O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 16 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 15

 

O barco uisgu partiu veloz sob a luz das Três Luas e Anigel acordou com uma exclamação abafada. Era a quarta noite seguida que sonhava com a seca e o fogo, e estava coberta de suor e rígida de pavor sob a coberta acolchoada com folhas, ajeitada por Immu em volta dela. Maldito sonho! Era tão idiota reviver continuamente aquela irrealidade dolorosa! Segurou o amuleto com o trílio. Sentiu o calor do âmbar na palma da mão gelada e perguntou por que seu lado secreto enviava novamente aquele terrível pesadelo. Sabia o que significava! Reconhecia suas deficiências e prometia ser corajosa. Por que aqueles fantasmas insistiam em atormentá-la? Não era justo!

Reunindo toda a força de vontade, procurou afastar aquelas lembranças, concentrando-se no aqui e agora.

O barco em que viajava assemelhava-se aos dos nyssomus, no formato e no comprimento, mas não era feito de um tronco de kala e sim de feixes de junco, trançados e forrados na parte interna com uma substância dura. Os dois rimoriks que o impulsionavam eram criaturas peludas, longas e finas, maiores do que um homem, com cabeças também longas, olhos negros enormes e os dedos das patas unidos por uma membrana com garras formidáveis. Seus corpos eram mosqueados de verde e sua voz um silvo agudo. Não gostavam de humanos e arreganharam as presas quando Anigel tentou se aproximar deles. Estavam atrelados ao barco por meio de arreios duplos, atados na proa. Os dois condutores uisgus, Lebb e Tirebb, controlavam seus cavalos aquáticos com as rédeas que passavam por duas argolas nos lados do barco. Anigel era obrigada a viajar e dormir numa pequena esteira, na popa estreita, para não perturbar os rimoriks com sua aura humana. A cada seis horas paravam numa aldeia uisgu para a troca de animais e descanso dos barqueiros.

O calor do sol era escaldante na estranha região do Pântano Dourado que atravessavam há três dias. Viam poucos animais nativos, bandos de pássaros, moscas com asas transparentes — algumas com envergadura de meio ell — e uma enorme quantidade de peixes. A relva com bordas cortantes era, em alguns lugares, mais alta do que Anigel e coroada com ponículas de flores amarelo-douradas.

No começo da viagem, navegaram por um canal estreito e sinuoso atravessando uma região ao norte de Trevista. As curvas eram tantas que Anigel perdeu todo o senso de direção. No segundo dia, a relva era mais baixa e os canais menos distintos. Os rimoriks simplesmente nadavam em frente, atravessando a pradaria alagada, e o barco deslizava sobre a relva como se estivesse numa estrada coberta de graxa, mal tocando a água.

As paradas eram sempre em pequenas ilhas, com muitas árvores e arbustos repletos de flores e frutos, onde viviam os tímidos uisgus, que se alimentavam especialmente de peixe cru. Usavam uma bebida ”sagrada”, marrom, que Immu se recusou a dizer do que era feita e proibiu Anigel de experimentar. Ao contrário dos nyssomus, os uisgus não usavam o fogo. Moravam em cabanas de palha, tecidas com juncos trançados, como seus barcos, construídas sobre estacas, por causa das enchentes de inverno. Os uisgus eram muito menores do que os nyssomus e usavam apenas um saiote curto e jóias de ouro com pedras preciosas, adquiridas no comércio de trocas com os vispis das montanhas do norte. Pintavam círculos de várias cores em volta dos olhos e os homens tinham pintados no peito três círculos entrelaçados no ponto central. Seu corpo era quase todo coberto de pêlos curtos, sobre o qual passavam um óleo espesso com forte cheiro almiscarado. Anigel quase não sentia mais o cheiro, mas quando conheceu os dois

barqueiros, Lebb e Tirebb, na casa da Observadora, teve de controlar a náusea quando apertou as mãos pegajosas dos dois. Entendia agora por que certos ruwendianos chamavam os pequenos oddlings de “Demônios escorregadios!” Immu e os barqueiros mal conseguiam se entender, cada um com seu dialeto, mas na verdade não precisavam conversar muito. Os dois uisgus sabiam perfeitamente onde ficavam as ruínas de Noth e haviam prometido a Frolotu levar Immu e a princesa até lá, o mais depressa possível.

