O Trílio Negro
Capítulo 26
Jagun nem tentou acender o fogo. Ficou parado com as mãos caídas ao lado do corpo. Era como se tivesse chegado ao fim de uma trilha para encontrar apenas uma parede intransponível. Kadiya olhou para ele, preocupada. Nunca o vira assim. A princesa ia perguntar o que tinha acontecido quando ele se voltou rapidamente e, usando suas garras, lutou para subir até onde ela estava, no topo da abertura em forma de bacia. Deu alguns passos vagarosos pela borda larga, sem olhar onde pisava, mas com a cabeça erguida, olhando de um lado para o outro, o corpo tenso procurando ansiosamente ouvir, ver, saber. Quando ele completou a volta e aproximou-se dela, a princesa disse:
— O que é, Jagun?
Por um momento ela pensou que o oddling não ia responder. Então, ele a olhou de frente.
— Olhos Penetrantes, para todos nós existem coisas secretas. Esta é uma terra estranha, tanto para mim, quanto para você. Mas acho que encontramos agora algo mais estranho.
— Algo que devemos temer? — perguntou Kadiya.
— Eu não sei.
Jagun tirou a comida da mochila — alguns biscoitos secos e dois peixinhos defumados, tão duros que se quebraram quando ele os tocou. Embora intrigada com o fato de Jagun não ter acendido o fogo, Kadiya achou mais prudente não perguntar. As noites eram sempre úmidas naquela região alagada, mas nessa noite ela não estava com frio. Era como se a grande estrutura côncava conservasse um pouco do calor do sol.
A fadiga dos trabalhos daquele dia pesou finalmente sobre ela. E embora a lembrança das larvas e das plantas venenosas passasse por sua mente cansada, Kadiya não tinha ânimo para sugerir que se revezassem na guarda durante a noite. A sensação de segurança, quando subiu na borda da grande estrutura, envolvia-a como um manto quente, prometendo um sono tranqüilo.
Estaria dormindo ou acordada? Kadiya não tinha certeza. Ficou deitada, quieta, na noite escura, com filetes de névoa espiralando no alto da grande estrutura.
A raiz-guia estava ao lado da sua cabeça, enfiada na terra, com a ponta negra para cima, sem nenhuma chama brilhante agora. Mas não estavam completamente no escuro. Com os cantos dos olhos, Kadiya via um brilho trêmulo. Quando se voltava rapidamente, ele desaparecia, ou fugia, escondendo-se, para continuar como uma mera sugestão.
Depois de algum tempo, as chamas brilhantes ficaram imóveis. Tinham a altura de Jagun, colunas finas onde giravam cores diversas, tão claras que não se podia distinguir uma da outra.
A princípio ficaram paradas, sem nenhuma ordem aparente, depois tremularam com mais força e ergueram-se no ar. Kadiya não tinha certeza, mas era como se estivessem tecendo desenhos complexos dos quais ela e Jagun eram o centro. Não sentiu medo. Finalmente, as colunas de luz desapareceram, deixando apenas uma névoa que subiu dando voltas pelo lado oposto da grande estrutura côncava.
A névoa adquiriu mais brilho e dentro dela apareceu uma bela cidade — a cidade do seu sonho, antes de chegar a Noth! Era como se Kadiya a conhecesse e tivesse encontrado lá toda a felicidade e todo o contentamento que podia desejar. Tudo que queria agora era achá-la.
Uma música distante, diferente de todas as que o bardo de Ruwenda tocava na harpa, fez nascer em Kadiya um novo desejo. Então, a visão desapareceu.
Kadiya sentou-se, sentindo frio, e levou a mão ao amuleto. A sensação de estar protegida e confortada desapareceu. Visualizou claramente a região terrível que tinha atravessado.. e percebeu então que o dia estava nascendo.
Notou movimento ao seu lado. Jagun, pronto para seguir viagem, acenou para ela, ainda com aquela expressão sombria e estranha nos olhos. Kadiya levantou-se, apanhou a raiz, ajeitou a mochila nos ombros, pronta para continuar a jornada. Os dois viajantes olharam para baixo e para longe da grande colina que abrigava a estrutura côncava. A névoa do pântano dançava no ar e não viam nem sinal do sol para dissipá-la. A raiz do trílio reviveu na mão de Kadiya, deslizou entre seus dedos e começou a descer a colina, no lado oposto ao que tinham subido na véspera.
