, um refúgio para hippies contemporâneos e ativistas estudantis. Nos tornamos amantes em uma noite de início de primavera, quando as luzes se apagaram em uma festa embalada a álcool e LSD. Tínhamos passado todo o inverno nos aproximando devagar um do outro: ele tinha medo, agora eu percebo, da minha língua afiada; eu desconfiava (e não estava totalmente errada) que ele fosse uma pessoa muito mais gentil do que eu.
Nunca saímos para um encontro, nunca nos envolvemos em qualquer ritual formal de namoro que as gerações anteriores tomavam como certos. Mas, naquela noite, no escuro, encontramos um ao outro, e nos meses e anos que se seguiram, enquanto outros casais se uniam e se separavam, e voltavam a se unir em novas configurações, nós permanecemos juntos. Acabamos nos casando, então prontamente traímos um ao outro, de forma tão explícita quanto fugaz. Não tínhamos, para nos prender, a euforia exultante e impetuosa dos recém-casados, ou bebês concebidos na lua de mel, ou qualquer grande compra de imóveis para demonstrar a nossa fé no nosso futuro compartilhado. Quando as coisas ficaram difíceis de continuar, não havia nada concreto nos ancorando.
Dois anos depois do nosso casamento, descalços na beira da praia, meu marido disse que queria o divórcio. Por semanas depois disso, eu me senti tão arrasada que às vezes tinha medo de me mover e desmoronar; tão suscetível à rejeição que mal ousava mostrar meu rosto magoado, meu rosto de fracassada, para o mundo vencedor no amor.
Mas é possível se acostumar com tudo. A minha nova vida de solteira foi assim: solitária, liberada, produtiva. Tranquila, em contraste com o desespero silencioso e gritante que caracterizara o meu casamento. E segura. Sozinha, eu não poderia receber uma facada nas costas, a minha serenidade não seria sequestrada pelos demônios de ninguém. Ao longo do tempo, eu me acomodei profundamente dentro de mim. Às vezes, quando estava escrevendo com um prazo apertado, não saía do meu apartamento por dois, três dias. Mal dormia ou trocava de roupa. E vejo isso não como uma patologia, mas como um prazer, a plena expressão de um aspecto compulsivo e antissocial meu que tenho a tendência a ver, ou talvez meramente a romantizar, como a eu “real”.
Então, cinco anos depois, quando meu marido e eu nos reconciliamos súbita e inesperadamente (um encontro por acaso, um beijo explosivo, o déjà vu todo de novo), pensei muito antes de concordar em desistir do meu estudiozinho de solteira. Com certa apreensão, assinei junto com ele o pedido de empréstimo para a casa vitoriana grande em Berkeley que planejávamos encher, o mais rápido possível, com filhos.
E logo também o já mencionado jardim com rosas, e jantares para amigos e o grande alívio dos nosso pais porque finalmente teriam netos. A imagem do casal feliz, finalmente. No entanto, um retrato mais penetrante, uma biópsia conjugal, teria revelado como a desconfiança ainda apertava o coração da mulher, como o marido mordia a parte interna da bochecha até sair sangue, de tanta frustração. A história se repete, não é? Esperei por muitos anos que acontecesse de novo, acalentando a minha amargura.
E finalmente aconteceu — embora não exatamente do jeito que eu havia esperado, mas com um diagnóstico de câncer. A troca fácil que eu pensei ter intermediado — meu seio flácido de quarenta e três anos em troca de uma dose de vida cotidiana longa e boa — não aconteceu tão tranquilamente quanto eu tinha imaginado. Nem meus médicos, ou meu marido, ou eu ficamos chocados quando o mal cirúrgico menor, a lumpectomia, não conseguiu derrotar o câncer. Ninguém havia prometido que isso aconteceria. O que surgiu como um raio, do nada, foi a devastadora infecção pós-cirúrgica que me atacou dois dias depois e da qual eu, realmente, quase morri.
O verão de 2001 passou enquanto eu permanecia de cama, ligada aos suportes intravenosos que injetavam medicamentos no meu corpo, preocupada demais com a minha própria situação para reparar no tempo passando. Levei semanas presa àqueles suportes — primeiro no hospital, então em casa, antes de estar saudável o bastante para ter o meu seio removido — ou ao menos o que restou dele.
Quando o cirurgião plástico falou sobre reparar o meu peito mutilado, a palavra que ele usou foi reconstrução. Essa palavra sempre me faz pensar na Guerra Civil Americana: as batalhas sangrentas, o esforço condenado ao fracasso de se curar e seguir em frente, enquanto o cheiro da morte ainda paira no ar.
Rejeitei de cara a proposta dele. Para ser justa, havia razões médicas para isso. Mas também havia outras razões. Quando meu marido e eu éramos jovens, a diretiva do movimento feminista era que as diferenças entre homens e mulheres não deveriam ser enfatizadas. Talvez por causa disso, eu raramente tenha sido capaz de reunir — muito menos sustentar — um senso de feminilidade viável. Na verdade, nunca cheguei sequer a compreender realmente o que as pessoas querem dizer com essa palavra, mas, seja o que for, tenho certeza de que um par de mamas combinando uma com a outra não define isso.
