O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 2 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 1

 

Mais uma vez, a ofuscante luz branco-azulada vinda do pátio externo da Cidadela sitiada cegou a família real, os cortesãos e Companheiros Fiéis reunidos no balcão, no centro da grande torre central da fortaleza. Em menos de uma fração de segundo, rugiu o trovão.

O Rei Krain gemeu desesperado.

— Pela Dama Branca, desta vez não pode haver dúvida! O feiticeiro Orogastus realmente provocou relâmpagos no céu azul e este último arrasou o muro do pátio interno!

Os soldados da infantaria de Labornok entraram, às centenas, pela imensa abertura na muralha, seguidos de perto pelos cavaleiros das montanhas, conduzidos pelo brutal General Hamil. Os atacantes arrasaram os defensores da Cidadela com a facilidade com que um furacão arrasa a relva do pântano. Alguns momentos depois, viu-se outro clarão mágico e cegante, e outro e mais outro, abrindo novas brechas nas muralhas, pelas quais entravam as hordas inimigas.

- É o fim — disse o rei. — Se aquela antiga muralha com seus bastiões múltiplos pode ser demolida pelos relâmpagos mágicos de Orogastus, então a grande torre central não oferece mais nenhuma segurança!

Voltou-se para um dos Companheiros Fiéis:

— Lorde Sotolain, traga minha armadura. Lorde Manoparo, eu o encarrego da segurança da nossa querida rainha e das princesas. Leve-as para o mais profundo e seguro baluarte da fortaleza, onde com seus cavaleiros deve defendê-las até a última gota do seu sangue. Os outros devem se preparar para enfrentar comigo o inimigo.

A Rainha Kalanthe apenas concordou com um gesto, mas a Princesa Anigel e suas damas de companhia começaram a chorar. A Princesa Haramis ficou imóvel como uma estátua de mármore, e só os grandes olhos azuis e os brilhantes cabelos negros disfarçavam a brancura do seu rosto, do vestido e do manto que vestia. A Princesa Kadiya, com sua roupa verde de caça, de corte masculino, desembainhou a adaga e a brandiu.

— Sire, querido pai! Deixe-me lutar e cair ao seu lado! Prefiro isso a me esconder com as mulheres lamurientas, enquanto os homens das planícies conquistam Ruwenda!

A rainha e os nobres olharam para ela, chocados, e a Princesa Anigel e suas damas, espantadas, pararam de chorar e se lamentar.

A Princesa Haramis limitou-se a sorrir com frieza.

— Irmã, acho que está dando muito valor à sua capacidade para lutar. Estes não são os vermes ordinários que fogem da sua lança de brinquedo numa caçada, mas sim os intrépidos homens armados do Rei Voltrik, protegidos pelos encantamentos de um feiticeiro de negro coração.

— Dizem os oddlings — respondeu Kadiya — que uma mulher da casa real de Ruwenda provocará a queda de Labornok, matando seu cruel rei!

— E você então se arvora em nossa salvadora? — disse Haramis com um riso amargo. E com as lágrimas inundando e fazendo brilhar os olhos que pareciam duas geleiras azuis, exclamou: — Deixe disso, sua tola! Poupe-nos essa boba atitude. Não vê como você faz nossa mãe sofrer?

A rainha empertigou-se orgulhosamente. Como Anigel, usava o traje tradicional da corte ruwendiana para os dias comuns, de cetim sem ornamentos, com mangas e colete rendados. O vestido da princesa era rosa-claro, mas naquela manhã a rainha ordenara às suas damas um vestido e um manto vermelhos como sangue.

Kalanthe disse:

— Meu coração está repleto de mágoa e temo por todos nós, mas conheço o meu dever. Kadiya, não acredite nas profecias dos oddlings. Nossos servos nyssomus fugiram da Cidadela para a segurança do Pântano Labirinto, deixando-nos aqui para enfrentar o inimigo. Quanto às suas pretensões de guerreira... — Ela começou a tossir. Os objetos mágicos lançados pelos invasores haviam ateado fogo nos prédios de madeira do pátio interno e rolos de fumaça erguiam-se sobre as muralhas.

Você deve ficar conosco como mandam sua posição e sua classe.

