O Trílio Negro
Capítulo 13
Kadiya acordou ao cair da noite com o cheiro de peixe grelhado e imediatamente sentiu uma fome quase dolorosa. Aparentemente, Jagun ousara fazer uma pequena fogueira e estava grelhando alguns garsus, nenhum maior do que sua mão.
Kadiya atravessou a moita espessa que protegia o acampamento, chegou na margem do rio e lavou o rosto e as mãos esfregando-os com folhas. Sentiu saudades da piscina de água quente na Cidadela, onde ela e as irmãs tinham aprendido a nadar; dos cristais do sul, suavemente perfumados, que espalhavam na água para encher a piscina de espuma repousante e cheirosa. Embora a roupa cedida pelos oddlings fosse forte e resistente, estava rasgada aqui e ali e o creme contra insetos cheirava a ranço. Kadiya prendeu o cabelo liso com uma haste de junco.
Voltou para o acampamento. Comeu com a mão um dos peixes preparados por Jagun. lambendo os dedos rapidamente cada vez que o calor e a gordura faziam arder sua pele.
Jagun comia em silêncio. Continuou assim enquanto disfarçavam do melhor modo possível os sinais da sua passagem e voltaram para o barco e para o meio do rio. Kadiya o convenceu a permitir que ela ajudasse e, largando o remo, apanhou uma vara, dando a outra para a princesa.
O exercício não era novidade para a jovem, mas ela levou algum tempo para combinar seus movimentos com os de Jagun. Quando acertou o ritmo, o trabalho tornou-se quase hipnótico. Mergulhar a vara, fincar com força, levantar, mergulhar outra vez. De pé, na proa, Kadiya consultava freqüentemente o brilho do amuleto.
Descansavam de tempos em tempos. Pararam para tirar da água raízes de uma espécie de lírio. As flores enormes estavam ainda em botão, portanto podiam comer as raízes sem perigo. As raízes do lírio e os restos dos garsus foram sua refeição da meia-noite.
Foi uma noite de silêncio. Alguma coisa perturbava Kadiya. Nem o ritmo cadenciado das varas levando o barco conseguia dissipar seu temor de um ataque invisível e silencioso. Jagun era considerado um dos melhores caçadores do seu povo e certamente perceberia a tempo qualquer ameaça. Mas isso dizia respeito a ataques do mundo externo e o que ela temia vinha daquele mundo interno, de cuja existência jamais suspeitara antes das primeiras manifestações.
— Jagun — disse ela, em voz pouco mais alta do que o zumbido dos insetos. — O que nos espera ainda? — Naquele momento, Kadiya desejou ter prestado mais atenção ao grande mapa mural muito desbotado que recobria uma das paredes da sala do conselho, na Cidadela.
— Vamos para o Pântano Dourado — disse ele. — Antes, porém, paramos em Vurenha.
— A região do seu clã?
— Sim. Pertenço a um dos clãs da periferia. Além dessa região, ficam as terras que poucos ancestrais conheceram. Não posso dizer o que vamos encontrar lá. Podemos depender unicamente disso que você usa no pescoço.
— Terras dos uisgus? — perguntou ela.
— Uma parte, sim, mas também as regiões tenebrosas onde os afogadores fincam suas estacas. Conhecemos muitas histórias sobre eles, não sabemos o que tem de verdade nelas. Mas precisamos atravessar essa região para chegarmos a Noth, pois se tomarmos o caminho mais longo podemos ser descobertos por aqueles que nos perseguem.
— Você já esteve em Noth, Jagun?
— Uma vez. Quando você ainda era um bebê. Há uma lei, segundo a qual nós, os caçadores, quando achamos que estamos bastante hábeis na nossa profissão, devemos nos apresentar à Dama Branca para que ela nos conceda plena liberdade nos Pântanos. Foi quando ela me mandou servir como caçador na corte do rei seu pai e esperar o dia terrível da sua profecia, o dia que chegou recentemente. Segundo a lei também, devemos informar a Dama Branca de tudo que descobrirmos sobre os Desaparecidos...
