O Trílio Negro
Capítulo 36
Depois de ter sido apresentado aos rimoriks e informado sobre tudo que eles podiam fazer, o Príncipe Antar resolveu que viajariam mais depressa usando apenas duas embarcações, além da canoa transparente dos wyvilos, de Anigel, e o mínimo de suprimentos. Antes que tivessem permissão para dormir, teceram novos arreios para os rimoriks com tiras de couro dos mantos dos soldados, e os barcos foram unidos uns aos outros por meio de amarras. Depois de cinco horas de sono, o grupo seguiu viagem.
Não havia necessidade de rédeas, pois os rimoriks sabiam exatamente para onde deviam ir. Eles puxaram os três barcos enfileirados no regato raso e depois de três horas chegaram ao Grande Mutar. Uma vez no grande rio, os animais podiam nadar mais livremente, ajudados pelos cavaleiros nos remos. A canoa leve da Princesa Anigel seguia os barcos de madeira dos cavaleiros e com ela iam o Príncipe Antar, Sir Penapat, gravemente ferido, e Voz Azul, que tinha demonstrado ser péssimo remador — talvez de propósito. Pelo menos, com o acólito do feiticeiro no seu barco, Anigel e Antar podiam vigiá-lo de perto. Voz Azul comportava-se muito bem, passando a esponja na testa febril de Sir Penapat, enquanto o príncipe e a princesa conversavam em voz baixa na proa.
Os rimoriks os conduziam velozmente e ao cair da noite do mesmo dia, um pouco antes da segunda tempestade, estavam chegando ao povoado Let.
Mas não antes dos glismaks.
— Senhores do Ar — não! — exclamou Anigel, quando viu as nuvens de fumaça que se erguiam contra o sombrio pôrdo-sol. Os barcos seguiam ainda velozmente e ela não ousou ficar de pé.
— Voz, use sua visão a distância! — ordenou o príncipe. — Diga o que aconteceu!
Anigel, muito pálida, murmurou:
— Espere — deixe que eu tente.
Voz Azul olhou para ela boquiaberto de espanto. Anigel fechou os olhos e ficou imóvel. Mas o belo rosto da princesa não adquiriu aquela expressão vazia e repulsiva dos transes dos acólitos de Orogastus. Depois de alguns momentos, ela disse:
— Os glismaks atacaram o povoado, por terra, há mais ou menos uma hora. Não sei dizer se são os mesmos que atacaram vossos homens. Parecem três vezes mais numerosos do que os que vimos em Kovuko. Incendiaram muitas casas... Estou vendo o porta-voz Sasstu-Cha e vou tentar me comunicar com ele...
Antar e Voz Azul esperaram. Sir Penapat disse, ansioso:
— Se vai haver luta, podem contar comigo! Mesmo só com um olho, uma perna e um braço, posso lutar melhor do que muitos dos meus companheiros! Já me conhece, meu príncipe!
— É claro que conheço, Peni — disse o príncipe com tristeza na voz. — Mas temo que não possamos fazer muita coisa se os selvagens já tomaram Let.
Anigel abriu os olhos.
— O porta-voz agradece nossas bondosas intenções — disse ela, com voz inexpressiva —, mas a luta agora é corpo a corpo e quase um terço das casas está em chamas. Ele está prestes a capitular, como fazem sempre que estão em desvantagem, e vão indenizar regiamente os invasores, que os deixarão em paz durante algumas semanas.
— Mas, princesa — protestou Voz Azul, com um leve tom de censura. — Tem o poder de salvá-los. Se quiser.
— Silêncio, patife miserável! — sibilou o príncipe. — Como ousa dirigir-se à senhora com tanta falta de respeito?
Anigel voltou para Voz Azul os olhos muito abertos e mordeu o lábio, como se ele fosse um verme venenoso do pântano que acabava de deslizar para dentro do barco. Mas, logo depois, ela disse:
— Ele tem razão. Eu podia salvar os pobres wyvilos se tivesse coragem de invocar a força assassina do meu talismã. Se eu pudesse recriar, a sangue-frio, o ódio e o desejo de destruição que inconscientemente dirigi para o chefe dos glismaks na cena do massacre.