— Vamos — disse Jagun com voz inexpressiva. Não disse nada sobre comerem alguma coisa — apontou para os altos arbustos espinhosos e para os horrores bulbosos que cresciam entre eles. Seguiram, diminuindo o passo e ziguezagueando para evitar as bolas venenosas.
Chegaram a uma clareira atapetada com uma espuma amarela e fofa. Não havia árvores, apenas uma série de colunas, como pequenas torres de barro, e adiante um campo que parecia plano e limpo. Jagun avisou que aquilo era areia movediça. Um passo em falso e seriam tragados para sempre.
Jagun tirou um embrulho da sua bolsa de caça, abriu-o, revelando quatro objetos ovais em forma de pratos. Libertos do material que os envolvia, os objetos abriram-se, tornaram-se mais espessos como que absorvendo a umidade do ar, transformando-se em folhas em forma de barco com as bordas viradas para cima. Os caçadores os chamavam de deslizadores.
Kadiya já havia usado os deslizadores antes, sempre com muita cautela e só quando estava com Jagun. Sentada numa das colunas de terra, ela atou os tirantes dos deslizadores nos tornozelos. Bateu com os pés no chão para verificar se estavam firmes e saiu atrás de Jagun, seguindo as pegadas do caçador experiente. A raiz-guia já estava na frente deles, deslizando no solo traiçoeiro. A areia e a lama cediam de leve ao peso dos viajantes, que seguiam agora rapidamente, ladeados pelas colunas de terra, mais altas do que os dois.
A névoa era tão espessa agora que mal se via a entrada do Inferno de Espinhos que acabavam de deixar. Às vezes até as colunas desapareciam na neblina. Aos poucos, o solo ia ficando mais firme sob seus pés. De repente, um véu enorme de névoa parou no ar, como se tivesse enganchado em alguma coisa, libertou-se e voou para longe.
Apareceu então a última coluna. Só que não era uma coluna. Grandes pedaços de barro seco haviam se desprendido da coluna, revelando uma figura estranha, mas de modo algum monstruosa.
Não era a estátua de um oddling. As proporções eram humanas, a imagem de um homem. Exceto pelo elmo coroado e enfeitado e três cinturões, a estátua estava completamente despida. Os cinturões cruzavam-se no peito, terminando num cinto largo preso com uma fivela. A cor do corpo era brancomarfim e brilhava como se tivesse sido recentemente polido. Os cinturões e o cinto eram recobertos por pequenos flocos ou escamas verdes, douradas e azuis, cuja tonalidade ia do mais claro ao mais escuro.
A atenção dos dois concentrou-se no que a estátua tinha na mão estendida.
Nos últimos dias Kadiya havia testemunhado muita selvageria. Mas a cabeça decepada, na mão da estátua, contrastava tão brutalmente com a sensação transmitida por aquela figura que a princesa ficou chocada. Não era a cabeça de um skritek, nem de um oddling. Embora fosse completamente calva e grande demais, podia ser a cabeça de um ser humano da sua espécie!
A jovem recuou para ver melhor o rosto da estátua, esperando uma expressão feroz como a dos labornoks quando perpetravam aqueles horrores na Cidadela.
Porém, o rosto sob o elmo era calmo, cheio de força e serenidade. Podia ter sido feita para servir de advertência, ou para comemorar uma vitória, contudo, quanto mais Kadiya examinava aqueles olhos — fixos à sua direita, porque a cabeça estava levemente inclinada —, mais se convencia de que significava uma espécie de justiça, destinada a permanecer para sempre como um aviso.
Os olhos não eram apenas cinzelados e brancos. Cada pupila era uma pedra negra em cujo interior, como no coração da flor do Trílio Negro, cintilava um leve brilho dourado.
— O sindona! — Jagun afastou-se rapidamente da estátua. — Este é o Caminho Proibido! — Sua expressão era de temor respeitoso.
Sem tirar os olhos da estátua, Kadiya perguntou:
— Quem?
Sem responder, Jagun abaixou-se e apanhou um pedaço de lama seca que tinha sido arrancado da estátua.
— Isto não foi feito há muito tempo. Mas — não foram os skriteks. Eles não teriam coragem de encostar as garras nesta estátua. Quem então?
— Por favor, o que representa esta estátua? — perguntou Kadiya erguendo a voz.
Jagun piscou os olhos rapidamente.
— Sentinelas dos Desaparecidos — aqueles que comandavam a terra e a água... — Não terminou a frase e segurou o braço de Kadiya.
— Veja!