— Então eu serei sua defensora — exclamou a Princesa Kadiya — e das minhas irmãs. Pois, se o Rei Voltrik conhece a profecia dos oddlings, não deixará viva nenhuma mulher da casa real! Pretendo vender caro a minha vida, e vou me juntar a Lorde Manoparo e aos Companheiros Fiéis que as protegem, e morrer com eles se for meu destino.

— Oh, Kadi, não pode fazer isso — soluçou a Princesa Anigel. — Devemos nos esconder e rezar para que a Dama Branca nos salve.

— A Dama Branca é um mito! — disse Kadiya. — Só nós podemos nos salvar.

— Ela não é um mito — murmurou Anigel, em voz tão baixa que quase foi abafada pelo clamor da luta que se travava a vinte ells dali.

— Talvez não — concordou Haramis. — Mas ao que parece, ela desistiu de guardar este país infeliz. De que outro modo os labornok poderiam ter atravessado o passo, o pântano e atacar a Cidadela impunemente?

— Minhas filhas, acalmem-se! — disse o rei. — Muito em breve o inimigo vai atacar este reduto, e logo terei de deixá-las.

Ordenou que saíssem do balcão aberto e fossem para a sala mais além, das damas reais, mobiliada como um solar. Os pés cobertos de armaduras haviam empurrado para os cantos as almofadas de cores vivas e as cadeiras douradas, e uma armação de tapeçaria estava caída tristemente perto da lareira, ao lado de livros abandonados e de um saltério com o bojo enfeitado partido. O rei então dirigiu-se à sua segunda filha e falou com grande severidade.

— Kadiya, faz mal em atormentar sua mãe e suas irmãs com seu comportamento tolo e essa conversa sobre as crenças dos oddlings. O Rei Voltrik teria pedido a mão de Haramis se desse crédito a esta história absurda de mulheres guerreiras? É meu dever, como senhor deste reino, defendê-lo ou morrer tentando. Mas é seu dever continuar viva e confortar sua mãe e suas irmãs. E pode estar certa de que é um encargo bem mais leve que o da pobre Haramis, que no fim, sem dúvida, terá de se submeter à vontade de Voltrik.

Ouvindo isso, as damas da corte recomeçaram a chorar e a se lamentar e os cavaleiros exclamavam em voz alta, ”Não, nunca!” e era tão grande o tumulto, que mal ouviram o ruído das novas pequenas explosões lá fora, o estridor das armas e os gritos dos feridos e dos agonizantes.

— Quietos! Quietos, todos! — gritou o Rei Krain.

Mas não se aquietaram porque o monarca Krain não reinava por meio da força absoluta, e sim encorajava seus súditos a tratá-lo como um pai e um conselheiro.

Durante quatrocentos, desde a invasão fracassada do rei de Labornok, Pribinik, o Imprudente, a nação viveu em paz. O crime e os problemas domésticos quase não existiam em Ruwenda — a não ser por um ocasional ladrão ou louco homicida e pelas depredações periódicas dos abomináveis skriteks, as quais serviam de pretexto aos cavaleiros para verdadeiras caçadas aventureiras. Durante o longo período de paz a ciência militar quase desapareceu e os Companheiros Fiéis esqueceram tudo que sabiam sobre estratégia e tática. Os reis de Ruwenda davam liberdade quase completa aos seus súditos, desde que prevalecessem a justiça e a tranqüilidade e os impostos não deixassem de enriquecer o tesouro real. Por tradição, Ruwenda não tinha exército efetivo. Os Companheiros Fiéis constituíam a guarda armada do trono, e os fortes, nas colinas, eram guardados por grupos de cidadãos livres do Território de Dylex, que se revezavam nessa tarefa e, por esse motivo, eram isentos do pagamento de impostos. Os senhores de Ruwenda e suas damas, nas mansões, governavam benevolamente seus pequenos feudos, seguindo o exemplo do trono, e todos prosperavam, exceto os preguiçosos, que não mereciam prosperar.

A pequena e isolada Ruwenda parecia ser a terra mais feliz em toda a Península, se não em todo o mundo conhecido... até o dia em que os encantamentos do feiticeiro Orogastus abriram o Passo Vispir para a ambiciosa Labornok, traçando para o exército do Rei Voltrik o caminho secreto através do Pântano Labirinto, até a Cidadela.

