O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 44 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 43

 

Naquela noite Haramis dormiu segura em lugar seco, sob uma árvore, num pequeno parque do Knoll, ao lado do cais da Cidadela. Pediu ao talismã para ocultar sua presença e uma névoa ergueu-se entre ela e os guardas das docas.

De manhã a tempestade tinha passado, mas a neblina continuava densa, envolvendo-a num manto cinza-claro, onde só chegavam os chilreies e pios dos pássaros, o zumbido dos insetos e o ruído da água pingando das folhas da árvore. Os guardas das docas haviam se retirado para a Cidadela. Do cais um caminho levava diretamente ao portão principal da fortaleza, a menos de uma légua de onde ela estava, e Haramis sabia que uma parte do plano insano das irmãs consistia num ataque por esse caminho óbvio.

Haramis ficou imóvel por algum tempo, para meditar e orar, pedindo orientação. Não era fácil. Outros pensamentos interferiam. Preocupação com as irmãs, dor pela perda dos pais e da Dama Branca, revolta contra a acusação de Kadiya de que tinha roubado o manto da Arquimaga — como se alguma vez eu o tivesse desejado! Porém, quem mais pode substituí-la? Por acaso Kadiya pensa que ela pode ser a nova Arquimaga?

Como se essa idéia a tivesse chamado, Binah apareceu, vestida com um manto cintilante, com o rosto sob o capuz. Mas as mãos que se ergueram para retirar o capuz eram jovens e lisas, e Haramis estremeceu de medo. O que ia ver? O rosto de Kadiya — ou um demónio horrível?

Nenhum dos dois — era o rosto de Binah, transformado. Radiante, jovem. Como se tudo que era mortal tivesse desaparecido, deixando apenas o espírito na sua forma mais pura.

— Senhora. Haramis inclinou a cabeça.

Teve a impressão de que acariciavam seus cabelos e ouviu a voz musical que era ainda, sem dúvida, a de Binah.

— O que há, minha filha?

Minhas irmãs, disse Haramis, com tristeza. Pensam que estou apaixonada por Orogastus — na verdade enfeitiçada por ele — e Kadiya me acusou de ter roubado seu manto!

— Mas você sabe que não é verdade, disse a voz suave. No momento certo, elas também saberão.

Kadiya disse que eu tenho sede de poder.

E ela pensa que é por isso que está usando o manto. Não era uma pergunta. Eu o dei a você, Haramis, mas não posso obrigá-la a usá-lo. É uma carga pesada e as outras pessoas, mesmo as que a amam, jamais compreenderão por que você realiza esse trabalho. Deve ser feito por ele mesmo, não porque alguém deseja que o faça, ou porque a exaltem por isso.

É um trabalho que vale a pena ser feito, continuou Binah. Alguém precisa cuidar de Ruwenda, garantir que o país cresça como deve — ou pelo menos que possa sobreviver até que outra pessoa mais forte aceite o encargo. Há muito prazer nessa tarefa, ver a beleza da realização e saber que seus esforços ajudam a mantê-la, ouvir a voz da terra e do seu povo, sentir o ciclo das estações e o ciclo maior das eras...

A voz de Binah silenciou, mas no silêncio Haramis sentiu e ouviu Ruwenda como nunca havia sentido ou ouvido antes. Era como se a terra tivesse um pulso, um coração batendo no mesmo ritmo que o seu. Era como se houvesse uma canção que ela quase podia ouvir e compreender — bastando para isso concentrar-se e escutar.

Ficou ali sentada, em transe, por um longo tempo e quase não percebeu a partida de Binah.

Então mãos invisíveis colocaram uma bandeja de metal no seu colo. Nela havia quatro corações, aparentemente humanos, e uma jarra com água do mar. Lave esses corações, ordenou uma voz. No estado de transe em que estava, Haramis não estranhou a ordem. Apanhou o primeiro coração, que se encaixou perfeitamente na sua palma, pulsando suavemente, cheio de vida e calor. A princesa derramou água do mar sobre ele e a mão invisível o levou. O mesmo foi feito com o segundo e o terceiro, que pareciam idênticos ao primeiro. Mas quando apanhou o quarto coração sentiu algo diferente e estranho. Alguma coisa picou sua mão e Haramis o ergueu para verificar o que era. Para seu espanto, viu que não se tratava de um coração de verdade, mas de uma espécie de aparelho. Estendeu o braço para apanhar o jarro com água, mas a mão invisível a deteve. Não, disse a voz, com tristeza, esse não pode ser lavado. Ele desistiu da sua humanidade. E o coração mecânico foi tirado da sua mão.

Não compreendo, pensou Haramis.

Deve ter forças para suportar a verdade, disse a voz.

Haramis também não compreendeu.

