O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 45 de 46

Páginas do PDF

O Trílio Negro

Capítulo 44

 

Hiluro voou até a torre alta da Cidadela e desceu suavemente. Haramis desmontou, abraçou o pescoço do pássaro e disse:

— Não sei se nos encontraremos outra vez, mas leve a minha bênção. Você foi um amigo fiel e dedicado.

Hiluro inclinou a cabeça, quase tocando com o bico as pedras da ameia. Estou sempre às suas ordens, Dama Branca. E levantou voo para o céu outra vez encoberto, com as três luas escondidas pelas nuvens. Haramis levantou o alçapão, notando que eles o haviam consertado depois da invasão da Cidadela, e desceu a escada. Os poucos homens de guarda nos andares onde ficavam os tesouros aparentemente não notaram sua passagem. Outros soldados patrulhavam o corredor que levava aos níveis centrais da torre principal e Haramis cruzou também com um grupo de cavaleiros labornoks, que olhavam sombriamente para o rio de uma das janelas. Ninguém sequer olhou para ela.

É como se eu fosse um fantasma, assombrando meu antigo lar, pensou a princesa. Será que me ignoram por ordem de Orogastus, ou é o talismã que me faz invisível a eles?

Serei espectadora neste conflito, mantendo-me distante, como fazia a Dama Branca? Qual será a minha parte na realização da profecia?

Finalmente chegou ao solar. O salão estava preparado para ela. O fogo ardia na lareira e as velas bruxuleavam nos nichos. Sobre a mesinha, ao lado das janelas que davam para o balcão, havia uma jarra com vinho e copos de cristal.

Haramis aproximou-se da janela e seu coração se apertou com o que viu lá fora. Milhares de guerreiros enfileiravam-se no adro do pátio interno — soldados armados e cavaleiros andavam de um lado para o outro, inspecionando os armamentos, outros estavam de pé, ao lado das fogueiras. Havia barricadas ao lado do portão principal e sobre uma delas, uma máquina estranha, guardada por homens do feiticeiro. Sobre plataformas maciças, dos dois lados da entrada da torre principal, havia mais quatro máquinas e os homens que deviam operá-las. Ao longo das ameias dos pátios interno e externo e do barbacã, alinhavam-se os arqueiros e os homens das catapultas, em posição de combate. O portão da Cidadela, que se abria para a estrada, estava completamente bloqueado por uma grande pilha de entulho.

Sem esperança, pensou Haramis, desanimada. Sem esperança. E voltou-se no momento em que Orogastus entrava na sala.

O feiticeiro vestia seu traje negro e prata e a espécie de coroa em forma de estrela, mas a máscara era diferente da que usava para tratar com os Poderes das Trevas, pois cobria toda a cabeça, escondendo completamente o rosto. Até as aberturas dos olhos eram protegidas por vidro negro e sua aparência era tão ameaçadora que Haramis deixou escapar uma exclamação de susto.

Ficaram frente a frente, imóveis. De alguma parte distante e profunda da torre, ouviram um som que Haramis não identificou.

Orogastus tirou o capuz com a máscara, as luvas e pôs tudo sobre um dos bancos ao lado da lareira.

— Você fez sua escolha — disse ele, lentamente —, e não me escolheu.

— Não.

— Escolhi meu caminho há muito tempo — disse Orogastus —, e não posso desistir e voltar agora.

— Eu sei.

O feiticeiro tirou de um bolso sob o manto uma caixinha de madeira com figuras sinistras entalhadas e abriu-a, revelando uma esfera verde. Haramis olhou, sem compreender. Percebia vagamente que os ruídos que ouvira antes- aumentavam de volume. Eram gritos e o tumulto da luta que se travava nos subterrâneos da Cidadela.

— Isto chama-se o Eflúvio Maldito. — Orogastus guardou a caixinha, com expressão séria e implacável. — Se eu atirar esta esfera aqui de cima, todos que estão nos pátios interno e externo morrerão em meio a terríveis tormentos. Dê ordens para Kadiya e Anigel se entregarem e passarem seus talismãs para você. Para nós!

Orogastus a abraçou e beijou quase ferozmente. Depois, apanhou as luvas e a máscara e saiu, batendo a porta.

