O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 41 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 40

 

Naquele mesmo dia chegaram ao outro lado do Lago Wum, na louca corrida sobre as toras de madeira, e os wyvilos conduziram as estranhas embarcações para as ilhas da floresta do Pântano Verde, no delta no Baixo Mutar, protegidos pela tempestade.

Lá os nyssomus os esperavam com cem barcos, e saudaram a Princesa Anigel com grande respeito. Os pequenos nyssomus do pântano transportaram Anigel, seus cavaleiros e os wyvilos através de riachos secretos até uma ilhota seca desconhecida pelos humanos. O cômoro de terra, que se tornaria a base do exército de Anigel, ficava a poucas léguas de uma mansão no Rio Skrokar, que havia pertencido ao Lorde Manoparo dos Companheiros Fiéis e estava agora ocupada pelos labornoks. Porém, os edifícios externos e o solar da viúva abrigavam inúmeros membros da família Manoparo e seus servos e criados domésticos.

Os nyssomus locais haviam avisado a senhora do solar, Lady Ellinis, da chegada de Anigel. A senhora foi conduzida à ilhota isolada no meio da noite e cumprimentou a princesa com lágrimas e entusiasmo discreto.

Lady Ellinis era uma mulher de cabelos grisalhos com o rosto de traços finos marcados pelos sofrimentos recentes. Perdera o marido e dois filhos na defesa desesperançada da Cidadela. Sentou ao lado de Anigel, no abrigo feito pelos wyvilos, sob a copa molhada de chuva das árvores gondas, e conversaram sobre o plano da princesa para atacar a Cidadela ajudada por sua irmã Kadiya e seu exército de uisgus.

— Acho espantoso que estejam dispostas a tentar um ataque logo depois da conquista — disse Ellinis —, embora seja verdade que as forças de Voltrik não estão completamente preparadas, que seu exército está dividido e que terão de lutar em campo desconhecido, inundado pelas chuvas. Mesmo assim...! Vocês são tão jovens! Sem nenhuma experiência de guerra! E mesmo que os nossos nobres e fidalgos, espalhados por toda parte, venham em seu auxílio, como esperam, a maior parte do seu exército é de oddlings. Minha querida Princesa Anigel, desejo seu sucesso acima de tudo no mundo. Mas os labornoks são guerreiros experientes e tudo parece estar contra vocês.

Anigel levou a mão à tiara, onde o trílio cintilava dentro do âmbar.

— Não sei por que, mas estou certa de que a vitória será nossa. Talvez minha confiança neste empreendimento tão ousado seja obra do talismã. Tudo que posso dizer, querida Ellinis, é que tive de vir até aqui agora, no momento da conjunção das três luas, para atacar os labornoks na Cidadela. O mesmo acontece com minha irmã Kadiya.

Lady Ellinis aconchegou mais o manto ao corpo. Um pequeno braseiro ardia no abrigo e nele Anigel preparava chá darei contra a umidade penetrante. Ellinis disse:

— Fiquei atónita quando um nyssomu procurou-me secretamente e disse que vocês estavam atravessando o Lago Wum. Os oddlings podem se comunicar a distância, sem palavras, e suponho que tenham passado a notícia por todo o Pântano Labirinto...

— Para todo o seu povo, sim — concordou Anigel, solenemente. — Meus aliados, os wyvilos, nunca tiveram muito contato com os nyssomus ou com os uisgus. Porém, a conquista do nosso país pelos labornoks foi -um desastre, não só para os humanos de Ruwenda, como também para os nativos que vivem entre nós. Assim, os wyvilos abandonaram seus costumes tradicionais e até os pacíficos nyssomus estão dispostos a nos ajudar do melhor modo possível.

A chuva cessou, uma neblina densa pairava no ar. Os wyvilos construíam abrigos de palha e bambu para eles e para os que iam chegar. Como todos os do seu povo, enxergavam muito bem no escuro e trabalhavam com eficiência, como se fosse dia claro.

Lady Ellinis olhou para um wyvilo alto, que segurava um machado, e estremeceu.

— Eu nunca tinha visto um oddling da Floresta Tassaleyo e confesso que os acho assustadores. Não são tão feios quanto os skriteks, e parecem mais civilizados, mesmo assim, admira-me que você confie tanto neles.

Anigel sorriu.

— Seus rostos são horríveis, mas são nobres de coração e adoram o Trílio Negro, como seus primos menores. Graças aos wyvilos enviamos mensagens, através dos nyssomus, para os grupos de ruwendianos livres, que estão vindo de todas as direções para se juntarem a nós.