A raiz do trílio estava parada sobre um pedaço de lama seca, com a pequena chama brilhante apontando, não para onde eles estavam indo, mas para onde a estátua olhava. Jagun enfiou o cabo da sua lança na lama amarela. A madeira penetrou até a profundidade de um dedo e encontrou resistência, embora a superfície fosse igual à da areia movediça que acabavam de atravessar. Kadiya observou o caçador dar alguns passos, enfiando o cabo da lança na frente dos pés. A raiz ia de um lado para o outro, como ansiosa para seguir Jagun, mas sem querer deixar Kadiya para trás.
Magia — tudo magia! A antiga impaciência acendeu-se dentro dela. Porém, até então, a raiz-guia não os tinha enganado. Com relutância, a princesa seguiu o caçador pelo novo caminho. As folhas do deslizador afundavam-se levemente sob seu peso, depois encontraram solo firme e a raiz partiu velozmente, como um cão de caça livre da correia.
Finalmente começaram a aparecer entre a terra amarela pedaços de chão que parecia calçado. Atravessaram a última faixa de névoa e chegaram a um lugar coberto de relva áspera como a dos campos do nordeste. Havia também outros tipos de vegetação aqui e ali, e Kadiya foi arranhada por espinhos quando estendeu a mão para apanhar a raiz-guia.
As costas e as pernas da princesa estavam doloridas por causa da tensão com que tinha atravessado a areia movediça. Kadiya tropeçou duas vezes e caiu de joelhos. Jagun aproximou-se dela imediatamente com o cantil de água na mão. Ela bebeu, agradecida, e deitou-se para descansar entre os tufos de relva. Em menos de um minuto adormeceu.
Acordou com a luz nos olhos e olhou para o céu assustada. Sonhou que estava no seu quarto na torre das mulheres, na Cidadela. Mas não via o teto entalhado. A princesa sentou-se, gemendo de dor nas costas.
A clareira de relva era circundada por árvores com troncos lisos de um verde bronzeado e as folhas azuladas com bordas verdes farfalhavam ao toque da brisa. Estava sozinha, mas viu a bagagem de Jagun não muito longe. Um pássaro blabat tentava apanhar uma amora no galho da árvore e não deu atenção a Kadiya quando ela se levantou e se espreguiçou para aliviar os músculos. A raiz do trílio estava enfiada no solo, onde ela a havia deixado, tremulando levemente.
— Na... na... na...
A princesa reconheceu o som imediatamente. Os nyssomus jamais falavam alto nem tagarelavam, mas tinham suas expressões de contentamento. Jagun saiu de trás de uma moita carregando o que parecia uma trepadeira da qual pendiam frutos ovais vermelhos, completamente maduros.
Kadiya quase engoliu inteiro o primeiro fruto, e começou a comer o segundo antes de perguntar:
— Onde estamos?
Jagun descascava cuidadosamente um pedaço de cana doce. Deu de ombros, indicando que não sabia. Kadiya estava tão acostumada a confiar no conhecimento que ele tinha do Pântano Labirinto que olhou para o caçador incrédula. Jagun mastigou a cana e cuspiu o bagaço.
— Estamos além de todos os caminhos que eu conheço, Olhos Penetrantes. Só sei que sob este solo há pedra. — Bateu na relva com o pedaço de cana. — E aquilo — com um gesto da cabeça, indicou a raiz-guia — nos trouxe até aqui.
— Mais ruínas.
Deixando a cana de lado, Jagun cavou a terra com a ponta da faca. A superfície que apareceu era realmente pedra escura.
— Uma estrada, é isso — apontou uma abertura entre as árvores.
— Uma estrada feita pelos sindonas? „ Jagun desviou os olhos, olhando para o buraco que havia feito no chão, como se descobrir aquela superfície fosse um grande erro.
Então falou, hesitante, com grandes pausas entre as palavras, como se relutasse em dar a informação.
— Os Desaparecidos — e com eles, suas sentinelas, os sindonas — no passado governavam as águas e as ilhas. Fomos feitos por eles, criados por suas mentes e suas mãos. Os Poderes das Trevas rebelaram-se e a morte assolou a terra. Porém, antes de sua partida, os antigos nos chamaram e disseram que estávamos livres. Pediram apenas alguns juramentos.
Jagun olhou para a faca que tinha na mão, girando-a devagar.
— Os sindonas ficaram para tomar conta do que foi deixado pelos Desaparecidos. Certos objetos — e certos conhecimentos — eles não puderam levar, nem conseguiram destruir. Esta estrada — com um gesto indicou as sentinelas cobertas de lama seca — leva a um dos lugares proibidos.
