O Trílio Negro
Capítulo 6
A Princesa Anigel só voltou a si quando seus captores chegaram à destilaria. Os labornoks pararam então para descansar da extenuante subida dos subterrâneos da Cidadela, depois de um árduo dia de batalha. Sir Rinutar sugeriu ao Príncipe Antar uma pausa para se recuperar e para provar a bebida de Ruwenda.
— Falou bem, Rin — disse Sir Owanon —, pois esta velha oddling é bem mais pesada do que parece e quase quebrou minhas costas. — Jogou Immu numa pilha de sacos de grãos. Ela gemeu mas não abriu os olhos.
O Príncipe Antar advertiu:
— Um breve descanso. Provocaremos a ira do Rei Voltrik e do feiticeiro se demorarmos muito a levar as prisioneiras para serem interrogadas. O homem que se exceder na bebida será severamente castigado.
Deitou a Princesa Anigel cuidadosamente no chão e afagou os cabelos dela, antes de juntar-se aos outros, perto do barril que acabavam de abrir. A cerveja fluía alegremente nas canecas e derramava no chão.
— Os covardes de Ruwenda faziam uma boa bebida — disse Sir Rinutar, passando a mão no bigode, depois de um longo gole. — Na verdade, é muito melhor do que a nossa. — Esvaziou a caneca e foi outra vez até o barril.
— Não admira — murmurou Immu —, pois a nossa é envelhecida e a oito por cento, ao passo que a de Labornok não passa de mijo de criança.
— Sim, sem dúvida é uma bebida excelente — disse outro cavaleiro, Sir Penapat. — Por que não podemos fazer uma cerveja tão boa em Derorguila?
— Os cervejeiros em Derorguila estão sempre se queixando das diabruras das bruxas da cerveja — disse Sir Owanon —, alegando que essas damas malvadas azedam a bebida, ou dão a ela um gosto estranho. Ouvi dizer que uma dessas bruxas foi queimada na fogueira um pouco antes de o exército deixar Labornok. Eles a apanharam entrando furtivamente na destilaria, evidentemente para fazer alguma maldade. As mulheres não entendem coisa alguma da fabricação de cerveja.
— Excremento de lothok! — exclamou Immu, com voz abafada, porque estava de bruços sobre a pilha de sacos. Mas dessa vez os cavaleiros ouviram.
— Ora, ora, quero ser esfolado vivo e que preguem minha pele na parede! — disse Sir Owanon, rindo. — Minha carga fala! E com atrevimento!
— Responda com um bom pontapé — sugeriu Sir Rinutar. A Princesa Anigel virou o corpo com esforço, com as mãos atadas nas costas, como Immu, e exclamou:
— Parem, seus rufiões, isso é uma vergonha! Se acham boa a nossa cerveja, devem agradecer a Immu, pois ela é a chefe da destilaria desta Cidadela.
— Ela mente — rosnou Sir Rinutar. — O que uma velha oddling encarquilhada pode entender desses mistérios? — Com um gesto largo mostrou os grandes caldeirões de cobre, o labirinto dos canos, o sistema complexo de calhas que conduziam o grão de malte ao espremedor e depois passavam o mosto destilado para o enorme caldeirão destilador. Ao longo de todos os recipientes havia passarelas de madeira onde os trabalhadores mexiam, misturavam e inspecionavam a fabricação.
— Eu entendo muito de fazer cerveja. — Immu estava agora deitada de costas e sua voz era fria e segura. — Só um cérebro de geléia pode pôr a culpa da cerveja azeda em bruxas imaginárias. Isso acontece quase sempre porque os caldeirões, os fermentadores e a tubulação não são lavados adequadamente, permitindo a formação de um depósito malcheiroso que estraga a cerveja.
— Isso é verdade? — O Príncipe Antar estava interessado. — Talvez nos convenha permitir que você viva para ensinar os cervejeiros labornoks a fazer uma bebida melhor.
— Uma boa idéia — disse Sir Owanon, mas os outros protestaram em altas vozes e começaram a discutir, enquanto abriam outros barris e enchiam constantemente as canecas.
Então a atenção deles foi despertada pelo ruído metálico do General Hamil descendo a escada, à frente de outro grupo de cavaleiros. Todos extremamente fatigados, aderiram com entusiasmo ao descanso festivo dos companheiros.
Hamil aproximou-se de Antar, que tomara apenas um gole de cerveja, e o congratulou pela captura da Princesa Anigel. Depois, levando-o para um canto, falou em voz baixa, mas Immu e Anigel ouviram perfeitamente.