Dez dias. Foi o tempo necessário a eles. Nenhuma das tempestades mágicas ou outros desastres que haviam derrotado o Rei Pribinik atormentaram Voltrik. Na verdade, corria o rumor de que os abomináveis skriteks haviam se aliado a ele! Sob a proteção do feiticeiro Orogastus, as forças dos labornoks reduziram rapidamente a escombros os fortes nas colinas, saquearam as cidades vizinhas de Dylex, afugentando os habitantes para os condados remotos do leste, e quase sem encontrar resistência chegaram às muralhas externas da Cidadela. Logo a Cidadela cairia nas mãos de Voltrik, e com ela o reino de Ruwenda.

Enquanto a realeza ruwendiana e seus cortesãos torciam as mãos e choravam, viram outro tremendo clarão seguido por uma explosão ensurdecedora. As paredes espessas da fortaleza estremeceram como uma cabana de varas açoitada pelo vento. Por um momento, dentro e fora da Cidadela fez-se um silêncio total. Então, ergueu-se no ar o rugido de milhares de vozes e o soar triunfante dos clarins. Evidentemente o portão da imensa estrutura central fora aberto com a última explosão e os invasores começavam a entrar.

Então, Lorde Sotolain chegou com a armadura do rei e rapidamente o ajudou a vesti-la e Krain, com um suspiro, ergueu a espada do seu tataravô Karabordo, a qual, ele e seus companheiros sabiam, empunharia com bravura, mas sem eficiência. Nem a magnífica armadura de aço brilhante incrustada com safiras, nem o capacete com a figura em platina de um grande lammergeier, podiam fazer do Rei Krain mais do que ele era — um homem calmo de meia-idade, inteligente e com um grande coração, mas sem nenhuma das qualidades necessárias a um guerreiro.

Logo que o elmo foi colocado, ele fez as últimas despedidas.

— Sempre fui um estudioso e não um lutador, e não me arrependo disso. Por longas gerações nosso amado país conheceu a paz. Fomos protegidos — pelo menos assim nos ensinaram e nos fizeram crer — pela Arquimaga Binah, ela que é chamada de Dama Branca, Dama da Flor, a Guardiã, a zeladora do Trílio Negro. Muitos de nós, aqui presentes neste dia de infortúnio, viram e ouviram quando ela realizou as maravilhas no dia do nascimento das princesas. A Arquimaga nos disse que tudo acabaria bem, mas referiu-se também, misteriosamente, ao destino e a tarefas terríveis que esperavam as filhas da casa real. Não compreendemos suas palavras, e a maioria de nós — até mesmo eu — esqueceu-se completamente delas. Mas, pensemos nessas palavras agora, pois podem nos dar a medida das nossas esperanças. Francamente, não sei onde mais posso procurá-las.

Abriu os braços cobertos de metal e abraçou e beijou ternamente a rainha. Então, foi a vez de Haramis, a única pessoa cujo rosto não estava molhado de lágrimas, depois Kadiya, submissa, e finalmente Anigel, de cabelos dourados, mal contendo os soluços.

Depois de se despedir dos amigos, ele mais uma vez, solenemente, recomendou a defesa da rainha e das princesas ao venerável Lorde Manoparo e aos quatro cavaleiros, que levaram as mãos ao peito num gesto de lealdade e desembainharam suas espadas. Então o rei encaminhou-se para a saída. Com o nobre escudeiro Barnipo à frente levando o escudo real, o rei atravessou a porta do solar real seguido por quase todos os Companheiros Fiéis. Chegara o momento de realizar seu destino e nenhum dos presentes tinha dúvidas sobre qual seria.

Quando a noite caiu naquele dia de conquista, os fogos da Cidadela foram se apagando e a fumaça misturou-se aos miasmas que se erguiam do Pântano. A colina na qual estava a capital de Ruwenda parecia uma ilha num mar de nuvens turbulentas. Cavaleiros labornoks, comandados pelo General Hamil, vitoriosos do último confronto com os Companheiros Fiéis, conduziram o vencido Rei Krain e seu nobre escudeiro Barnipo à presença de Voltrik, do Príncipe Herdeiro Antar e do feiticeiro Orogastus. Algumas dezenas de nobres ruwendianos cativos, fortemente acorrentados e guardados, estavam também presentes na sala do trono para testemunhar a capitulação do seu país. O estandarte de Labornok, escarlate, com três espadas douradas entrecruzadas, pendia da parede atrás do trono, ocupado agora por Voltrik.

