O Trílio Negro
Capítulo 4
Haramis correu, acompanhando os passos miúdos e irregulares do oddling músico da corte, e naquela fuga arrojada descobriu coisas sobre a própria coragem — ou a falta dela — que nunca teria imaginado.
Subiram através de passagens secretas e de escadas escuras, cada vez mais cobertas de poeira e teias, lugares onde, Uzun garantiu, ninguém havia estado desde que os primeiros ruwendianos tomaram a antiga Cidadela. Finalmente, terminou o caminho secreto e foram obrigados a sair da passagem e enfrentar a larga escada de pedra em espiral da torre central da Cidadela, feita pelos ruwendianos. As lâmpadas de ferro trançado com tubos de óleo e pavios, pregadas nas paredes, estavam acesas e tudo indicava que os perseguidores labornoks estavam no outro lado da torre.
Haramis e Uzun galgaram laboriosamente, andar após andar, passaram pela enorme biblioteca real, onde a princesa havia passado tantos dias felizes, estudando. O andar da biblioteca estava deserto, mas Haramis deixou escapar uma exclamação indignada quando viu as estantes caídas e os volumes preciosos espalhados pelo chão. Porém, nada parecia ter sido destruído deliberadamente. Sem dúvida, Orogastus deu ordens para que isto não fosse destruído, pensou ela. No lugar dele, eu certamente faria o mesmo.
Embora com relutância, Haramis sentia uma grande admiração pelo feiticeiro inimigo, um homem que comandava o relâmpago, que havia traçado a trilha complexa através do pântano Labirinto com sua clarividência. A queda de Ruwenda era devida somente ao poder de Orogastus, e Haramis respeitava a competência, mesmo quando usada contra ela e contra os seus. O feiticeiro despertava sua curiosidade e, enquanto acompanhava Uzun, pensava no inimigo. Que espécie de homem ele pode ser, se for realmente um homem?
Haramis e Uzun passaram cautelosamente pelo portão de ferro da antecâmara, no décimo quinto andar da torre, onde eram guardadas as jóias da coroa. A princesa hesitou quando ouviu o ruído dos invasores atrás da porta fechada da casaforte, mas não apareceu ninguém. Continuaram a subida e passaram pelo andar seguinte, trancado e selado, onde eram guardadas pedras preciosas, lapidadas e em bruto, e o dinheiro recentemente cunhado, a caminho do décimo sétimo andar, uma espécie de oficina fortificada, onde os objetos preciosos danificados eram reparados ou derretidos. Haramis sabia que faltavam apenas dois andares para chegarem ao telhado. Primeiro um pequeno arsenal, depois o dormitório dos guardas e de outros trabalhadores da torre.
Uzun parou para descansar. Tirou o gorro, enxugou a testa enrugada e procurou retomar o fôlego. Haramis o observava preocupada. O músico oddling era seu amigo desde a infância, e ela gostava dele e confiava na sua lealdade, embora Uzun não fosse humano. Entre os nativos, os nyssomus eram os que mais se pareciam com os humanos, mas o vermelho do seu sangue era opaco e escuro, seus ossos tinham formas estranhas e seus corações batiam no outro lado do peito. Todos afirmavam possuir a Visão e, na verdade, às vezes podiam se comunicar entre si, a distância, por meio da fala sem palavras. Mas para a maioria dos ruwendianos eram seres inferiores, incultos e quase incivilizados, embora aprendessem com facilidade os costumes dos humanos e às vezes demonstrassem verdadeiro talento para as artes e o artesanato. Quando era pequena, Haramis pensava que os oddlings nyssomus pertenciam ao rei, seu pai, como animais de estimação. Mas o rei explicou que os pequenos nativos eram livres, e tinham alma, e deviam ser tratados como pessoas de verdade..
Quando Uzun se refez, prosseguiram na subida cautelosa. Quando estavam próximos do último lance de escada, Uzun fez Haramis parar, enquanto ele ia verificar se o caminho estava livre. Crescia a preocupação da princesa com o que ia acontecer quando chegassem às ameias da torre. Enquanto Uzun espiava sobre a borda do- último andar, Haramis franziu a testa e enrolou o manto no corpo. Um vento frio assobiava entre os vãos abertos, quase apagando as chamas dos archotes presos nas paredes.
