Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 37 de 47

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Modern Love

Dois homens, um bebê a caminho, e eu

 

REBECCA ECKLER

 

E U ESTAVA COM TRÊS MESES DE GRAVIDEZ E NOIVA, DE casamento marcado, quando o conheci. Saímos para jantar com amigos em comum. Ele me fez rir. Ele era muito fofo. E muito solteiro. Ele viu o meu anel de noivado e ouviu o meu anúncio da gravidez. Ainda assim, pagou o meu jantar e caminhou comigo até em casa e, algumas semanas depois, combinamos de ir ao cinema, em um horário cedo.

Depois do filme, eu o convidei para ir ao meu apartamento e preparei vodca com suco de laranja para ele. Eu bebi água, mas mesmo assim sentia aquela leve embriaguez do primeiro encontro.

É claro que não era um encontro. Como poderia ser, quando eu tinha um bebê na barriga e estava noiva do pai do bebê? Não, a palavra encontro nunca foi pronunciada. Eu estava na cama, sozinha, às dez da noite. Mas antes de partir, aquele homem fofo e solteiro examinou meu apartamento e me disse que eu devia ter trancas mais seguras nas minhas portas de correr. No dia seguinte, ele deixou um cabo de vassoura com o meu porteiro, para eu travar as portas de correr por dentro.

Onde estava o meu noivo? Ele morava em uma cidade diferente, a milhares de quilômetros de distância. Estávamos juntos dessa forma havia anos — separados, mas sim, juntos. Nos víamos uma vez por mês. Nosso arranjo funcionou bem até eu ficar grávida, o que nos forçou a tomar decisões. Escolhemos nos casar (em algum momento) e viver na cidade dele, no oeste, mas que eu passaria o período da gravidez na minha cidade no leste, que era melhor para a minha carreira, porque, bem, porque era melhor para a minha carreira.

Aquilo confundiu muitas pessoas.

— Sim, estou grávida — tive que explicar vezes sem conta. — Não, o noivo não está aqui. Sim, vou sozinha às consultas com a obstetra. Sim, ele me visita. Sim, eu o visito. É sério, está tudo bem.

Mas agora, da forma mais inconveniente, conheci esse novo homem que me trouxe um cabo de vassoura para garantir a minha segurança. Com meus amigos, comecei a me referir a ele como Cabo de Vassoura. O outro nome dele era Solteiro Fofo.

Solteiro Fofo e eu começamos a trocar e-mails regularmente. Jogávamos Scrabble. Logo tínhamos um encontro garantido toda quinta-feira para assistir a reality-shows na televisão. Ele ia ao meu apartamento e me levava sorvete, melancia fatiada e Big Macs, as comidas pelas quais eu estava obcecada.

Quando SF e eu fomos ao Mr. Sub (outra obsessão) já tarde da noite, em um sábado, e o empregado atrás do balcão nos perguntou para quando era o nosso bebê, foi mais fácil fingir que ele era o pai do que explicar que era só um amigo. Afinal, que tipo de mulher sai com um solteiro fofo às onze da noite de um sábado quando está grávida do filho de outro homem?

Eu não tinha carro, assim, o SF me levava para fazer compras no mercado no carro dele, nos domingos à tarde. Ele carregava as embalagens de água mineral. Uma vez, quando entramos no elevador com outro casal grávido, foi mais natural para mim dizer: “Também mal podemos esperar que nasça”, do que “Bem, estou empolgada. Não tenho certeza se ele está. Ele não é o pai”.

Quando íamos ao cinema, as pessoas nos olhavam com a expressão calorosa geralmente reservada a casais grávidos. Acho que parecíamos saudáveis e felizes. E eu não podia evitar pensar que eu e ele teríamos feito um bebê muito bonito.

A princípio, achei que o SF sentia pena de mim. Na verdade, achei que ele tinha sido atraído pelos meus seios grandes de grávida. E estava certa nas duas suposições.

Afinal, lá estava eu, dois tamanhos de sutiã maior do que o meu eu pré-gravidez, sozinha em uma cidade grande, grávida, enquanto o pai estava a uma distância de quatro horas de avião. Mas o SF não deveria ter pena de mim. A escolha foi minha.

O SF estava se tornando uma versão do namorado-substituto, que muitas mulheres em relacionamentos de longa distância tinham. Os namorados-substitutos levam você ao cinema, para jantar, ou consertam o seu aparelho de DVD. A única diferença para nós — além do fato de eu estar grávida e noiva — era que ele estava rapidamente se tornando mais do que uma simples versão do namorado-substituto.

— Ele está apaixonado por você — repetia sempre uma amiga minha. — Por que esse homem se sentiria atraído por uma mulher grávida e noiva? O que há de errado com ele? É como se você fosse o desafio máximo.

Às vezes, eu achava a atração dele por mim estranha, mas como a maior parte das mulheres, gosto de acreditar que é a minha personalidade que atrai os homens. Não queria acreditar que eu era só um desafio, ou que ele tinha dificuldade em se comprometer (embora eu pensasse nisso com frequência). Também não acreditava, ou não conseguia acreditar, que o SF se sentia fisicamente atraído pelo meu eu grávida — de calças de moletom, com celulite nos braços e espinhas no queixo.

Não me entenda mal. Eu queria que o SF se sentisse atraído por mim. Estava grávida, não morta. E também gostava dele. Muito. Então demais. Então além da conta. Eu teria dito que estávamos nos apaixonando, mas como aquele não era um momento apropriado para eu me apaixonar, não disse. Certamente agíamos como se estivéssemos apaixonados. Eu falava com ele assim que acordava, de manhã, e no fim de cada dia. Sentia falta dele cinco minutos depois de ele ter me deixado em casa. Uma noite sem vê-lo era como um mês. Ele me disse que nunca tinha gostado de alguém como gostava de mim.

