O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 8 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 7

 

Bem alto, acima do Pântano Labirinto coberto pela neblina, os lammergeiers voavam, carregando Haramis e Uzun na direção das ruínas de Noth.

Quando seu coração se acalmou e os sentidos disseram que tudo aquilo era real e não um sonho fantástico, Haramis examinou a situação. Estava ilesa e, graças às poderosas criaturas, salva de uma morte quase certa. Seria mágica da Arquimaga? A Dama Branca teria ainda algum poder, embora sem força para lutar contra Orogastus e impedir a invasão de Ruwenda?

As asas enormes e fortes dos lammergeiers batiam em ritmo cadenciado, com um som surdo, cortando o ar. Suas costas brancas eram largas e macias como um colchão de penas. Haramis, comodamente sentada na reentrância atrás do pescoço listrado, quase não precisava se segurar. Depois de voar durante meia hora, o lammergeier virou para trás a cabeça encimada por uma crista e examinou sua estranha carga, mas os olhos eram mansos e o bico denteado não parecia ameaçador.

Sem saber se seria compreendida, Haramis disse:

— Meus agradecimentos por salvarem a mim e a meu companheiro.

A criatura teria feito um leve sinal afirmativo? Talvez não. Não virou mais a cabeça e continuou o voo seguro e ritmado. Haramis acenou para Uzun, mas não podiam conversar Porque os dois lammergeiers voavam bem longe um do outro.

O mundo lá embaixo era uma planície de nuvens cinzentas e no claro céu noturno as constelações cintilavam. O Arco Retesado, a Chaleira, a Árvore-Ladu, O Grande Verme, A Coroa do Norte.

Coroa...

O manto manchado com o sangue da sua mãe que envolvia a coroa pendia ainda do seu ombro. Haramis abriu as pontas e olhou para a Coroa da Rainha com o âmbar que continha o trílio, até a dor nublar seus olhos. Pelo menos Voltrik não tem isto, pensou sombriamente, nem terá enquanto eu viver! Ele matou meus pais, mas eu vivo ainda, e Ruwenda é minha!

Conteve as lágrimas. Agora eu sou a Rainha de Ruwenda e é meu dever proteger o país e seu povo, e me casar e ter filhos para que minha tarefa seja continuada quando eu desaparecer. Quase não podia respirar, com a garganta apertada, mas estava decidida. E também com medo. Eu sempre tive certeza de que seria rainha um dia — mas nunca imaginei que seria tão cedo. nem nestas circunstâncias! Espero que a Dama Branca possa me ajudar. Sem dúvida vou precisar de muita ajuda.

Haveria realmente mágica nas estranhas flores fossilizadas da coroa e do seu amuleto, ou só por um acaso da sorte os lammergeiers da Arquimaga apareceram no momento exato?

Vou experimentar, pensou ela. Segurou o amuleto no cordão, fechou os olhos e disse:

— Transporte-me imediatamente para a casa da Arquimaga!

Nada aconteceu e o lammergeier continuou seu voo sereno. Tentou um pedido simples.

— Traga-me um doce delicioso, porque estou morrendo de fome.

Nada outra vez, e seu estômago se contraiu dolorosamente.

Aí está a mágica. Ora, muito bem. Que importa?

Uma profunda depressão a dominou. Não tinha um reino para governar, nem um esposo real para sentar ao seu lado. Haramis tentou se alegrar, procurando uma compensação para tudo aquilo. Sempre detestara a a pompa e a cerimónia da vida na corte, as intermináveis audiências a ministros que seu pai suportava pacientemente, os banquetes tediosos e as diversões supervisionadas por sua mãe, sempre rodeada por suas damas tagarelas. Mas a Rainha Kalanthe tinha outros interesses também: escrevia poesias e interessava-se pela sorte dos menos afortunados de Ruwenda, procurando melhorar suas vidas sem tolher-lhes a iniciativa. Haramis sempre temeu o papel de rainha. Obedientemente o aceitava como uma obrigação. Mas agora essa obrigação fora alterada, pelo menos em parte..

Aconchegou-se mais entre as penas macias, com o vento cantando acima da sua cabeça, e esperou que o sono a libertasse. Amarrou no cinto cravejado de pedras preciosas o manto com a coroa. A Arquimaga saberia o que fazer com ela.