Então, permitiu que sua mente descansasse por algum tempo, num sono sem sonhos.

Acordou quase ao cair da noite. Por meio do Círculo de Três Asas, observou os preparativos dentro da Cidadela, os guerreiros tomando posição para defender a fortaleza, e os oficiais e cavaleiros que iam e vinham, fazendo seus relatórios e recebendo ordens do rei. Viu Orogastus e Voz Verde preparando os instrumentos marciais dos Desaparecidos, duas máquinas que criavam relâmpagos, uma cujo som agudo estourava os ouvidos desprotegidos, fazendo-os sangrar, duas que espalhavam uma chuva de grãos mortais, outra que lançava enormes línguas de fogo e outra ainda que lançava agulhas envenenadas. Enquanto observava, Haramis tinha a impressão de ouvir uma voz dizendo que aqueles instrumentos eram mais apropriados para o ataque do que para a defesa, e podiam funcionar contra aqueles que os usassem dentro da fortaleza.

Imaginou o que Kadiya e Anigel pretendiam fazer. Os muros externos e internos da fortaleza, reconstruídos, não podiam ser escalados. Eram íngremes demais e davam para as ameias onde podiam ficar os arqueiros ou os aparelhos do feiticeiro. Embora os talismãs das princesas pudessem protegêlas da visão sobrenatural de Orogastus, Haramis tinha certeza de que os outros invasores seriam vistos pelos olhos normais dos labornoks. Os novos portões eram fortes demais para qualquer aríete. Suas irmãs estariam contando com os talismãs para entrar na Cidadela? Apertando seu bastão contra o peito, Haramis perguntou: Isso é possível? A resposta formou-se em sua mente.

Não.

Sentiu um aperto no coração. Eu as ajudarei como puder, mas não vou interferir, pensou ela. Nem darei conselhos não pedidos. Elas estão seguindo seus destinos — e eu já escolhi o meu.

Uma grande tranqüilidade a envolveu. Sentada à sombra da árvore, protegida pela névoa do fim do dia, teve novamente a sensação de estar plantada no centro do mundo, de conhecer seu lugar no imenso cenário.

Tornei-me o que eu sempre soube que seria.

Mas o preço será a morte das minhas irmãs?

Segurou o Círculo na frente do rosto e pediu para vê-las. E então, ela as observou, maravilhada, durante horas.

A maior parte do exército, sob o comando dos ruwendianos humanos e dos cavaleiros leais do Príncipe Antar, tomou posição no pântano, no outro lado do rio, quase em frente ao cais onde Haramis estava, uma légua abaixo da fortaleza. Uma vez que estavam tão perto ela ouviu com atenção e verificou se podiam ser vistos por olhos humanos. Certificando-se de que não estavam visíveis, voltou para a visão no Círculo.

Separando-se do corpo principal de atacantes, algumas centenas de guerreiros uisgus e wyvilos, comandados por Kadiya, Anigel e Antar, subiram o Mutar de barco até a abertura do túnel que antigamente conduzia água para a Cidadela. Protegidos dos olhos do inimigo pelos talismãs, eles desapareceram no túnel que levava à cisterna abandonada.

— Pela Flor! — murmurou Haramis, admirada. — Se Kadiya e Anigel conseguirem abrir os portões da Cidadela para seu exército, talvez tenham uma chance de vencer!

Mais tarde, quando as três luas erguiam-se invisíveis no meio da neblina, e a festa começava oficialmente, Haramis realizou sua cerimônia e comeu um pouco das provisões que Jagun havia deixado com ela. Então, perguntou ao talismã onde estavam os reforços do exército de Labornok. O Círculo mostrou uma frota com mais de cem barcaças, descendo o rio com o máximo de velocidade que os remadores podiam conseguir. Mesmo que suas irmãs entrassem na Cidadela e abrissem os portões, seriam dizimadas por esse grupo de guerreiros labor-noks armados.

A imagem desapareceu e Haramis enxugou as lágrimas que afloravam a seus olhos. Que seja. O destino das suas irmãs seria cumprido, e ela devia tratar do seu trabalho.

Pediu para ver Orogastus.

— Fiz a minha escolha — disse Haramis. Ele respondeu, com o rosto inexpressivo.

— Pode me dar a honra de comunicar sua decisão pessoalmente? Sinto não poder ir até você. O seu lammergeier deixou-me aqui e desapareceu.

— Muito bem — disse Haramis. — Eu irei à Torre Alta no centro da Cidadela.

— Podemos nos encontrar no solar da torre daqui a uma hora, à meia-noite? — pediu Orogastus. — Com certeza sabe que ninguém pode lhe fazer mal, agora que seu talismã tem todo o poder.

— Eu sei — disse Haramis. — Estarei lá.