Quando a noite chegava sobre a pradaria e as estrelas, obscurecidas pela névoa, pareciam duas vezes maiores, a orquestra noturna do pântano Dourado em nada se parecia com a do Baixo Mutar ou de Trevista. Na vasta região desprovida de árvores, nenhum animal grande rugia ou uivava. Os ruídos do pântano eram batidas sincopadas, como centenas de pequenos tambores, cada um num tom diferente, tocando uma melodia variada que acompanhava o deslizar do barco sobre o mar de relva. Era um som hipnótico e Anigel voltou a dormir.

Sem sonhos, Sem sonhos, pediu ela, mergulhando no sono. Quando acordou outra vez o barco estava parado, sentia-se perfeitamente descansada e o dia estava nascendo.

Três rostos estranhos espiavam, de fora, sobre a amurada do barco, com um misto de fascinação e horror. Eram vagamente parecidos com os nyssomus, mas suas orelhas pontudas eram maiores, bem como as presas afiadas, e tinham cabeça, o pescoço e o rosto cobertos de pêlo oleoso e liso. Um deles tinha círculos amarelos em volta dos olhos, os dos outros dois eram rosa e ocre.

A princesa deu um grito de surpresa e os três rostos desapareceram.

— ó, desculpem-me — disse ela, suavemente. — Não tenham medo, pequenos uisgus. Sei que para vocês pareço muito feia e gigantesca, mas não vou lhes fazer mal.

Apareceu uma cabeça, depois outra e mais outra, não maiores do que a cabeça de um bebê humano. As crianças uisgus conversaram animada e agitadamente, sem dúvida comentando a natureza do monstro que acabavam de encontrar adormecido num barco na sua praia.

— Está tudo bem — Anigel os tranqüilizou. Ergueu o amuleto com o trílio no cordão de ouro e, de repente, tudo se explicou.

Os três pequenos uisgus, com gritos de alegria, mostraram as presas em largos sorrisos. Subiram na amurada, prontos para entrar no barco, mas Anigel disse, sorrindo também:

— Não, não, por favor, fiquem sentados aí enquanto eu me visto. Depois, podem me levar à sua aldeia. Suponho que Immu, Lebb e Tirebb foram procurar rimoriks descansados, deixando-me aqui, dormindo preguiçosamente.

Empurrou a coberta para o lado e sentou-se, para vestir a túnica tecida com hastes de relva. A princípio, Anigel hesitou em usar a túnica dada por Frolotu, mas logo descobriu que era muito mais confortável naquele calor do que seu vestido sujo e rasgado. As mangas largas, boca-de-sino, e o capuz folgado a protegiam do sol inclemente da pradaria. Trocou também as sapatilhas arruinadas por meias de pele que iam até os tornozelos e sandálias fortes. Completava o traje um cinto de fibra trançada com uma grande bolsa de couro, onde a princesa guardou o lenço, o pente, a adaga e alguns outros pequenos acessórios.

Um dos pequenos uisgus desapareceu da amurada. Voltou logo depois e, rindo nervosamente, estendeu para Anigel um cordão de flores que pareciam de cera, com um perfume forte. Anigel agradeceu, fez uma grinalda e a pôs na cabeça. Depois, saiu do barco e acompanhou os três uisgus por uma trilha estreita.

A aldeia não ficava longe e consistia de cinco cabanas sobre estacas e um galpão, sem telhado, ao nível do solo, onde os uisgus faziam suas reuniões sociais, discutiam assuntos importantes e preparavam e comiam as refeições na estação seca. Immu e os barqueiros, Lebb e Tirebb, serviam-se da panela comunal. O chefe da aldeia recebeu Anigel com um discurso atencioso, mas incompreensível, e mandou que a servissem também.

Anigel já estava acostumada ao peixe cru picado, marinado com suco ácido de frutas até ficar branco, com uma textura semelhante à do peixe cozido. Aceitou também fatias de melão e um punhado de deliciosas nozes-blok, mas, imitando Immu, recusou o miton sagrado.

— Essa gente diz que Noth fica a poucas horas daqui — disse Immu. — A parte submersa do Pântano Dourado, que pode ser atravessada pelos rimoriks, termina a poucas léguas da aldeia, onde a água é muito rasa. Teremos de ir até o Rio Notar, um pouco a leste, e acompanhá-lo durante algum tempo para chegar à casa da Arquimaga, da qual os uisgus só se aproximam quando são convidados, mas eu disse a eles quem você é e por que a Dama Branca a chamou.

O chefe da aldeia, que se distinguia dos outros oito homens adultos pelo colar e braceletes de ouro, o saiote enfeitado com escamas de peixe e três círculos coloridos em volta dos olhos, aproximou-se da princesa, quando ela terminou de comer e falou durante algum tempo no seu dialeto incompreensível. Anigel controlou-se para não recuar quando os dedos como garras seguraram o amuleto do trílio, no cordão de ouro, para mostrá-lo aos outros.