Recolocou o pedaço de terra no buraco que havia feito.
— Filha do rei, seu pai tinha Companheiros Fiéis que o serviram até a morte. Embora tenhamos jurado lealdade a outra pessoa,- somos obrigados a cumprir nossos juramentos do mesmo modo. Porém, Olhos Penetrantes, acabo de quebrar esse juramento! Lá adiante, depois dessas árvores está o Caminho Proibido. Ontem à noite enviei o Grande Chamado. Não tive resposta. Não consegui me comunicar com nenhum vigia do meu povo. Chegamos à barreira imposta aos da minha raça. Ela continua — apontou com a faca para a raiz-guia —, e você deve segui-la. Não sei se posso acompanhá-la. Pensei que estávamos indo para a terra dos uisgus, mas estamos aqui. E alguém descobriu a estátua do Capitão das Sentinelas — Lamaril, o Grande, que nem os skriteks ousam desafiar. Não, meu chamado não foi respondido. Mas lá adiante — apontou outra vez com o aço da faca que refletiu ameaçadoramente a fraca luz do sol —, avistei um fogo durante a noite. No meio daquelas árvores, ao longo do Caminho Proibido.
Kadiya sobressaltou-se.
— Eu estava dormindo.
Pela primeira vez naquele dia, o rosto de Jagun se iluminou.
— Olhos Penetrantes, você dormiu quase um dia inteiro e toda a noite seguinte. Este é o segundo dia.
Ela franziu a testa.
— Devia ter me acordado.
— Não, não devia. O que nos espera eu não sei, exceto talvez que é um perigo muito maior do que todos os que já enfrentamos. Qualquer caçador teria preferido lutar com os skriteks a seguir pelo Caminho Proibido. Você vai precisar de toda a força da mente e do corpo, por isso eu a deixei dormir.
— Esse fogo que você viu...
Jagun disse, outra vez com expressão sombria:
— Os fogos do nosso povo são pequenos. O que eu vi era muito grande. Muitas mãos seriam necessárias para alimentá-lo.
— Os homens de Voltrik?
— Se forem, estão nos esperando no lugar onde aquilo — apontou a raiz-guia — nos levará.
Caminharam em silêncio, mas era evidente que Jagun estava cada vez mais agitado.
Kadiya também estava nervosa. Mais de uma vez teve vontade de segurar a raiz-guia. Mas não podia destruí-la. A raiz estava presa à magia da Arquimaga e à sua procura do talismã — o misterioso Olho Chamejante de Três Partes — e a princesa não podia impedi-la de cumprir sua missão.
De repente, com um grito assustado, Jagun tirou da bolsa de caça um pequeno bracelete de ouro com pedras vermelhas. Kadiya vira aquele objeto duas vezes antes. A primeira, quando Jagun chegou à Cidadela para ser recebido pelo rei seu pai, e a segunda, numa reunião musical festiva do seu povo, quando ele a usava na parte superior do braço. Devia ter apanhado o bracelete na aldeia nyssomu.
O caçador girou o bracelete entre os dedos, acariciando-o levemente e resmungando. Então, apertou-o com tanta força que os músculos do seu ombro ficaram tensos e ergueu o rosto com uma expressão de pavor.
O bracelete se partiu e Jagun jogou para longe os pedaços. Um som sinistro e agudo saiu dos seus lábios, um som que Kadiya já ouvira também, quando um oddling morria e os outros o levavam dentro do barco para o lugar sagrado.
— Jagun? — disse ela, com medo.
O rosto dele estava rígido, com uma expressão gelada que ela jamais vira.
— Jagun está morto — disse ele, com voz inexpressiva.
— Este não tem nome. Eu sou o que quebrou o juramento, expulso do meu povo, um que não pode falar e com quem ninguém jamais falará. Nós vamos quebrar o silêncio proibido. A Dama de Noth tem direito de tirar nossas vidas.
— Quando seguimos o guia que ela nos deu? — perguntou Kadiya, furiosa. Por acaso ele atribuía a culpa a ela? O amuleto ficou mais quente contra sua pele. — Eu vou continuar! — exclamou. Mas depois de alguns passos, tropeçou e só com esforço manteve o equilíbrio. Foi invadida por uma sensação tão estranha que tentou falar e não conseguiu emitir nenhum som. Por um breve momento, um medo terrível fez tremer todo o seu corpo.