— Não! — murmurou Haramis, — Não! Rapidamente tirou seu talismã para ver Kadiya e Anigel com sua força invasora. O Círculo dessa vez não tomou a cor perolada, mas cintilou fortemente e pareceu se expandir para envolvê-la em sua luz...

... e Haramis estava pairando no ar sobre a cozinha da torre, onde um bando de wyvilos altos e medonhos, comandado pelo Príncipe Antar, atacava um grupo de soldados e cavaleiros labornoks. Brandindo seus machados de cabos longos numa violenta carnificina, o povo das florestas desmoralizava e destruía o inimigo. E à medida que os homens caíam ou recuavam e os wyvilos abriam caminho, pequenos uisgus com armaduras de escamas e círculos vermelhos em volta dos olhos saíam aos bandos dos corredores como uma enchente de ouro derretido, gritando e brandindo lanças, assim que tinham espaço suficiente.

Os invasores passaram rapidamente da cozinha arrasada para a padaria e a despensa, e daí para a área aberta do pátio interno, onde os esperava a força principal dos defensores, gritando e brandindo suas armas.

Haramis não localizou imediatamente suas irmãs. Finalmente viu Kadiya, uma guerreira com cota de malha dourada, pouco mais alta do que os uisgus, incitando seus pequenos soldados, com o talismã erguido. Então viu Anigel, toda vestida de couro azul, que parecia bruxulear na lua incerta, ao lado do Príncipe Antar com sua armadura azul-celeste. Sempre que um inimigo tentava atacar o príncipe pelas costas, Anigel saltava sobre ele com uma pequena arma e o infeliz labornok caía imediatamente, imóvel.

Ora, Anigel está invisível! pensou Haramis. Por isso pode atacar impunemente aqueles brutos. Kadiya também deve estar protegida por seu talismã. E ao que parece, estão vencendo

Era verdade. Porém, quando os invasores saíram para o pátio aberto, a vantagem passou para o outro lado. O inimigo superava a pequena força das princesas em mais de quinze por um, e os lacaios do feiticeiro começavam a armar suas máquinas infernais, apontando-as para a área na frente da porta da despensa.

Haramis saiu do transe e correu para o balcão, de onde podia assistir à luta com seus próprios olhos. Chamou as irmãs urgentemente, usando o talismã.

Kadiya! A máquina de relâmpagos está na barricada próxima do portão principal! Acabe com ela! Ou melhor, use-a para explodir os portões, destruindo o monte de entulho com que os labornoks bloquearam a entrada da Cidadela!

Kadiya não respondeu, mas Haramis viu a figura dourada sair do meio dos uisgus e passar entre a horda de cavaleiros, com a luz das fogueiras cintilando na sua armadura de escamas.

Anigel! Perto da porta principal da torre há plataformas de madeira..

Mas, antes que pudesse terminar, os lacaios do feiticeiro começaram a usar as máquinas mortais. Bolas de fogo brancas e douradas partiram das duas máquinas contra os invasores, e quando acertavam o alvo, grudavam nas armaduras, infligindo queimaduras terríveis. Das duas outras máquinas, que faziam um barulho ensurdecedor, saiu uma chuva de balas de metal, seguida por uma linha de fagulhas vermelhas. Penetravam na carne e nos ossos, provocando ferimentos mortais quando não matavam imediatamente.

Estou vendo as armas, Haramis! Estou indo para lá!

Anigel! Haramis mordeu o lábio nervosamente. Tenha cuidado! Embora não possam vê-la...

Mas nesse momento Haramis cambaleou, quase cega com a descarga da máquina de relâmpagos. A explosão trovejante fez tremer a torre principal e a jarra de vinho e os copos de cristal partiram-se no chão.

Quando sua vista clareou, ela ergueu o talismã para ver através da nuvem de fumaça e poeira. Atónita, viu que quase toda a casa da guarda, acima do portão principal, estava destruída. Mais ainda, a trilha da destruição, seguindo em linha reta, havia demolido o portão e o barbacã... O monte de entulho na entrada da Cidadela estava maior do que nunca.. mas as colunas maciças que sustentavam os portões e uma área de quatro ells em cada lado do muro desmoronavam ante seus olhos.

E Kadiya.

— Deus de misericórdia! — exclamou Haramis.