— Novas descobertas? — perguntou Kadiya intrigada. — Existem ainda coisas para descobrir, Jagun? Tantas centenas passaram desde que seu povo começou a viajar pelos Pântanos. O que mais pode haver para descobrir?
Só depois de algum tempo Jagun respondeu, com certa relutância.
— Olhos Penetrantes, os Desaparecidos tinham segredos que nenhum de nós pode sequer imaginar. É verdade que qualquer objeto ou aparelho diferente dos que já foram descobertos até agora deve ser levado à Dama Branca de Noth. Alguns ela guarda, e sabemos que são perigosos e que o segredo faz parte do seu papel de guardiã.
Kadiya percebeu que Jagun não ia dizer nada mais sobre o assunto. Mas, se ele conhecia a Arquimaga, podia dizer alguma coisa que a preparasse para o encontro iminente.
— Como é ela, Jagun? Sei que sua mágica é poderosa, mas o que a faz diferente das outras pessoas? Dizem que Orogastus, fisicamente, é igual a todos os outros homens, mas tem um porte majestoso e um olhar a que ninguém pode resistir. Mas, afinal, as histórias mais impressionantes sempre são sobre o inimigo. Se Orogastus é mais do que um homem — então o que é a Arquimaga?
— Filha do rei, ela é a Senhora, a Guardiã. A vida ela conhece, e a morte, mas com nenhuma delas se preocupa. Pois vida e morte são o destino comum de todos. Ela é a mesma desde que meu povo a viu pela primeira vez. Não ergue a mão para impedir a morte e não cria nenhuma vida. Ela mantém o verdadeiro equilíbrio e nós enfrentamos a passagem do tempo de acordo com nossa natureza. Só ela impede a invasão dos Pântanos, e agora o equilíbrio foi alterado e precisa voltar ao normal outra vez. Uma coisa, filha do rei, para a qual você nasceu.
Kadiya mergulhou a vara bem fundo na água. Sem retirála, voltou-se e olhou para Jagun.
— Nasci para isso? — perguntou ela, erguendo a voz.
— Vocês três nasceram, Olhos Penetrantes. O tempo passa e a pedra mais dura tem de ceder a essa passagem. Ela, a de Noth, vê o futuro. Assim, quando ela avista nuvens se formando no horizonte, seu dever é se preparar para a chegada das Chuvas de Inverno. Antes do dia do seu nascimento, filha do rei, alguns nyssomus e alguns uisgus foram chamados a Noth. Foram avisados de que as Trevas cresciam e que aquela que no passado se interpunha entre nós e as Trevas não tinha mais forças para nos defender. Entretanto ela nos prometeu que outros viriam para restabelecer o equilíbrio.
Kadiya mordeu o lábio. Mais uma vez a fúria acendeu-se das brasas que ela alimentava cuidadosamente.
— Um aviso — ela podia nos ter avisado!
— Olhos Penetrantes, esta é a primeira vez na lembrança das canções do meu povo que a Dama Branca de Noth enfrenta um poder similar ao seu. Ele pode ser muito maior do que ela imaginou. Você deseja cobrar o preço de sangue de Voltrik por todos que ele assassinou. talvez isso tenha pouca importância, comparado ao que você terá de exigir, antes do fim.
— Não tenho poderes mágicos... — começou ela.
— Olhe para aqueles juncos — Jagun inclinou a cabeça para a direita. — Você pode arrancar um deles e quebrá-lo facilmente. Com três deles, pode fazer uma corda trançada capaz de prender um harfut. Um você é, três vocês são...
Kadiya moveu a vara com impaciência.
— Haramis, Anigel e eu seremos essa corda? — Ela riu. — Acho que não se pode caçar muita coisa só com essa armadilha!
