O Trílio Negro
Capítulo 19
Estavam sendo tratadas como hóspedes de honra, pensou Kadiya, e a pequena parte dela que sabia ser paciente dizia que talvez fosse o máximo que podia esperar deles. Mesmo assim, no segundo dia de hospedagem na aldeia nyssomu, ela fez uma última tentativa para convencer os seus hóspedes a lutarem ao seu lado. Afinal, não se tratava apenas da sua necessidade de conseguir aliados, mas os nativos precisavam se preparar para o pior — a provável invasão dos labornoks.
Kadiya pediu outro encontro com a Primeira da Casa, esforçando-se para não insistir diretamente no que considerava importante, como era seu hábito.
— Senhora — procurou manter a voz num tom baixo e calmo —, esses humanos que chegam agora à sua terra não são como nós, os ruwendianos. Permita-me contar algumas das suas façanhas.
Suas mãos, que descansavam no colo, agora encontraram-se e se entrelaçaram ansiosamente. Só depois de engolir em seco duas vezes, Kadiya começou o relato terrível da morte de seu pai. Revendo mentalmente aquela cena, a náusea transformou-se em fúria.
Era difícil ler qualquer reação nos rostos dos oddlings. Kadiya estava atenta para o menor sinal de que a Primeira estivesse comovida com todo aquele horror.
— Assim eles trataram nosso povo que dominaram depois de uma luta honesta — terminou ela. — Senhora, eles desprezam muito mais o seu povo — o que acha que farão aqui, se invadirem sua aldeia? Os pântanos guardam seus segredos e têm sido seus muros de defesa. Mas esses labornoks trazem com eles um feiticeiro, contra o qual a proteção da Arquimaga nada pode. Lutar honestamente com o aço, espada contra espada, é uma coisa. Combater a magia negra sem armas apropriadas é enfrentar a derrota antes do soar dos clarins. Esta é a sua terra, completamente desconhecida para os invasores. Ao que parece, os skriteks aliaram-se a eles — certamente porque reconhecem que são iguais. Mas isso pode ser suplantado por seu conhecimento do pântano. Eu lhe digo — se seus costumes não permitem que se aliem à nossa causa, pense na sua!
No breve momento de silêncio, Kadiya pensou divisar um raio de esperança. Talvez o bom senso do que ela acabava de dizer tivesse falado mais alto, afinal. Deixem que Hamil tome Trevista. Deixem que use os skriteks como aliados. Porém, se os nyssomus usassem a própria terra como arma, sem dúvida teriam uma chance.
Mas então a Primeira respondeu com palavras formais, desprovidas de calor.
— Filha do rei, é verdade que seu povo e nós, dos pântanos, há anos nos damos muito bem. Não há entre nós registro de horrores, como os que acaba de descrever. Uma vez que as vítimas foram seus pais e seu povo, é certo que procure toda a ajuda possível para vingá-los. Mas, embora sejamos amigos, temos de honrar uma aliança muito mais antiga, a nossa fidelidade para com a Dama de Noth. Ela a chamou e às suas irmãs. É possível que já tenha um plano de ação. Porém, esteja certa de que estamos prevenidos. Antes da chegada do seu povo, os pântanos conheceram a guerra.
Ela olhava para um ponto acima do ombro de Kadiya, como se estivesse vendo alguma coisa muito importante.
— Há muito tempo, vidas sem conta foram ceifadas. Como imagina que esta terra se tornou o que é hoje, dividida, desolada e tão cheia de perigos que há anos não nos aventuramos por certas trilhas? Aquela guerra não foi nossa, mas nascemos dela — e quando os que lutavam se foram, éramos recém-nascidos, com um mundo estranho atrás de nós, que tivemos de adaptar para viver nele. Juramos então que nenhum nyssomu jamais contribuiria para repetir uma guerra como aquela. À Dama de Noth devemos nossa vida. Com ela, há muito tempo mantemos a paz. Se somos atacados, lutamos, mas não levamos a guerra aos outros. Encontrará suas respostas em Noth, filha do rei.