E o que fazer com Haramis.

Afinal, quem era essa mulher na verdade? Haramis não duvidava mais de que ela era real e não uma lenda. Os fatos fabulosos do seu nascimento deviam então ser aceitos como reais, bem como o sinistro discurso da Arquimaga. Se a Dama Branca estava realmente à morte, como podia dar conselhos? E por que havia dito, há tanto tempo, que tudo terminaria bem?

Os pensamentos giravam em sua mente e Haramis imaginou mais de vinte meios para salvar Ruwenda — vendo a si mesma cavalgando triunfante na frente do exército ruwendiano, depois de ter levado seu povo à vitória. Mas era tudo fantasia. Tinha dezessete anos, era inteligente e culta, sem dúvida, mas não era uma guerreira líder de exércitos. Se essa Arquimaga a escolhera para instrumento do destino, devia estar mesmo senil...

Preciso ficar de sobreaviso, pensou Haramis. Quem sabe que planos mirabolantes essa velha mulher traçou para mim? Mas serei cuidadosa e formarei minha opinião. Sou rainha agora e a responsabilidade é minha, não importa quem me dê conselhos. Não devo me submeter docilmente à vontade de ninguém.

Com trílio ou sem trílio.

Quando Haramis acordou o dia estava nascendo e os dois lammergeiers voavam ainda. Os Montes Ohogan destacavam-se agora à frente, escondendo a metade do céu com suas ameaçadoras presas de granito e basalto completamente cobertas de neve logo acima da copa das árvores, A luz rosada do sol nascente emprestava uma falsa suavidade às geleiras. O coração de Haramis se apertou. E se a Arquimaga dissesse que seu destino estava ali, nas montanhas?

A neblina fria chamuscava a relva lá embaixo à medida que o sol ficava mais quente, e a selva transformava-se num vasto mar ondulante, amarelado, diferente de tudo que ela conhecia do Pântano Labirinto. Raros retalhos de terra seca quebravam a monotonia da planície alagada. Nessas elevações cresciam árvores, arbustos e outros tipos de vegetação, e, imaginou ela, ali deviam estar as casas dos uisgus, os pequeninos parentes dos nyssomus que habitavam a extremidade norte do Pântano.

Havia nativos nas montanhas também, ela sabia. Chamavam-se vispis, mas os humanos não tinham contato com eles. Os homens que haviam explorado a região contavam que, mais para o leste, onde a cordilheira era cortada pelo Passo Vispi, nas noites de lua os vispis apareciam e dançavam na neve recémcaída. Havia também histórias de horror sobre os oddlings das montanhas. Eram chamados de demónios da névoa congelada e seus olhos espreitavam nos redemoinhos de vento frio e, diziam, quem olhasse para eles morria. Mas ninguém duvidava que os vispis eram reais e não seres sobrenaturais, pois eles vendiam pedras e metais preciosos para os uisgus. Estes então levavam seus artigos até os humanos, por intermédio dos nyssomus, e os vispis exigiam em troca animais como froniais e volumniais, tecidos e alguns outros itens. Mas nenhum humano jamais soube dizer como eram os vispis — com exceção talvez dos infelizes soldados dos antigos exércitos de Labornok que, há muito, muito tempo, haviam ousado atravessar o Passo Vispi (se é que se podia dar crédito às histórias antigas) e morreram nas mãos dos vassalos da Guardiã Dama Branca.

À medida que o dia avançava a luz do sol refletia-se nos espelhos formados pelas lagoas e pequenos rios do Pântano Dourado. Haramis observava os rios sinuosos, provavelmente vias de transporte dos uisgus. Então, depois de várias horas seguindo o curso de um rio um pouco mais largo, na direção norte, o terreno ficou mais alto e o Pântano Dourado terminou nos sopés das colinas onde se erguiam, esparsas, árvores estranhas, entre lodaçais floridos das terras altas. Os lammergeiers começaram a voar em círculos, descendo lentamente.