E brigávamos como se estivéssemos em um relacionamento apaixonado. Uma noite, pedi a ele que levasse sorvete de chocolate para mim. Em vez disso, ele me levou sorvete de caramelo. Para mim, foi o fim do mundo.

— Experimente — disse ele. — Você vai gostar.

— Não vou gostar disso — berrei. — Eu queria sorvete de chocolate. Você nunca me escuta. Tem que ser sempre do seu jeito!

Eu o expulsei da minha casa, como uma louca. Eram os hormônios da gravidez.

Pensei que o havia perdido para sempre naquela noite, e esperei por horas ao lado do telefone — que estava funcionando perfeitamente —, me perguntando se a linha teria sido desligada, torcendo para que ele ligasse, e sabendo que seria melhor se ele não fizesse isso.

Ele ligou. Eu me desculpei. Fizemos as pazes.

Outra vez, fomos a uma grande festa. Eu não deveria ter ido. Estava com seis meses de gravidez àquela altura, me sentia feia e deslocada, e precisava ir ao banheiro a cada cinco minutos. Ele se recusou a me acompanhar até o banheiro, e me perguntou por que eu simplesmente não o encontrava depois. Ele flertou com outras mulheres, ou ao menos foi assim que vi a situação. E por que ele não deveria fazer isso? Estávamos em uma festa. Não era como se ele fosse o pai do meu filho.

Fui embora da festa sem dizer a ele, furiosa, cheia de ciúmes. Ele me ligou às três da manhã, bêbado e arrependido. Tive que lembrar mais uma vez a mim mesma que ele não era o meu noivo, não era a pessoa com quem eu iria me casar, ao lado da qual iria envelhecer.

Mas quando tive uma consulta com a obstetra, o SF pediu:

— Me ligue assim que sair.

E eu liguei. (Imediatamente depois de eu ligar para o meu noivo). Não consegui me conter. A minha cabeça gritava: Pare! Mas o meu coração...

— É uma menina! — disse a ele. — Eu queria uma menina!

— Que fantástico! — falou ele.

Como o pai grávido modelo, ele adorava pousar a mão sobre a minha barriga quando o bebê chutava.

— Uau — dizia. — Que incrível.

Ele se preocupava comigo e com aquele bebê que não era dele. Eu me preocupava com o que as pessoas diriam de mim se soubessem do nosso relacionamento. Ele se preocupava com o que as pessoas diriam dele. Eu me preocupava com o meu noivo, a quem eu amava, uma pessoa que eu não queria magoar ou perder. Eu me preocupava com qual seria a coisa certa para o bebê.

Dentro do possível, mantínhamos o “nós” em segredo. O SF não contava aos amigos dele sobre mim, e eu dizia aos meus amigos — àqueles que sabiam — apenas que gostava dele e que ele me fazia rir.

Mas eu sabia que estávamos passando dos limites. Se o meu noivo estivesse andando pela cidade dele com uma solteira fofa, eu o teria matado. O SF nunca falava do noivo, e eu nunca falava do SF para o noivo. Se o noivo desconfiou, se fez de cego. A negação! Estávamos todos sendo arrastados para dentro dela.

Quando eu estava muito grávida e chegou a hora de deixar o SF para estar com o noivo, meu coração se partiu. Eu chorei no avião. Não tinha mais a menor ideia do que queria. Mas iria ter um bebê dali a poucas semanas. Minha vida estava prestes a mudar completamente, e eu estava limitada pelos fatos: tinha ganhado vinte e um quilos, mal conseguia andar, e ia ter um ser humano de verdade para tomar conta.

A minha bebê já não é mais uma bebê. Ela tem dezessete meses. Mais ou menos na época em que minha filha estava aprendendo a andar, a supermodelo Heidi Klum ficou noiva do Seal, depois que ela o conheceu e namorou com ele enquanto estava grávida do filho de outro homem. Parece que ninguém se importou com isso. Da mesma forma, no filme A vida marinha com Steve Zissou, a personagem da jornalista muito grávida termina na cama com outro homem que não é o pai do bebê dela. E mesmo assim todos nós desejamos que ela seja feliz, e ficamos felizes por ela estar com outro homem.

Mas não tenho certeza se alguém se sente feliz por mim e pelo SF. Já se passaram bem mais de dois anos desde aquele jantar fatídico e um ano e meio desde que eu me mudei, e nós dois ainda mantemos contato. Eu viajo com frequência para a minha cidade no leste e então nos vemos. Nos esforçamos para descobrir o que somos, se é que somos alguma coisa. Conversamos, brigamos, não conversamos. Ele sente falta de mim. Eu sinto falta dele. Ele me odeia. Eu o odeio. E isso continua indefinidamente.

O noivo e eu também estamos tendo que nos esforçar. Não nos casamos. Não recuperamos essa clareza. Perguntamos a nós mesmos: “Somos felizes juntos?”, “Estamos destinados a ficar juntos?”. Esses são os nossos questionamentos, e talvez continuem sendo para sempre. Talvez sejam os questionamentos de todo mundo.

E, finalmente, é claro, há os “se ao menos”. Se ao menos eu tivesse me mudado para o oeste, para ficar com o meu noivo, desde o início. Se ao menos eu não tivesse ido naquele jantar. Se ao menos o SF e não tivéssemos nos conhecido em um momento tão inoportuno. Se ao menos pudéssemos agendar nos apaixonarmos como agendamos uma cesariana.

Rebecca Eckler mora em Toronto com os dois filhos. Seu livro mais recente é Blissfully Blended Bullshit. Ela é editora-executiva do SavvyMom. Este relato foi publicado em março de 2005.