O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 17 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 16

 

A Voz Verde parou na porta do aposento real e, com uma careta constrangida, abriu a bolsa que trazia no cinto. Tirou dela três máscaras estranhamente tecidas, para cobrir a parte inferior do rosto — uma verde para ele, uma azul para seu companheiro e a terceira mais enfeitada, negra e prateada, para seu mestre.

— Devemos usar isto antes de nos aproximarmos do Rei Voltrik — explicou a Voz Verde. — A necrose da carne real progrediu a tal ponto que o fedor é pior que o do esgoto, tanto que homens fortes vomitam e os fracos podem desmaiar. Coloquei ervas aromáticas dentro das máscaras que nos protegerão das exalações fétidas durante mais ou menos uma hora. Isto será suficiente para seus propósitos, mestre?

Orogastus fez um gesto afirmativo. Seu olhar era firme, acima da máscara, e, se temia a tarefa que o esperava, não demonstrou esse temor aos acólitos telepáticos.

O médico real — bêbado, soluçando e temendo perder sua cabeça — relutantemente havia revelado o diagnóstico à Voz Verde, quando o feiticeiro e seus companheiros estavam ainda no rio, a meio dia de distância da Cidadela. Apesar da administração da Pastilha Dourada, com seus poderes mágicos, a necrose progrediu, pondo em risco a vida do rei, e o médico não teve coragem de executar o único tratamento que podia salvá-lo.

Quando Orogastus recebeu a notícia nefasta, mandou açoitar os remadores e chegaram na Cidadela em cinco horas, à custa de meia dúzia de vidas humanas. Agora o feiticeiro precisava agir e salvar pessoalmente a vida do rei, cuja morte significaria a ruína de todas as suas ambições.

— Abra a porta — ordenou Orogastus.

A Voz Verde obedeceu, com uma curvatura.

O quarto, antes ocupado pelo Rei Krain, fora redecorado apressadamente com o vermelho-vivo de Labornok, para o novo soberano. Estava muito escuro, iluminado apenas pelas brasas da lareira e por uma vela sobre a mesa, onde estava também uma bacia, ataduras e outros instrumentos e poções com os quais o médico da corte tentara inutilmente curar a mão do rei. O leito enorme ficava no centro do quarto, sobre uma plataforma, rodeada por cadeiras vazias. As cortinas estavam abertas.

Orogastus deu ordens rápidas, em voz baixa.

— Voz Verde, traga os dois candelabros para perto do leito e acenda as velas, depois, limpe a mesa e a coloque o mais perto possível da mão doente do rei. Voz Azul, prepare o instrumento mágico. Acho que chegamos bem na hora.

O vulto, sob os lençóis, agitou-se, gemendo.

— Quem está aí? É você outra vez, maldito sanguessuga, que vem me atormentar com sua incompetência? Saia! Pelo menos deixe-me morrer em paz!

— Sou eu, meu rei — disse Orogastus. — E vossa majestade não vai morrer. — Ergueu o braço do rei com todo o cuidado, provocando ainda assim um grito de dor.

— Filho da mãe! Deixe-me em paz! Sua pastilha miraculosa só me ajudou por um dia, depois meu sofrimento ficou pior do que antes. Ah, Zoto, tenha misericórdia — é culpa delas. Das princesas! Elas me amaldiçoaram de longe! Sua vingança é que me tortura e que vai me matar.

— Ele está delirando — disse Orogastus. Tirou de um bolso interno uma caixinha de malaquita verde e a abriu. Dentro havia seis esferas pequenas que brilharam amarelas e transparentes à luz das velas.

— Resta apenas a metade agora — disse o feiticeiro, pensativo. Tirou uma da caixa e guardou as outras cuidadosamente.

Então, apanhou o copo com água e fez o Rei Voltrik engolir a Pastilha Dourada. Logo depois, com um suspiro fundo, o rei relaxou o corpo no leito.

Com uma faca pequena e afiada, Orogastus cortou as ataduras que envolviam a mão do monarca. Apoiando o braço doente na mesa, o mago retirou o curativo, expondo o ferimento. O braço todo estava quente, com linhas vermelhas que iam do pulso até a axila. Do ferimento aberto, na mão muito inchada, com as pontas dos dedos negro-azuladas, exsudava um líquido cujo fedor nem as máscaras com ervas podiam disfarçar completamente. O feiticeiro entregou as ataduras à Voz Azul, para serem queimadas, enquanto dava instruções rápidas ao outro assistente, que acabava de abrir sobre a mesa uma bolsa de couro. Orogastus mandou a Voz Verde segurar o braço doente e colocou-se ao lado da cabeça do rei. Voltrik estava emaciado, febril, com os olhos remelentos, a barba, antes imaculada, suja e emaranhada.