— Adeus — disse Orogastus e então o belo rosto suavizou-se com um sorriso. — Tudo de bom para você, Haramis, minha adorada. — A imagem desapareceu.

Haramis arrumou sua bagagem à luz do âmbar-trílio encaixado no talismã. A névoa começou a se levantar e uma rajada de vento frio fez farfalhar as folhas das árvores wydel do parque. Entre os juncos e os arbustos da praia, não muito distante, alguma coisa se mexia na água. Haramis não deu atenção e estava pronta para chamar seu lammergeier, quando os arbustos se abriram e dois olhos dourados e brilhantes apareceram.

— Princesa — sibilou uma voz.

— Pela Flor. Immu!

Deixando cair a sacola com a coroa e o manto, Haramis correu para abraçar a velha ama nyssomu.

— Immu, o que está fazendo aqui?

A pequena oddling franziu a testa e arreganhou as presas.

— Fazendo fazendo fazendo! É uma história muito comprida para contar agora. Minha cabeça está numa desordem porque vim correndo, para alcançar minha Princesa Anigel, e desde o meio-dia de hoje minha Visão recusa-se a me mostrar onde ela está.

Haramis fez um gesto afirmativo.

— É a mágica do talismã que a esconde da Visão dos inimigos, e, ao que parece, dos amigos também.

— Fui até o Knoll e vi você sentada aqui no parque. Mal podia acreditar! Sabe onde está a minha princesa? Ela precisa de mim!

— Sim, eu sei onde ela está. Mas duvido que precise dos seus bons serviços, Immu, pois, ao lado de Kadiya, neste momento ela conduz um exército para dentro da Cidadela, para enfrentar o Rei Voltrik.

— Senhores do Ar! — exclamou Immu em tom lamen-toso e seus olhos saltaram com um estalido. — Numa aventura como essa, ela vai precisar de mim mais do que nunca! Diga-me como posso chegar até ela!

Haramis hesitou.

— Você tem um barco?

— Sim, uma pequena canoa com remos. Haramis apanhou sua sacola.

— Vou mostrar o caminho.

Subiram na canoa e Immu remou silenciosamente nos remansos escuros do Mutar, seguindo a orientação de Haramis. Depois de meia hora chegaram a um banco de lama estreito com quase toda a vegetação submersa pela enchente. Logo adiante ficava a encosta do Knoll com uma margem alta cortada no seu flanco e, na base, uma moita de arbustos espinhosos.

A lama estava remexida e com marcas de pés.

— Aqui? — perguntou Immu, incrédula. — Eles desceram aqui? Mas fica a quase duas léguas da Cidadela e é tudo subida em campo aberto. Além disso, não vejo nenhum sinal deles.

— Immu, eles foram pela velha cisterna. Minhas irmãs estão certas de que os canos as protegerão da Visão de Orogastus pelo menos até chegarem ao nível da torre. De lá, tentarão abrir o portão principal e o portão de serviço.

Immu arregaçou a saia, com expressão sombria.

— Como subiram pela abertura da cisterna?

— Jogaram uma corda com um gancho na ponta. Um uisgu subiu por ela e prendeu várias escadas de cordas para os outros. As escadas ainda estão lá.

— Veja onde eles estão! Diga-me se a Princesa Anigel está a salvo ainda!

— Não. Vou apenas rezar para que os Senhores do Ar estejam do lado delas.

— Muito bem — exclamou a velha ama. — Você fica aí rezando. Eu vou subir!

Saltou do barco, patinhou na água lamacenta e logo desapareceu entre os arbustos.

Com um suspiro, Haramis inclinou-se para pegar os remos. As patrulhas de labornoks vigiavam o Knoll e mais cedo ou mais tarde descobririam aquela abertura e dariam o alarme. Eu posso demolir aquela parte da margem, pensou ela, escondendo a entrada do túnel.

Haramis ergueu o talismã. As três asas fechadas abriram-se dentro do Círculo e o trílio no âmbar cintilou.

— Que a terra seja derretida e a lama desça para esconder essa entrada dos olhos hostis.

Ouviu um ruído surdo, a margem alta partiu-se ao meio e desceu, cobrindo a abertura. A margem íngreme e a moita de arbustos desapareceram deixando apenas uma rampa de lama pontilhada por pequenas rochas.

O barco deslizou suavemente rio abaixo. Fiapos de vapor erguiam-se na superfície da água como fantasmas de serpentes. Haramis ouviu ao longe o ruído dos cascos de froniais. A cavalaria labornok patrulhava a estrada para o mercado de Ruwenda. Um clarim soou na distância, outro, mais próximo, respondeu.

Uma voz parecia dizer na mente de Haramis: O poder está em você. E esse é o grande perigo.