Uzun não a chamou para continuar a subida e Haramis sobressaltou-se. Ele desceu de onde estava com uma garra grossa encostada nos lábios e uma expressão de alarme nos olhos ambarinos. Quando chegou perto dela, murmurou:
— Só um cavaleiro de guarda, princesa. Sem dúvida os outros estão revistando o resto desse andar.
— Eu sabia! — disse Haramis em voz baixa. — Estamos encurralados, com soldados inimigos acima e abaixo de nós! O plano da sua Dama Branca falhou.
— Fale baixo — implorou o oddling. — Acho que podemos passar, mas terá de ser corajosa e rápida. Pode suspender a saia do seu vestido?
Haramis assentiu com ar sombrio, tirou o manto e pôs a coroa sobre ele cuidadosamente. Então, passou a ponta da saia por dentro do cinto incrustado com pedras preciosas, deixando-a cair como um blusão até os joelhos. Enrolou a coroa no manto, amarrou as pontas e dependurou no ombro. Olhou para Uzun.
— E agora?
— Há uma escada de madeira que vai dar no parapeito, a uns quatro ells de onde está o guarda. Ele foi ferido e está com o braço esquerdo imobilizado, mas o direito, o braço da espada, está perfeito. Provavelmente está cansado e farto dessa busca inútil, que o privou do prazer do saque, das comidas e das bebidas.
— E do prazer de violentar as mulheres da Cidadela — acrescentou Haramis. — Sem dúvida esse será meu destino, antes de ter o pescoço cortado e ser jogada nos esgotos.
Os olhos de Uzun estavam repletos de censura.
— Princesa, você só será molestada sobre o meu cadáver. Confie na Dama Branca e ouça meu plano, eu lhe peço.
Haramis girou nervosamente o amuleto do trílio entre os dedos, passando o polegar repetidamente no âmbar que continha o pequeno botão fossilizado. Não duvido da sua dedicação pensou ela, mas passar ”sobre seu cadáver” não será difícil para os soldados. Para não ferir os sentimentos do pequeno oddling, disse apenas:
— Estou ouvindo, Uzun.
— Eu vou sair de repente daqui e correr para o cavaleiro, fingindo que estou morrendo de medo.
— Se estiver tão assustado quanto eu, isso não será difícil.
— Vou saltar e me contorcer, fazendo meus olhos saírem das órbitas e recolhendo-os, seguidamente.
Haramis sabia que isso representava um grande sacrifício. Só quando era pequena vira Uzun fazer isso, uma vez ou outra, para divertir as princesas. Porém, antes dos seis anos tinha aprendido que um nyssomu adulto jamais demonstra tanta falta de controle, a não ser que esteja fora de si.
— Eu me encarrego de distrair o vilão — continuou Uzun.
— Enquanto isso, você sobe na escada de madeira e abre o alçapão. Então eu corro, subo atrás de você, derrubamos a escada e trancamos com segurança a porta do alçapão.
— E depois? Mesmo que seja possível deter os soldados — e supondo que seu feiticeiro não faça uso de um dos seus malditos relâmpagos — o topo da torre não é lugar para ficar sitiado. É claro que podemos morrer heroicamente de fome e de sede, mas isso não vai ajudar muito Ruwenda!
— Eu não sei o que acontece depois! — disse Uzun, irritado. — Apenas obedeço às ordens da Dama Branca! Oh, princesa, será que não pode esquecer seu constante questionamento? Mais cavaleiros podem aparecer a qualquer minuto! Dê-me apenas um momento para distrair o homem e saia daqui depressa.
Ele subiu os últimos degraus e entrou na ante-sala do guarda.