Krain, quase morto, sangrando abundantemente de ferimentos profundos no braço direito e na virilha, foi impelido para a frente e forçado a se ajoelhar aos pés do Rei Voltrik por dois cavaleiros de Hamil. Um dos seus captores jogou no chão o amarfanhado escudo azul-celeste de Krain, com o desenho do Trílio Negro quase invisível, e outro cavaleiro jogou sobre ele a espada quebrada do seu tataravô. O próprio Hamil arrancou o elmo de Krain, retirou a tiara de platina incrustada com âmbar e safiras e ergueu-a para que todos vissem. O nobre escudeiro Barnipo, ileso e não acorrentado, tremia, atrás do seu rei, seguro pelas mãos fortes de Lorde Osorkon, segundo em comando de Hamil, um cavaleiro gigantesco com armadura negra ensangüentada.

— Seja bem-vindo, real irmão — Voltrik disse para Krain. O visor colmilhado do seu capacete estava aberto e ele parecia sorrir para o derrotado monarca ruwendiano do interior das mandíbulas abertas de um sáurio fantástico incrustado com pedras preciosas. A armadura entalhada e enfeitada de Voltrik, de aço coberto de ouro, brilhava à luz das tochas e ele recostava-se com os braços na cintura, no trono de Ruwenda, com as pernas elegantemente cruzadas. — Então, agora, submete-se a mim?

— Parece que não tenho muita escolha — disse Krain, num murmúrio rouco.

— Submete-se incondicionalmente — perguntou Voltrik, encostando a tiara ruwendiana no nariz do monarca ferido —, sabendo que desse juramento depende a vida de todos os habitantes da sua Cidadela derrotada?

— Eu me submeto... se poupar também as vidas da minha rainha e das minhas três filhas..

— Isso — disse o feiticeiro Orogastus, com a voz implacável de um gongo da morte — não será possível. Elas devem morrer, como o rei. E como parte da sua submissão, deve nos dizer em que lugar deste edifício em ruínas elas estão escondidas.

— Nunca — disse Krain.

Então, o Príncipe Herdeiro Antar ousou adiantar-se e enfrentar seu pai.

— Mas, senhor, certamente nós não fazemos guerra contra mulheres indefesas!

— Elas devem morrer — repetiu Orogastus, com voz inexpressiva. E o Rei Voltrik fez um gesto de assentimento.

— Seu feiticeiro tem medo delas por causa da ridícula profecia dos oddlings — exclamou Krain. — Mas é uma refinada tolice, Voltrik — uma história para crianças! Há poucos meses estava disposto a se casar com minha filha mais velha, Haramis...

— Mas você desprezou a aliança com Labornok — disse Voltrik, com voz suave, girando a tiara com um dedo como se fosse um simples bastidor de bordado. — E respondeu ao meu delicado pedido com palavras de altivo desprezo.

— O tato nunca foi uma das qualidades dos orgulhosos ruwendianos — observou o General Hamil, com um largo sorriso. — E agora, espero que morra engasgado com o fruto que cultivou durante tanto tempo.

Os cavaleiros e nobres labornoks riram às gargalhadas, até Voltrik erguer a mão.

— Eu confio no poderoso Orogastus, que é meu Grande Ministro de Estado e o Feiticeiro da Corte. Foi ele quem profetizou um grande desastre para minha casa nas mãos de uma mulher da casa real de Ruwenda, não um oddling imundo e ignorante qualquer. Portanto, sua mulher e suas filhas devem morrer, irmão Krain, bem como você. Mas se submeter-se humildemente e as entregar a mim, a sua morte e da sua família será misericordiosa, com um único golpe de espada, e serão poupadas as vidas dos seus súditos que jurarem fidelidade a Labornok.

Krain ergueu o queixo ferido.

— Não me submeto e não entrego minhas mulheres em suas mãos.