Haramis remou nos remansos lodosos, afastando-se da entrada agora encoberta pela lama, e então levou o barco para a margem. Amarrando a sacola no cinto, chamou.

Hiluro!

O pássaro gigantesco não apareceu imediatamente, mas Haramis não se preocupou. Sentada numa pedra, olhou para a Cidadela distante, que aparecia agora à medida que a névoa se dissipava. Devia haver fogueiras acesas nos pátios internos, porque a torre principal e seus anexos estavam iluminados. No mastro, na torre alta, balançava a bandeira enorme de Labornok, vermelho-sangue, com três espadas cor de ouro cruzadas. Estava também iluminada pelas fogueiras. Era como se Voltrik dissesse: Aqui estou! Retomem seu castelo se forem capazes!

— Faça com que minhas irmãs vençam essa batalha -— implorou Haramis, segurando o talismã. — Por favor, faça com que elas vençam.

Haramis. Ouviu a voz conhecida do seu lammergeier. ”Vi uma coisa horrível.”

Hiluro desceu suavemente como uma nuvem escura, e ela correu para ele.

— O que foi?

Suba nas minhas costas e eu lhe mostro.

Haramis subiu e o pássaro levantou voo, dirigindo-se para a parte lateral do Knoll, onde o Pântano Verde encontrava o Rio Mutar, além do mercado de Ruwenda. Era uma região desolada, sem casas, pois quase todo o Knoll ali era de rocha nua, com pouca vegetação.

O céu clareava rapidamente agora, e a neblina junto ao solo tinha quase desaparecido. A luz das três luas, um pouco velada ainda, era suficiente para que Haramis visse sombras escuras saindo do pântano por vários canais, convergindo todas para formar uma massa compacta que marchava na direção da Cidadela, a quase três léguas dali.

— Mas quem pode ser? A força dos labornoks não teve tempo de chegar ainda.

São skriteks, chamados pelo feiticeiro, disse o lammergeier.

— Oh, Deus Triúne! É claro!

Hiluro desceu, pairou a poucos ells acima do solo e Haramis viu os demónios do Pântano Labirinto, sibilando e saltando inutilmente quando o grande pássaro passou acima deles.

Não posso deixar que devorem os companheiros das minhas irmãs, pensou Haramis. O que devo fazer?

Ouviu uma voz em sua mente: Você é a Senhora de todo o povo oddling.

Mas o que significa isso?

Os skriteks pertencem a esse povo.

O pássaro fez a volta e passou outra vez acima dos skriteks. Deixou Haramis num penhasco, por onde os monstros deviam passar, e ficou atrás dela com as asas enormes abertas. Haramis pôs nos ombros o manto da Arquimaga e esperou. Os olhos dos skriteks que enxergavam no escuro a viram imediatamente e avançaram para ela, gritando e sibilando, com tamanha velocidade que a princesa ficou certa de que ia ser pisoteada por eles.

Porém, quando estavam muito perto pararam, em silêncio. Haramis ergueu seu talismã e falou na linguagem sem palavras:

Quem é o chefe?

Nove ou dez das monstruosas criaturas adiantaram-se. Das bocas abertas escorria saliva e eles fechavam e abriam os talões. Haramis percebeu que os cérebros lentos estavam completamente confusos.

Ela disse:

Sabem quem eu sou?

Você estava morta! Ele disse. Nós sabemos!

Aqui, no meu país, estou sempre viva. Todos vocês são meus filhos e todos me obedecem. Mas vocês não obedeceram. Vocês seguiram o feiticeiro e foram para a guerra, que é proibida.

Você não falou conosco! Você perdeu seu poder! Ele provou isso quando nos chamou e você não nos proibiu de atender ao chamado.

Estou falando agora. Estão ouvindo?

Estamos ouvindo, Dama Branca.

E todos os skriteks curvaram-se com o rosto no chão, arrependidos.

Haramis disse para os monstros:

Tiveram permissão para ajudar os invasores humanos antes. Mas, agora, estão proibidos. Entenderam?

Sim, Dama Branca. A resposta incluía muitos rosnados de descontentamento, mas mesmo assim era sincera.

Antes de voltarem para o pântano, têm uma tarefa a cumprir.

Obedecemos às suas ordens, Dama Branca.

Haramis explicou cuidadosamente o que deviam fazer, certificando-se de que haviam entendido que não deviam cometer nenhum ato de crueldade. Embora fosse um desapontamento para aqueles demónios, alegraram-se com a perspectiva de uma diversão e concordaram em fazer exatamente o que ela queria.

Haramis os abençoou, subiu para as costas de Hiluro e voou para se encontrar com Orogastus na Cidadela.

