O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 11 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 10

 

Kadiya sentou-se, com tufos de grama grudados nos cabelos e na pele pegajosa. Estava ofegante como se acabasse de disputar uma longa corrida. Olhou em volta, trêmula e confusa por um momento, sem saber onde estava e o que tinha acontecido. Sentia o calor abafado e pegajoso do pântano, via pequenas manchas de luz na água que aparecia entre as moitas cerradas. Apesar do calor, sentia arrepios e encolheu-se, com os braços ao redor do corpo. A coisa ainda estava ali.

Esforçou-se para respirar vagarosamente, procurando libertar-se da confusão que a dominava. O que era aquilo? Nada que ela conhecia. Kadiya tinha a impressão de estar encurralada e indefesa, observada por um olho enorme. Só depois de duas tentativas, conseguiu falar, com voz rouca:

— Jagun!

Alguma coisa se mexeu perto dela. O caçador oddling, coberto por camadas de palha da cama improvisada, parecia estar saindo do solo.

Com os olhos semicerrados, por causa da luz do dia, Jagun surgiu do monte de relva seca, com a faca de caça na mão.

— Alguém. — A voz de Kadiya tremeu. Envergonhada daquele pavor, procurou se controlar — alguém está nos procurando.

De pé, o oddling sacudiu o corpo para se livrar da grama. Com as narinas dilatadas, ergueu o rosto, farejando o ar como um animal perseguido. Girou o corpo lentamente, investigando.

Kadiya também ficou alerta. Olhos Penetrantes, eles a chamavam, por sua visão aguçada, mas não via nada de estranho no pântano. De certo modo, porém (e isto era mais alarmante do que um inimigo visível), tinha certeza de que o observador não estava perto deles naquele momento. Magia? De que espécie? Usada por quem?

— Não vejo nada de anormal por aqui — disse Jagun, falando devagar e olhando para ela. — Você sonhou, filha do rei. Descanse. Todos os guardas que conheço estão alertas no pântano. Nada pode nos acontecer sem que eu seja avisado antes. — Bocejou.

Kadiya deitou outra vez na cama na relva, segurando o amuleto. Aguçou os ouvidos. Havia muita vida no pântano, e nenhuma parecia ameaçadora. Tentou separar um som do outro, identificá-los. Assim como havia os caçadores no turnos, havia também os que caçavam durante o dia.

Mas aquele que a procurava havia passado por ela, frustrado na sua busca.

Kadiya falou suavemente:

— Jagun, não sinto mais aquele que nos procurava. — Mostrou o amuleto para ele. — Meu trílio no âmbar nos defendeu — talvez contra a Visão mágica de Orogastus!

— Olhos Penetrantes — disse Jagun —, eu não entendo dessas coisas — apontou para o amuleto. — Mas uma coisa eu sinto. Não devemos esperar pela noite para seguir nosso caminho.

— Skriteks? — Kadiya examinou com atenção o que podia ver do pântano. Largou o amuleto preso ao cordão de ouro e empunhou a adaga.

Jagun balançou a cabeça.

— Skriteks eu conheço. Isto, só posso adivinhar. Impressionada com a urgência na voz de Jagun, Kadiya sentiu voltar a sensação de desamparo.

— Orogastus tem seus caçadores — Jagun bateu os pés, apagando os restos da fogueira. — São chamados Vozes e completamente submissos a ele, a ponto de serem meras extensões do feiticeiro. Pode ser que tenha mandado essas pessoas com os soldados armados que pretendem deixar em Trevista..

— Para me seguir! Mas o que fazem essas Vozes, Jagun? Podem se disfarçar tão bem que nem você, que conhece o pântano, é capaz de vê-los?

— Olhos Penetrantes, lembra-se de uma tal Ustrel, na última feira, a quem as pessoas faziam perguntas sobre seus problemas?

Sim, Kadiya lembrava-se da velha que só podia caminhar com a ajuda de dois cajados. Vira quando ela se agachou ao lado de uma grande folha de drogo, com as bordas curvadas para cima, e pôs algumas gotas d’água na superfície verde e lisa. No outro lado da folha estava acocorada outra mulher, esperando tensa pelas palavras da velha vidente. Mas Kadiya não conhecia o dialeto usado por ela.

— Você disse que ela podia ler a sorte nas gotas d’água — lembrou Kadiya —, mas sem dúvida não passava de uma fraude. Isso é impossível.