Medo do quê?, pensou Kadiya. Agarrou um arbusto próximo para não cair. Como sempre, o medo acordou a fúria dentro dela.
Empunhando a adaga desembainhada, a princesa voltou-se. Jagun estava caído na relva que cobria a estrada antiga, apertando o peito com os dedos e respirando com esforço.
— Jagun! — Kadiya ajoelhou ao lado dele.
Da boca do oddling escorreu um filete de líquido.
— De volta! — A voz dele era fraca e distante. Ergueu os braços, num gesto de desespero, procurando levantar-se. — Leve-me de volta!
Kadiya embainhou a adaga e o segurou pelos ombros. Reunindo todas as suas forças, ela o arrastou por cinqüenta ells sobre a relva, para fora da estrada antiga que a raiz queria que ela seguisse.
A raiz estava parada, mas tremia, chamando-a com urgência. Todo o medo tinha desaparecido, como se tivesse sido fechado atrás de uma porta. A princesa segurou o amuleto, quente e brilhante, mas sem nenhuma sugestão de ameaça. Ao contrário, parecia encorajá-la a seguir.
O vento soprou da direção das árvores e Jagun, tossindo, ergueu o corpo e ficou sentado no chão.
— Uma barreira — disse o caçador com voz rouca. — Eu não posso ir por aquele Caminho. — Inclinou a cabeça sobre o peito. Seu rosto inexpressivo parecia estar vendo alguma coisa muito mais forte do que ele e contra a qual não tinha nenhuma arma.
— Olhos Penetrantes... — disse com a voz repleta de tristeza. — É proibido — só você pode continuar. Mas eu juro que, se houver um meio de ir ao seu encontro, eu o descobrirei!
— Eu. — Agora eram seus lábios que pareciam gelados. — Jagun.. tenha cuidado.
Jagun ergueu a mão, num gesto de encorajamento e segurança. Então, girou o corpo, desviando os olhos. Depois de algum tempo, levantou-se e acenou um adeus. Kadiya tinha certeza de que ele faria tudo para descobrir um meio de chegar até ela, evitando o caminho que os separava agora.
A raiz moveu-se impaciente na relva, chamando-a para seguir viagem.
Kadiya pôs no ombro a bolsa de caça de Jagun e com relutância, arrastando os pés, acompanhou a raiz-guia na direção das árvores. O vento soprava agora contra ela, trazendo um cheiro enjoativo que não era o fedor dos skriteks, nem o do pântano. Duas vezes, olhou para trás, esperando ver Jagun, mas o caçador tinha desaparecido.
Perto de uma árvore havia alguma coisa com brilho fosco. Kadiya abaixou-se e apanhou uma flecha, bem-feita, com penas vermelhas como sangue. Já vira outra igual, sim. e durante o cerco da Cidadela ajudara a recolher todas as que estavam perfeitas para serem usadas pelos defensores de Ruwenda. Não era do povo do pântano, mas dos invasores! Como foi parar ali? E por que estava tão perfeita — como se fosse um guia, como sua raiz?
A princesa ia jogá-la para longe, mas pensou melhor e a colocou no lugar, mas com a ponta na direção contrária.
Como teriam os labornoks ultrapassado a barreira que havia derrotado Jagun? O amuleto do trílio devia ser sua chave
— mas os homens de Hamil, o que mais tinham eles além do aço já muito manchado de sangue? Seria mais uma das mágicas de Orogastus?
Deu mais alguns passos e viu na lama a marca de uma bota Logo adiante — e Kadiya esforçou-se para não vomitar
— estava o skritek morto, deitado de lado, como se tivesse sido chutado para fora do caminho. Não viu nenhum ferimento na criatura, nem sinal de sangue.
Kadiya continuou, contando seus passos em voz baixa, procurando ficar alerta a tudo que a rodeava. Então outro bafo fétido infestou o ar e ela olhou para a direita. O corpo peludo de um oddling, evidentemente uisgu, estava amarrado numa árvore. Dessa vez via-se perfeitamente que sua morte não fora nada fácil.
Logo adiante, havia mais marcas no solo e o cheiro de fogo. Arbustos arrancados espalhavam-se no chão e a relva estava amassada. Então, Kadiya encontrou outro oddling torturado. Queria evitar ver de perto a pobre criatura, mas um gemido a fez aproximar-se do uisgu. Ele tentou erguer o braço quebrado e um dos olhos no rosto torturado fixou-se nos seus.