Voltrik ergueu a tiara, comprimiu-a entre as luvas de aço da armadura, transformando-a numa massa informe, e a atirou no chão, na frente do Rei Krain, ainda de joelhos.

— Sabe qual será o destino da sua família se não se submetem a mim? E o dos seus cavaleiros aqui acorrentados?

O Rei Krain não respondeu.

Voltrik franziu as sobrancelhas hirsutas e seus dedos impacientes tamborilaram na perneira brilhante de ouro. Vendo que o rei de Ruwenda continuava obstinadamente silencioso, Voltrik ordenou.

— Tragam-me quatro ginetes!

Um capitão labornok apressou-se a obedecer. Os prisioneiros murmuraram, chocados, e o escudeiro Barnipo, pálido de medo, contorceu-se nas mãos do seu captor.

— Ha! — disse o General Hamil, rindo. — Este jovem covarde sabe muito bem o tipo de morte reservado aos que zombam de Labornok. Vejam como sua armadura está limpa — um covarde, sem dúvida. Seria muito instrutivo fazermos com que seja o primeiro a participar desta pequena manifestação da justiça de Sua Majestade.

— Não! Não! — gritou Barnipo. — Deus e os Senhores do Ar, tenham piedade de mim! — Só parou de tentar se libertar freneticamente quando o cavaleiro de armadura negra, Lorde Osorkon, o atingiu no rosto com o punho fechado. Barnipo deixou de lutar, gemendo e chorando.

Nesse momento o capitão labornok entrou na espaçosa sala do trono, acompanhado de quatro cavalariços, cada um conduzindo um grande animal de montaria, ainda equipado e ajaezado. Girando furiosos os olhos vermelhos, arremetendo os chifres, os animais bufavam e pateavam ruidosamente no chão de mármore com os cascos cobertos de metal.

— Não! — gritou Barnipo.

— Sim — disse o Rei Voltrik em voz baixa. Seus olhos encontraram os de Krain. — Vou lhe mostrar, Irmão Real, o que o espera e a todos os seus, se insistir em me desafiar. — Voltou-se para o capitão. — Segure o covarde e amarre cada um dos seus membros a uma sela; depois, com o chicote, faça os animais arremeterem, cada um para um lado, até parti-lo em quatro pedaços.

Com um grito de desespero, Barnipo contorceu-se nos braços do capitão e os cavaleiros ruwendianos começaram a lançar pragas sobre Voltrik até serem silenciados pelas adagas dos captores encostadas nas suas gargantas.

O Rei Krain disse:

— Solte o pobre rapaz e mate-me desse modo em lugar dele.

O feiticeiro Orogastus disse:

— Libertaremos o rapaz e prometemos a você uma morte honrosa, em vez da ignomínia do esquartejamento, se nos revelar o esconderijo das suas mulheres.

— Não — disse Krain.

— Senhor? — perguntou a Voltrik o General Hamil.

O rei labornok levantou-se. O manto roxo-avermelhado flutuou em volta dele, refletindo-se no metal da armadura dourada.

— Krain de Ruwenda, acaba de escolher sua morte. Amarrem o rei aos animais!

— Senhor! Senhor! — disse o escudeiro, chorando. — Permita que seja eu a vítima! Perdoe minha covardia.

— Eu o perdoo de todo o coração, Barni — disse Krain. Os lacaios seguraram o rei, retiraram sua armadura e o deitaram de costas no chão, no centro da sala. Quando começaram a amarrá-lo com cordas ásperas, o sangue correu dos ferimentos reabertos, formando uma poça vermelha sob seu corpo. Durante todo esse tempo, apesar dos gritos revoltados dos prisioneiros cativos e do choro arrependido do escudeiro Barnipo, Krain permaneceu impassível. Os quatro enormes animais relinchavam e se agitavam, excitados, e quando tudo estava pronto, o capitão, em posição de sentido, aguardou as ordens do Rei Voltrik.

Orogastus, então, murmurou alguma coisa no ouvido do seu rei. Com um gesto de assentimento, Voltrik mandou que Lorde Osorkon levasse Barnipo para perto do trono.

— Rapaz — disse o feiticeiro, fixando no apavorado escudeiro seus olhos penetrantes —, está em suas mãos salvar seu senhor desta morte horrível, bem como salvar sua própria pele e a de todos os cativos.

