O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 12 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 11

 

As sementes do Trílio Negro conduziram Haramis e o músico Uzun através dos alagados das terras altas, no sopé dos Montes Ohogan. Não voavam rápido para que os dois pudessem segui-las. Se um deles tropeçava ou ficava atolado na lama por um momento, ou quando precisavam parar, a semente do-dia esperava — aparentemente imobilizada por uma calmaria, ou por algum obstáculo —, reiniciando o voo quando eles estavam prontos para seguir. Determinava também onde e quando deviam parar para a noite, caindo no chão no lugar que achava apropriado. Ou talvez, pensou Haramis, as sementes estão escolhendo os lugares melhores para germinar e crescer. Se eu sobreviver e voltar aqui no próximo ano, encontrarei plantas de trílio neste caminho, separadas por um dia de viagem?

Mas as sementes também não permitiam que perdessem tempo e, depois de vários dias de viagem para o oeste, Haramis começava quase a detestar aquelas coisinhas leves e etéreas. Às vezes Haramis tinha vontade de parar para examinar uma planta ou uma criatura estranha, mas a semente-do-dia continuava a marcha e ela e Uzun eram obrigados a segui-la.

Dois dias depois de deixarem Noth, Haramis ousou desafiar a guia mágica. A trilha que seguiam, nas terras altas, levou-os a um campo imenso com as mais doces e saborosas framboesas que ela já havia provado. Haramis resolveu ignorar a semente-guia e parar para saborear as frutas deliciosas.

A semente continuou seu caminho e desapareceu. Haramis tirou outra da fava e a atirou para cima, mas a semente caiu no chão e ficou imóvel, recusando-se a voar mesmo quando a princesa a assoprou.

Em pânico, ela tentou outra semente. Esta saiu voando velozmente e Haramis teve de correr para segui-la, com o pobre Uzun ofegante e gemendo atrás dela. O oddling não se queixou, mas Haramis sabia que era responsável por aquele desconforto.

A princesa segurou o amuleto e disse, com voz autoritária:

— Eu cometi um erro! Não devia ter ignorado a semente! Tenha pena de Uzun, se não se importa comigo! Mais devagar! Por favor!

A semente obedeceu, diminuindo a velocidade imediatamente.

Mas Haramis ficou ressentida. A Arquimaga não podia ter escolhido um meio mais normal de realizar sua missão? Por acaso ela era uma criança ou um animal que precisava ser apressada daquele modo? Todas as missões desse tipo descritas nos livros eram realizadas numa atmosfera de dignidade e nobreza. Porém ela, ao que parecia, ia cumprir seu destino subindo e descendo atrás de uma sementinha idiota, com os pés enlameados e cheios de bolhas, picadas de mosquito no pescoço e uma aversão cada vez maior pelas rações nutritivas, mas monótonas, fornecidas pela Arquimaga.

A quantidade de comida também era pequena.

No quinto dia de viagem, quando chegaram a um grande rio que Uzun supunha ser o Alto Vispar, pela primeira vez ocorreu a Haramis que podiam ficar sem alimento, se continuassem a comer quando e quanto tinham vontade. A região parecia completamente deserta e, segundo Uzun, nenhuma tribo de nyssomus ou de uisgus habitava o extremo norte da Península, muito além dos limites do Pântano Labirinto. O sopé das montanhas era terra de ninguém e separava o pântano do território montanhoso dos vispis.

Haramis sentou numa rocha, na margem do rio que corria rápido. O dia estava quase no fim e a semente que os guiava já havia caído no chão, indicando que deviam acampar ali para a noite. Uzun apanhava gravetos para a fogueira e começava a preparar a refeição, como fazia todas as manhãs e todas as noites, insistindo em servir a princesa condigna mente, como se estivessem em casa, na Cidadela.

— Uzun — disse Haramis e o músico pequenino correu para perto dela, sorrindo. — Acha que tem peixe neste rio?

— Acho que sim, minha princesa. Garsus certamente, e sem dúvida outros cujos nomes não conheço.

— Encontrei linha para pescar e três anzóis na minha mochila. Quer apanhá-los e pescar um belo peixe para o jantar? Estou tão farta dos biscoitos duros e da carne-seca. Além disso, nossa provisão de alimento está muito baixa e duvido que encontremos algum nativo nesta região deserta disposto a nos ceder alguma comida.

O sorriso desapareceu dos lábios de Uzun.

— Mas falta só uma hora, ou pouco mais, para anoitecer, princesa. Se eu perder tempo pescando, quando vou acender o fogo e cozinhar? — Sorriu outra vez, como que se desculpando. — Além disso, detesto ter de confessar, mas nunca pesquei em minha vida e provavelmente vou me atrapalhar todo.

Haramis riu.

— Não pode ser tão difícil, se até os filhos dos fazendeiros da Cidadela sabem pescar. Tive uma idéia maravilhosa! Eu vou pescar e você, em vez de cozinhar essas rações sem graça, vai apanhar cerejas e um pouco daquele belo agrião amargo que vimos ao lado da pequena lagoa perto daqui. E se você procurar, sem dúvida encontrará cogumelos. Desse modo, teremos um banquete esta noite!