Mais uma vez Kadiya valeu-se da força da sua raiva.
Quem fez isto? — Parou, indecisa. Como aliviar tão terríveis ferimentos? Não tinha nada.
A mão do uisgu se moveu, como se a boca torturada não pudesse mais falar. Com grande esforço, ele apontou para a faca de Kadiya.
E então ela compreendeu a súplica. Seu coração bateu disparado. Kadiya sempre fora fascinada por armas, e uma vez ou outra, quando o Mestre de Armas estava de bom humor, treinava um pouco de esgrima. Tinha aprendido também alguns truques com Jagun — mas não estava preparada para aquele.
Mais uma vez a súplica com voz fraca, o gesto com a mão...
Enchendo-se de coragem, Kadiya segurou a adaga com as duas mãos. Vieram-lhe à mente as palavras de Jagun quando ele encontrou um fronial desgarrado, tão enterrado num atoleiro que ninguém poderia salvá-lo.
— Atravesse com segurança... — Abaixou a adaga e sentiu a lâmina penetrar a carne. Então ela engoliu em seco, uma, duas vezes.
Levantou-se, cambaleando, ansiosa para fugir, livrar-se de tudo aquilo. Mas a raiz-guia continuava a deslizar para a frente. Não havia dúvida de que ia enfrentar muitos perigos e estava tão mal preparada quanto a guarnição da Cidadela quando os invasores atacaram.
Viu a névoa adensando-se entre as árvores à sua frente, lançando uma vez ou outra uma língua de neblina. A raiz continuava firme, em linha reta. Kadiya sobressaltou-se quando sua guia ergueu a ponta, com uma chama verde, e virou para a esquerda, apontando para o espaço entre as duas árvores mais altas que ela já vira.
Um assobio fino e estridente cortou o ar. Instintivamente a princesa saltou para o lado, no momento em que alguma coisa chocou-se contra a árvore à sua frente. Kadiya viu a espiral de fumaça oleosa e espessa, atirou-se de bruços no chão e, apesar da dor que sentia, arrastou-se para a proteção de uma moita.
Mais uma vez o silvo agudo e fino, seguido do que parecia uma resposta abafada. A bolsa de caça de Jagun enganchou-se nos arbustos, prendendo Kadiya com o rosto contra o solo. A princesa tentou freneticamente se libertar. A fumaça a alcançou, engasgando-a e provocando tosse. Mas a tosse a salvou. Os galhos dos arbustos soltaram-se com o movimento dos seus ombros e ela caiu para a frente no que parecia um buraco escuro. Estendeu a mão e tocou pedra, nenhum tronco nem galhos.
O grito de caça soou pela terceira vez atrás dela e Kadiya seguiu lentamente no escuro. Em pânico, uma parte de sua mente dizia que estava sendo levada para uma armadilha, mas continuou em frente.
Esperava ser alcançada a qualquer momento, puxada pelos tornozelos e tirada daquele buraco como um scubri retirado da concha por mãos hábeis. Kadiya continuou arrastando-se até sua mão estendida encontrar só o vazio e ela começou a cair, a cair...
A água fechou-se sobre ela, escondendo toda a luz. Mas não era a água espessa e suja do pântano. Era clara e cristalina, a não ser em volta do corpo da princesa, do qual soltava-se a terra e os galhos grudados na sua roupa. A bolsa de caça de Jagun a levava para o fundo, mas não queria se desfazer dela. Batendo as pernas, tentou chegar à superfície. Um brilho verde despertou sua atenção. Então a guia estava ainda com ela! A raiz nadava na sua frente.
Finalmente chegou a uma parede, com um impulso subiu por ela, dentro d’água, até à superfície. Saiu de quatro, no chão de mosaico azul-metálico. Nem uma folha, nada maculava a água cristalina. À sua frente viu uma escadaria, ladeada por estátuas.
Kadiya levantou-se. A primeira coisa que notou foi o silêncio. Depois que saiu da piscina, a superfície da água” ficou calma e lisa.
Resolveu subir a escada. Não havia nem sinal de folhagem, apenas as estátuas que Jagun havia chamado de sindonas. A luz que se refletia nos ornamentos das sentinelas imóveis feria os olhos da princesa. Nem todos os sindonas que pareciam observá-la com tanta calma eram homens, mas estavam vestidos ou despidos do mesmo modo. E era tão forte a impressão de estarem vivos que a princesa não ficaria surpresa se um deles se movesse ou falasse — talvez proibindo sua passagem, talvez convidando-a para entrar.