— Uma coisa espantosa e ameaçadora aconteceu, meu príncipe. Milotis e seus homens revistavam o andar mais alto da torre quando surpreenderam a Princesa Haramis acompanhada por um oddling. Eles os perseguiram até o parapeito, e Haramis ficou de pé, parada na borda da ameia, segurando o amuleto que pende do cordão no seu pescoço, e invocou a proteção dos Senhores do Ar.
— Eu teria feito a mesma coisa — disse o príncipe secamente — no lugar dela.
— Mas apareceram dois lammergeiers monstruosos — continuou Hamil — e levaram a princesa e o oddling nas costas!
O príncipe praguejou.
— Milotis viu esse prodígio com os próprios olhos?
— Ele viu. Eu comuniquei o fato ao poderoso Orogastus, que ficou rubro de cólera. Milotis e seus homens foram executados, por ordem do rei.
O príncipe disse, em voz baixa:
— Loucura. Milotis era um valoroso capitão e como podia ele lutar contra a magia? Cabe a Orogastus cuidar disso. Imagino se ele vai impor também a minha morte porque aprisionei só uma princesa, enquanto a outra conseguiu fugir. — Descreveu a fuga de Kadiya através da cisterna e a afirmação de Anigel de que a irmã possui agora uma poderosa magia.
O General Hamil, uma figura terrível com a armadura vermelha enfeitada de ouro, aproximou-se das duas cativas. No elmo vermelho de metal esmaltado havia dois chifres montados em ouro e o visor tinha o formato de uma cabeça de volumnial.
— Princesa Anigel — perguntou ele —, é verdade que sua irmã é agora uma mágica?
Mas a jovem, apavorada, começou a chorar, agitando-se dolorosamente, e Immu disse:
— Veja o que você fez, seu grande imbecil. Pela Flor, eu não sei por que os lammergeiers apareceram, mas podem estar certos de que não foi mágica alguma. As três princesas não são gêmeas? Se uma possuísse o dom da magia, as outras duas não possuiriam também? Contudo, aqui está a pobre Anigel em suas mãos. — Começou a falar em voz baixa e urgente com a princesa.
— A vovó oddling fala sensatamente — disse o príncipe, franzindo a testa. — Mas acho melhor deixarmos isso para Orogastus. — Ergueu a voz: — Companheiros, devemos deixar este lugar agora e voltar à sala do trono com nossas cativas.
Immu parou de falar com a desconsolada princesa e dirigiu-se ao Príncipe Antar com voz melíflua.
— Meu senhor, tenha piedade desta infeliz donzela. Antes de sairmos daqui, mande desamarrar suas mãos e permita que atenda a suas necessidades atrás daquela pilha de sacas, do contrário ela passará por grande humilhação e vai sujar sua armadura.
Anigel abaixou a cabeça, envergonhada, e o General Hamil, rindo, disse um gracejo pesado. Mas o príncipe ajoelhou e desamarrou as mãos de Anigel. Ela agradeceu com um olhar suplicante e pediu que ele libertasse também sua aia para ajudá-la.
— Vou atender ao seu pedido, mas apressem-se — disse Antar. Deixou-as ir, depois de certificar-se de que não havia nenhuma saída atrás das sacas de grãos.
— Devo mencionar outro fato — disse Hamil. — A mão do rei está muito inflamada em virtude da dentada do maldito escudeiro. Ele está sofrendo muito e de péssimo humor. O médico da corte e a Voz Verde do feiticeiro dizem que ele deve ir para a cama com uma compressa de ervas sobre o ferimento, tomar chá quente e descansar, do contrário vai morrer com o sangue envenenado.
— O mago não pode fazer nada?
— Evidentemente não, embora tenha pronunciado um encantamento sobre o pote com a compressa. Ele concorda com o diagnóstico do seu bajulador e acha que o rei deve descansar. Por isso, cabe-nos, agora, procurar as duas princesas.
— Os homens estão exaustos. Precisam de alguns dias de repouso antes de organizarmos um grupo de busca. Podemos aproveitar o tempo para obter informações — especialmente dos oddlings. Se há alguém que sabe para onde foram as princesas, são eles.
Hamil concordou.
— Todos os oddlings fugiram da Cidadela, mas podemos ir a Trevista, a cidade antiga, em ruínas, onde fazem sua feira. O homem do rio, o traidor Pellan, comandante da frota de barcaças que leva os mercadores a Trevista vai cooperar conosco. E alguns mestres-mercadores de Labornok podem nos aconselhar sobre como conquistar a confiança e a ajuda das criaturas dos pântanos.