Haramis viu ruínas na margem do rio, cobertas de mato, com árvores equilibradas sobre muros desmoronados como que espiando acima de cúpulas quebradas. Ao contrário de sua irmã Kadiya, Haramis não tinha vontade de explorar aquelas ruínas. Interessava-se somente pelos objetos encontrados nelas. Como os que havia possuído — uma caixinha sem adornos, que conforme o lado em que fosse colocada tocava uma música diferente, estranha e etérea-um instrumento para escrever, cuja tinta parecia nunca se acabar, e um bracelete feito de uma substância dura, que não era osso, nem madeira, nem nenhum dos minerais conhecidos pelos estudiosos de Ruwenda. Sem dúvida os Desaparecidos tinham alguns poderes mas seus segredos estavam há muito tempo perdidos. Mas se a Arquimaga conhecia de verdade os poderes dos antigos, então Haramis talvez tivesse uma chance remota de realizar a profecia do seu nascimento.

Instintivamente segurou o amuleto e pediu: ”Deus amado e Senhores do Ar, não permitam que eu me deixe enganar! Acima de tudo, não permitam que eu seja levada ao fracasso por um comportamento impensado. Eu não o suportaria!”

Agora flutuavam suavemente, aproximando-se de uma pequena estrutura de pedra em forma de torre, quase escondida pela folhagem muito verde e espessa. As criaturas aladas tocaram o solo numa espécie de gramado natural, repleto de flores silvestres, que se estendia até a ponte levadiça aberta. No fosso cresciam flores aquáticas e o ar era docemente perfumado.

Haramis deslizou das costas do lammergeier e curvou-se profundamente para ele.

Meus calorosos agradecimentos a você, senhor dos ceus, por me trazer, e ao meu bom servo, a este porto seguro. Quando ergueu a cabeça, os dois pássaros já tinham alçado voo. Antes de desaparecerem atrás das árvores, soltaram gritos altos e breves como um clarim.

Uzun, de pé ao lado dela, era uma figurinha cômica. Perdera o gorro, o cabelo longo e sedoso estava emaranhado pelo vento e a roupa de veludo marrom-avermelhado, antes elegante, estava suja e amarrotada. Mas o largo sorriso era o mesmo, indómito.

— Aqui estamos — pipilou ele. — Vamos entrar, pois os lammergeiers anunciaram nossa chegada.

Atravessaram lentamente a relva florida até a ponte. A casa estava coberta de musgo, trepadeiras e frondes rendadas, as arestas das pedras foram suavizadas pelas flores que brotavam das juntas. Plantas cresciam também entre as tábuas da ponte. A princesa atravessou com cuidado, temendo pisar em alguma tábua apodrecida, mas a ponte parecia bastante sólida. Nenhum empregado apareceu para recebê-los, a casa coberta de vegetação parecia desabitada. Mas Uzun adiantou-se confiante e Haramis o seguiu, olhando maravilhada para as colunas estranhamente esculpidas, os painéis nas paredes e o chão de mosaico quase escondido pelo musgo, líquen e mato baixo. Passaram por uma fonte que jorrava água, sob arcos de onde pendiam trepadeiras e por jardins gloriosos, repletos de flores das mais variadas tonalidades.

Pararam afinal na frente de uma porta de madeira negra polida, sem musgo ou vegetação, com dobradiças e uma aldraba redonda que parecia feita de ouro maciço. Tinha no centro um entalhe da mesma madeira, circundado por uma tira brilhante de platina, representando o Trílio Negro.

— Esta é a câmara da Arquimaga Binah — disse Uzun. — Só você pode entrar. — Com uma curvatura para Haramis, ele recuou para o lado.

A princesa hesitou.

— Mas, você deve vir comigo!

— Não, princesa, esperarei aqui. Haramis empertigou-se.

— Muito bem. — Procurando evitar que sua mão tremesse, ela puxou a aldraba de ouro. A porta abriu-se facilmente e Haramis entrou.