O pequeno grupo de uisgus, maravilhado, emitiu uma exclamação abafada, interrompida pelo vozerio das três crianças, sem dúvida contando aos outros que já haviam reconhecido Anigel.

— Esses uisgus que vivem na região oeste do Pântano Labirinto mantêm contato mental permanente com seus companheiros — Immu disse para Anigel, em voz baixa. — O chefe diz que você não é a única Pétala do Trílio viajando para Noth. Há outra — sem dúvida sua irmã Kadiya — que sobreviveu aos perigos do Pântano Negro. Ela e seu companheiro — deve ser Jagun — chegaram à aldeia dos nyssomus, perto da confluência do Rio Notar e o Alto Mutar.

— Isso é maravilhoso! — exclamou Anigel. — Podemos esperar a chegada dela em Noth.

Immu disse com ar de dúvida:

— Quem vai resolver isso é a Arquimaga.

O chefe falou outra vez, apontando para o céu ao norte e franzindo a testa, depois esfregou as palmas das mãos nos quadris peludos, indicando desaprovação extrema.

— Pela Flor! — resmungou Immu. — Ele diz que uma terceira pessoa usando o amuleto do trílio partiu de Noth há uma semana, na direção das montanhas ao norte, e que subiu para os campos de neve dos Montes Ohogan. Ele diz que essa pessoa é muito imprudente porque vai entrar no território dos vispis, proibido para todas as outras raças, sob pena de morte.

— Só pode ser Haramis! — exclamou Anigel. — E ela só iria onde a Arquimaga mandasse! Mas como foi que conseguiu...

— Quieta — disse Immu. — Não diga mais nada. Immu fez um pequeno discurso de agradecimento ao povo da aldeia e disse a Lebb e Tirebb que erahora de seguirem viagem. Dois novos rimoriks já estavam atrelados ao barco.

O chefe delicadamente colocou-se na frente delas. Obedecendo à sua ordem breve, uma das mulheres entregou a ele um vaso fechado de cerâmica, pintado de vermelho-vivo, dentro de uma sacola de fibra trançada. O chefe o entregou solenemente a Anigel.

— É miton? — murmurou a princesa para Immu.

— Sim, é. E desta vez você tem de aceitar, pois é um presente especial que eles raramente fazem a quem não pertence ao seu povo — muito menos a humanos. Graças aos Senhores do Ar, você não é obrigada a beber.

Anigel inclinou a cabeça, agradecendo em sua língua. Aparentemente eles compreenderam. Uma velha oddling encarquilhada os acompanhou no caminho para o barco, batendo no ombro de Anigel e apontando para o jarro com um sorriso encorajador.

— Miton! — dizia ela. — Miton! Miton ka poru ti! Embarcaram, os dois uisgus na proa, Immu e Anigel na popa. Quando se afastaram, os uisgus na margem do rio ergueram as mãos, num gesto de despedida. A voz chiada da velha repetiu pela última vez:

— Miton ka poru ti!

— O que quer dizer isso? — Anigel perguntou para Immu. Com o jarro no colo, examinava o trançado caprichoso da rede.

— Quer dizer ”Miton dá força e coragem” — traduziu Immu, com relutância —, por isso a chamam de bebida sagrada.

— Mas isso é maravilhoso! — exclamou a princesa, com alívio. — Vou tomar um pouco agora mesmo, pois estou quase morrendo de medo de conhecer a Dama Branca.

Immu virou o rosto e, como se estivesse falando sozinha, resmungou:

— Há uma estranha simbiose entre os uisgus e os rimoriks, por meio da qual eles se ajudam e se estimam mutuamente. O povo e os animais são amigos do coração, não donos e animais domésticos. Os rimoriks são fortes e corajosos, ao passo que os uisgus, mais fracos, são mais inteligentes. Sua união é constantemente reforçada por meio do miton, tomado pelos rimoriks e pelos uisgus... e feito da mistura do sangue das duas espécies.

A princesa ficou petrificada. Uma das mãos foi instintivamente até o amuleto.

— Eu não sei dizer — concluiu Immu — se essa bebida dá coragem ou não. O meu povo, os nyssomus, tem medo dela. Os poucos de nós que ousaram tomá-la — nossos barqueiros de rimoriks — transformaram-se numa espécie diferente. Sem dúvida há uma mágica muito forte nela, mas seria prudente você entregar esse jarro para a Arquimaga, ou pelo menos consultá-la sobre seu potencial.

— Eu... vou fazer isso — disse a princesa.