Kadiya olhou para o próprio corpo arranhado e sujo e para as roupas dadas pelos nyssomus que não haviam resistido muito bem à árdua jornada. Porém, sentia-se estranhamente forte e descansada. Queria conhecer aquele lugar que não era citado em nenhuma lenda, nem descrito por nenhum viajante.
No topo da escada Kadiya parou na frente de uma das estátuas. Era mais alta do que ela — talvez o tamanho natural da raça que a havia feito. Examinou o rosto sombreado pelo elmo.
— Quem é você? — Sua voz soou brusca, autoritária demais para aquele lugar de silêncio e beleza. Como podia esperar uma resposta da sentinela silenciosa?
Em lugar da resposta, Kadiya ouviu um ruído estranho, como de uma cortina se abrindo, seguido por um som límpido como se sinos tocassem. Pássaros chilrearam e uma brisa leve e perfumada eliminou os últimos vestígios do horror que a havia apavorado.
A princesa viu outra escada, mais larga do que a primeira, mas sem as sentinelas, que levava para o ar livre, para um parque que ninguém nascido nos pântanos em volta de Ruwenda jamais poderia ter imaginado. Era um lugar de vegetação rica e paradoxal. Frutos maduros e apetitosos pendiam dos galhos ao lado das próprias flores dos quais nasciam. O céu estava limpo e azul. O parque parecia um lugar encantado, tão envolto em magia que a princesa não ousou entrar nele. No último degrau da segunda escada estava sua raiz-guia,-com o halo verde da ponta cintilando como se fosse feito de esmeralda.
Kadiya piscou os olhos uma vez, duas vezes. Não estava mais sozinha.
A pessoa que cruzava o parque na sua direção era, evidentemente, do povo representado pelas estátuas, embora o elmo e os cinturões militares fossem substituídos por um manto transparente e esvoaçante.
Mulher — de verdade? Kadiya não tinha certeza, mas sabia que era uma pessoa à qual até a Arquimaga devia obediência. A Princesa Kadiya ajoelhou.
— Filha do Triplo, o que fez o seu povo para abalar o grande equilíbrio do mundo? Para trazer a morte e a dor até este lugar — a última fortaleza?
Kadiya não podia acreditar que estivesse sendo acusada — aquele ser queria apenas a verdade. A princesa levantou-se lentamente.
— Em primeiro lugar — procurou falar com a mesma naturalidade da outra —, sou filha do Rei Krain de Ruwenda. Os de Labornok, sob o comando do Rei Voltrik, fazendo uso da traição, da força das armas e principalmente das artes de um cruel feiticeiro, arrasaram meu país. Com a ajuda de um caçador nyssomu, Jagun, eu escapei da Cidadela quando foi tomada pelo inimigo. Procurei então a Arquimaga que reina em Noth e recebi isto — apanhou a raiz-guia e a estendeu para sua interlocutora. — Ela também me incumbiu de uma tarefa solene — a procura de um talismã. Diz a profecia que só pelas mãos de uma mulher da nossa casa Ruwenda será justiçada. A Arquimaga deu a mim e a minhas irmãs o nome de Pétalas do Trílio Negro. Nós somos três — embora eu não tenha certeza de que minhas irmãs estão vivas. E esta pequena raiz do trílio me conduziu até aqui.
— A Arquimaga de Noth — disse a figura com o longo manto. — Há muitos anos ela não mandava ninguém ao Lugar do Conhecimento. Mas, uma vez que a enviou, temos de acreditar que há sombras sobre a terra. Segundo os costumes antigos, a vida deve ser assim. — Estendeu uma das mãos horizontalmente e a outra sob ela, em posição vertical. — O uso dos Poderes das Trevas altera esse equilíbrio. Isso aconteceu uma vez antes, e houve grandes batalhas e destruição na terra. Terra seca se transformou em água, água se transformou em terra e o Gelo Conquistador amortalhou tudo.
Kadiya perguntou:
— Como os sangüinários encontraram o caminho para este lugar e atravessaram a barreira que impede a passagem dos nyssomus?
— Filha do rei, uma vez aberta, a menor fresta numa parede pode se alastrar e formar uma grande porta. Esse feiticeiro que chamou de inimigo alcança muito alto e aprendeu muita coisa. Deu uma certa proteção aos seus seguidores, que os ajudou a abrir nossos antigos portões. Filha do rei — a mulher apontou para a raiz na mão de Kadiya —, termine aqui a sua jornada. Se a Arquimaga de Noth a escolheu, então você realmente vai lutar. Se vai lutar sozinha ou não, depende do modo que agir.