— Pois então faça isso — insistiu a Voz Azul —, e salve seus amigos!
— Eu... não tenho coragem — Anigel começou a chorar. Voz Azul deu de ombros e sorriu.
— Afinal, são só odllings.
— São criaturas racionais que não conhecem outros meios! — exclamou ela. — Os glismaks são como crianças malcomportadas e devem ser punidos e educados — mas como se pode ensinar os mortos?
— Enquanto você se lamenta e derrama lágrimas inúteis, seus amigos estão morrendo.
— Não posso evitar!
— É claro que pode.
Anigel gritou a plenos pulmões:
— Não posso! Não sei como, e meu coração está muito magoado e estou com tanto medo e simplesmente não posso..
Interrompeu-se, como se acabasse de dizer a maior das blasfêmias, com uma expressão de medo e de desespero tão intensa que Antar teve vontade de amarrar Voz Azul com seus punhos fortes. Mas, antes que o príncipe pudesse fazer qualquer coisa, o rosto de Anigel mudou outra vez, como se tivesse virado a página de um livro de gravuras, e ela disse, com voz calma:
— Príncipe Antar, se eu for, irá comigo?
— A Let? Agora? — Vendo que Anigel falava sério, o príncipe se controlou. — Doce senhora, eu a acompanharia aos alçapões do inferno se me pedisse.
Anigel fez um gesto afirmativo e com voz suave e estranha disse:
— Meus amigos, parem.
Os três barcos diminuíram a velocidade e pararam ba lançando na água agitada, pois um vento forte soprava agora e o céu atrás deles estava repleto de nuvens carregadas de tempestade. Ouviram o trovão distante. A meia légua à sua direita, colunas de fumaça e fuligem se erguiam de Let, espalhavam-se a uma certa altura, formando um teto negro sobre o povoado.
— Sir Owanon! — Anigel chamou o ajudante do príncipe que estava na primeira canoa. — Corte os arreios que prendem os rimoriks ao seu barco!
Owanon apressou-se a obedecer. Anigel cortou a amarra que prendia sua canoa à segunda.
— Meus amigos, venham até aqui para que eu os atrele ao meu barco.
Estamos indo.
O Príncipe Antar e os outros não sabiam ainda o que Anigel ia fazer, mas à medida que ela dava ordens sua intenção tornou-se clara.
— Homens! Remem até aqui e levem Sir Penapat e Voz Azul para seus barcos. Você, na popa do barco de Sir Owanon — corte a amarra que prende sua embarcação na segunda e traga-me as duas amarras cortadas.
Todos obedeceram prontamente e Anigel fez dois orifícios nos dois lados da borda da canoa com sua pequena adaga, pelos quais passou as pontas dos arreios cortados dos rimoriks, prendendo-os com um nó apertado. As duas amarras, ela prendeu nos animais, para servirem de rédeas.
Os rimoriks disseram:
Vamos tomar o miton e estamos prontos.
Anigel tirou o jarro vermelho da bolsa e tomou um gole. Os animais lamberam seus dedos, como sempre, sob o olhar espantado do príncipe.
Sir Penapat já estava no outro barco, mas Voz Azul continuava sentado na popa da canoa wyvilo de Anigel. Estendendo o braço, ele empurrou os barcos de madeira dos cavaleiros, e as três embarcações separaram-se imediatamente, levadas pelo vento e pela corrente.
— Vou ficar aqui também, princesa! — gritou Voz Azul. — Posso ajudar.
— Saia já do barco! — gritou o príncipe. — Seu velhaco azarado! — Voltou-se e foi na direção da popa, com tanta violência que a canoa leve balançou perigosamente.
Mas era tarde demais. A um sinal da Princesa Anigel, os rimoriks partiram a toda velocidade.
— Vocês homens vão para a outra margem! — disse ela para Sir Owanon. — Não devem estar no rio quando chegar a tempestade. Se não voltarmos até amanhã, procurem se salvar do melhor modo possível. Adeus!