— O que está fazendo? — exclamou o rei, erguendo a cabeça dos travesseiros úmidos de suor. — Larguem meu braço, seus worrans traidores! Eu sei quem vocês são! Foram enviados pelas três bruxas ruwendianas para acabar comigo!

— Olhe nos meus olhos — ordenou Orogastus. — Olhe e encontre o alívio para seu sofrimento.

O mago mascarado segurou a cabeça do rei com as duas mãos e a virou, de modo que seus olhos se encontraram. Voltrik gemeu, depois, com um profundo suspiro, caiu para trás nos travesseiros, quase inconsciente.

Orogastus voltou para o lado da mesa e apanhou um instrumento estranho, um cubo prateado cintilante com uma extensão que parecia uma tromba azul. Na parte superior havia fileiras de saliências negras e vermelhas, como grandes verrugas, com símbolos misteriosos sob cada uma e dentro dele uma moldura com uma sombra cinza-esbranquiçada no centro. Os dedos do feiticeiro moveram-se sobre as verrugas, apertando ora uma, ora outra e o interior branco da moldura iluminou-se, aparecendo então fileiras de hieróglifos coloridos. A Voz ao seu lado deixou escapar uma exclamação de espanto. Um dos botões vermelhos acendeu-se e ficou amarelo-dourado.

— Mantenha o braço completamente imóvel, assim — ordenou Orogastus. — Entoem o Canto da Cura, mas desviem os olhos, pois esta máquina dos Desaparecidos, quando em funcionamento, pode cegar olhos sem proteção.

O feiticeiro colocou o aparelho um palmo abaixo do cotovelo do rei e as três Vozes começaram a cantar em uníssono. Então, Orogastus protegeu os olhos com um visor e, terminados os preparativos, apertou o maior botão do aparelho. Um raio de luz cegante branco-azulada, fino como um fio de linho, saiu da extensão do cubo e Orogastus manipulou o aparelho de modo que o raio de luz atravessasse o membro real, desenhando um V profundo na carne.

O chiado foi seguido por uma espiral de fumaça. Quando o raio se apagou, o antebraço de Voltrik estava amputado e no tampo da mesa havia a marca queimada de um V. O Canto da Cura terminou.

— Está feito. — Orogastus tirou o visor e examinou o que restava do braço. Os grandes vasos sangüíneos estavam cauterizados, e a carne estava vermelha em volta dos ossos.

— Ótimo. A putrefação mortal não tinha atingido o resto do braço. Agora a Pastilha Dourada pode fazer seu trabalho sem ter de lutar contra o veneno contido na mão necrosada.

Apertou um botão e todas as luzes do aparelho se apagaram.

— Voz Azul, embrulhe o membro amputado e queime, com cuidado para não tocá-lo. Depois, acondicione cuidadosamente meu aparelho. Voz Verde, limpe a mesa e a pele sã do braço com brandy bem forte. Lave com uma esponja a testa e as têmporas do rei e traga roupas de cama e um roupão limpos da lavanderia. Chamusque ataduras no fogo e faça um curativo frouxo. Antes de ser costurado, precisa eliminar certos fluidos tóxicos. Mais tarde darei a vocês e àquele médico cretino instruções para o tratamento do braço, que devem ser seguidas rigorosamente.

— O sanguessuga deve ser poupado, Grande Senhor? — perguntou Verde, surpreso.

— A não ser que você queira dar mingau na boca do rei, esvaziar o penico real e trocar as roupas de cama, seu tolo! Agora, cuide do rei!

Enquanto as duas Vozes tratavam de Voltrik, Orogastus foi até a janela do aposento, abriu as cortinas pesadas e depois os vidros. O sol brilhava lá fora e uma brisa leve soprava do norte. Com a carne putrefata queimada e o cheiro horrível arejado, Orogastus tirou a máscara. O rosto de traços finos estava abatido e pálido, os lábios sombriamente cerrados. Foi por pouco, mas agora o rei ia se recuperar rapidamente com um tratamento cuidadoso e palavras de incentivo. O feiticeiro voltou para o leito real.

— Voltrik, escute! — disse Orogastus, em voz baixa e autoritária.

O rei murmurou:

— Estou ouvindo!

— Esteve muito perto da morte, meu Senhor, mas eu o salvei, quando todos os outros haviam perdido as esperanças. Sua majestade vai viver. Terá de suportar ainda algum sofrimento, mas dentro de poucas semanas estará forte outra vez. Eu, Orogastus, prometo solenemente.