— Não estou segura aqui, no Lugar do Conhecimento?
— Não contra o que aconteceu — pois eu não fui chamada para anular a ameaça dos Poderes das Trevas. — Ergueu a cabeça, como para escutar alguma coisa. — Aí está! Mas eles não têm tanto poder quanto pensam. O caminho secreto que a trouxe está fechado e agora vão andar de um lado para o outro às cegas, com seus skriteks. A antiga proteção ainda tem força, afinal.
— O que eles procuram?
— Aquilo que consideram um tesouro, filha do rei. Porém, o que os homens de Labornok e os skriteks mais desejam não é o que motiva seu mestre. Ele procura aquilo que é proibido e seus seguidores estão muito cansados. Voltarão para a Cidadela sem o que ele deseja.
— E o talismã que eu procuro? — exclamou Kadiya. Deixou cair a raiz do trílio que ficou imóvel e sem brilho. Onde está o Olho Chamejante de Três Partes que a Arquimaga me mandou encontrar?
— Procure em você mesma, filha do rei — abra completamente seu coração e sua mente.
Kadiya olhou fixamente para a mulher.
— Não tenho nenhum talismã mágico! Não tenho exército! Não tenho nem mesmo uma espada.
— Tudo isso existe, filha do rei. — A voz era gelada. — Olhe no seu próprio interior e vai encontrar.
Com isso, ela desapareceu.
Kadiya caiu de joelhos. Nada naquele jardim maravilhoso a encantava agora. Estava exausta, perdida. Tinha apenas a raiz murcha do trílio.
Magia! Bateu com os punhos fechados no chão até a dor superar sua fúria. Olhar dentro dela mesma! Dentro dela estava a fúria! Inclinando-se para a frente, apanhou a raiz que a levara até ali e tentou fazê-la em pedaços, mas a hastezinha resistiu.
Uma das três.
A frase, vinda de lugar nenhum, ecoou na sua mente. Kadiya olhou para cima. A sentinela viva teria voltado? Não, via apenas aquele jardim tolo e sua raiz-guia inútil.
Jogou a raiz para longe com toda a força. O pedacinho do trílio voou com a precisão de uma das flechas de Jagun, dando uma volta no ar para aterrissar verticalmente num pedaço de terra na frente de Kadiya. Ficou ali, plantada, tremulando de leve. Kadiya levantou-se, pensando em amassá-la sob os pés. Mas parou de repente. A raiz estava crescendo e ficando mais espessa, mais alta, mais larga. Kadiya abaixou-se ao lado dela, maravilhada. Duas pequenas hastes apareceram na parte superior, retas como barras de ferro. Sob elas, a haste ficava cada vez mais larga, formando um cilindro grosso e escuro. Na Ponta superior apareceram três esferas — que pareciam botões - muito unidas.
Kadiya olhava espantada, mal podendo acreditar. Notou movimento nas esferas e a camada externa negra se abriu. O que apareceu então..
Três olhos.
Um era um olho do povo do pântano, verde-amarelado. Um era castanho brilhante — e bastava ter um espelho para Kadiya ver que era exatamente da cor dos seus. O terceiro era azul-prateado, com a pupila muito grande e uma chama dourada no fundo.
O amuleto parecia queimar sua pele.
Antes que Kadiya pudesse segurá-la, a pedra de âmbar saltou para fora do corpete, como se tivesse vida própria, o cordão de ouro se partiu e o amuleto voou para o Olho Chamejante de Três Partes, incrustando-se no centro das três esferas.
Os três olhos então fecharam-se, deixando apenas três globos brancos e informes no seu lugar. Kadiya segurou a haste, logo abaixo dos globos e acima das folhas e, certa de que era o que devia fazer, puxou com força.
O que saiu da terra não foi a raiz da planta arrancada, mas uma espada cintilante! O punho adaptava-se tão bem à sua mão que parecia feita exclusivamente para ela. Kadiya passou os dedos nas três esferas no pomo da espada.
— O Olho Chamejante de Três Partes — Kadiya exultou. Notou então que a arma brilhante não tinha ponta nem corte! — Senhores do Ar, que espécie de espada é esta? Como posso usar isto contra meus inimigos?
Uma voz suave, pouco mais do que um sopro no seu ouvido, disse:
— Aprenda.