— Falarei com o rei meu pai e providenciarei para que tudo seja organizado. Talvez você, eu e esse tal Pellan possamos ir a Trevista durante o dia, com um pequeno grupo de homens, enquanto o resto do exército descansa. Podemos dormir no rio.
— Uma sugestão esplêndida, meu príncipe. Antar franziu a testa e olhou em volta.
— As mulheres — onde estão elas? Hamil foi espiar atrás da pilha de sacas.
— Desapareceram! Pelas sagradas entranhas de Zoto, elas desapareceram! Mas como?
Obedecendo às ordens furiosas de Hamil, os cavaleiros começaram a revistar toda a grande destilaria, embora parecesse impossível que Anigel e Immu tivessem passado pelo Príncipe Antar e pelo General Hamil.
Então, no meio da algazarra ensurdecedora, o Príncipe Antar viu o palerma cavaleiro Rinutar caminhando por uma das passarelas que circundavam o grande caldeirão da fermentação. De repente, Rinutar perdeu o equilíbrio, agitou os braços no ar e, gritando coisas que ninguém entendeu, mergulhou com estrépito no líquido espumoso e de cheiro forte.
Depois de um silêncio de espanto, os homens caíram na gargalhada. Alguns foram pescar o esbaforido Rinutar. Rubro de fúria e com a armadura coberta de espuma branca, assim que saiu do caldeirão, ele gritou:
— Quem me empurrou?
— Bêbado idiota — disse o príncipe, com desprezo. — Ninguém o empurrou. Você simplesmente perdeu o equilíbrio.
— Não — disse Rinutar com segurança —, fui empurrado e além disso, quando caí, ouvi uma voz dizendo: ”Tome um grande gole.”
Os cavaleiros riram com ceticismo, mas o General Hamil, carrancudo, gritou:
— Silêncio, todos!
Todas as bocas se fecharam. No silêncio que se seguiu, podiam ouvir a cerveja pingando no chão, a respiração pesada dos homens cansados. e passos rápidos e leves na passarela, depois da escada que levava à sala onde os barris eram enchidos.
— Mágica! — berrou Hamil. — Estão usando mágica! Elas se tornaram invisíveis! Todos para o andar de baixo! E em silêncio, malditos, com os ouvidos abertos!
Segurando o amuleto, Anigel murmurou ansiosamente para Immu:
— Vão nos encontrar. Nossos pés molhados estão deixando marcas no chão!
— Por aqui — sibilou sua companheira invisível. — Vamos para o elevador que leva os barris até a cozinha.
Correram para o elevador que funcionava com contrapeso, bastando acionar uma manivela. Anigel entrou e Immu disse:
— Espere um minuto, princesa. — Caminhou até uma pilha de barris vazios, deixando no chão as marcas dos pés molhados.
Quando os cavaleiros comandados pelo general labornok chegaram, os barris vazios empilhados perto do elevador começaram a balançar e antes que os homens tivessem tempo de compreender o que estava acontecendo, despencaram com estrondo. Barris e barriletes rolaram pelo chão, batendo nas Pernas dos homens e partindo-se quando os cavaleiros raivosos pisavam sobre eles com seus pés cobertos de ferro. A passagem para o elevador manual ficou completamente fechada.
A Princesa Anigel começou a rir tanto que soltou o amuleto por um momento e os labornoks viram as duas fugitivas subir e desaparecer.
— Rezei para que sua idéia desse certo — disse Anigel —, mas estava morta de medo.
Na luz fraca da guarita abandonada, na casa da guarda da Cidadela, onde tinham parado para descansar, Immu sorriu.
— Mas o importante foi que você não duvidou. Depois de saber que sua irmã Haramis escapou graças ao amuleto, finalmente acreditou que o seu também responderia à sua ordem, tornando-nos invisíveis. E aconteceu. Agora, tudo que temos a fazer é ir embora!
Anigel encostou o corpo cansado na parede fina.
— Boa amiga, tenha piedade, deixe-me ficar mais um pouco, pois, se continuarmos agora, vou morrer de cansaço.
— Descanse, doçura — Immu tirou o xale e envolveu com ele os ombros da princesa. — Estamos a salvo por algum tempo. Não ouço nenhuma agitação de busca.
Os labornoks pensavam que a princesa e Immu estavam ainda dentro da torre central, por isso o General Hamil mandou trancar todas as portas. Mas Immu conhecia uma saída secreta na cozinha, por onde os empregados preguiçosos escapavam Às vezes. A passagem levava ao pátio externo que as duas mulheres cruzaram rapidamente, invisíveis, desviando dos soldados labornoks que cochilavam em volta das fogueiras.