No topo da barricada, a máquina de fazer relâmpagos era agora uma ruína queimada e retorcida. Ao lado dela estavam os corpos chamuscados dos servos do feiticeiro, e entre eles uma figurinha dourada, imóvel com a espada sem ponta ainda na mão. Kadiya deve ter destruído a máquina com seu talismã, pensou Haramis, mas não pensei que ela podia ser atingida! Preciso avisar Anigel...

A tola! Haramis compreendeu que estava ouvindo mentalmente a voz de Orogastus. Ela usou toda a força da máquina para um único disparo! As defesas estão destruídas e o inimigo atravessa o rio, a caminho da Cidadela!

Haramis o viu logo abaixo de onde ela estava, de pé num pequeno parapeito, logo acima da entrada da torre, a estrela na sua cabeça cintilando a cada movimento, agora que a fumaça tinha desaparecido e as dezenas de pequenos fogos acesos pela máquina cresciam com o vento. A voz do feiticeiro, ampliada por alguma mágica, parecia uma corneta gritando com os labornoks, que não tinham idéia do que estava acontecendo.

— Mantenham suas posições! Homens de Labornok, mantenham suas posições!

O Rei Voltrik apareceu atrás de Orogastus, com sua bela armadura de ouro, o elmo denteado, a espada longa em riste. Os homens lá embaixo o saudaram com gritos e a luta entre labornoks e os invasores wyvilos e uisgus recomeçou.

De repente o Príncipe Antar gritou com voz estentórea, que ecoou em todo o pátio.

— Homens de Labornok, não dêem ouvidos àquele demónio! Eu sou Antar, seu príncipe! E eu digo que Orogastus enfeitiçou meu pai e o transformou num fantoche!

Um rugido ergueu-se dos milhares de homens.

— Silêncio, traidor! — gritou Orogastus.

Mas outras vozes gritaram: ”Ele tem razão! O príncipe tem razão. Vejam como o rei só fica ali parado!” E outro disse: ”Por que o rei não está aqui, nos conduzindo pessoalmente?” E outro: ”Adiante-se, Voltrik. Fale conosco!” Outros brados seguiram, até Orogastus levantar as duas mãos com os olhos cintilando como duas estrelas.

Fez-se silêncio.

O Rei Voltrik sabia que precisava dizer alguma coisa. Mas o quê? Sua coragem estava despedaçada, suas grandes ambições desfeitas como sonhos tolos. A realidade era o exército ruwendiano entrando na Cidadela, apesar de toda a magia de Orogastus. A realidade eram as vozes dos seus homens hesitantes na sua lealdade. A realidade era seu filho Antar, sempre desprezado, desafiando-o abertamente. A realidade, acima de tudo, era o fracasso de Orogastus na destruição das três princesas bruxas, uma das quais estava destinada a destruí-lo

— Soldados de Labornok, continuem a luta! Lutem, eu digo! — Mas a voz do rei era mais o coaxar de um sapo do que um clarim de comando. — Quem está enfeitiçado é meu filho, o miserável. Morte ao traidor!

O pequeno discurso, em vez de encorajar os cavaleiros e os soldados, provocou um clamor mais ruidoso do que antes. E o Príncipe Antar gritou:

— A mim, filhos de Labornok! Abaixo o feiticeiro! A mim, eu digo!

A luta recomeçou, renhida outra vez, e a despeito dos gritos de advertência de Orogastus um grande número de labornoks tirou suas capas vermelhas e colocou-se ao lado do príncipe e das suas forças quase dizimadas.

Na confusão, quase ninguém notou — e certamente não o furioso Orogastus — que os homens vestidos de preto que manejavam as máquinas terríveis caíam desacordados no topo da plataforma. Só Haramis, boquiaberta com a temeridade da sua irmã mais nova, viu Anigel lançar o último dardo e começar a empurrar as máquinas pesadas para a borda da plataforma, jogando-as sobre as pedras cinco ells abaixo, onde elas se esfacelaram.

Quando Orogastus percebeu o que estava acontecendo, aos berros mandou que os soldados subissem na segunda plataforma rapidamente para defender as máquinas com suas próprias vidas. Mas os soldados perceberam que os homens do feiticeiro tinham sido eliminados por alguma arte mágica e que essa mágica estava em ação ainda na plataforma, pois seres invisíveis estavam atirando coisas sobre eles. Ninguém se moveu e Anigel passou da primeira para a segunda plataforma e acabou de destruir as máquinas que o feiticeiro havia usurpado dos Desaparecidos.