Magia — ela não possuía nenhum poder mágico e Anigel jamais em sua vida fácil havia demonstrado qualquer interesse pelas lendas antigas. Magia! Não queria pensar nisso como uma arma. Só pensava em enfrentar Voltrik com um verdadeiro aço nas mãos. Não havia onde ou como isso ia acontecer, mas acreditava que aconteceria. E ela não ia depender de nenhuma arte mágica para fazer o que devia ser feito!
Algumas vezes, durante aquela longa jornada noturna, ela não conseguia evitar estes pensamentos. Mas sempre se esforçava para voltar a atenção às coisas que os rodeavam. Duas vezes pararam sob o abrigo de uma elevação de terra, para descansar e comer. Kadiya massageou os braços e os ombros doloridos, sem nenhuma palavra de queixa. Na verdade, ela e Jagun falavam muito pouco.
Em certo momento, um grito agudo cortou a noite. Kadiya nunca ouvira nada igual, mas não se abalou. Descansavam sob os galhos de uma árvore na beira do rio, que os escondiam e guardavam. As Três Luas brilhavam no alto e um vulto alado cruzou o céu, tão imenso que Kadiya respirou fundo, admirada. Era maior do que o barco em que estavam e por um momento escondeu as estrelas. Não tinha idéia do que podia ser, nunca ouvira falar naquele tipo de criatura.
O vulto enorme soltou outro grito agudo e partiu. Jagun não fez nenhum movimento para sair do esconderijo. Kadiya o ouviu sibilar baixinho e dizer:
— O voor — e está caçando!
E havia em sua voz a apreensão do caçador enfrentando um inimigo muito mais poderoso do que ele.
— O voor?
— Não podia ter vindo até aqui por vontade própria, pois é uma criatura das profundezas do desconhecido. — Parecia estar falando para si mesmo. — O que o traz a esta região? Sem dúvida deve haver uma agitação ameaçadora em todo o mundo.
Depois de algum tempo continuaram a viagem, agora mais devagar. Kadiya procurava fazer tudo com o maior silêncio possível. Mais uma vez ouviram o grito ensurdecedor, mais para o norte, na direção que seguiam.
Acamparam quando o sol nasceu. Kadiya a princípio achou que não deviam parar na ilha escolhida pelo caçador, pois continha muitas ruínas e ela se lembrava do que haviam encontrado na outra, mas cedeu à insistência de Jagun.
Ele apontou para os redemoinhos na água escura.
— Sucbri — sem dúvida um ninho deles. Não chegam nem perto de um lugar que tenha servido de acampamento.
Aportaram na ilha e Jagun desapareceu com a zarabatana na mão. A princesa apanhou gravetos carregados pelo rio na estação das chuvas e armou a fogueira de modo que não fosse muito visível quando acesa. Esperando, em silêncio, Kadiya abriu todos os seus sentidos para o que a rodeava. Os vários odores do pântano misturavam-se no ar. Sentiu o perfume de flores, de decomposição e podridão, até a sugestão do cheiro almiscarado de um animal. Embora não possuísse o dom de Jagun e dos outros caçadores, sabia distinguir um cheiro do outro e classificá-los da melhor maneira possível.
Seus ouvidos também estavam atentos. Havia vida em volta dela e cada vez mais barulhenta à medida que o sol subia no céu. Reconheceu o estalido seco do besouro e, mais distante, o chilreio sonolento dos pássaros. Naquela vida abundante do pântano ela e seus iguais não passavam de intrusos. Seriam necessárias muitas e muitas vidas para que os da sua espécie pudessem classificar e conhecer um pouco a vida dos pântanos.
Kadiya segurou o amuleto e o ergueu para o primeiro raio de sol que chegou ao acampamento. O pequeno botão, dentro do âmbar, continuava fechado, mas a fagulha luminosa cintilava ainda. Negra, a flor era realmente negra como nenhuma outra. Era o emblema da sua casa real — e nem a mais antiga lenda explicava por quê.