Assim foi que apenas Kadiya e Jagun continuaram a jornada, e quanto mais se aproximavam do destino, mais ameaçadora a terra se tornava. No Pântano Negro, quase toda a floresta tinha várias tonalidades de verde, a não ser pelo colorido das flores. Ali, no Pântano Dourado, crescia a relva alta e fina com panículos amarelos que davam o nome àquela parte dos pântanos. Ali também as ilhotas erguiam-se da água espumosa e esverdeada, onde cresciam plantas grandes, de folhas espessas, diferentes de todas as outras que haviam visto. Plantas de cor branco-amarelada com listras vermelhas. Pareciam feridas abertas e infeccionadas, exsudavam um cheiro fétido que atraía os insetos. À medida que o barco de Kadiya e Jagun avançava, mais maléfica parecia a vegetação.
Ouviu uma exclamação abafada de Jagun e, equilibrando-se no barco, virou-se cuidadosamente. Vinda de uma ilhota próxima, algo que parecia uma folha daquelas plantas estranhas movia-se na direção deles. Na aldeia, Jagun havia adquirido uma lança de cabo curto. Ele estendeu o braço e com a ponta da arma levantou a folha, atirando-a para longe, para a lama de onde ela havia saído. Kadiya viu, sob a pretensa folha, pés que pareciam franjas finas, movendo-se espasmodicamente no ar, na frustração de perder a presa. A criatura caiu sobre um pedaço de madeira coberto de musgo e imediatamente enrolou-se nele.
— Snafi — disse Jagun secamente. — Precisamos ficar atentos a eles aqui. Os pés com garras injetam veneno e quando agarram em algo é impossível soltá-los.
Kadiya ficou satisfeita por poder viajar de dia, pois Jagun decidiu que estavam agora longe do caminho conhecido e não seriam vistas. Aquela parte do pântano devia estar cheia das mais diversas armadilhas e viajar à noite seria perigoso.
Aquecido com o calor do seu corpo, o amuleto era um guia seguro. Sua luz brilhante indicava que continuavam na direção certa. Kadiya manejava a vara, procurando combinar o ritmo com o de Jagun, e assim navegavam hora após hora, parando uma vez ou outra para descansar.
Se ela estava enfrentando perigos, pensou, o que estaria encontrando Haramis? E Anigel... Sua irmã mais nova teria sido apanhada pelo inimigo. De certo modo, cada vez mais se convencia de que as duas irmãs haviam escapado da Cidadela, que não eram mais presas indefesas do Rei Voltrik.
Durante a tarde o céu abriu-se de nuvens e ao cair da noite Jagun conduziu o barco para uma ilhota coberta de relva. Já surgiam as luzes estranhas e dançantes da superfície dos pântanos. Nessa noite não desembarcaram, contentando-se com as rações que levavam. Então, Jagun disse:
— Procure dormir.
Dormir! Como era possível, ali, no escuro, sem saber quais os perigos que podiam vir das duas margens? Mas logo Kadiya sentiu os olhos pesados de sono.
O que aconteceu então parecia mais visão do que sonho. Kadiya viu uma cidade — não era Trevista, era uma cidade mais nova, com arquitetura mais descontraída. Não havia sentinelas nos muros, nem no portão aberto bem na frente dos seus olhos. Seria Noth? A cidade a chamava, a atraía. Era uma promessa.
Depois a visão perdeu-se num sonho extenso que foi completamente esquecido. Kadiya acordou de madrugada. Jagun já estava de pé, procurando alguma coisa numa das mochilas de alimento. Logo depois reiniciaram a jornada para a casa da Arquimaga e no começo da tarde a viram de longe.