A câmara, sem janelas, era pouco iluminada e quente. Na luz fraca, Haramis divisou alguns móveis — armários, prensas, estantes com livros, aparelhos estranhos sobre as mesas, banquetas e sofás e uma cama enorme com cortinas escuras. O fogo brando de turfa crepitava na lareira, e na frente dela havia uma bela mesa, arrumada para uma pessoa, com um prato de cristal, uma colher e uma faca de ouro. Por debaixo das tampas das travessas de ouro erguia-se uma fumaça e um cheiro delicioso. Ao lado do prato havia uma jarra com vinho, e uma bela lâmpada com cúpula de vidro opalescente iluminava a cena. Uma das cadeiras estava perto do fogo, a outra no lado oposto, tendo na frente, sobre a mesa, uma caixinha de platina, amassada e embotada pelo uso.

— Seja bem-vinda, minha filha — disse uma voz suave, mas cheia de força. — Eu estava à sua espera.

Espantada, Haramis olhou em volta e percebeu movimento na grande cama.

— Minha senhora? — disse ela, com uma mesura instintiva.

— Venha me ajudar, para que eu possa me sentar ao seu lado enquanto faz sua refeição. Intrigada, Haramis perguntou:

— É a Arquimaga Binah?

— Sim, eu sou. Não tenha medo. Há muito tempo espero a sua chegada e a de suas irmãs, e sou grata por você ter chegado sã e salva.

Haramis ficou imóvel.

— Kadiya e Anigel. estão vivas?

— Sim, estão. Não se preocupe com elas agora, pois devem seguir seus caminhos e você o seu. Venha, ajude-me a me vestir.

Um medo terrível a assaltou e Haramis não se moveu. Sabia que, quisesse ou não, ia se lançar numa aventura terrível.

A mulher com belos cabelos longos e brancos sentou vagarosamente na cama e fez sinal à jovem para se aproximar. No rosto liso, sem rugas, só os olhos, tão fundos que mal se podia ver a cor, traíam a idade avançada. Haramis sentiu-se atraída pela força irresistível do olhar da Arquimaga. Com uma sensação de terror, pôs no chão o manto com a coroa e aproximou-se da cama. Mas então, de repente, estava livre e o pânico desapareceu. Via agora apenas uma pobre velha doente que precisava da sua ajuda.

Ajudou a Arquimaga a vestir a túnica longa e branca, com reflexos azulados nas pregas, e calçou os chinelos de pele nos pés longos e bem-feitos. A mulher ficou de pé e Haramis viu que ela era muito alta. Com o corpo ereto, a Arquimaga caminhou até a mesa e sentou-se.

— Por favor, sente-se, minha filha, e coma. Deve estar faminta depois de toda a provação na Cidadela e da longa viagem.

— Meu companheiro, o músico Uzun... — Haramis começou a dizer.

— Ele está sendo atendido por meu mordomo Damatole e terá todo o descanso e alimento que necessita.

— Eu agradeço — disse Haramis —, pois devo a vida a ele e não quero que sofra por causa de sua devoção.

Então Haramis fez as honras do jantar com o apetite jovem e saudável, pois não comia desde a manhã do dia anterior. Serviu-se de ave grelhada, sopa cremosa temperada com ervas, tubérculos dorun recobertos com queijo de algas e salada de agrião amargo. A sobremesa era uma torta recheada com uma fruta que ela não conhecia, com gosto picante, que Haramis comeu até a última migalha.

Então, com um suspiro, recostou na cadeira e tomou um gole do vinho delicioso. A Arquimaga sorriu e Haramis, um pouco embaraçada, disse:

— Nem me lembrei de lavar as mãos e devorei seu jantar delicioso como um servo mal-educado. Por essa falta de boas maneiras peço desculpas, Senhora Binah. Para compensar, posso tirar a mesa e lavar os pratos, mas confesso que não conheço bem esse serviço de copa.

— Felizmente, aqui em Noth — disse a Arquimaga — não precisamos nos preocupar com essas trivialidades. — Fez um gesto e tudo desapareceu da mesa, menos a jarra de vinho, o copo de Haramis e a misteriosa caixa de platina.

— Então, é mesmo uma feiticeira — murmurou a jovem.

— Esses truques não exigem muita arte — admitiu Binah. — Mas os grandes encantamentos estão agora fora do alcance dos meus poderes enfraquecidos.

— Uma vez que seus lammergeiers nos trouxeram até aqui, suponho que sabe o que aconteceu.