— Não tão impossível, Olhos Penetrantes. Cada um de nós é uma entidade diferente, não apenas no corpo, mas na mente também; uns aprendem com facilidade, outros só com muito esforço. Você é igual às suas irmãs, filha do rei. Eu sou um caçador de animais, um treinador quando é preciso. Esse é o meu talento. Não sei juntar artisticamente pedaços de madeira trabalhados, não sei misturar ervas, nem trabalhar com as peças encontradas nas ruínas. Essas são as artes e artesanatos.

”O mesmo acontece com as artes da mente. Sim, existem aqueles que podem lançar sua Visão a grande distância e ver, embora breve e imprecisamente, o que está acontecendo a outra pessoa muito longe deles. Ustrel nem sempre pode fazer isso, e quase nunca com clareza. Mas várias vezes a verdade das suas visões foi comprovada. Orogastus é um homem com muitos conhecimentos, a maior parte deles jamais aprendidos por nós. Se essas Vozes foram bem ensinadas e tiverem algum talento, então pode ser que ele as use como uma extensão dos seus próprios sentidos.”

— Então, estão à nossa procura e vão continuar! O que sua habilidade de andar no pântano pode contra essa força?

Kadiya estremeceu. Aço contra aço, até mesmo a crueldade dos invasores ela podia entender, mas a idéia de que se podiam comandar poderes mágicos a confundia.

Jagun balançou a cabeça vagarosamente.

— Não é uma coisa fácil e a preparação é demorada. Além disso, é exaustiva para o vidente. Talvez uma das Vozes esteja no rio, com um grupo de busca atrás de nós. Porém, quanto mais longe estivermos da Cidadela, mais difícil será para eles.

Kadiya segurou o amuleto de âmbar brilhante na palma da mão.

— Será que magia atrai magia? — Pensou em jogar na água aquela coisa azarenta.

— Olhos Penetrantes, seu amuleto é da Luz, um presente da Arquimaga. Não acredito que possa lhe fazer mal. Entretanto, acho melhor partirmos. Seguiremos o caminho que circunda Trevista. Os labornoks devem estar vigiando o rio. Pellan e os skriteks — se estiverem com eles — só conhecem as trilhas principais desta região do Pântano Negro.

Embora tivesse visitado Trevista várias vezes e possuísse um bom senso de direção, Kadiya não tinha a menor idéia de onde estavam ou para onde iam, enquanto Jagun os conduzia com segurança pelos meandros do pântano naquele fim de tarde. Passaram ao largo de uma ilhota onde muros desmoronados apareciam no meio do mato alto, evidentemente uma das ruínas do Labirinto. A vegetação consistia de juncos nos bancos de terra e relva áspera, trepadeiras com hastes espessas e árvores imensas. Aqui e ali apareciam pontos coloridos, flores com pétalas grossas, de aparência desagradável, que, Kadiya sabia, alimentavam-se de insetos.

O brilho do amuleto não diminuiu, conduzindo-os sempre. Não pararam para comer, contentando-se com os tubérculos e algumas frutas que Jagun apanhava, de passagem. Da escuridão da noite surgiam outras ilhas repletas de ruínas, e em volta dela dançavam pontinhos de luz fraca na superfície do pântano.

A aurora tingia o céu de cinzento quando entraram numa passagem que pareceu a Kadiya estreita demais para o barco e saíram numa enseada que era mais um lago do que um rio. AS pernas de Kadiya estavam adormecidas e ela temia não agüentar ficar de pé. Jagun começava também a demonstrar cansaço. Levou o pequeno barco para a margem do lago, onde uma árvore, com as raízes arrancadas durante uma das enchentes, estendia-se horizontalmente sobre a água. No outro lado, pedras enfileiradas levavam à selva emaranhada lá adiante. Desembarcaram, e Jagun puxou o barco para perto das árvores, cobrindo-o com junco. As pernas de Kadiya voltavam à vida com uma dor cruciante, mas ela abaixou-se e apanhou a mochila maior. Se estava cansada, imagine como devia estar Jagun!

Jagun não usou a faca para abrir caminho no meio do mato, mas apenas desviava-se dos galhos e trepadeiras à sua frente. Uma nuvem de insetos os atacou e então, de repente, o oddling brandiu sua faca de caça de cima para baixo, com fúria. Entre ele e Kadiya uma coisa que parecia um cipó sem folhas contorcia-se no chão e da cabeça decepada escorria um líquido amarelado como pus de um ferimento. O ar encheu-se com o fedor de coisa podre. Uma rastejadora! O resto dela escondeu-se numa moita cerrada e Kadiya deu uma grande volta para evitar a planta carnívora que quase os havia apanhado.