Sem nenhum ruído que anunciasse sua chegada, Jagun apareceu de repente, trazendo dois karawoks, com água pingando ainda das bocas abertas. Com a zarabatana na mão, ele olhava para trás, para o caminho de onde tinha vindo.
Daria para contar até dez o tempo em que ele ficou ali, imóvel. Então, a tensão do seu corpo se abrandou um pouco. A cabeça, ainda virada para trás, para a trilha no meio do mato, girava da esquerda para a direita, com os olhos atentos. Finalmente, com um suspiro, ele sentou-se. Sua pele tornara-se mais cinzenta com os esforços da jornada. Deixou cair os karawoks, como se o bom sucesso da sua caçada não tivesse mais nenhum significado.
Depois de pôr a zarabatana sobre o joelho, Jagun tirou do cinto um volume disforme, e retirou rapidamente a folha no qual estava embrulhado. Kadiya recuou, com uma exclamação abafada. Um fedor intenso encheu o ar, quase sufocando-a. O objeto na mão de Jagun parecia um pedaço de geléia amarelo-esverdeado.
— Cria de skritek — Jagun largou o objeto, limpando as mãos vigorosamente nas hastes da relva. — É muito novo, mas mortal.
Kadiya olhou horrorizada e em silêncio. Não parecia possível que os skriteks tivessem se aventurado tão longe para fincar sua estaca de aviso. Impossível que tivessem um ninho ali perto. — Isso não podia acontecer!
— Encontrei um local onde os voors se alimentam — continuou Jagun. — Acabavam de comer isto.
— A que distância eles podem voar? — perguntou ela.
— Carregando um filhote grande? Não muito além da colónia mais próxima de skriteks que conhecemos...
Kadiya considerou o perigo que isso representava.
— Então os skriteks estão indo para o sul?
Jagun apanhou a folha desenrolada, com cuidado para não tocar a coisa dentro dela. Afastou-se do acampamento, fez um buraco no chão e enterrou os restos malcheirosos.
Quando voltou, disse com voz sombria:
— Há vários caminhos dentro do Pântano e alguns nós conhecemos muito bem. Mas ninguém pode conhecer toda esta vasta extensão. Existem lugares com lama movediça que engole qualquer invasor, além dos quais não podemos ir. O que existe além. — Ele deu de ombros.
Comeram e mais uma vez Kadiya ficou com o primeiro turno de vigia. Achou mais difícil do que nunca manter-se acordada, mesmo procurando se concentrar nas conseqüências daquela mudança de território dos skriteks. Quando Jagun a substituiu, Kadiya mergulhou imediatamente no sono pesado da exaustão.
A tarde estava quase no fim quando ele a acordou. Jagun estivera procurando comida outra vez e além das raízes de lírio trazia alguns garsus. Só de olhar para o peixe, Kadiya sentia a boca cheia d’água. Comeram devagar, saboreando cada pedaço, e deixaram aquele refúgio, seguindo sempre a promessa da luz do amuleto.
Naquela noite não viram sinal do voor, nem de qualquer coisa que não fosse parte do pântano. Agora estavam suficientemente perto do Pântano Dourado para distinguir os juncos brilhantes que davam o nome àquela região.
Quando a aurora os avisou da necessidade de procurar um abrigo, puderam descansar num lugar bem diferente dos que haviam encontrado até então. Pois ouviram um grito áspero ao qual Jagun respondeu imediatamente.
Naquele ponto, a nascente de um regato cortava a margem do rio grande e raso. Jagun entrou nele com o barco. Agora, nas duas margens Kadiya via oddlings que ela supunha serem nyssomus por causa das roupas de fibra tecida que usavam. Mas quando falaram com Jagun, não foi na língua usada no comércio com os mercadores e ela só entendeu uma ou duas palavras. Jagun aproximou o barco da margem esquerda e um dos oddlings subiu a bordo, tirou a vara das mãos de Kadiya, fez sinal para que ela sentasse e com movimentos vigorosos impulsionou o barco para a frente.