— As grandes criaturas aladas não me pertencem — corrigiu a maga. — São livres, pertencem só a elas mesmas. verdade que ordenei que os trouxessem, pois elas obedecem a alguns dos seus amigos. Quanto à sua pergunta — sim, sei o que aconteceu. Vi tudo e chorei por não poder impedir.

Haramis disse, com o rosto inexpressivo:

— Então, sua força mágica não é suficiente para libertar Ruwenda do assassino Voltrik e do bruxo Orogastus?

— Mesmo assim, eu a aconselho a não subestimar Orogastus, minha filha. Ele não é um trapaceiro comum, como os mágicos que você conhece. Orogastus tem um poder imenso, e não só comanda a tempestade como também possui a chave de muitos outros encantamentos terríveis. Procura o poder em toda parte e faz uso dele para conseguir o que deseja. Atualmente sua arte transcende a minha em tudo, exceto no que se refere à visão a distância, para a qual ele precisa do espelho de gelo escondido nas profundezas da sua casa nas montanhas.

— Então, não pode me ajudar a vencer os inimigos de Ruwenda?

— Eu não disse isso. Porém, a restauração de Ruwenda é uma tarefa que requer a cooperação das três Pétalas do Trílio.

— Quer dizer minhas irmãs? — perguntou Haramis, incrédula e horrorizada. — Não creio que possamos depender delas para qualquer ajuda construtiva. Eu evitei que Kadiya atacasse os assassinos da nossa mãe com sua adaga! E Anigel só sabe se encolher num canto e chorar.

— Contudo, minha visão afirma que as três devem cumprir certas tarefas predeterminadas, aprendendo acima de tudo a se dominar completamente, antes que Ruwenda possa se libertar do jugo de Labornok. E se uma de vocês falhar, todas falharão.

— Mas isso não é justo! — protestou Haramis.

— Não — disse a Arquimaga, com voz suave. — É apenas como é.

Perturbada, Haramis levou a mão ao amuleto do trílio.

— Pensei que os talismãs que nos deu possuíssem forças mágicas. Mas quando experimentei, o meu falhou.

— Só podem ajudá-las nos momentos de perigo mortal, e seus poderes são limitados,

— Foi o que descobri — Haramis suspirou. — Bem, minha primeira súplica foi atendida, e a segunda e a terceira não eram tão urgentes quanto pensei. Este amuleto terá papel importante nas tarefas que devo cumprir?

— Isso eu não sei. Você terá de descobrir seus segredos, assim como os segredos do seu próprio íntimo e superar as falhas e fraquezas que podem desviá-la do seu destino. Mas uma coisa eu sei. Quando terminar seu trabalho preliminar, você receberá um sinal. Um novo talismã, o Círculo das Três Asas, chegará às suas mãos. Então, vai saber que chegou a hora da luta final por Ruwenda e por sua alma.

— E as minhas irmãs?

— Terão suas tarefas. Se forem bem-sucedidas, receberão também seus talismãs. As Três Pétalas do Trílio entrarão em contato e se unirão. O resultado será a restauração do equilíbrio do mundo, agora perdido.

Haramis recostou pesadamente na cadeira.

— Essa tarefa. Devo começar imediatamente? Estou tão cansada. Além disso, com todo o respeito, acho difícil acreditar no que diz. Eu nem acreditava na sua existência...

— O que você acredita, neste momento, não importa, porque está exausta de dor e de medo. Deve rezar para ter coragem e força e, acima de tudo, deve aprender a confiar em si mesma e no poder Triúne que nos ama e nos guia.

Haramis riu brevemente, com ironia.

— O que eu preciso agora é de uma ajuda mais concreta.

— Os nativos a ajudarão em tudo que for possível— os povos do pântano, das florestas e das montanhas. Como os habitantes humanos de Ruwenda, eles adoram e respeitam o Trílio Negro.

— E devo levar Uzun comigo? Ele está velho...

— Uzun a acompanhará numa parte da longa jornada que vai empreender. É destino dele ajudá-la a realizar o seu. Porém, os maiores desafios terá de enfrentar sozinha.

Haramis olhou pensativamente para as chamas na lareira, segurando de leve o amuleto.