A canoa transparente deslizou sobre a água, com Anigel segurando as rédeas, e logo perderam de vista os outros dois barcos.
Com o tranco da partida, Antar foi jogado no fundo do barco. Por um breve instante, ele ficou imóvel, segurando num dos bancos, temendo que fossem naufragar a qualquer momento. Com a armadura, ele afundaria como uma pedra. Mas a canoa deslizou sobre a água encrespada do rio como uma flecha em voo rasante, numa velocidade que Antar jamais teria julgado possível.
Voz Azul estava com eles definitivamente, agachado, ocupando o menor espaço possível, com o capuz cobrindo metade do rosto. Antar não podia atirá-lo para fora do barco. Resmungando, o príncipe procurou uma posição mais confortável, sempre mal-humorado. A princesa não dava a menor atenção a nenhum dos dois.
Acontece que o príncipe ficou ofendido com o modo autoritário da princesa — não que sua devoção por ela tivesse diminuído. Antar estava mais do que nunca disposto a morrer por sua dama. Mas Anigel, que parecia tão patética nas masmorras da Cidadela, tão bela e tão perto da morte quando desceu a catarata, uma verdadeira deusa quando destruiu o glismak, tão jovem e vulnerável quando lutava com seus demónios interiores poucos minutos atrás, era agora a personificação de uma rainha guerreira vingadora, conduzindo os rimoriks. Alguma coisa no coração de Antar preocupava-se com essa mudança e até mesmo a temia.
Anigel estava com os olhos fechados e o príncipe não duvidava de que estivesse vendo a carnificina em Let e avisando os wyvilos da sua chegada.
Mas, como era linda! Graciosa, mesmo com aqueles trajes masculinos, com os cabelos soltos ao vento e a tiara mágica na cabeça. Olhando para a figura dela recortada contra o céu cada vez mais escuro, onde os fogos do povoado pintavam de vermelho as nuvens pesadas, o Príncipe Antar sentiu o sangue ferver e tudo que desejava era morrer por ela.
O que seria da Princesa Anigel — e dele? Revoltara-se contra seu pai, renunciando a Labornok, entregando sua sorte à amada, que havia jurado libertar Ruwenda. Mas isso seria possível, mesmo com a ajuda do talismã mágico? Orogastus podia também comandar o relâmpago e Voz Azul afirmara que o feiticeiro já possuía o talismã de uma das irmãs, e logo teria o da outra.
Anigel pretendia voltar para a Cidadela. Mas sem dúvida seria inútil. Mais da metade da força de invasão dos labornoks, de dez mil homens, estava ainda em Ruwenda, e o resto do exército, que acompanhara o General Hamil na procura da Princesa Kadiya, logo estaria de volta do pântano. O que podia fazer Anigel, mesmo com seus novos poderes, contra a força militar de Labornok e os Poderes das Trevas de Orogastus?
O Rei Voltrik estava curado e mais determinado do que nunca a matar as três princesas. Sem dúvida daria pouca importância à deserção do filho que ele desprezava. O maldito bruxo devia estar satisfeito! Orogastus podia até convencer o rei a fazer dele seu herdeiro. Talvez esse fosse seu plano, desde o começo!
Com Orogastus e sua magia no poder, e Labornok preparando-se para conquistar o resto da Península, onde ele e Anigel estariam a salvo? Ou teriam de fugir com seus fiéis companheiros para uma terra distante onde...
Um movimento.
Antar despertou dos seus pensamentos e viu Voz Azul movendo-se sorrateiramente na sua direção.
— O que você quer? — perguntou Antar, secamente. O vento forte arrancou as palavras dos seus lábios.
— Só uma palavrinha, meu príncipe. Acabo de me comunicar telepaticamente com meu Mestre Todo-Poderoso e ele lhe envia uma mensagem urgente.
— Não quero saber de mais mentiras do seu infame feiticeiro. Volte para seu lugar. Volte, eu disse!