O Rei Voltrik não era tolo e já havia descoberto que o túnel da velha cisterna representava um ponto fraco na sua defesa. Mas os engenheiros de Labornok temiam fazer qualquer coisa no túnel ou na cisterna porque estavam ligados ao sistema principal de fornecimento de água da Cidadela. Desse modo, Voltrik não conseguiu fechar aquela abertura. Mas há quase duas semanas mandara postar sentinelas na boca da cisterna e um grupo de homens vigiava a longa série de escadas, de modo que, se algum ruwendiano tentasse invadir o castelo pelo subterrâneo, o aviso seria passado de homem para homem, imediatamente.

Mas a sala do poço era suja e sinistra, infestada por vermes rastejantes e animais noturnos alados cujos gritos e pios roucos enlouqueciam qualquer um. Com o passar dos dias, como não tivessem descoberto nenhum intruso humano (apenas os vultos fantasmagóricos que pareciam estar de tocaia no escuro fétido, entre as máquinas enferrujadas), as equipes de soldados labornoks designadas para guardar a cisterna retiraram-se para as masmorras antigas, um andar acima.

Ali usavam tochas para queimar as coisas rastejantes e os esqueletos embolorados, e com a conivência dos seus sargentos da guarda, muniram-se de banquetas e transformaram a tábua de tortura numa mesa onde passavam o tempo jogando cartas ou tomando cerveja contrabandeada.

Quis o destino que, no instante em que o gancho da corda do primeiro uisgu invasor prendeu-se com um estalido metálico na borda da cisterna, um soldado labornok, chamado Krugdal, foi apanhado roubando no jogo e seus camaradas resolveram lhe dar uma lição. O barulho que os soldados faziam abafou o movimento dos invasores com suas escadas de corda. Quando acharam que haviam castigado bastante o pobre Krugdal, quase quarenta oddlings, sob o comando do Príncipe Antar, haviam entrado na sala da cisterna e começavam a subir a escada.

O príncipe, com uma armadura completa, entrou na masmorra e começou a censurar os jogadores por negligenciarem seu dever. Os homens, espantados, vendo o filho do rei aparecer do nada e sem saber da sua suposta traição, aceitaram docilmente a reprimenda. Quando os ferozes wyvilos e uisgus entraram, os soldados, estupefatos, não tiveram tempo para resistir, nem para gritar e foram facilmente amarrados, amordaçados e atirados nas celas da antiga masmorra.

Então, as duas princesas e os chefes dos uisgus e dos wyvilos reuniram-se para um rápido conselho de guerra.

Levaria muito tempo para os quase trezentos invasores subirem as escadas estreitas até o nível do solo, onde procurariam se dirigir para os portões. Do sargento capturado obtiveram a informação de que os homens que vigiavam as escadas seriam substituídos em menos de uma hora.

— Precisamos subir antes disso — observou a Princesa Kadiya. — Devemos dominar os guardas, um a um, com muito cuidado para que não dêem alarme. Um grito e estamos perdidos.

Um chefe guerreiro uisgu chamado Prebb disse:

— Vou levar dois dos meus. Subiremos suavemente como a névoa do pântano e abateremos o inimigo com nossas zarabatanas.

— Mas se forem vistos por um deles. — observou o Príncipe Antar. — Vocês sabem que a mágica das princesas nos protegeu da visão a distância do feiticeiro. Mas homens comuns podem nos ver.

Anigel disse:

— Eu levarei os dardos e abaterei os guardas. Meu talismã pode me tornar invisível, como da outra vez, quando eu corria perigo de vida. Assim, nenhum guarda poderá dar o alarme.

Antar e os outros chefes não gostaram da idéia e o príncipe tentou proibir a princesa de executá-la. Mas Anigel estava resolvida e certa de ser capaz de fazer o que propunha. Kadiya, vestida dos pés à cabeça com uma cota de malha feita de escamas douradas que brilhavam mesmo sob a lama que as cobriam, adiantou-se e segurou as duas mãos da irmã mais nova.

— Tem razão, Ani. É uma tarefa para a qual você está bem preparada, e ninguém pode negar aquilo que sua coragem exige que faça. Boa sorte para você, minha irmã, e que nenhum mal lhe aconteça.

Prebb prendeu uma aljava cheia de dardos nas costas de Anigel.

— Você acerta o dardo e deixa no lugar, homem morre — disse ele. — Você acerta dardo e tira, homem dorme por longo tempo, mas vive. Porém, cuidado! Não se fira com o dardo!

— Compreendi! — disse a princesa, com o rosto tranqüilo sob a tiara prateada.

— Cada sentinela que você despachar, avise-me — disse Kadiya. — Seguiremos todos juntos, mantendo-nos bem abaixo de você, para não fazer barulho.

— Minha princesa! — exclamou Antar, apavorado. — Eu imploro..