Ainda assim, conforme o meu apetite desaparecia e o meu peso diminuía em relação ao que era no sexto ano do colégio, às vezes, quando eu pensava em como parecia frágil, abalada e delicada, a palavra feminina realmente me vinha à mente. Um botão em um galho cortado. Mesmo agora, quando reparo em um remendo recente no asfalto de uma rua da cidade, na cicatriz negra no asfalto, fico agudamente consciente da parte superior do meu peito. Daquela superfície vazia, onde às vezes sinto um formigamento, às vezes sinto dor, mas onde na maior parte do tempo não sinto nada.
Mas o meu marido: não vamos esquecer o meu marido. Porque é claro que essa história não é só minha. Durante esse tempo, não escapou à minha atenção como o meu marido, que já fora tão ambivalente, cuidou de mim. O homem cuidou — específica e pragmaticamente. Com as próprias mãos, ele enrolou bandagens no nada que eu não queria ver. Sem reclamar, drenou o tubo plástico que sugava o pus e o sangue do meu peito — na verdade, chegou a medir aquele fluido idiota em uma xícara e registrar a quantidade, como o cirurgião havia sádica e despreocupadamente nos mandado fazer. E, vezes sem conta, meu marido repetiu o ritual de esfregar bem as mãos competentes, calçar as luvas de látex e inserir o cateter no meu braço tenso, mas à espera, até finalmente a minha apreensão cessar e eu passar a olhar com confiança absoluta para seus olhos cansados mas ainda tão azuis.
Há formas mais fáceis de se curar um casamento do que tendo câncer. Mas para nós foi assim que aconteceu. No entanto, não nos imagine com os olhos permanentemente fixos um no outro, os lábios colados em um beijo de final feliz. A vida continua. E, como muitas mulheres na casa dos quarenta anos, lamento que a minha libido não seja mais o que já foi. A preocupação com as crianças, ou com o trabalho, ou só o cansaço mesmo, a vontade de não fazer nada a não ser dormir. A última coisa que eu quero é mexer em alguém, ou que alguém mexa em mim. E partes do corpo ausentes não têm um efeito afrodisíaco para fazer cintilar a chama do desejo sexual na meia-idade. Estou falando estritamente de mim aqui, o meu marido não parece se importar. Não se engane: se nos divorciarmos de novo, será por falta de sexo, não por falta de seios.
Mas você está pensando, não está, que eu deveria ser grata pelo meu marido ainda me achar atraente, por ele suportar o meu lado desfigurado? Concordo que não é o desfecho ideal, abrir mão de todas as outras por alguém que, no fim, vai ser tão obviamente imperfeita. Mas não fazemos todos exatamente isso, todos nós que já juramos fidelidade a outro ser humano imperfeito?
Acredite em mim, se eu pudesse, me espalharia em cima dos lençóis como uma terra sedutora de prazeres sensuais, o complemento pleno, tudo o que um amante poderia desejar. Mas faço o que posso, um esforço esporádico, e é verdade que ficamos mais próximos um do outro depois do que aconteceu. Ele passa o braço ao redor dos meus ombros, eu tento fazê-lo rir, ou ao menos falar de outros assuntos que não o comportamento dos nossos meninos, ou as tarefas que ainda precisam ser feitas.
Uma tarde, no último verão, meu filho de três anos na época e eu estávamos passeando pela calçada, parando de tempos em tempos, como costumamos fazer, para examinar vários itens interessantes — seixos, formigas, guimbas de cigarro. Naquele dia, tivemos sorte: uma linda flor em formato de trompete, laranja e malva, que parecia mesmo um instrumento musical em miniatura, tinha caído da árvore. Mas quando o meu menino feliz levantou a flor para que eu admirasse, reparou que a parte interna dela estava matizada e já escurecendo. A consternação se misturou à determinação em seu rostinho.
— Mamãe — disse ele, a voz trêmula —, a gente pode fingir que ela é perfeita?
Fingindo, às vezes esquecemos. Mas fingindo, também lembramos. Nua diante do espelho, fico maravilhada com a visão das minhas costelas, agora tão claramente articuladas. É meu — meu em parte, ao menos — o torso ossudo e despojado de um garoto adolescente, não muito diferente de como era o do meu marido aos dezenove anos, quando o sexo era a cola poderosa que nos unia, apagando fronteiras de tal forma que era impossível dizer onde o corpo de um de nós terminava e onde começava o do outro. Mas agora, é claro, é óbvio o corpo que me pertence. O meu é o que tem a cicatriz rosada, bem fina, correndo de norte para sul, apontando na direção do meu coração.
Autumn Stephens editou Roar Softly and Carry a Great Lipstick: 25 Women Writers on Life, Sex, and Survival (da Inner Ocean Publishing), de onde foi adaptado este relato, publicado em novembro de 2004.