Haramis ouviu o soldado praguejar, e depois o ruído da espada sendo tirada da bainha. Mas Uzun estava cacarejando como um doido, dançando no assoalho de madeira, e a linguagem baixa do guarda transformou-se numa gargalhada. Tensa, Haramis espiou por cima do último degrau e viu o músico, normalmente sereno, pulando e girando, tatalando comicamente as longas orelhas, como as asas de um pássaro noturno embriagado com o fermento das frutas. Seus olhos entravam e saíam das órbitas e a língua enroláva-se e se desenrolava fora da boca enquanto seus gritos de pavor percorriam toda a escala musical.
O cavaleiro ria a não mais poder, com o corpo curvado e a espada abaixada. Haramis subiu rapidamente a pequena escada de madeira e abriu o alçapão.
— Uzun! Venha! Depressa! — Ajoelhada no telhado, ela segurou a escada quando o oddling pôs o pé no primeiro degrau. O cavaleiro enganado deu um grito de alarme e correu para a escada, brandindo a espada. Haramis segurou o pulso de Uzun e o puxou para cima. A espada, dirigida ao tornozelo do oddling, entrou com força no degrau. Juntos empurraram a escada enquanto o cavaleiro tentava ainda livrar a lâmina da madeira.
Perdendo o equilíbrio, o homem coberto pela armadura caiu com um baque ensurdecedor. Ouviram gritos vindos do dormitório e, quando Uzun fechou com força a porta do alçapão, outros cavaleiros labornoks apareceram.
O vento soprava com força no telhado da torre, trazendo o cheiro dos alagados e levantando a névoa que cobria o Pântano Labirinto e as partes mais baixas da Cidadela, açoitando a bandeira cor-de-sangue, de Labornok, no mastro alto, no lado da torre que dava para o rio. Algumas fogueiras crepitavam ainda logo abaixo, entre os prédios do pátio interno, com as chamas tremulando sinistramente sob a neblina. O céu azul profundo estava pintado de estrelas e, no oeste, as Três Luas caminhavam para a sua conjunção, que devia ocorrer na fase da lua cheia, dentro de quatro semanas.
O medo e a indignação da princesa transformaram-se numa raiva candente. Estavam num beco sem saída. Os cavaleiros atacavam o alçapão com espadas e machadinhas e logo o destruiriam. Mas não ia permitir que os labornoks a apanhassem viva! Antes disso, saltaria das ameias da torre..
O alçapão se abriu e um cavaleiro cujo elmo parecia uma máscara grotesca subiu para o telhado com um grito de triunfo.
Haramis, na borda do parapeito, ao lado de Uzun, segurou com força o amuleto, como fazia para afastar os terríveis pesadelos da infância. Mas esse pesadelo era real.
— Senhores do Ar, protegei-nos! Uzun exclamou:
— Dama Branca! Proteja a princesa!
Três homens com armadura correram para eles com as espadas erguidas. Mas, no mesmo momento, uma rajada de vento varreu o telhado e as estrelas desapareceram atrás de dois imensos vultos negros que desciam num mergulho rápido, na direção da torre. Com um rugido ensurdecedor, um deles atacou diretamente os três homens apavorados.
— Lammergeiers! — gritou um dos cavaleiros. — Cuidado!
Mas no mesmo instante uma asa gigantesca atingiu os três homens e os jogou do alto do parapeito. Suas vozes uniram-se num único grito, que cessou bruscamente depois de poucos segundos. Os companheiros, que começavam a aparecer na abertura do alçapão, recuaram e desapareceram. Os gritos de dor, o ruído metálico das armaduras e das espadas indicavam que alguns deviam ter caído da escada na pressa da fuga. Outros labornoks ficaram imóveis, observando, mas nenhum se arriscou a sair de onde estava.
Mais tarde contaram ao Rei Voltrik e ao feiticeiro Orogastus o que haviam visto. Duas criaturas gigantescas com corpo branco e asas listradas de preto e branco, mergulhando e aterrissando no telhado da Torre Alta, seus talões tirando faíscas das pedras, olhos e bicos serriihados cintilando à luz fraca da lua. A Princesa Haramis subiu nas costas de um deles e Uzun montou no outro.
Então, os grandes lammergeiers abriram as asas e voaram, levando os fugitivos para noroeste, na direção do forte dos distantes Montes Ohogan.