— Meu povo e meus três filhos estão às suas ordens — disse Ellinis. — E vocês podem dispor dos alimentos que conseguimos esconder do inimigo. Mas já temos cerca de quinhentos oddlings aqui e você disse que espera um número três vezes maior, ou talvez mais, de nyssomus e humanos que deverão chegar nos próximos dois dias. Receio que não tenhamos alimentos para todos para mais de poucos dias.

— Não ficaremos aqui por muito tempo. Se não vencermos na festa das três luas, teremos de nos retirar — confessou Anigel. — Mas vamos vencer. Eu sei!

A princesa estava de pé, com expressão decidida, ainda com o traje de caça dado pelos wyvilos. Lady Ellinis notou com admiração a diferença entre a mulher que via agora e a princesa frágil e fútil que havia encontrado há cinco semanas, num baile, antes da invasão. Aquela Anigel era uma figurinha tímida e ornamental, de cabeça vazia, interessada apenas nos mexericos da corte ou na moda do momento. Esta nova mulher era assustadora na sua dedicação, e Ellinis mal podia acreditar. Anigel serviu o chá, sem nenhum sinal da sua antiga futilidade, graciosa e confiante, como se a jarra de barro fosse um bule de prata e o abrigo úmido e invadido pelo vento, o solar da rainha, na Cidadela. Aos poucos, as dúvidas de Ellinis desapareceram e ela começou a achar que a aventura não era tão impossível, afinal.

— Este Príncipe Antar — disse Ellinis, em voz baixa. — Quando o apresentou, percebi claramente que ele está apaixonado por você. Entretanto, julgo meu dever aconselhá-la a não confiar muito nele.

Concordando com um gesto, Anigel sentou-se outra vez e disse, com voz inexpressiva:

— Ele jurou lealdade a mim, bem como a maioria dos seus homens. Porém, três cavaleiros recusaram-se a fazer o mesmo e estão sendo vigiados de perto — e são excluídos dos nossos conselhos de guerra.

— Mas, afinal de contas, Antar e seus cavaleiros são labornoks!

— Querida Ellinis, não sou mais tão simplória e confiante como antes e é verdade que o Príncipe Antar precisa ainda provar sua lealdade. Você disse que ele me ama, e é verdade também. Mas eu sinto por ele apenas um profundo respeito e, assim mesmo, muito cauteloso.

— Ótimo! — disse Ellinis enfaticamente.

— Porém, tenho de confiar em Antar para certas coisas, pois não entendo nada de táticas de guerra. Se vencermos, será sob seu comando. Não sei o que há no fundo do seu coração, mas estou certa de que é um homem bom, e que abomina a crueldade do pai, o Rei Voltrik. Disse-me que muitas pessoas do seu povo pensam assim, e talvez possamos, por intermédio dele, dividir os labornoks.

— Rezarei para que você esteja certa.

Conversaram por mais algum tempo e Ellinis levantou-se para partir. A dama da mansão beijou Anigel, como era hábito, mas a princesa não esperava a profunda reverência da castelã, antes de se retirar com sua acompanhante e com o guia nyssomu.

Antar entrou no abrigo quando Ellinis saía e Anigel disse:

— Ela nunca me tratou com tanta deferência antes. Na verdade, como uma mulher sensata, jamais deu muita atenção à minha pessoa.

— Pois então devia ser uma tola — observou o príncipe, sorrindo. — Mas vim para dizer que seu acampamento cresce rapidamente e já temos abrigos suficientes, para o caso de a chuva recomeçar. — Continuou, preocupado: — O chefe wyvilo Lummomu-Ko acha que os nyssomus, embora cheios de boa vontade, nunca serão bons guerreiros. São muito pequenos e a única arma que sabem usar com eficiência é a zarabatana. Num assalto frontal serão inúteis. Só poderão ser usados em escaramuças e ações irregulares.

— Pois então façam planos para isso — disse Anigel, serenamente. — Tem uma estimativa do número de humanos com que podemos contar?

— Com sorte, setecentos ou oitocentos ruwendianos livres poderão vir até aqui ou chegar ao rio, abaixo da Cidadela, antes da festa das três luas. A maior parte será de cavaleiros ou soldados que fugiram para o pântano quando a Cidadela foi tomada, com alguns senhores e homens armados das mansões do sul, que não chegaram a nos enfrentar — quero dizer, não enfrentaram nossos inimigos — durante a invasão.

— Ótimo. Agora, se ao menos o Conde de Goyk e os outros senhores livres de Dylex chegarem a tempo... — Não terminou a frase e virou o rosto, para esconder o constrangimento.