Como sempre, Uzun obedeceu às sugestões da princesa. Depois de empilhar os gravetos para a fogueira, saiu para procurar as cerejas, o agrião e os cogumelos, deixando Haramis sozinha.

Pescar é fácil, pensou a princesa, pega-se uma vara, amarra-se a linha na ponta, e o anzol na outra ponta, com a isca.

Oh! A isca precisa ser enfiada no anzol. E onde se encontra isca por aqui?

Encontrou uma vara entre a vegetação amontoada na margem do rio e sob um tronco apodrecido achou uns vermes

cintilavam fracamente na luz do fim de tarde. Procurando se controlar (Haramís vomitou uma vez mas felizmente Uzun estava longe e não ouviu) enfiou uma daquelas coisas nojentas no anzol, depois de amassar duas com os dedos trêmulos.

Limpou as mãos, procurou um lugar onde o rio parecia mais profundo e jogou a linha com o anzol e a isca. deslizou lentamente rio abaixo, na superfície, parando num bolsão de água clara entre as rochas. Haramis a levou de volta para a pequena lagoa formada pelo rio, mas a linha voltou a deslizar.

Muito bem. Qualquer Pessoa inteligente podia resolver aquele problema. Lembrou que as crianças na Cidadela, usavam bóias e pesos para controlar a posição da isca.

Tirou a linha da água. É claro que o anzol estava vazio e ela teve de repetir a operação desagradável. Amarrou uma pequena pedra logo acima do anzol e, a um ell mais ou menos acima dela, um pedaço de madeira seca. Procurou a melhor posição e lançou a linha. O anzol mergulhou na lagoa formada pelo rio e ficou ali. Com um suspiro, Haramis sentou na margem e esperou.

De agora em diante, terei de fazer isto. Tenho sido uma idiota perfeita, permitindo que o pobre Uzun faça tudo, como se estivéssemos num piquenique nos prados da Cidadela. É evidente que teremos de viver com Que a terra nos oferece e guardar o pouco que resta das rações Para um caso de emergência. Só os Senhores do Ar sabem quanto tempo vai durar esta missão — e Onde ela nos levará.

Haramis olhou para a parte alta do rio. Para além do alagado com suas árvores esparsas e mato alto. A trilha estreita fazia uma curva naquele ponto e continuava para o norte, seguindo a margem. Sem dúvida as sementes implacáveis os conduziriam Por ali, levando-os para as montanhas.

As montanhas erguiam-se majestosas, além das colinas escuras, coroadas de neve e terríveis, a terra dos misteriosos vispis. Seu talismã estaria escondido lá em cima? Nesse caso como sería possível encontrá-lo se ela e Uzun nada conheciam das selvas? E além disso, voltar com ele Para Noth, como a Dama Branca havia ordenado?

A Dama Branca que estava doente, à morte, possivelmente senil – tudo que podiam fazer era seguir as sementes — coisinhas comuns, escuras, cada uma com um tufo de fios sedosos, aparentemente sem nenhum poder mágico, exceto a segurança com que indicavam o caminho no seu voo constante.

Ela as impulsiona, pensou Haramis. Ela sabe onde estamos, e para onde devemos ir, e impulsiona as sementes na direção certa. Não me disse para onde iremos porque sabia que eu ia ficar tão amedrontada e desanimada que nem começaria a viagem...

— Princesa! Encontrei cerejas, agrião e uma porção de cogumelos que parecem deliciosos.

Haramis sobressaltou-se. Absorta nos pensamentos, não o ouviu chegar. Então, a vara esticou-se de repente, na sua mão. Haramis a segurou com força e quase foi arrastada para dentro do rio.

Ela gritou.

— Uzun, ajude! Um peixe!

Então, algo verde e prateado saltou para fora d’água e mergulhou outra vez. O músico oddling correu para perto dela, tagarelando excitado. Os dois lutavam e gritavam, quase perdendo a vara, e quase desistindo, tamanha era a força do peixe.

Mas Haramis gritou.

— Não! Você não vai fugir! Você é o nosso jantar! Nesse instante, o peixe parou de lutar e eles o levaram para terra. Era um garsu brilhante do comprimento da perna de Haramis.

— Talvez nem precisasse do anzol, princesa — zombou Uzun —, uma vez que pode ordenar o jantar à água.

— Espero que tenha sido mera coincidência — disse Haramis, rindo. — Não gostaria de pensar que nosso jantar é uma criatura inteligente capaz de entender a fala humana — ou, pior ainda, um príncipe encantado!

— Como nas antigas baladas? — disse Uzun. — Não acho provável. É um garsu comum, e vai ficar delicioso — além de sobrar bastante para o café da manhã e para o almoço. Muito bem, princesa. Muito bem!

Entreolharam-se com largos sorrisos. Então, Haramis olhou para o grande peixe e a alegria desapareceu do seu rosto.

— Uzun? Você sabe o que devemos fazer agora? Sabe... preparar o peixe?

Desapontado, boquiaberto, Uzun balançou a cabeça. Haramis suspirou.

— Não faz mal. Todos dizem que o método de ensaio e erro é o melhor meio de aprender.

Uzun não parecia convencido.

— Pedir a inspiração divina também não vai fazer mal.