O que se erguia na frente deles não era a cidade do sonho da princesa. Uma torre monolítica parecia subir da relva fofa e dourada. Enquanto Jagun conduzia o barco nas últimas curvas do rio, Kadiya observou a torre. Finalmente, o fundo do barco raspou em alguma coisa, não um banco de lama, mas a extremidade de uma formação de blocos de pedra.
— Isto é Noth — disse Jagun. — A partir deste ponto, só você, que foi chamada, deve seguir. Eu esperarei sua volta.
O caminho não era muito mais largo do que o barco em que viajavam. Além dele erguia-se a torre, alta como as árvores reais das florestas do sul e parecia esculpida num único bloco gigantesco de granito. A enorme porta estava aberta.
Embora a luz não alcançasse o interior daquela porta cavernosa, a torre não parecia ameaçadora. Mesmo assim, Kadiya sentiu-se como uma criança prestes a ser repreendida por um ato de desobediência, quando se adiantou, resoluta, procurando esconder sua preocupação.
Seja bem-vinda, Kadiya.
A voz ecoou próxima, mas não veio do corredor estreito. Parecia perfeitamente normal. Mesmo assim Kadiya continuou avançando, com uma das mãos no cabo da adaga, a outra segurando o amuleto que pulsava, morno, contra sua pele, acompanhando as batidas do coração. Entrou numa câmara.
No centro havia uma poltrona com espaldar alto, como as que eram usadas por seu pai e sua mãe nas cerimónias da corte. Nela estava sentada a dama que governava Noth (e talvez outros lugares), alisando com movimentos lentos dos dedos longos a borda do manto espesso, negro como uma noite de tempestade, com desenhos em prata, que imitavam os círculos formados por uma pedra atirada na água.
A julgar por seu tamanho, não era uma oddling. Na verdade, devia ser vários palmos mais alta do que Kadiya. O rosto não era jovem nem velho, isento das marcas da idade, mas nos olhos havia um misto de cansaço e força de vontade.
— Kadiya! — Ela inclinou a cabeça, mas não havia calor na acolhida.
A raiva que Kadiya carregava por dentro quase fugiu ao seu controle. Sentiu vontade de atirar sua ira e sua mágoa no rosto daquela estranha intocada, ouvir dos seus lábios a razão do fracasso da sua magia. Não podia ter detido os inimigos de Ruwenda? Seria essa Dama de Noth muito mais fraca do que Orogastus? Sem dúvida sua mágica havia falhado quando era mais necessária! Só com esforço Kadiya não pôs em palavras esses pensamentos. Inclinou a cabeça, com os cabelos cheios de óleo do pântano.
— Senhora.
Compreendeu que não teria nenhuma oportunidade para acusar ou reprovar. Era como uma prisioneira, como se grilhões tivessem sido presos aos seus pulsos quando entrou na torre.
— Tudo chega ao fim — disse a voz inexpressiva. As mãos quase transparentes estavam imóveis agora. — O tempo é criação nossa, por isso ele varia. O que é a passagem de um ano para a montanha? O que é o nascer ou o pôr-do-sol para a mosca do lixo, que vive apenas um dos nossos dias? Para cada um de nós — planta, pássaro, inseto, rocha, homem e mulher orgulhosos — o tempo acaba. Desse modo, para todos aqueles que têm um objetivo, há muito que fazer dentro de uma medida de tempo aparentemente pequena.
Pela primeira vez seus olhos desviaram-se dos de Kadiya e observaram a sala, como dando por falta de coisas que deviam estar ali, ou estranhando a presença de outras.
— Aqui desempenhei meu papel de guardiã. Sim, guardei tudo que é da luz. Existiu certa vez uma grande extensão de água, enfeitada por ilhas, cada uma, uma jóia de rara beleza. E havia os que as habitavam. Por eles — juntou as mãos, unindo as pontas dos dedos num telhado protetor —, fui chamada para uma grande tarefa, pois o mal chegou, e a mudança, e eu me esforcei para erguer fortes proteções.