Antar, que nunca ouvira falar do Conde de Goyk e não sabia nada sobre o papel desse nobre nos planos de Anigel, compreendeu que a princesinha temia ainda confiar inteiramente nele. O príncipe ajoelhou lentamente.

— Minha senhora, se me ordenar, não direi nada sobre o conde aos meus leais companheiros. Peço que confie em nós — mas, se não for possível, talvez seja melhor mandar me prender e aos meus homens. Assim, ficará livre de qualquer preocupação que possa causar nossa presença.

— Eu confio em você — disse Anigel, tristonha — e em quase todos os seus cavaleiros. Mas sinto que Sir Rinutar e seus amigos, Turat e Onbogar, podem nos trair. Sei que concordaram com uma trégua, mas acho que foi um grande erro trazê-los a este acampamento secreto. Devíamos tê-los deixado na margem do lago, como Lummomu-Ko nos aconselhou.

O príncipe curvou a cabeça.

— Talvez. Mas ilhados na tempestade, num pântano repleto de perigos desconhecidos. certamente morreriam antes de encontrar o caminho para a guarnição dos labornoks. Como você mesma disse.

— Eu não quero vê-los mortos! Mas também não posso permitir que nos traiam para o Rei Voltrik.

Sempre ajoelhado, Antar segurou a mão fria da princesa.

— Anime-se, princesa. Os três se perderiam em poucos minutos se deixassem esta ilhota e se aventurassem no pântano, e ninguém aqui os ajudaria a escapar. Meus quinze companheiros fiéis e eu mesmo os vigiaremos. Não tenha medo.

Com um suspiro, Anigel olhou para ele.

— Acho que tem razão. Estou tensa como uma corda de arco, preocupada com o que vai nos acontecer nos próximos três dias. O Conde de Goyk, que citei há pouco, inadvertidamente, governa o feudo mais distante de Ruwenda, a nordeste do Dylex, no sopé dos Montes Ohogan. Ele, o Conde de Prok e os outros senhores do leste não foram subjugados por seus homens de Labornok.

— Eu sei, seria a nossa primeira prioridade depois das chuvas de inverno. Para pacificar aquela região e também o sul.

— Quando os wyvilos concordaram em me ajudar, pedi que usassem sua comunicação sem palavras para descobrir os humanos não conquistados. Através dos nyssomus, fizeram contato com todos que fugiram da Cidadela e com certos nobres de guarnições fortificadas, como Lady Ellinis e mais algumas mansões do sul. Isso você já sabia. Porém, meus amigos wyvilos falaram também com os vispis, os nativos das montanhas. E os vispis nos informaram que os condados de Goyk e de Prok ainda estavam livres.

O príncipe fez um gesto afirmativo:

— Compreendo. E então os oddlings das montanhas convocaram esses nobres para que viessem em sua ajuda.

— O Conde de Goyk é um homem obstinado e é também meu tio-avô Palundo. A princípio não quis acreditar no que dizia o povo das montanhas — que eu e minha irmã Kadiya estávamos prontas para atacar a Cidadela. Mas falei pessoalmente com os vispis, informando-os sobre certos segredos conhecidos somente pelos membros da família real, e meu tio Palundo finalmente se convenceu. Quando saímos de Let com os wyvilos, dois mil cavaleiros armados e soldados de Goyk e de Prok partiram dos seus condados distantes em barcos velozes. É uma longa viagem — mas os rios estão cheios, e ontem eles passaram pelo castelo de Bonor, cerca de sessenta léguas a oeste daqui. Se tudo correr bem, chegarão a tempo de nos ajudar.

Os olhos de Antar brilhavam.

— Ótimo, cada vez melhor! Oh, minha senhora, não imagina o peso que tirou do meu coração! Nossa situação não parece tão desesperada. Somos ainda em menor número, mas teremos muitos cavaleiros experientes ao nosso lado! — Beijou a mão dela, num transporte de alegria.

Anigel ficou rígida, depois, vendo o desaponto do príncipe, sorriu.

— Acha-me assim tão repulsivo? — perguntou Antar, tristemente.

— Não. De modo nenhum. Apenas — fiquei surpresa. Você compreende, tenho de pensar em tantas coisas.

Ela parecia tão pequena e confusa, aquela jovem mulher com a coroa mágica, sentada numa pedra coberta de musgo, com o rosto iluminado pelo pequeno braseiro, que o coração de Antar encheu-se de piedade e de amor. Ele levantou-se e virou o rosto para que Anigel não visse as lágrimas nos seus olhos.

— Sim, minha senhora, tem muito em que pensar. Demais até para uma pessoa tão jovem e de natureza tão sensível.