Com esforço, Barnipo conseguiu perguntar:

— Nas minhas mãos, senhor?

— Sim — respondeu Orogastus.

Entre os invasores, o feiticeiro era o único sem armadura, vestido todo de branco, com um manto negro com capuz. Um cordão de platina pendia do seu pescoço com um medalhão pesado, onde estava gravada uma estrela com muitas pontas. Ele tirou o capuz, revelando o rosto sem rugas, de traços regulares, embora o cabelo longo fosse branco como a neve. Com expressão benigna, dirigiu-se ao escudeiro.

— Escute com atenção, rapaz. Faça o que eu digo e poderá salvar a vida da rainha e das três princesas. Confesso que estou surpreso com a coragem demonstrada pelo Rei Krain, e resolvi que meu generoso soberano deve, afinal, se casar com a Princesa Haramis, uma vez que a filha deve ter herdado as virtudes do pai e irá passá-las para seus filhos.

— De verdade, meu senhor? — Uma esperança louca iluminou o rosto do escudeiro.

— De verdade. Assim, para que a Princesa Haramis aceite de bom grado o pedido de casamento, aconselhei Sua Majestade a poupar a vida de todas as mulheres da casa real de Ruwenda. A única coisa que tem a fazer para esse desfecho feliz é dizer-nos onde elas estão escondidas.

Os olhos do escudeiro foram do feiticeiro para o rei e ele hesitou.

— Minha vida também será poupada?

— Por minha coroa — disse Voltrik, tocando a coroa sobre o capacete ameaçador —, você viverá. Mas não demore, pois os animais estão inquietos.

— E o nosso rei?

— Ele deve morrer — disse Orogastus —, pois esta é a nossa lei. Mas você pode fazer com que seja uma morte rápida e indolor. Fale agora.

As lágrimas desciam ainda pelo rosto do jovem.

— Promete por sua honra?

— Juro pelos Senhores do Ar — disse Orogastus. Barnipo respirou fundo.

— Então.. elas estão numa fortaleza secreta sob a capela da torre central, com acesso através de uma passagem no interior do coro, que é aberta empurrando-se a saliência central do grande trílio gravado na parede. Lorde Manoparo e quatro Companheiros Fiéis estão com elas.

Os olhos profundos do feiticeiro brilharam.

— Ah!

O Rei Voltrik e o General Hamil fizeram coro:

— Ah!

— O senhor jurou não fazer mal a elas! — O rosto do jovem ficou rubro e seus lábios tremiam. — Pelos Senhores do Ar...

— Um juramento formidável — disse Orogastus calmamente — para quem acredita nessas fantasias.

— Mas o senhor também jurou! — Barnipo voltou-se apavorado para o rei.

— Jurei poupar sua vida miserável — disse Voltrik — e vou cumprir esse juramento, para que você seja um escravo nas minas pelo resto dos seus míseros dias. — Dizendo isso, desfechou um golpe com o guante de ferro e Barnipo rolou da plataforma, caindo no chão, como morto.

— Meu rei — disse o General Hamil —, vou reunir meus homens e procurar a cadela e suas três crias.

— Não — disse Voltrik. — Meu filho e eu conduziremos a busca. Você se encarrega deste lixo ruwendiano. e do seu miserável líder.

Com um sinal para que o Príncipe Antar o seguisse, Voltrik desceu da plataforma. Chamou vinte cavaleiros e dirigiram-se para a escada em espiral que levava à capela.

Hamil, levando as mãos cobertas pelos guantes à cintura, olhou para os labornoks e seus desgraçados prisioneiros que circundavam a sala, encostados nas paredes. Krain continuava amarrado aos inquietos animais.

— Dispor de prisioneiros acorrentados é uma tarefa muito tediosa — observou Hamil para Osorkon. — Tivemos um dia muito cansativo. Vamos primeiro nos divertir um pouco. — Então, gritou: — Cavalariços! Usem seus chicotes!

No horror que se seguiu, Barnipo recobrou-se rapidamente do desmaio fingido, saiu da sala sem ser visto e subiu correndo a escada dos fundos para avisar a rainha e as princesas do perigo que corriam