Assim ela chegou a Vurenha, a única aldeia nyssomu verdadeira que já tinha visto. Os que comerciavam em Trevista viviam nas ruínas nas ilhas do rio. Mas em Vurenha não havia sinais de outra história que não fosse a dos nyssomus. As casas eram construídas sobre palafitas, na beira da água, cada uma no centro de uma plataforma a uns cinco ells da superfície do lago, rodeadas por barcos iguais ao que os havia levado até ali. Trepadeiras, plantadas em vasos, subiam pelas paredes das casas altas, e suas folhas pareciam nascer das paredes e dos telhados, todas inclinadas ao peso de favas enormes e amarelas, com sombras avermelhadas. Kadiya reconheceu as plantas como a matéria-prima para a fabricação de uma bebida nutritiva e deliciosa. Nas margens do pequeno lago viam-se campos cultivados, bem como abrigos para animais de corte criados pelos nyssomus — o woth e o qubar —, maiores do que os da sua espécie, que viviam na selva.
O barco foi levado para o lado de uma das casas. Havia muitos oddlings fora das casas agora, mas os quatro que os esperavam eram mais velhos, e dois eram mulheres. Tinham os rostos pintados com tinta cintilante, formando desenhos variados, e as roupas de fibra tecida tinham franja de conchas brilhantes e outro material talvez proveniente das ruínas. A mulher mais alta e mais imponente adiantou-se para recebê-los.
— Meus cumprimentos, Primeira da Casa — Jagun falou devagar e dessa vez Kadiya compreendeu todas as palavras.
.— Possam Aqueles Cujos Nomes não Pronunciamos trazer honra e uma vida boa a todo o clã e ao seu povo.
A nyssomu inclinou a cabeça com a mesma graça com que a Rainha Kalanthe recebia uma embaixada oficial na Cidadela.
— Esta Primeira da Casa lhes oferece abrigo — disse ela. Então, Jagun apresentou Kadiya.
O nyssomu que havia ajudado a levar o barco estendeu a mão e conduziu Kadiya até a plataforma onde estava a mulher cumprimentada com tanto respeito por Jagun. A princesa conhecia as regras do protocolo, mas era difícil fazer uma cortesia apropriada sem um vestido longo. Então ela improvisou, repetindo o gesto com que as mulheres oddlings de Trevista se cumprimentavam. Juntando as palmas das mãos, ela inclinou a cabeça.
— Eu, Kadiya, filha do Rei Krain, desejo o melhor para este povo.
Para alívio da princesa, a mulher respondeu com um gesto que ela conhecia — estendeu a mão com a palma voltada para cima. Kadiya imediatamente encostou sua palma na dela.
— Fique descansada, filha do rei — disse a mulher, distendendo os lábios grossos, no típico sorriso oddling. Depois, continuou, séria: — Verdade, há morte lá fora e agradecemos Àqueles Cujos Nomes não Pronunciamos por ter chegado até aqui sã e salva. Aqueles que afogam percorrem nossas terras. — Hesitou por um momento e então disse: — Há muitos filhos das trevas lá fora. Mas entre nosso povo, está livre de perigo e permita que a ajudemos como nossa hóspede.
A casa tinha vários cómodos que davam para um corredor e Kadiya teve a impressão de que cada um era ocupado por uma família. Não viu nenhum homem no interior da casa, mas em cada porta havia uma ou duas mulheres que inclinavam a cabeça à passagem de Kadiya e de sua anfitriã. Quando a nyssomu abriu uma porta no fim do corredor, Kadiya viu que o luxo, embora diferente daquele a que estava acostumada, não era estranho àquele povo.