Embora estivesse exausta, Anigel não tinha coragem de fechar os olhos, temendo que o sono anulasse o efeito da mágica que as havia levado a salvo até a guarita.
— Eu ainda mal posso acreditar que conseguimos ficar invisíveis — murmurou ela. — O talismã não quis me salvar na beira do poço... por que então nos salvou agora?
— Na cisterna, você estava desesperada e louca de medo. Na destilaria, emoções mais construtivas a levaram a seguir meu conselho.
— Sim, é verdade que eu estava furiosa — disse a princesa, com voz lenta. — Desprezei a covardia que provocou nossa captura. E estava mortificada pelo estratagema humilhante que você teve que usar para fazer com que aquele vilão nos soltasse.....
Immu deu uma risadinha abafada.
— A fúria iluminou sua mente, eliminando o medo que paralisava a vontade. E então, acreditou em mim quando pedi que recorresse ao amuleto. A raiva é uma emoção muito mais eficiente do que o medo. Precisa aprender a usá-la mais vezes, doçura. Na situação em que está agora, brandura e boas maneiras não ajudam muito.
— E a mágica? — perguntou Anigel, com voz cansada.
— Isso é o que vamos ver.
Depois de pensar por alguns momentos, a princesa perguntou:
— Então... seu povo usa sempre a mágica?
— Oh, não. É uma coisa especial, que não deve ser usada levianamente. Às vezes ela está presente, outras vezes não está, por mais desesperadora que seja a situação. Para sua pobre mãe e seu pobre pai, não pôde haver ajuda mágica alguma...
— E isso foi cruel! Não faz sentido, o rei e a rainha serem mortos, Ruwenda conquistada e nós três protegidas por artes mágicas!
— Paz, criança, paz. — A magia é um mistério, como tanta coisa na vida. Pode ser usada para o bem ou para o mal e nem sempre sabemos distinguir entre os dois, assim como não compreendemos o que é mágica.
Anigel suspirou.
— Talvez a Arquimaga possa nos dizer. Aconchegada à velha ama, Anigel finalmente adormeceu profundamente, mas sem largar o âmbar com o trílio.
Não haviam descansado nem duas horas quando os soldados que dormiam na casa da guarda começaram a despertar, resmungando e reclamando. Logo ia nascer o dia. Os homens estavam descontentes com a proibição de saquear a Cidadela. Acenderam as fogueiras, prepararam uma refeição ligeira com as rações do campo e fizeram suas necessidades abertamente e em toda parte.
— Não olhe para fora, princesa — disse Immu. — Os incultos idiotas!
— Oh, Immu, não me importo com isso. O que me preocupa é o que faremos agora. Como chegaremos à casa da Arquimaga?
— Jagun planejou a nossa fuga e o irmão dele arranjou um barco. Mas, sem dúvida, Jagun e Kadiya já embarcaram há muitas horas, dando-nos por perdidas. — Immu franziu a testa pensativamente. — Precisamos descobrir outro meio de chegar ao Mutar. Se conseguirmos alcançar Trevista, meu povo nos ajudará a entrar em contato com os uisgus, em cujas terras fica Noth.
— Mas Trevista fica tão longe, do outro lado do Pântano Negro.
As cornetas soaram lá fora. Immu espiou por uma fresta da porta. Um comandante dos cavaleiros entrou apressado, com sua escolta, na antecâmara do pátio interno, e parou a menos de doze ells da guarita onde elas estavam. Um sargento intendente supervisionava a distribuição dos suprimentos de uma fila de carroças cobertas. O cavaleiro disse:
— A companhia vai partir dentro de uma hora. Marcharemos através do Knoll para o Mercado de Ruwenda no lado oeste, e de lá iremos em barcaças até Trevista. Providencie alimento e material adequado, para os homens e para os animais.
O sargento fez continência, o cavaleiro deu meia-volta com seu animal de batalha e acompanhado da escolta seguiu para a casa da guarda e para o pátio externo.
Immu riu baixinho.
— Nosso problema está resolvido. Os intendentes nos levarão até Trevista. Está com fome, minha filha?
— Estou, Immu. E muito cansada.
— Não pode nos tornar invisíveis enquanto dorme, mas acho que vamos encontrar um bom esconderijo depois do nosso café da manhã. — Immu explicou seu plano e a Princesa Anigel, com os olhos cintilando de alegria, a abraçou carinhosamente.
Então, Anigel segurou o amuleto, as duas desapareceram e saíram para escolher a melhor carroça.