Depois de um suspiro, continuou:
— O tempo de dor e de preocupações passou. Então, aqueles que vocês chamam de oddlings ousaram aparecer e por eles, embora não fossem do meu povo, continuei a ser a Guardiã. O tempo, cada vez mais pesado, aos poucos aparou as arestas do que tinha acontecido. Finalmente chegou o seu povo. Perscrutei suas mentes e seus corações e vi que eram dignos do Caminho da Luz e que meu tempo não tinha terminado ainda.
— Então, chegou Voltrik, que é igual aos skriteks! — esbravejou Kadiya. — Onde então estava a nossa Guardiã?
— Mais uma vez ergueu-se o Poder das Trevas — corrigiu a Arquimaga. — Contra o qual meu povo sempre lutou. Com esses invasores veio um, versado nas mais antigas ciências do passado. —- Inclinou levemente a cabeça. — Este tempo deve pertencer a ele. Apenas uma defesa consegui erigir quando descobri seus desígnios. Você é uma das três e cada uma possui um talento nunca usado, uma dádiva desconhecida. A vocês cabe a tarefa de derrotar o Poder das Trevas — se puderem pagar o preço do tempo.
— E qual é esse preço? — Kadiya levantou o queixo, procurando ainda não demonstrar nenhum sinal de temor.
— Encontrar seu talismã.. e usá-lo na hora certa.
— Talismã? — Kadiya mostrou o amuleto sem tirar o cordão do pescoço. — Mas., eu já tenho — recebido de suas mãos, Senhora, se a história for verdadeira.
— Não, esse foi seu guia para chegar até aqui. Deve usar sua própria força — e sua inteligência — para encontrar o talismã que lhe dará poder. O aço sempre foi sua escolha, é direto e rápido, mas muitas vezes é também o caminho mais perigoso na procura do sucesso. Existem outros meios de vencer batalhas.
A Arquimaga levantou-se do trono, alta e ereta. Andando, não parecia tolhida pela idade, seus movimentos tinham a determinação de quem precisa realizar uma tarefa e vai realizá-la. Kadiya alargou seu passo para chegarem juntas à porta da torre de Noth.
A Arquimaga abriu seu manto. À luz do dia, as listras prateadas cintilavam nas dobras pesadas. Tinha nas mãos uma planta colhida, a princesa não sabia de onde, mas reconheceu o fabuloso Trílio Negro pela flor. Rapidamente a Arquimaga partiu uma haste a três dedos dos filamentos da raiz.
— Isto será seu guia — e com ela você vai procurar o Olho Chamejante de Três Partes.
Atirou a haste para a água, onde a canoa descansava, com Jagun dentro dela, profundamente adormecido. Kadiya a viu mergulhar verticalmente como uma flecha. Mas o que era o Olho Chamejante de Três Partes? A Arquimaga devia explicar! Kadiya estava farta de viajar pelos pântanos, seguindo um brilho mágico até a casa de uma feiticeira incompetente. Precisava mais informações para prosseguir na sua busca..
De repente ela estava sozinha. Não havia ninguém ao seu lado e tinha quase certeza de que se procurasse na torre também não encontraria a Arquimaga.
Relutante e furiosa, voltou para o barco. Jagun estava acordado. Kadiya olhou para a água e viu, lá adiante, entre as pequenas ondas provocadas pelo balanço da pequena embarcação, um filete de luz. Verde, mas de um tom de verde que ela jamais vira no pântano. Mais claro, mais suave, brilhando como uma pedra preciosa, mas com a ponta negra, vista apenas como reflexo da luz na água. Kadiya entrou no barco, apanhou a vara e o filete de luz se moveu. Não com o movimento nervoso de uma criatura aquática, mas devagar, acompanhando a velocidade dos dois barqueiros.
Kadiya suspirou profundamente.
— Temos um novo guia, Jagun, e uma nova tarefa. Continuemos nossa viagem.