— Não — Anigel aproximou-se dele e o beijou de leve nos lábios, uma carícia tão leve que quase não o tocou. Mas o coração do príncipe acendeu-se como brasa avivada e ele ficou paralisado por longo tempo antes de demonstrar sua alegria.

A essa altura, Anigel já tinha desaparecido e os guerreiros oddlings sorriam para o príncipe. Kadiya, com voz áspera, sugeriu que era melhor verificarem como estavam as coisas na sala da cisterna.

Anigel murmurou uma prece e um comando breve: ”Senhores do Ar, defendam-me.” E começou a longa subida.

Encontrou o primeiro guarda depois de três lances de escada, com a lanterna no chão e a balestra na mão. Era um jovem alto e forte, vestido como quase todos os soldados labornoks com uma cota de malha e elmo redondo, armado com uma espada curta, uma maça e uma aljava cheia de setas para a balestra. Ele assobiava baixinho para passar o tempo e apostava com ele mesmo qual das duas lingits que subiam pela parede chegaria primeiro no teto.

Anigel aproximou-se silenciosamente por trás dele e ergueu o dardo envenenado com a mão trêmula. Onde devia enfiar o dardo? Sob a cota de malha, o homem usava um colete de couro acolchoado e o pescoço estava protegido por placas de metal com dobradiças presas no elmo.

Anigel pensou. Ele vai cair e, se cair em cima de mim ou do dardo, não vou poder retirar a arma e ele morre. Oh, eu não aguentarei se ele morrer, pois é um jovem forte e belo e parece corajoso e sem dúvida tem mãe-

E é também seu inimigo mortal, uma voz murmurou dentro da sua cabeça. Que a violentaria e mataria sem pensar duas vezes, se pudesse vê-la. Pois, embora ele não seja um homem mau, obedecerá cegamente às ordens dadas por homens malvados. Quem escolhe o papel de guerreiro deve estar preparado para enfrentar o destino do guerreiro.

Anigel estremeceu, e pela primeira vez compreendeu que ela também havia escolhido o papel de guerreira, por mais que tentasse se convencer de que combateria o inimigo sem derramar sangue.

Se eu tivesse de matá-lo a sangue-frio, seria capaz?

Respirou fundo e enfiou o dardo nas costas da mão do homem, retirou imediatamente e se afastou um pouco. O soldado murmurou algo, surpreso, seus olhos rolaram nas órbitas e seus joelhos dobraram-se lentamente. A balestra caiu, rolando barulhentamente escada abaixo, e o elmo bateu no chão de pedra com um ruído metálico.

Mas ele estava respirando. Anigel certificou-se disso antes de avisar Kadiya. Então, subiu apressadamente para a outra sentinela, com o coração disparado e com uma euforia vigorosa que quase a envergonhava. A fadiga e o medo a abandonaram. Esqueceu a passagem sinistra pelo cano enlameado e a subida vertiginosa pela escada de corda oscilante. Estava outra vez dentro da Cidadela, seu lar, e em guerra com os invasores.

Ao todo, Anigel pôs dezoito homens para dormir. Chegou finalmente na porta da destilaria e encostou o ouvido na madeira por algum tempo (sem lembrar de examinar o interior com sua Visão). Não ouviu nada, entrou.

E deu de frente com o Voz Verde.

É claro que ele não a viu. Mas viu a porta se abrir e sentiu o mau cheiro do subterrâneo. Depois de dizer todas as pragas que conhecia, ele riu e disse:

— Sim, continuem, lixo dos pântanos, e recebam o que os espera! Talvez não possamos vê-los, mas graças ao meu Mestre Todo-Poderoso podemos ouvi-los muito bem — e, quando a sua vanguarda chegar ao topo da escada, terão a recepção que seu atrevimento merece!

Voz Verde estava sem o capuz e tinha sobre as orelhas dois objetos redondos com pequenos botões, unidos por uma tira que passava sobre a cabeça.

Mas Anigel não deu atenção a esse instrumento mágico. O que a interessou foi a máquina que dois fortes soldados labornoks estavam instalando. Era uma caixa cinzenta pesada com cantos arredondados e com desenhos completos na parte superior e atrás. Da frente da caixa saía um cilindro longo de vidro com várias argolas e bastões de metal e tinha na extremidade superior uma coisa estranha feita de ouro. Um cabo grosso feito com um material negro e brilhante ligava a caixa a outra maior, que estava num carrinho de mão, atrás da pilha de sacos de cereais, a cinco ou seis ells da primeira.

— Cuidado, seu idiota! — gritou Voz Verde para um dos soldados, que cambaleou com o peso e quase derrubou a caixa. — Este e mais o outro são os únicos geradores de relâmpagos que temos funcionando, e se o estragarem, meu Mestre Todo-Poderoso vai arrancar a pele dos seus corpos inúteis e fritá-los em óleo!