— Pode me dizer a natureza dessa procura da perfeição da alma?

— Não. Mas você vai saber. Haramis exclamou:

— Não pode fazer nada para me ajudar, além deste jantar, conselhos e de me desejar boa sorte?

— Sim, eu posso.

A Arquimaga abriu a caixa de platina e pôs as duas mãos dentro dela. Ficou de pé e, como por milagre, tirou uma grande planta verde que de modo nenhum podia caber na caixa que estava sobre a mesa. Era um trílio quase da altura de Haramis, com as raízes expostas, folhas espessas e brilhantes, favas com sementes e miríades de flores negras como a noite, do tamanho de uma mão humana. A Arquimaga pôs a planta sobre a mesa.

Haramis exclamou, atónita:

— Que beleza! E está viva, não é um fóssil dentro de um pedaço de âmbar!

— É o último Trílio Negro vivo do mundo conhecido.

— E, por meio dele, nós três venceremos o Rei Voltrik e Orogastus! Sei que é verdade, Binah. Eu sei! — Haramis levantou-se, sem nenhum vestígio de cansaço, alimentada pela visão da planta maravilhosa cujas flores tinham a cor dos seus cabelos.

A maga apanhou algo sob uma das folhas grandes e colocou na mão de Haramis, fechando os dedos da jovem sobre o objeto. Então, ergueu a planta, colocou-a miraculosamente de novo na caixinha de platina e fechou a tampa.

Haramis piscou os olhos como se tivesse apagado uma luz brilhante, e com ela a certeza que sentira há pouco.

— Mas. isso é tudo?

A Arquimaga segurou-a pelo braço e a levou até a porta.

— O que eu lhe dei vai mostrar o caminho. Guardarei a coroa de Ruwenda para você. Jamais será tocada por mãos inimigas. Porém, lembre-se, Orogastus é o seu verdadeiro inimigo e não o Rei Voltrik. Mas ele vive pelas leis da magia, segundo as quais, para cada força deve existir uma fraqueza u vulnerabilidade correspondente. Se puder descobrir a fraqueza de Orogastus e vencer as suas, você triunfará. Não posso dizer nada mais. Agora, deve ir. Volte para mim quando receber o Círculo das Três Asas.

— Mas o que é o Círculo das Três Asas? — perguntou Haramis, ansiosa.

— Vai saber encontrá-lo — garantiu Binah. — Adeus. De repente, Haramis estava outra vez no relvado cheio de flores, olhando para a torre coberta de musgo, com Uzun ao seu lado, agora vestindo roupas secas e limpas. A princesa notou que suas roupas sujas e rasgadas tinham também desaparecido e ela usava agora um vestido de lã branca adornado com pele de fedok albino e, dependurado sobre o corpete, o amuleto com o cordão de ouro. Um manto forrado de pele pendia dos seus ombros. Estava calçada com botas fortes, de couro. No chão estavam duas mochilas e dois bordões com pontas de ferro para caminhada.

— Estou pronto, princesa — disse Uzun. Voltou-se para ela com um largo sorriso no rosto rosado como cerejas maduras. — A Dama Branca até me deu uma flauta fiple novinha, para que eu possa alegrar a nossa jornada com música!

— Mas que caminho devemos seguir? — Haramis fechou os punhos irritada. Lembrou então que a Arquimaga havia posto alguma coisa em sua mão. Abriu os dedos e viu na palma uma fava do Trílio Negro, seca e brilhante. Instintivamente ela a abriu, revelando as fileiras de sementes aladas. Ainda sem pensar, Haramis apanhou uma delas e a atirou para cima. Para sua surpresa a semente, em vez de ser levada pelo vento, flutuou para o norte, na direção das montanhas.

O caminho parecia um trecho de terras altas no meio do pântano, sem nenhuma passagem marcada. Porém, observando a semente com atenção, Haramis percebeu uma trilha aparentemente pouco usada, como a que faz um animal abrindo caminho entre as moitas e o mato.

— Muito bem — disse ela. — Acho que este guia é tão bom quanto qualquer outro. Vamos partir?

Sem perder de vista o pontinho branco flutuante, Haramis pôs a mochila no ombro e entrou no pântano com Uzun logo atrás.