Embora o mato fosse alto, as árvores eram agora em menor número e logo chegaram a uma clareira iluminada pela luz da manhã, e Kadiya, com uma exclamação de espanto, viu colunas semidestruídas dispostas em círculo sobre chão de pedra cinza-negra. O lugar estava deserto, mas no centro do círculo uma fogueira quase apagada enchia o ar de fumaça oleosa com um cheiro insuportável. Sobre os restos da fogueira estava uma estaca longa e grossa, quase completamente queimada no meio. Entretanto, o que provocou a exclamação de Kadiya foi a coisa espetada na estaca.

Um crânio estava enfiado na ponta do galho quase queimado.

— Jagun!

Erguendo a mão, num gesto autoritário, ele inclinou-se para observar melhor o crânio. O osso estava amarelado, sujo de limo e rachado, como se tivesse sido arrastado pelos caminhos mais lamacentos do pântano.

— Skriteks! — murmurou o caçador.

O sol apenas começava a aparecer, o pântano estava quente e úmido, porém naquele momento um frio de pavor arrepiou a pele da princesa, como se ela estivesse de frente para o vento das tempestades.

— Um aviso — Jagun andou em volta da fogueira, como se ela fosse uma armadilha. — Mas... aqui?

Kadiya olhou em volta, alarmada.

— Então, os skriteks chegam tão perto assim de Trevista ou — ela respirou fundo — combatem aqui?

Foi como se Jagun não tivesse ouvido. Ele saltou para a frente e apanhou um fio de fibra trançada, do tipo usado para prender nos tornozelos os deslizadores. Segurando-o pelas duas pontas, ele o esticou com força.

— Uisgus! — Jagun inclinou a cabeça para trás e das profundezas da sua garganta soou o chamado dos horiks encouraçados que viviam naquelas enseadas do rio. Três vezes ele chamou e depois de um momento de silêncio emitiu um trinado agudo e alto que Kadiya nunca ouvira antes.

Jagun girou lentamente o corpo, sem sair do lugar, tenso como se cada nervo estivesse atento para ouvir a resposta.

A resposta veio num único chamado dos horiks e da moita cerrada em volta do círculo de colunas surgiu outro oddling. Não usava, como Jagun, a roupa finamente tecida dos nyssomus, mas apenas uma espécie de saiote amarelo-dourado, com franjas de hastes de relva. O cabo de uma adaga, enrolado com uma corda de fibra vermelha, aparecia acima do cinto. Trazia na mão uma zarabatana.

Dois círculos marrom-avermelhados faziam parecer maiores os olhos saltados do oddling e no peito peludo tinha três círculos coloridos, entrelaçados no centro.

Ele olhou para Kadiya e afastou-se dela, chegando para perto do caçador. Começou a falar. Kadiya conhecia apenas as frases usadas pelos nyssomus no comércio e nas cerimónias mais importantes, ensinadas por Jagun, e só conseguiu entender uma ou outra palavra do que o oddling dizia.

—.. cheguei. estaca espetada. matar unvis. matar. — Dizendo isso, ele ergueu a zarabatana e a agitou ferozmente no ar. — Aqueles outros... — Então, ele começou a falar rápido e com veemência e Kadiya não entendeu mais nada. Finalmente ele parou, ofegante e com gotas de saliva nos cantos da boca.

Jagun olhou para Kadiya.

— Ontem os skriteks estiveram aqui, com uma oddling do clã de Usos que haviam capturado. Então eles ergueram uma das estacas que usam para marcar suas fronteiras, e mataram a irmã de Usos para selar seu ato com sangue.

Jagun voltou-se para o uisgu e falou outra vez. O outro oddling respondeu com poucas palavras.

— Eles seguiram... na direção de Trevista — disse Jagun. — Eu já avisei Usos dos perigos que nos ameaçam agora. Ele e seus mercadores vão a Trevista para trocar sua mercadoria. Agora, quando voltarem vão espalhar o aviso.

O uisgu então desapareceu tão depressa que Kadiya piscou os olhos, sem poder acreditar.

— Não podemos ir com eles?

Jagun emitiu um som que podia ser uma risada.