Anigel conteve uma exclamação de horror. O relâmpago de Orogastus vinha daquelas máquinas? E agora Voz Verde as preparava para explodir a escada por onde estavam subindo Kadiya e seu exército.

E o Príncipe Antar.

Movendo-se com a rapidez de um fedok, Anigel enfiou um dardo em cada soldado. Quando eles caíram, depositando a caixa delicadamente no chão, e os dardos usados caíram ao lado deles, Voz Verde se sobressaltou. Acostumado com mágica, percebeu que havia alguém invisível ao seu lado. Suspendeu a saia comprida e correu para a caixa grande no carrinho de mão.

Anigel correu e lançou-se sobre o homem, que se esforçava freneticamente para manipular as protuberâncias da caixa. A princesa apanhou um dardo e enfiou com toda a força na nuca do assistente de Orogastus. Voz Verde tombou sobre a caixa mágica, inerte como um dos sacos da sua barricada improvisada. A coisa estranha caiu da sua cabeça. Anigel afastou-se dele devagar. Com os olhos presos no dardo, chegou a estender a mão para retirá-lo, mas recuou. Teve a impressão de ouvir palavras ditas há muito, muito tempo — ou seria apenas há duas semanas? —, quando ela, Kadiya, Immu e Jagun olhavam para a sala do trono cheia de sangue e ela, Anigel, na sua inocência pediu uma explicação para o mal.

As pessoas boas não podem responder a eles com bondade porque os malvados não sabem o que é o amor e o tomam por fraqueza. Por isso, você que é gentil e amorosa, princesa, precisa encontrar um meio menos suave para tratar com essas pessoas.

— E você é a Voz de Orogastus — murmurou a princesinha. E ficou ali, ao lado dele, até Kadiya chegar com os outros na porta da destilaria, e então Voz Verde estava morto.

Anigel mandou o chefe wyvilo, Lummomu-Ko, destruir a máquina mortífera com seu machado. Feito isso, o pequeno exército seguiu para o primeiro andar da Cidadela e a batalha começou.

Em tempo de paz, as barcaças gigantescas usadas pelos mercadores eram tripuladas por remadores ruwendianos livres que se orgulhavam de sua força e habilidade e ganhavam muito bem para conduzir as pesadas embarcações rio acima e rio abaixo. Com a conquista, porém, a maioria dos remadores mais experientes fugiu para o Pântano Labirinto e os labornoks, na iminência de ficarem sem o meio de transporte mais importante, fizeram escravos dos que haviam ficado e obrigaram outros ruwendianos inexperientes a preencher os lugares vazios. Eram acorrentados aos remos, mal-alimentados e chicoteados quando descuidavam do trabalho. Porém, mesmo nos melhores momentos, a tripulação escrava era muito inferior à dos homens livres, como tinham descoberto o General Hamil e Lorde Osorkon nas suas malsucedidas expedições no Mutar.

Agora, quando Osorkon queria voltar rapidamente para a Cidadela (depois de saber, numa conversa com o falecido Voz Vermelha, que havia um plano de ataque programado para a festa das três luas), a grande frota de barcaças descia o rio pouco mais depressa do que a corrente. Chicotadas haviam matado um número enorme de remadores, desde que deixaram o acampamento, logo abaixo do Inferno de Espinhos, e o resto estava tão exausto que nenhum castigo podia apressar seus movimentos.

Osorkon chamou o comandante da barca capitânea e exigiu que ele tomasse alguma providência, mas Pellan, acovardado, disse apenas:

— Meu general, os remadores estão quase mortos e nada pode aumentar a velocidade das embarcações, a não ser que concorde com minha sugestão de substituir os escravos por soldados.

— Maldita seja sua alma, Pellan, perderemos mais tempo com uma parada para fazer a substituição. E os soldados vão fazer uma porção de tolices, pois não entendem nada de barcos.

— O que mais posso dizer? — O guia mercador não ergueu os olhos. — A enchente nos ajuda um pouco. Tudo que podemos fazer é aproveitar a força da corrente.

Osorkon rilhou os dentes mas não disse mais nada. Não era tão impetuoso quanto o falecido Hamil, que ele substituiu no comando, e sabia que Pellan estava certo. A frota chegaria à Cidadela, mesmo que ninguém manejasse os remos. Ergueu os olhos para o céu, para a grande névoa brilhante que indicava a posição das três luas. Era quase meia-noite e a festa começara ao pôr-do-sol. Quem podia saber que tipo de magia negra a bruxa-princesa Kadiya e seu bando de uisgus iriam empregar contra os labornoks?