Muito bem! disse Haramis para a irmã mais nova. Mas agora precisamos ajudar Kadiya.

Anigel estava eufórica. Não foi maravilhoso, como Kadiya lançou o relâmpago? Meu talismã mostra nosso exército desembarcando no cais da Cidadela neste momento — e eles entrarão facilmente pelo muro destruído!

Anigel, Kadiya foi ferida. Vá até ela. Estou descendo para ajudar.

Haramis apanhou a coroa de Ruwenda e o manto da Arquimaga e desceu apressada, para ajudar as irmãs.

— Lá, lá, meu senhor — não está vendo?

Orogastus apontou para a casa da guarda destruída, além da barricada. O Rei Voltrik olhou com atenção e finalmente disse:

— Sim. Com uma espécie de armadura dourada. É ela?

— Exatamente. Inconsciente por ter demolido minha máquina. Ela não pode agora usar seu talismã. A Princesa Kadiya não está mais invisível e está completamente desprotegida! Caiu em nosso poder! Tudo que tem a fazer é ir até lá e acabar com ela, antes que recobre os sentidos — ou que seja salva por sua gente.

— Eu? — gaguejou o rei. — Ir lá embaixo?

— Tem medo de uma jovem inconsciente? — A voz do feiticeiro era macia e persuasiva. — Não vejo nenhum inimigo ao lado dela, meu rei, só os seus homens, que têm medo de tocá-la. Mas o senhor pode acabar com ela! Sua maior inimiga! Kadiya é a princesa marcial, a mulher da profecia. Ela matou o General Hamil e destruiu metade do seu exército, e foi quem instigou esta batalha. Mas ela não venceu! Temos ainda quase cinco mil homens experientes para enfrentar esta horda e a comandante do inimigo está ali à espera da sua espada!

— Isso é verdade — Voltrik empertigou-se. — A mágica da princesa de nada vai lhe servir agora!

— Vá, meu senhor. Mate a Princesa Kadiya, depois mande seus homens avançarem contra o barbacã da Cidadela. Cortem o caminho dos invasores quando tentarem passar sobre as ruínas.

— A bruxa morrerá! — berrou Voltrik. — E quando eu tiver na mão sua cabeça decepada, você anuncia meu feito com sua voz de trovão!

Orogastus foi até o parapeito e gritou:

— Homens de Labornok! Seu rei vai conduzi-los à vitória! Todos para o barbacã! Preparem-se para o encontro final com o inimigo!

Foi saudado com gritos esparsos.

— Quer saber — disse o rei com um largo sorriso. — Parece que estamos mesmo com vantagem. Quase todos os miseráveis que entraram pelas masmorras foram abatidos.

— Seu filho, o traidor Antar, está ganhando aliados enquanto fica aqui parado, meu rei. Desça! Mate Kadiya primeiro, depois organize seus homens para o combate.

— À vitória! — rugiu Voltrik, fechando com um estalo o visor denteado do seu elmo.

— Vá — disse Orogastus. — Vá.

Quando o rei finalmente começou a descer a escada o feiticeiro deu um grande suspiro de alívio. Descalçando uma luva, pôs a mão dentro do manto e tocou a caixinha de madeira com a esfera mortal, ao mesmo tempo enviando uma prece silenciosa aos Poderes das Trevas.

Voltrik conseguiria matar Kadiya? Ou o talismã da princesa iria fazer com o rei o que tinha feito com Hamil e Voz Vermelha? Valia a pena arriscar. Se Voltrik fosse bem-sucedido, não seria necessário arrasar completamente todo aquele cenário..

Orogastus observou o avanço do exército inimigo — aumentado agora pelas brigadas armadas dos ruwendianos do Conde Palundo. Então, examinou a escuridão do pátio interno da Cidadela, procurando descobrir o paradeiro das outras princesas.

Não viu Anigel nem Haramis, mas apenas uma pequena oddling, abrindo caminho cuidadosamente no meio do tumulto e da carnificina, como se procurasse por alguém.