Anigel ficou em silêncio durante um longo tempo, olhando para o jarro vermelho e depois para a paisagem, para as montanhas que começaram a aparecer no horizonte.

Depois de quase uma hora, voltou-se para Immu e disse, sorrindo:

— Só os Senhores do Ar sabem se este miton na verdade dá coragem e força. Mas aconteceu uma coisa estranha. Só de ficar aqui sentada, segurando o jarro, perdi todo o medo de me encontrar com a Dama Branca. Acho que isso é magia suficiente por enquanto.

As ruínas de Noth, embora mais extensas, não eram tão imponentes quanto as de Trevista e Anigel ficou um tanto desapontada. O barco uisgu, depois de atravessar uma área cheia de ruínas de pedras cobertas pela vegetação, chegou a uma lagoa repleta de flores amarelas malcheirosas, com restos de insetos apodrecidos dentro das corolas. Aportaram num pequeno cais surpreendentemente limpo. A praia inclinada era coberta de relva cortada rente e de jardins floridos e civilizados, plantados no meio da selva luxuriante, onde passeavam togars domesticados de pescoço comprido, como se estivessem numa fazenda do Knoll, uma vez ou outra, comendo um pouco de relva ou outra coisa qualquer. A algumas dezenas de ells acima, no topo de uma escada rústica feita de lajes de pedra, erguia-se um chalé, diferente de todos que Anigel conhecia.

O telhado era de relva seca e espessa, e o branco das paredes destacava a madeira escura dos beirais. Da chaminé de pedra espiralava um filete de fumaça. As janelas eram feitas de mosaico, com floreiras no parapeito e venezianas de madeira para proteger o vidro durante a estação das chuvas. A porta da frente ficava bem no centro — e só a metade inferior estava fechada. Ao lado dela havia um banco de madeira com uma roca, um cesto com lã para fiar, uma vasilha cheia de novelos de fios e um animal pequeno, peludo e malhado, dormindo. O efeito total era tão encantador e tranqüilo, depois das ruínas sombrias da cidade perdida, que Anigel perguntou em voz alta se estariam no lugar certo.

Immu perguntou aos uisgus Lebb e Tirebb, que pareciam ansiosos para deixar as passageiras e partir. Os dois balançaram as cabeças enfaticamente dizendo que sim e apontaram para a casa. Um deles jogou na praia as mochilas de Immu e de Anigel e o outro assoprou o apito sibilante, a ordem para os rimoriks começarem a nadar.

— Ora ora — disse Immu, vendo o barco afastar-se velozmente. — O que você acha disso!

Anigel dirigiu-se para os degraus do jardim e chamou:

— Venha depressa! Não vai acreditar no que eu encontrei plantado aqui!

— Venha venha venha — resmungou Immu, caminhando para a escada com suas perninhas curtas.

Entre a água e a casa havia várias árvores carregadas de frutos redondos cor-de-laranja que impediam Immu de ver a planta que Anigel contemplava com admiração e respeito.

Era um Trílio Negro com dois ells de altura, carregado de flores enormes.

Immu caiu de joelhos e começou a chorar.

— É verdade! Nós o encontramos! Ó, dou graças aos Senhores do Ar!

A princesa ajoelhou também para consolar a amiga, mas um instante depois, com uma exclamação de susto, as duas se abraçaram. Um vulto apareceu entre elas e o brilhante sol do meio-dia.

— Senhora? — disse Immu, com voz trêmula.

O vulto se moveu e a luz incidiu no rosto tão enrugado e marcado pelo tempo que os traços quase tinham desaparecido, exceto os olhos azuis nas órbitas fundas. Estava vestida com um manto branco de tecido feito em casa, e um véu bordado cobrindo os cabelos também brancos. Estendeu a mão emaciada, com as juntas grossas e veias saltadas, onde cintilava um anel com aro de platina filigranada e uma pedra de âmbar com um trílio fossilizado dentro dela.

— Eu sou a Arquimaga Binah — disse ela. — Sejam bem-vindas.

Anigel levantou-se, deixando Immu paralisada, sentada no chão. Sentiu um calor intenso no peito e tirou de sob a túnica o amuleto. O âmbar parecia em chamas, pulando com as batidas do seu coração, e o botão dentro da pedra começava a se abrir.

A mulher sorriu e voltou-se, convidando Anigel a se aproximar, com um gesto. A Arquimaga andava com dificuldade, arrastando os pés, apoiada num cajado de prata. A princesa a seguiu sem nenhum medo. Como podia ter medo daquela pobre Dama Branca agonizante?