Dando as costas ao guia, o oficial aproximou-se da amurada de proa e ficou parado, com as mãos cruzadas nas costas. Osorkon estava agasalhado e bem protegido contra o frio e a umidade, mas sem a armadura.

— O que é aquele clarão vermelho no céu, Homem do Rio? Será que estamos finalmente nos aproximando do Knoll?

— Sim, meu general. As docas do mercado de Ruwenda estão a uma légua daqui. Mas o senhor deu ordens para aportarmos no cais da Cidadela, que fica a três léguas, por água.

— Sim, sim, eu sei. Em quanto tempo chegaremos?

— Menos de uma hora — Pellan ergueu a luneta e perscrutou o rio escuro à frente.

— Estranho, a superfície está muito revolta mais adiante, como se peixes milingais enormes estivessem espadanando na água, mas nunca aparecem nesta época.

Osorkon ficou imediatamente alerta.

— Pode ser embarcação inimiga?

— Não, nada disso. Temos ainda bastante claridade e posso ver perfeitamente. Agora, a água começa a se agitar no través também.. Pela Flor! Para trás!

Uma série de pancadas na água e rugidos assustadores quebraram o silêncio da noite. Osorkon viu uma cabeça enorme erguendo-se acima da amurada, com olhos alaranjados e brilhantes e uma bocarra escancarada que parecia ter um ell de largura, mostrando os dentes afiados como facas. O cheiro nauseante o agrediu como uma arma.

— Skriteks! — berrou Pellan. Mas foi a última coisa que disse na vida. O monstro galgou agilmente a amurada baixa, agarrou o guia com seus talões e arrancou sua cabeça com uma única dentada.

Osorkon estava louco de medo e de raiva, com aquele ataque dos seus ex-aliados. Em toda a extensão da frota, bandos de demónios subiam nos barcos e os gritos de pavor dos homens misturavam-se aos rugidos e aos uivos animalescos das criaturas.

— Parem! — exclamou Osorkon. — Parem com isso, seus covardes miseráveis! Nós somos labornoks! Seus aliados! Seus amigos!

O skritek que acabava de decapitar Pellan parou, hesitante, como se acabasse de lembrar alguma coisa importante. Gritou uma ordem, na sua língua gutural, que foi recebida com rosnados e silvos de desapontamento. Então, ele largou o corpo ensangüentado de Pellan, segurou Osorkon com todo o cuidado e o atirou na água.

O oficial voltou logo à superfície, tossindo, engasgado, e quase bateu com a cabeça num remo solto ao lado do barco. Agarrou o remo e viu os monstros atirarem todos os labornoks na corrente rápida do rio lamacento. Não tocaram nos remadores ruwendianos acorrentados. Alguns skriteks não puderam se conter e deram pequenas dentadas nas vítimas, mas os companheiros os censuraram com silvos e rugidos e eles desistiram.

Quando os cinco mil homens foram atirados para fora dos barcos, um skritek muito alto, com colar e cinto de couro e pedras preciosas, arrancou a bandeira de Labornok do mastro e a fez em pedaços. Os outros monstros riram barulhentamente, saltaram na água e nadaram para a praia do Pântano Verde.

Quando os monstros estavam bem longe, Osorkon gritou:

— Ó! Algum cavaleiro ou soldado do grande Labornok vive ainda?

Algumas dezenas de vozes responderam — umas cheias de medo, outras com palavrões.

— Voltem para os barcos, homens! — gritou Osorkon. Nesse momento os remadores ruwendianos começaram a gritar, compreendendo finalmente o que tinha acontecido. Os remos enormes mergulharam na água com euforia e as barcaças começaram a se afastar dos labornoks que boiavam no rio.

Praguejando e tossindo, Osorkon agarrou seu remo, como um vart da água, puxando-o para baixo, e depois de um momento sentiu que -seu ponto de apoio estava solto na toteleira, sem oferecer nenhuma resistência. Finalmente ele conseguiu aproximar-se e subiu no barco com uma dezena de outros homens. Apanhando suas armas, tomaram novamente o controle da embarcação. Três outras barcaças, das cento e vinte que haviam partido de Trevista, foram retomadas pelos labornoks e as outras desapareceram na noite. As quatro embarcações, depois de recolher o maior número possível de homens, dirigiram-se para o cais principal do mercado de Ruwenda, onde foram recebidas pelo labornok mestre do porto e pelo capitão da guarda.

— Froniais! — gritou Lorde Osorkon, furioso. — Froniais para nos levar à Cidadela, ou vocês todos morrerão.

As montarias foram providenciadas imediatamente e Osorkon conduziu seus guerreiros, a galope, pela Estrada do Comércio, na direção da Cidadela. Dos cinco mil homens, restavam setenta e dois.