— Eu vou me sair bem — disse Anigel, secamente. Antar voltou-se para ela.

Agora eu a ofendi. Minhas mais humildes desculpas.

— Eu aceito. — Por um momento seus olhos se encontraram. Então, Anigel desviou os seus, absorta em outros pensamentos, e o sentimento que pareceu uni-los por um instante morreu antes de nascer.

Antar perguntou a si mesmo se havia realmente percebido alguma coisa. Sua vontade era professar em voz alta sua adoração — mas Anigel continuava a fitar uma das paredes do abrigo, tocando com a ponta dos dedos a tiara prateada.

— Desejo-lhe uma boa noite, então — disse ele.

Mas Anigel não respondeu. Escutava a imagem da sua irmã Kadiya que acabava de aparecer em sua mente.

— Haramis disse o quê?

— Ani, ela me disse para voltar. Foi uma ordem! Como se eu fosse ainda uma criança levada recusando-me a sair dos estábulos e voltar para casa!

— Ela disse por quê?

— Tem medo de que Voltrik saiba que estamos a caminho e que envie seus homens para nos impedir de chegar à Cidadela. Mas isso é ridículo! Os nyssomus saberiam imediatamente se um grande número de homens saísse da Cidadela. Eles nos avisariam e podíamos nos esconder nos atoleiros e nos remansos do pântano, onde nenhum homem da planície se aventuraria. Foi o que eu disse. Mas Haramis ficou irritada e jurou por seu amuleto e seu talismã que eu estou navegando para minha morte e que vou desbaratar um grande plano. Perguntei se o plano era dela ou de Orogastus e ficou furiosa.

— Acha que está enfeitiçada por ele, Kadi?

— Quem sabe. Ela já disse a você todas essas bobagens também?

— Não. Mas tenho estado tão ocupada e tão cheia de problemas que mal tive tempo para respirar.

— Se ela tentar falar com você — não responda!

— Kadi!

— Falo sério. E não conte nada mais sobre seus planos para Hara. Ela foi ver a Arquimaga, supostamente para ouvir da Dama Branca sua versão dos nossos destinos e o objetivo dos talismãs. Talvez nossa irmã apaixonada recobre o juízo em Noth. Mas não conte com isso. Não fale mais com ela. Haramis não deve saber nada sobre nossos planos até nos encontrarmos pessoalmente e esclarecermos tudo isto.

— Bem. acho que é a coisa mais prudente.

— Ela me disse também que o feiticeiro chegará amanhã à Cidadela.

— Como? Ele estava na montanha, com Hara.

— Ela emprestou um dos seus pássaros mágicos. Quando a censurei — na verdade, eu a chamei de idiota e de miolo de galinha —, Haramis insistiu, dizendo que estava agindo no nosso interesse.

— Agora teremos de lutar também contra os encantamentos de Orogastus, além do exército de Labornok. Oh, Kadi...

— Muito bem, não desanime. Hara acredita que o poder mágico de Orogastus é muito limitado. Segundo ela, sua taumaturgia baseia-se quase toda em certas máquinas fabulosas dos Desaparecidos! Os relâmpagos, as línguas de fogo e a chuva de aço que destruíram os fortes das colinas, o ruído horrível e ensurdecedor que apavorou as cidades de Dylex, até mesmo o pânico dos froniais dos nossos cavaleiros — tudo não passa de truques mecânicos, sem nenhuma mágica verdadeira!... Se Hara está dizendo a verdade...

— Kadi, eu não compreendo. Tem de existir mágica. Nossos Trílios Negros... nossos talismãs... a própria Arquimaga! A magia está no mundo todo!

— Não se preocupe, Ani. O importante é lembrar que não podemos permitir que nossa irmã nos detenha agora. Portanto, não dê ouvidos aos seus avisos malucos. Continuo muito à frente de Osorkon e seus homens, tenho mais de três mil uisgus comigo e elaborei um plano para invadir a Cidadela, evitando uma batalha fora do Knoll, onde certamente seríamos detidos pela cavalaria de Voltrik.

— Oh! Conte-me seu plano!

— Para você tagarelar com aquele covarde Antar? Nada disso. Vai saber quando nossos exércitos se encontrarem, na véspera das três luas.

— Você está fazendo mau juízo de mim e de Antar.

— Espero que sim. E espero estar fazendo mau juízo da nossa irmã também! Enquanto isso, tenha muito cuidado e encontre-me no lugar que vou mostrar... Quando estivermos juntas, vamos convidar o Rei Voltrik e Orogastus para uma comemoração especial da festa das três luas!