— Ô, você ficaria surpresa — respondeu a Arquimaga, com uma risada que soou como folhas secas passando sobre pedras. — Mas não deve ter medo de mim, criança. Sou sua madrinha e a amo. Deve confiar em mim.

— Eu confio — disse Anigel.

A Arquimaga parou perto do trílio.

— É o único desta espécie que vive ainda em nossa terra e, embora pareça forte, está morrendo, como eu.

Anigel deixou escapar uma exclamação de susto. Mas a mulher levou um dedo aos lábios.

— Outra espécie de trílio tomará o lugar deste, se Deus quiser. Sabe do que estou falando, minha filha?

— Sei — disse a princesa. — Mas eu sou muito fraca e posso comprometer seus planos se...

— Fique quieta — censurou Binah. — Essas suposições tolas podem atrair o fracasso que tanto teme! Você deve cultivar a serenidade, meu amorzinho, pois ela é o traje da verdadeira nobreza. Veja como essas flores são serenas, aceitando alimento da folha e da raiz, voltando suas faces sempre para o sol, acalentando as sementes no fundo do coração. E elas morrerão serenas, pois do contrário suas sementes não se libertarão.

Anigel balançou a cabeça, perplexa.

— Por favor, senhora... desculpe se pareço tola. Então é meu destino morrer por meu país?

— Eu não sei — respondeu a Arquimaga. — Sei que tem de realizar uma tarefa importante que lhe será revelada. E vai também receber um sinal, um talismã, indicando que a luta por Ruwenda e por sua alma está para começar. Sua irmã Haramis já começou a procura. Sua irmã Kadiya logo partirá em busca do seu destino. Cada uma encontrará um talismã e no momento certo as Três Pétalas do Trílio Vivo estarão unidas outra vez. Depois disso, qual será o fim, eu não posso ver.

Anigel ficou extremamente pálida, mas manteve-se calma, segurando sempre o amuleto.

— Então, esta dádiva, que me deu quando nasci, vai me guiar na minha missão?

— Sim, vai, e isto também.

A Arquimaga colheu uma folha do trílio e a estendeu para Anigel, mostrando a superfície com a outra mão.

— Esta folha tem o desenho da nossa terra. Olhe com atenção! Os veios e as nervuras formam o mapa de Ruwenda. Aqui, na ponta, está Noth e o veio dourado que parte dele é o rio que você deve seguir para encontrar seu talismã. Primeiro, descendo o Nothar, depois o Alto Mutar até o Baixo Mutar.

Anigel examinava a folha, curiosa e interessada.

— Mas o veio dourado continua até a haste da folha! Veja — aqui é onde o Mutar faz uma curva, dando a volta na Cidadela, e esta marca deve ser o Lago Wum, e mais adiante está o Grande Mutar que atravessa o país de Wyvilo e as terras selvagens de Glismak! — Seus olhos encheram-se de medo. — Preciso ir até lá? Até a escura Floresta Tassaleyo?

— É o que parece — disse a Arquimaga. — Eu não sabia antes de colher a folha. — Balançou a cabeça. — Uma viagem tão longa! Minha pobre querida... mas é sempre rio abaixo, portanto será mais rápida do que a que acaba de fazer.

— E a tarefa que devo realizar.

— Será revelada. — O rosto da mulher contorceu-se de dor e ela cambaleou. Immu, que estava a uma distância respeitosa, adiantou-se e segurou o braço da Dama Branca. Anigel segurou o outro e levaram a Arquimaga até a casa, a acomodaram numa poltrona e Immu apanhou um copo com água.

— Não se preocupem, minhas queridas — disse a mulher. — Não vou morrer ainda. Meu trabalho não está terminado. Só estou muito, muito cansada.

Anigel hesitou, depois tirou da bolsa de couro no cinto o frasco com o miton.

— Os uisgus me deram isto. Dizem que dá força e coragem.

— O presente foi para você — disse Binah, com voz cansada. — Guarde, mas use só quando for necessário.

— Quando vai ser isso? — perguntou Anigel.

Mas Binah fechou os olhos e inclinou a cabeça para o peito, respirando devagar e ruidosamente.

— Pode me dizer ao menos onde se encontra meu talismã? — implorou Anigel.

— No fim da haste, — A voz da Arquimaga estava quase inaudível.

— Mas não me disse o que é o talismã! — exclamou Anigel, desesperada.

A Arquimaga suspirou.

— Por favor! — A jovem estava quase chorando. — Diga-me apenas o que eu vou procurar!

— O Monstro de Três Cabeças — murmurou Binah. E adormeceu profundamente.