— Os uisgus só viajam com os da sua tribo, Olhos Penetrantes. Sempre foi assim. Do mesmo sangue nós somos. — Fez um gesto afirmativo. — Mas, para eles, somos parentes muito distantes. Nunca fizemos guerra contra eles, nem eles contra nós. Isso foi determinado há muito tempo, no começo, quando os Desaparecidos governavam. Nós somos nyssomus e eles são uisgus e sempre foi assim. Usos vai espalhar meu aviso, mas não pode permitir que viajemos com eles.

— Mas vocês não são inimigos — disse Kadiya, intrigada.

— Filha do rei, segundo a lenda, nos velhos tempos nós, os nyssomus, éramos os porta-vozes dos Desaparecidos. Agora somos servos da Dama de Noth, que nos manda conviver em paz com os humanos que habitam o Pântano Labirinto. Mas os uisgus sempre temeram seu povo. Poucos deles, mais ousados, comerciam conosco, para que levemos suas mercadorias aos humanos.

— Vão descobrir que os labornoks não são iguais a nós — disse Kadiya. — Jagun, estou certa de que Voltrik vai querer conquistar e dominar os Pântanos, como dominou a Cidadela. Os uisgus podem se esconder do olfato dos striteks?

Jagun deu de ombros.

— Olhos Penetrantes, quem pode dizer? Mas agora precisamos descansar e, como este lugar está profanado, devemos procurar outro.

Acamparam mais adiante, na margem do lago, onde não havia ruínas dos Desaparecidos, e Jagun disse que precisavam se revezar na vigília. Kadiya insistiu em ficar com o primeiro turno, uma vez que o caçador havia conduzido o barco o dia todo.

Jagun juntou algumas folhas, deitou encolhido sobre elas e dormiu imediatamente. Kadiya, sentada com as pernas cruzadas, preparou-se para seu turno de vigia. Embora não possuísse os sentidos aguçados dos oddlings e fosse incapaz de distinguir certos odores disfarçados pelo cheiro forte do pântano, ou identificar todos os sons, Kadiya conhecia alguma coisa daquela região.

Várias vezes levantou-se e deu alguns passos pelo pequeno acampamento. Coçando a cabeça, cheia de creme contra insetos, tentou ajeitar os cabelos emaranhados com as pontas dos dedos. Naquele momento, invejou as cabeças calvas dos nyssomus e o pêlo que cobria o corpo dos uisgus.

Numa das suas voltas pelo acampamento, notou um tom mais vivo de verde sob uma moita e inclinando-se apanhou uma planta de raízes fortes que ela conhecia. Puxando com força, arrancou mais cinco, limpou as raízes e separou algumas para Jagun. Então, começou a comer. Ao contrário dos tubérculos da sua parca ração, essas raízes eram suculentas e tinham um gosto forte e puro. A planta chamava-se mafun, e na mesa da Cidadela era considerada um petisco raro, porque só dava na selva e não podia ser cultivada em campos comuns.

Enquanto comia, ela pensava nos Desaparecidos. Desde a infância ouvia lendas e discussões sobre eles. Aparentemente haviam governado aquelas terras há incontáveis eras. Todos admitiam que eles possuíam grandes poderes mentais. Poderes? Kadiya engoliu o último pedaço de mafun. A magia era poder! A Arquimaga seria realmente um dos Desaparecidos? Teria vivido centenas, vendo as mudanças em suas terras, Noth, erodindo perto dela? E quem era Orogastus? Teria também alguma conexão com os Desaparecidos?

Kadiya pensou na imensidão do mundo deles. O que havia além da Península? As planícies dos labornoks, ao norte, terminavam no mar e ao sul ficavam as extensas florestas de Var. Mas ela conhecia pouco mais além disso, e naquele momento invejou Haramis, que passava tanto tempo estudando, na biblioteca, ao passo que Kadiya desprezava os livros, preferindo a vida ativa ao ar livre.

Teriam os Desaparecidos simplesmente abandonado Ruwenda e se estabelecido em outra parte do mundo? Diziam que Orogastus fora trazido de terras muito distantes pelo Rei Voltrik, em uma de suas viagens durante os anos de espera pelo trono. O feiticeiro podia ser um Desaparecido? Porém, nada na lenda ou nas informações esparsas indicava que os Desaparecidos tivessem poderes maléficos. A Arquimaga, por exemplo, jamais tentou dominar os oddlings ou os ruwendiianos.

Kadiya examinou o amuleto com o trílio. O pequeno ponto de luz continuava a brilhar, tranqüilizador, como um esscudo protetor, apontando fielmente para Noth.. onde talvez, suas perguntas fossem respondidas.