Achou uma banheira com desenhos esculpidos — talvez de alguma ruína — esperando por ela cheia de água clara na qual flutuavam pétalas de tonalidade azul-violeta, uma das mercadorias vendidas nas feiras de Trevista. Quando amassadas e passadas no corpo desprendiam um perfume duradouro e além disso serviam para limpar. Satisfeita, Kadiya tirou a roupa e entrou na banheira. Ensaboou o corpo e os cabelos emaranhados e cheios de creme contra insetos com as pétalas perfumadas. Como era bom sentir-se limpa outra vez!
Sua anfitriã sentou-se num banco na outra extremidade do quarto e, uma a uma, seis outras mulheres juntaram-se a ela, todas majestosas e luxuosamente vestidas. A presença delas não embaraçou Kadiya. A atmosfera de paz e de calma era como um bálsamo de ervas sobre a ferida aberta dos sofrimentos recentes.
Uma mulher mais jovem entregou a Kadiya um manto longo de fibra tecida. Então a Primeira levantou-se e apontou para uma banqueta acolchoada. Kadiya sentou-se e outra mulher apareceu trazendo uma bandeja com taças feitas de pele de corfer, artisticamente cinzeladas.
Quando todas foram servidas, a Primeira derramou no chão algumas gotas da bebida da sua taça. As outras fizeram o mesmo e Kadiya as imitou, atenta aos detalhes da etiqueta que podiam conquistar a aprovação daquele povo. Na Cidadela, muitas vezes ela impacientava-se com a cerimónia da corte, descuidando-se e provocando a censura da mãe, mas naquele momento sabia que precisava fazer tudo para agradar aos nyssomus.
A anfitriã tomou um pequeno gole e estendeu a taça. Kadiya fez o mesmo e todas trocaram suas taças. Então, sempre seguindo o exemplo das outras, Kadiya esvaziou a que tinha nas mãos. Imediatamente uma sensação de completo relaxamento percorreu seu corpo.
— Há muita maldade — a anfitriã quebrou o silêncio. — Os comedores de sangue caminham lá fora, e com eles outro que não é da nossa terra e é capaz de confundir o pensamento de qualquer um. Recebemos mensagens da parte baixa do rio. Muitos dos nossos deixaram Trevista, pois o lugar está nas mãos dos comerciantes da morte. Enviamos uma mensagem para a Dama Branca de Noth. Mas ainda não recebemos resposta..
— Primeira da Casa — Kadiya inclinou-se para a frente na banqueta —, os que invadiram Trevista sabem muito pouco dos Pântanos. Mas são comandados por um malvado conhecedor de artes estranhas, e um dos seus servos está viajando com os skriteks. Entretanto, não acredito que homens acostumados às planícies de Labornok possam lutar no Pântano. Seu povo, que conhece todos os meandros e todas as trilhas, sem dúvida pode enfrentá-los e libertar esta parte da terra.
Mas a nyssomu balançava a cabeça lentamente.
— Filha do rei, não é nosso costume fazer guerra contra os que vêm às nossas terras. Temos nossas defesas, mas não infligimos morte aos outros.
Kadiya mordeu o lábio. Parecia tão bom seu plano de atacar a força inimiga, com um grupo de nyssomus, capazes de usar todos os truques e o terror daquela região para derrotar os invasores! A fúria mais uma vez acendeu-se dentro dela. Mas o que podia fazer? No passado cometera muitas tolices, levada pela impaciência. Agora não podia cometer erros.
Levou a mão ao amuleto.
— A Dama de Noth — disse, pesando as palavras — mandou me chamar. Há muito tempo ela é a Guardiã destas terras. Talvez tenha a resposta.
A nyssomu balançou a cabeça, concordando.
— Tem razão, filha do rei. Maior do que qualquer outro ser vivo, ela é a possuidora de muitos poderes estranhos. Nós a ajudaremos a chegar até ela.
E Kadiya teve de se contentar com isso.