Mas Voz Azul continuou aproximando-se, com um sorriso tão insincero nos lábios que apareciam sob o capuz que o príncipe ficou furioso, depois alarmado. Mas, antes que pudesse reagir e desembainhar a espada, o acólito estava sobre ele como um lothok agarrando a presa, ignorando completamente sua armadura azul de guerra.
Ergueu um punhal longo e fino e desferiu um golpe de baixo para cima entre as placas de metal que protegiam o pescoço do príncipe. A lâmina afiada penetrou a armadura e, se o príncipe não tivesse desviado rapidamente, estaria morto, com o pescoço cortado. Mas o punhal apenas arranhou a pele e a manopla de metal do príncipe segurou a mão do atacante, afastando a arma assassina. Os dois homens começaram a lutar selvagemente no fundo do barco.
Anigel puxou com força as rédeas dos rimoriks. Segurou com firmeza na amurada, pois o barco balançava tremendamente, e olhou para os dois homens que lutavam, com medo de se mexer e provocar um naufrágio. Não podia invocar o relâmpago para destruir Voz Azul, sem se movimentar. Impotente, pediu a ajuda da Dama Branca. Mas, ao que parecia, não ia ser atendida.
Voz Azul era incrivelmente forte, pois compartilhava uma parte dos Poderes das Trevas do seu mestre. Estava agora em cima do príncipe, com um joelho de cada lado do corpo protegido pela armadura. Segurava o punhal com as duas mãos e cada vez mais o aproximava do elmo aberto do príncipe. Antar segurava com força os pulsos do acólito do feiticeiro, mas nem sua força imensa era suficiente para deter o punhal que descia na direção dos seus olhos.
Anigel arrancou a tiara da cabeça e gritou:
— Não! Não o mate! Eu lhe dou meu talismã!
Voz Azul ergueu a cabeça raspada. Tinha um corte que ia da orelha até o meio da testa e seu rosto era uma máscara ensangüentada. Os olhos em brasa fitaram a princesa e ele disse, com os dentes cerrados, o punhal a menos de um dedo do olho de Antar.
— Ponha a tiara na minha cabeça! — A voz era do feiticeiro Orogastus.
— Não! — exclamou o príncipe. — Ele nos matará!
Mas Anigel já se inclinava para a frente com a tiara nas mãos e o barco balançava de um lado para o outro, e as primeiras gotas de chuva, duras como pedras, caíram sobre os três, alisando a água por um momento.
E dos dois lados do barco apareceram os rimoriks.
Os corpos esbeltos subiram quase com lentidão, as mandíbulas abertas, tão grandes que podiam abocanhar a cabeça de um homem. As línguas longas e serradas pareciam chicotes. Com a mesma delicadeza com que lambiam o miton nos dedos de Anigel, as línguas se enrolaram no braço de Voz Azul.
O homem soltou um grito estridente. Estava bem seguro pelos animais. Anigel recuou, segurando a tiara. Antar livrouse das mãos de Voz Azul e ao mesmo tempo os animais começaram a nadar na direção da popa com a metade dos corpos enormes fora d’água.
O acólito do feiticeiro, gritando a mais não poder, foi tirado de cima do príncipe e atirado para o ar, atravessando todo o comprimento do barco. Ele desapareceu no rio escuro, espirrando água, e os rimoriks mergulharam atrás dele. A chuva não aumentou por algum tempo.
Alguns minutos depois, as duas cabeças enormes e sorridentes apareceram na proa, perto da Princesa Anigel. Um dos rimoriks tinha um pedaço de pano azul enganchado no dente.
Ó, amigos!...
Segure as rédeas. Uma grande tempestade está chegando. Seu barco vai afundar se não chegarmos rapidamente em terra.
— Está ferido? — Anigel perguntou, ansiosa, para o príncipe. — Vejo sangue no seu peitoral.
— É só um arranhão. Mais uma vez salvou minha vida, muito amada senhora, e...
— Para Let, então! — exclamou Anigel, sacudindo as rédeas.
E partiram numa nuvem de espuma, com o príncipe outra vez agarrado no banco para não cair na água.