— Obrigado — disse o rei, com voz fraca. Seus olhos estavam fechados e o rubor da febre havia desaparecido. — Você cortou a mão?

— Sim, senhor. O rei suspirou.

— Que seja. Pelo menos não perdi a mão da espada, graças a Zoto, o Misericordioso, e a você.

Gemeu um pouco quando as Vozes trocaram sua roupa e colocaram travesseiros limpos sob sua cabeça e sob o braço enrolado em ataduras. Orogastus pessoalmente cobriu o rei até o peito. Voltrik abriu os olhos e disse, com voz fraca, mas em tom quase normal:

— Mande sair seus servos. Quero falar sobre um assunto de importância vital.

Orogastus disse para as Vozes:

— Dentro de uma hora, vou partir para a minha torre no Monte Brom. Providenciem uma escolta fortemente armada e montada, com os ginetes mais rápidos que encontrarem.

— Sim, Mestre Todo-Poderoso. — As Vozes saíram e fecharam a porta.

— Vai partir?... — perguntou o rei, desapontado.

— Minhas Vozes se encarregarão de apressar sua cura. Preciso voltar para Labornok, a fim de consultar o espelho de gelo no meu forte na montanha. Somente por meio do poder do espelho poderei saber onde estão os inimigos.

O rei suspirou, satisfeito.

— Era sobre isso que eu queria falar. Nenhuma notícia das três jovens fugitivas, em Trevista?

— Nenhuma. A líder dos nativos recusou terminantemente colaborar na busca. Ela disse que, se tentarmos coagir os habitantes do pântano, terminará todo o comércio entre eles e nós.

O rei praguejou e gemeu.

— Precisamos encontrar aquelas princesas.

— Meus acólitos e eu exercemos nossos poderes ao máximo, revistando não só a cidade dos oddlings, como os pontos mais remotos de Ruwenda. Tudo em vão. Algum encantamento poderoso opõe-se à minha Visão, mesmo quando ampliada pela conjunção mental. Dizem que as três princesas possuem amuletos com botões do Trílio Negro. Talvez sirvam como escudo. Esse arbusto está ligado a Binah, a bruxa guardiã de Ruwenda, e é possível que ela tenha canalizado para os amuletos o pequeno poder que ainda lhe resta para defender suas protegidas.

— Seu espelho vai conseguir anular essa ofuscação?

— Sem dúvida alguma. Ele tem a força da magia dos Desaparecidos. Nenhum encantamento em todo o mundo conhecido pode suplantar sua visão a distância. O espelho pode ver a quinhentas léguas — até o extremo leste do continente, onde habitam os bárbaros emplumados. Não tema, meu rei, eu vou encontrar as princesas, não importa onde elas se escondam.

— E depois de descobrir o paradeiro daqueles três demónios? Elas podem escapar muito antes de você voltar a Ruwenda para começar a caçada.

Orogastus riu.

— Meu rei, deixe tudo comigo. A Voz Vermelha ficou em Trevista, com a guarnição, esperando minhas ordens. Quando eu encontrar as princesas, comunico seus esconderijos a todos os meus assistentes e enviaremos grupos de busca, sem

demora. As Vozes os guiarão e eu transmitirei constantemente notícias sobre os movimentos das fugitivas até nossas inimigas serem capturadas e tratadas como merecem.

— Ótimo. Ótimo. — O rei ficou em silêncio por alguns momentos e depois disse: — As princesas foram realmente a causa da necrose do meu ferimento, não foram?

— Coisas como essa podem ser o resultado de magia, mas também acontecem no curso normal dos fatos. De qualquer modo, senhor, logo estará bem. Infelizmente a doença que o acometeu só pode ser tratada com métodos drásticos.

O rei fechou os olhos outra vez, com um sorriso cansado nos lábios pálidos.

— Mas você chegou a tempo. Assim, meu querido filho Antar terá de se resignar com a perda da coroa que esteve tão perto das suas mãos.

O feiticeiro disse, com voz inexpressiva:

— O príncipe herdeiro comportou-se com dignidade e honra em Trevista e envia suas preces para seu restabelecimento.

— Ummmm! Sua Voz Verde passou aos outros acólitos a imagem do encontro de Antar com a oddling Observadora. O garoto desmoronou na frente dela como um bolo de casamento durante as chuvas! — As pálpebras reais abriram-se. — O que você acha, mago? Meu filho é leal?

— Vamos saber, meu rei, uma vez que o Príncipe Antar certamente comandará um dos grupos de busca das três princesas.